sexta-feira, 7 de junho de 2013
ENTRETANTO NA TURQUIA...
Atrás de um vidro faz-se uma pausa, do outro lado as botas da polícia anunciam mais episódios de corrida e "escondidas", mais jogos na noite. Nos separadores da História, a liberdade e a tirania marcam encontro, momento agitado e violento que acaba sempre com dores para todos os lados. Desta vez, nesta esquina do tempo é a Democracia que se encontra com a Democracia, separadas por uma fina barreira de vidro, um espelho que se partiu. A Democracia que entende tudo poder porque se elege de quatro em quatro anos e a Democracia dos cidadãos preocupados em corrigir os seus excessos, os seus devaneios políticos, os males da tirania que nela se escondem. O eterno encontro do Homem com a História, da Humanidade com a estranheza da sua condição. Na Turquia...
segunda-feira, 3 de junho de 2013
domingo, 2 de junho de 2013
GALINÁCEOS
Gostava de ter escrito esta redacção para o Dia
da Criança que ainda há em mim.
Sai hoje. Melhor tarde que nunca, como poderiam dizer os empreendedores.
Sai hoje. Melhor tarde que nunca, como poderiam dizer os empreendedores.
Na capoeira da
minha mãe há um estrado vertical, onde as galinhas e o galo se dispõem de
acordo com a sua hierarquia para passar a noite.
Como a minha mãe
sabe que dos diferentes níveis os galináceos se aliviam sem respeito pelos que
estão por baixo, o estrado em escada está com uma inclinação que protege os que
estão nos níveis inferiores de ficarem sujos com os que de cima fazem enquanto
dura a escuridão.
O galo fica sempre por cima e não permite que galinha nenhuma esteja no nível dele. Assim tem as penas sempre impecáveis e vistosas.
Não põe ovos mas é esteticamente bonito e canta bem conseguindo a reverência das galinhas que o admiram.
As galinhas põem ovos todos os dias. Produzem realmente.
Se não fosse a minha mãe, acordavam todos o dias com um bonito cantar de despertar do galo mas completamente cagadas.
A minha mãe faz muita falta no governo para pôr os galos no sítio, onde não caguem em cima de quem produz.
O galo fica sempre por cima e não permite que galinha nenhuma esteja no nível dele. Assim tem as penas sempre impecáveis e vistosas.
Não põe ovos mas é esteticamente bonito e canta bem conseguindo a reverência das galinhas que o admiram.
As galinhas põem ovos todos os dias. Produzem realmente.
Se não fosse a minha mãe, acordavam todos o dias com um bonito cantar de despertar do galo mas completamente cagadas.
A minha mãe faz muita falta no governo para pôr os galos no sítio, onde não caguem em cima de quem produz.
Hélder
sábado, 1 de junho de 2013
domingo, 26 de maio de 2013
O PRISIONEIRO DO CÉU
Teve cem ofícios e
nenhum amigo. Ganhou dinheiro que gastou. Leu livros que falavam de um mundo em
que já não acreditava. Começou a escrever cartas que nunca soube como terminar.
Viveu contra sensações e remorsos. Mais de uma vez se aproximou à beira de uma
ponte ou de um precipício, contemplando o abismo com serenidade.
Carlos Ruiz Zafón
in “O Prisioneiro do Céu”
Antes de mais nada, gostaria de
dizer que gosto de tipos que escrevem parágrafos como o que se pode ler no
início desta crónica. Um gesto, uma maneira particular de sorrir, de contar uma
anedota, por vezes são suficientes para desejarmos ser amigos deste ou daquele
logo no primeiro contacto. Foi o meu caso com Zafón. Na eterna cidade da
Literatura (Barcelona) personagens vestidos de improviso e de mistério vão-se
cruzando uns com os outros e todos com as páginas da grande História enquanto
desenham a pequena história dos seus caminhos, das suas existências. O cenário
é sempre o mesmo, o filme é que vai variando de argumento e actores. Há
paragens obrigatórias em todas as histórias como o Cemitério dos Livros
Esquecidos, a livraria da família Sempere e as eternas calles da capital catalã. Seguindo a tradição do romance gótico,
género muito popular no séc. XIX, Zafón desdobra segredos escondidos e repletos
de magia desenvolvendo histórias paralelas através de uma escrita envolvente e
apaixonante. Há histórias a seguir a histórias que se multiplicam e se cruzam
como os caminhos da cidade mágica, histórias que dançam com as palavras e se
exibem como monumentos à imaginação para depois se rematarem em finais no
mínimo inesperados.
Em “O Prisioneiro do Céu”
assistimos ao regresso de Daniel Sempere e do seu amigo Fermín, os heróis de “A
Sombra do Vento”, que irão ser confrontados com um terrível segredo enterrado
há décadas na memória da cidade. Seguindo a linha intrigante e fantástica de “O
Jogo do Anjo”, o autor continua a empurrar os seus personagens para um destino
desconhecido, uma leitura de si próprios que, abalando o seu edifício de
certezas, nunca os deixará iguais ao que eram. Neste caso, Daniel descobrirá
que a sombra com que terá inevitavelmente de se confrontar acaba por ser aquela
que cresce dentro dele.
Com uma escrita cativante, o
autor sente-se confortável no cenário que montou como se de uma vulgar
realidade de bairro se tratasse. E aqui o leitor só conseguirá apreciar a sua
obra se aceitar à partida esta realidade, se sentir confortável com a repetição
de cenários e protagonistas. Como quem visita de vez em quando um universo
familiar, numa relação distante de parentescos, um lugar onde nos dirigimos
sempre que queremos ouvir uma boa história. Apesar de ninguém fazer ideia de
onde se situa o Cemitério dos Livros Esquecidos já todos percebemos que ele
existe, fica em Barcelona e que tem lá um livro à espera para cada um dos seus
visitantes. Tal como a obra de Carlos Ruiz Zafón, um universo gótico repleto de
magia e situações inesperadas, um universo onde temos a certeza de que saímos
sempre de uma forma completamente diferente daquela como entrámos. Em suma, uma
excelente leitura para aqueles que se gostam de deixar enfeitiçar pelas
possibilidades e encantos dessa dama tão rica e tão estranha a que chamamos
Literatura.
Artur
sábado, 25 de maio de 2013
PALHAÇOS SOMOS NÓS
Se estivéssemos na Idade Média, o
cronista de serviço poderia ter começado um artigo com a frase: “Um jornalista
chama palhaço ao Presidente da República e logo se levantaram as multidões
ruidosas contra, a favor e uma terceira, aquela que se mete em todas as
contendas não para esclarecer mas para desfilar, exibir-se, provar que está
viva.” O episódio vale o que vale, ou seja, muito pouco, comparativamente aos
problemas, esses sim reais e bastante graves que assolam a vida das pessoas, que
as levam ao desespero, à fome e ao suicídio, que as levam a perder dia após dia
as réstias da sua dignidade humana. O episódio, de uma banalidade
confrangedora, pretende tornar sério e eficaz a dignidade de uma instituição
cujo actual titular tudo fez para a desprestigiar, para a vulgarizar até valer
nada aos olhos da população. Por outro lado, o cronista detentor da ofensa
acaba de lançar um livro novo e este episódio calha que nem ginjas na
publicidade.
Convenhamos, ambos os
protagonistas fazem parte da mesma elite, tomam as refeições na mesma cantina,
são actores da mesma peça de teatro que há décadas anda a ser representada ao
pagode. Teatro que é o único e que não permite que outros teatros se ergam, que
outras peças se representem. Ninguém entra no corpo de actores sem passar pelo filtro
da companhia instalada. Experimentem discordar publicamente com o jornalista em
questão e vão encontrar a reacção de um menino mimado que nunca se engana, não
admite contraditório e que se for preciso, em vez de recuar não hesita em
humilhar e ridicularizar o seu oponente. Já alguém o viu retratar-se no que
quer que seja?
Palhaços somos nós que, quando
soa a trombeta para o espectáculo largamos tudo o que estamos a fazer e vamos a
correr ver a nova peça. Palhaços somos nós que continuamos a dançar as músicas
todas que esta raça de caciques disfarçada de democratas nos vai tocando todos
os dias. Palhaços somos nós em aceitar fazer parte desse mundo que nos exclui,
roubando-nos todos os dias. Palhaços somos nós a vociferar e a mostrar os
dentes atrás de bandeiras de clubes de futebol, a odiar cidades e regiões só
porque alguns caciques a isso nos instigam. Palhaços somos nós a apontar com
facilidade o dedo ao outro, ao diferente, aquele que quer viver de outra
maneira que não nos afecta. Palhaços somos nós a dançar a música da idolatria,
que com o tempo se transferiu das religiões para os programas de televisão de
manhã, a seguir todos os passos de meia dúzia de papalvos que se pavoneiam em
festas e revistas e vivem de expedientes, a espreitar morbidamente as tragédias
e as desgraças alheias babados de curiosidade. Palhaços somos nós que
continuamos a exercer o direito de voto sempre nos mesmos convencidos que
estamos a escolher alguma coisa, mas no fundo a manter o mesmo estado de
coisas. Palhaços somos nós que permitimos que não se esclareçam uma série de
escândalos como a Lei de financiamento dos partidos, as manobras financeiras de
resgate dos bancos, as estupidamente altas taxas de energia e tantos, tantos
outros actos inúteis desta trágica e absurda peça teatral que nos representam
todos os dias. Palhaços somos nós, palhaços tristes que saltam da ponte abaixo,
que se atiram à linha do comboio, que dão um tiro nos cornos porque já não têm
mais nada para perder a não ser o direito de respirar. Sim meus amigos, no pior
e mais trágico sentido do termo…palhaços somos nós.
Artur
sexta-feira, 24 de maio de 2013
HABEMUS PAPAM
Nanni Moretti
Itália/França, 2011
Introduzidos pela solenidade
dentro das cerimónias e rituais que estruturam a morte de um Papa e que levam
ao conclave dos cardeais para a eleição de um sucessor no cargo, toda a
normalidade formal termina e toda a humanidade escondida se revela. Começando
com a falha de energia, que não pode ser comunicada para o exterior por todos
se encontrarem na Capela de Sistina obrigatoriamente proibidos de contacto com
o mundo e que leva um dos cardeais a dar uma queda monumental, passando pelas
vozes da cada um em OFF que rezam a Deus para que não os escolham até à reacção
inesperada do feliz eleito, tudo o que é imprevisível acontece. Com alguma
inocência mas também com bastante ironia, Moretti propõe-nos uma visita guiada
a um dos segredos mais bem guardados da Humanidade, o Vaticano e as
movimentações internas de um conclave para eleger um novo sucessor de S. Pedro.
Melville, o cardeal eleito à segunda volta, é cumprimentado por todos os seus
pares antes de lhe serem impostos os novos paramentos. Lá fora os fiéis, a
comunicação e o mundo em geral aguardam em expectativa para vislumbrar o rosto
do novo Papa, agora que o fumo branco finalmente se libertou da chaminé mais
mediática do dia. Mas Melville, imediatamente antes de se assomar à varanda do
Vaticano e cumprir a sua primeira obrigação enquanto Papa para o mundo é
acometido de um ataque de pânico e não consegue fazê-lo. O mundo inteiro
suspende então a respiração à espera de algo que devia acontecer mas nunca mais
acontece. Incapaz de convencer Melville de que é o homem certo para o lugar, a
cúria dos cardeais procura um reputado psicanalista para os ajudar. E quando os
problemas parecem começar a resolver-se, antes aumentam com graves prejuízos
para a imagem do Vaticano e da igreja católica em geral. O psicanalista é
bloqueado logo à partida numa série de questões. Entretanto, iludindo a
vigilância da sua segurança, o novo Papa foge e perde-se durante três dias
misturado com os mortais. O mundo e os cardeais pensam que se retirou para
rezara antes de assumir as novas funções. Na rua, consulta outra psicanalista
e, confrontado com a pergunta sobre qual é a sua actividade, mente, dizendo-se
actor de teatro. Entretanto o mundo continua a aguardar cada vez mais impaciente.
As desculpas dadas à comunicação social são cada vez mais frágeis. Dentro do
Vaticano ninguém sai enquanto o novo Papa não for proclamado no exterior. Para
passar o tempo o reputado psicanalista decide propor um campeonato de volley
distribuindo as equipas por continentes. Assim, enquanto o Papa não se retira
da sua meditação animam-se as hostes e faz-se um pouco de desporto. Por fim
tudo se normaliza e o Papa chega à varanda para gáudio dos fiéis e do mundo.
Mas apenas para anunciar que não se sente capaz de desempenhar as funções e que
se retira.
Mais do que uma sátira ou sequer
de uma ingénua visão humanizada de homens que supostamente se encontram em
patamares da existência muito longe do comum dos mortais, o que o filme retrata
é a simples questão da recusa do poder numa época em que todos o perseguem.
Datado de 2011, alguns meses
depois o Papa Bento XVI renunciava ao cargo e no seu lugar viria a ser eleito o
Papa Francisco. Não sendo uma situação inédita na história dos papas não deixou
de ser muito rara quase nunca vista. Confrontado com esta situação ter
acontecido pouco depois do filme HABEMUS PAPAM ter sido realizado, Moretti
respondeu: “Há momentos em que a ficção ultrapassa a realidade. Este foi um
deles.”
Artur
terça-feira, 21 de maio de 2013
HISTÓRIAS DE UM ASSASSINATO - FIM
CONCLUSÕES POUCO CONCLUSIVAS
(Ou de como os "idos de Março" nunca regressam...)(O assassinato de Júlio Cesar)
Nos últimos cem anos da
historiografia portuguesa o assassinato com contornos e consequências políticas
ocupa um capítulo bastante vasto, dentro do qual o episódio de Sidónio Pais é
apenas uma parte. De facto, e recuando a Fevereiro de 1908 vamos encontrar o
regicídio, no qual o rei em exercício e o seu filho primogénito são mortos por
dois atiradores; três anos após a morte de Sidónio Pais, na sequência de um
golpe de estado triunfante, são abatidos, entre outros, o presidente do
Ministério (ou Primeiro Ministro, António Granjo), dois nomes importantes da
revolução e do sistema republicano (Almirante Machado Santos e o Comandante
Carlos da Maia) entre vários assinalados numa lista misteriosa. Nenhum destes
homens, além de Granjo, tinha naquele momento responsabilidades ou cargos
políticos de espécie alguma. Os seus executores foram marinheiros e
guardas-republicanos supostamente amotinados. Décadas mais tarde e já alguns
anos depois do nascimento do novo regime democrático nascido com o 25 de Abril,
morriam num acidente aéreo o Primeiro-ministro Francisco de Sá Carneiro e o
Ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa. Envolta em sucessivas comissões de
inquérito e peritagens duas teses combatem-se até hoje. Enquanto que uma
garante tratar-se de um acidente, outra defende o conceito de atentado.
No regicídio, os dois atiradores
foram abatidos no local, desconhecendo-se se havia outros integrantes do grupo,
se o atentado era mesmo para o rei ou para o então chefe do governo João Franco,
se o atentado haveria sido planeado por algum tipo de organização. A este
propósito aconselho a leitura do diário de Aquilino Ribeiro, “Um escritor
Confessa-se”, obra que, se não esclarece cabalmente o assunto não deixa de o
iluminar em vários cantos para quem souber ler nas entrelinhas. Sobre a morte
de Sidónio Pais volto a referir o trabalho de Francisco Moita Flores, “Mataram
o Sidónio”. Sobre os trágicos acontecimentos de 19 de Outubro de 1921, houve
efectivamente um julgamento, mas que acabou por condenar apenas os praças e um
guarda-marinha. A lista, os organizadores ou os mandantes destes crimes ficaram
de fora. Para a posteridade sobram os relatos registados por Berta Maia do
marinheiro que matou o seu marido, Carlos da Maia, o cabo marinheiro Abel
Olímpio, também conhecido como o “Dente de Ouro” na Penitenciária de Coimbra.
Mesmo referindo nomes, reuniões e organização dos assassinatos por grupos
poderosos de sectores financeiros e monárquicos o caso nunca mais foi
reapreciado. Em todas as situações referidas nunca, volto a dizer, nunca se chegou ao fim das
investigações e dos esclarecimentos por maior que tenha sido o impacto destes
acontecimentos na sociedade portuguesa. O tempo acabou por os varrer para
debaixo do tapete da História, deixando cá fora uma versão oficial ou
semi-oficial, ligeirinha e quase despercebida, desprovida de relevância.
Se não temos tendência para
acreditar em teorias da conspiração, estes 100 anos de atentados políticos na
história portuguesa têm a força necessária e suficiente para nos começar a
(des)convencer, para começar a acreditar
num poder oculto que manobra livremente sempre que os seus interesses ou a sua
agenda em geral se vê contrariada. Seguir o rasto do dinheiro é uma hipótese
que nos levará a algumas estações mas não desenhará a viagem completa. Será
mais qualquer coisa que começa no empenho em formar jovens ignorantes a quem se
explica que a História e a Filosofia já morreram e o que interessa é a execução
das tarefas que lhes são pedidas, até um embrutecimento geral da sociedade
através da mais básica e neutra oferta cultural sob a forma de entretenimento.
Mas é interessante que em todas as gerações há sempre um grupinho de malucos
que resolvem abrir a arca da História e trazer para fora as cuecas do tempo antigo
para as esfregar na cara do moderno. Ou será que é ao contrário? Agora já não
sei dizer…tenho ali o enfermeiro com os remédios que me está a fazer sinais
para desligar o computador…
Artur
segunda-feira, 20 de maio de 2013
HISTÓRIAS DE UM ASSASSINATO - 3
ESPECULAÇÕES
Lisboa, 12 de Dezembro
de 1918
Meu caro amigo
Ernesto:
Não avistei a pessoa
que me preocupa, espero que o encontro será no dia 14, e oxalá possa eu prestar
com o meu sacrifício o fim que tantas almas anseiam. Hoje falei com o dr.
Magalhães Lima, ele está muito doente receio muito pela sua vida que tão
preciosa é a esta nossa tão amada terra. Não me foi possível falar-lhe no mesmo
assunto, nem talvez tenha já tempo de o fazer. Deixá-lo depois que façam o que
o seu sentimento patriótico lhes designar. Não é tão fácil como me pareceu, a
minha Missão, mas com um pouco de arrojo posso consegui-lo. Levo do lado do
coração envolto na nossa bandeira a estrofe que te faço cópia. Mandei tirar
fotografias grandes no Grandella, não tenho tempo de te enviar uma por isso te
recomendo que requisites depois alguma para ofereceres aos nossos camaradas de
ideias. Não tenho ninguém comprometido no meu gesto, só eu! Abraça-te o teu
amigo
José Júlio da Costa.
Sidónio Pais, o Presidente-Rei,
era visto pela esquerda radical como o ditador cuja acção era a fonte de
opressão das classes trabalhadoras e como o traidor que abandonara à sua sorte
o Corpo Expedicionário Português que combatera nas trincheiras da I Guerra
Mundial, seguindo as suas convicções e simpatias germanófilas. José Júlio da
Costa dirigiu-se a Lisboa no intuito de vingar os seus conterrâneos do Vale de
Santiago eliminando o Presidente da República. A acção foi cuidadosamente
preparada como a sua carta escrita a 12 de Dezembro de 1918 bem o indicia.
Para além da parte em que dá Júlio da Costa como um louco e
que, como já tivemos ocasião de ver, pouca ou nenhuma substância encerra, desde
aquela época que circulam teses que apontam para o envolvimento da Maçonaria na
preparação do atentado. Embora atravessando um período de forte perseguição por
parte dos circuitos mais conservadores, aquilo que se sabe é que José Júlio da
Costa tinha uma grande admiração e simpatia pelo grão-mestre da época,
Sebastião de Magalhães Lima. Por outro lado, o próprio Sidónio Pais tinha
pertencido à Maçonaria, reforçando-se aqui uma vingança sobre um renegado da
organização. Outro dado relevante é o dos tempos políticos que então se viviam.
Dias antes da sua
morte Sidónio Pais tinha escapado a outro atentado. Em 5 de Dezembro, na altura
da imposição de uma condecoração aos marinheiros do NRP Augusto de Castilho. Os apoiantes do sidonismo rapidamente
imputaram a autoria do atentado falhado à Maçonaria, organização fulcral na
construção da república e dos seus ideais, ideais esses agora traídos e
reprimidos pelo novo presidente. No dia seguinte a sede do Grande Oriente
Lusitano Unido foi invadida e saqueada.
José Júlio da Costa não era exactamente um louco que
executou um acto casual. Era um homem determinado, que planeou e concretizou um
objectivo determinado. A sua admiração pelo Grão Mestre da Maçonaria não
implica nem que a organização estivesse por trás da sua acção nem sequer que
José Júlio da Costa fosse maçon. Até porque na época dificilmente um militar de
baixa patente poderia figurar nas fileiras de uma organização tradicionalmente
elitista e urbana. A Carbonária seria provavelmente uma organização onde o seu
perfil melhor se conseguiria encaixar.
Mas tudo indica, como se lê na carta escrita pelo seu
próprio punho, que a decisão de executar o presidente de república foi uma
escolha e uma opção exclusivamente individual. Uma vingança sobre a falta de
palavra das autoridades, um acto desesperado de salvação dos valores
democráticos e republicanos, um sacrifício em nome de um povo e de uma pátria.
Infelizmente nunca saberemos o fim desta história. José
Júlio da Costa morreu em 1946 com 52 anos no Hospital Miguel Bombarda sem nunca
ter sido julgado.
Artur
domingo, 19 de maio de 2013
HISTÓRIAS DE UM ASSASSINATO - 2
A COMUNA DA LUZ
António Gonçalves Correia
Criada em 1917 pelo anarquista
António Gonçalves Correia (1886 – 1967), a Comuna da Luz é considerada por
muitos como o primeiro projecto anarquista do género implementado em Portugal.
Não chegando a duas dezenas de elementos as suas principais actividades eram a
agricultura e o fabrico de calçado. Além da prática do vegeterianismo e do
naturismo, a comuna dedicava-se ao ensino das crianças com base nos métodos
racionalistas do pedagogo e libertário espanhol Francisco Ferrer. Alvo de preconceitos
da comunidade local bem como da repressão policial, o projecto durou apenas até
1918. Entre outras acusações as autoridades culpavam a comuna de ter
desencadeado e organizado várias movimentações, incluindo greves de
trabalhadores rurais que assolaram a região. Associada de certa forma ao
assassinato de Sidónio Pais, a comuna acabou por ser desmantelada e preso o seu
fundador. Este, após a sua saída da prisão ainda tentará um novo projecto
idêntico em 1926, fundando a Comuna “Clarão” localizada em Albarraque. Estas
duas comunidades sob orientação de António Gonçalves Correia experimentaram uma
aproximação ideológica ao ideal libertário de Tolstoi esbarrando num sem número
de dificuldades para passar da teoria à prática. Desde logo porque, numa época
de grande agitação, confronto e violência política e social, as práticas do
pacifismo eram pouco populares, produzindo uma eficácia relativa.
Apesar de negar o carácter
anarquista dos seus ideais, Leon Tolstoi entendia os estados, as igrejas, os
tribunais e os dogmas enquanto ferramentas de dominação e repressão de uns
poucos sobre a maioria dos homens. Considerado por vários pensadores como uma
das principais referências do anarquismo
cristão, Tolstoi teve outro momento de aproximação aos ideais do anarquismo
quando em 1862 se encontrou em Paris com Pierre J. Proudhon um dos pais das
teorias anarquistas. Nessa altura o pensador francês estava a elaborar um texto
intitulado “La guerre et la Paix”, título esse mais tarde aproveitado pelo
escritor para o seu romance mais conhecido.
Tolstoi não acreditava em guerras
nem em revoluções violentas como solução para nenhum problema da sociedade. A
sua orientação radicava em revoluções morais individuais que, essas sim,
levariam á verdadeira mudança. Afirmava que as suas teses se baseavam na vida
simples e próxima à Natureza dos camponeses e no Evangelho. No livro “O Reino
de Deus está em Vós”, o escritor baseia-se no “Sermão da Montanha” para afirmar
que não se deve resistir ao mal utilizando o próprio mal.
Leon Tolstoi em 1908
Adepto de uma fórmula de
cristianismo primitivo, Tolstoi entendia que Deus estava nas próprias pessoas e
nas suas acções. Jesus tinha sido para ele o homem que melhor soube exprimir
uma conduta moral que gerasse justiça, felicidade e elevação espiritual em
todos os homens.
Artur
sábado, 18 de maio de 2013
HISTÓRIAS DE UM ASSASSINATO
O Presidente Sidónio Pais
Toda a verdade tem dois lados e
nenhum deles é permanente. Um acontecimento histórico terá a relevância que as
suas consequências lhe puderem dar, será analisado ao detalhe, cortado ás
fatias e separado ás peças, sendo cada uma delas filtrada pela lógica
científica que aproveitará os factos, a verdade material e a versão
institucional. A seguir volta-se a remontar o acontecimento antes de o inserir
sob a forma final nos compêndios de História. A outra vertente do acontecimento
histórico é aquela que o consegue abordar e conhecer desvendando as várias
histórias que lhe deram origem, as lendas, as personagens e os seus caminhos.
Neste caso obteremos sempre uma outra verdade, mais difusa mas também mais
abrangente. Uma verdade de aproximação ao tempo e ás pessoas, à lenda e ao
facto, ao mito e à matéria.
Sidónio Pais é uma figura
lendária do primeiro período republicano da nossa História do séc. XX, hábil e
eficaz utilizador da propaganda em torno do culto da personalidade, homem que
conseguiu extrapolar em muito o resultado da sua obra, da construção do mito.
Tudo em Sidónio Pais passava por um crivo cénico antes de ser dado a conhecer
ao mundo desde as suas paradas em uniforme de Major muitos anos depois de
retirado do Exército até à sua própria morte. Politicamente o breve consulado
de Sidónio Pais (1917 -1918) consistiu em subverter as instituições
democráticas, nascidas com a revolução republicana em 1910, e alicerçar uma
espécie de poder autoritário concentrado numa única instituição (o Presidente
da República) e numa única personalidade (a dele). Fez-se “coroar” Presidente à
revelia do Congresso, liquidou o sistema parlamentar democrático, impôs a
censura à imprensa, encheu as prisões com milhares de opositores políticos. Acabou
assassinado na estação do Rossio em 1918.
- A Morte
Tal como em vida, a morte de
Sidónio Pais teve todos os contornos teatrais que muito contribuíram para o
nascimento do mártir e a consagração do mito. A 14 de Dezembro de 1918, quando
o Presidente da República se preparava para embarcar na estação do Rossio para
uma viagem ao Norte do país, um homem furou o cordão de segurança e (segundo a
versão oficial) disparou dois tiros à queima roupa, ferindo-o de morte. Muito
propagandeada na altura pelos seus seguidores e apoiantes, foram as suas
últimas palavras antes de morrer: “Morro bem…salvem a Pátria”. Contrariando
esta versão houve testemunhas presenciais que garantiram que o presidente teve
morte imediata, sem tempo para proferir o que quer que fosse. Noutro lugar
ficamos a saber que esse famoso discurso final se deveu a uma crónica do
jornalista Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X), conhecido pelas suas
crónicas efabuladas e mesmo fantasiosas, que chegou ao local mais de uma hora
depois dos acontecimentos.
Representação do momento da morte do presidente
De acordo com a autópsia do
presidente, levada a cabo pelo então jovem médico legista Asdrúbal de Aguiar, e
após análises às roupas e à arma do assassino, ficamos a saber que a vítima foi
alvo de um tiro, e não dois como se pensou durante muito tempo. Os dois
orifícios encontrados no cadáver correspondiam a uma entrada e uma saída do
mesmo projéctil e não a dois. Por outro lado, a autópsia revela ainda que a
vítima teria sido atingida não à queima-roupa mas à distância. A este propósito
leia-se “Mataram o Sidónio” de Francisco Moita Flores.
- O Assassino
Sobre o autor (oficial ou
material) da morte de Sidónio Pais, duas breves notas prévias. Em primeiro
lugar, após os disparos e da enorme confusão que de imediato se instalou, e de
que resultaram quatro mortos, não fugiu nem ofereceu resistência. Foi
brutalmente espancado e torturado durante dias e dias. Em segundo lugar, morreu
em 1946, internado no Hospital Miguel Bombarda ao fim de 28 anos de prisão sem
nunca ter sido julgado.
José Júlio da Costa nasce em
Garvão, concelho de Ourique, em 1893, o segundo de sete filhos. Com 16 anos, a
21 de Maio de 1910, alista-se no Exército Português. Estará presente no
levantamento militar da revolução republicana de 5 de Outubro do mesmo ano.
Enquanto militar esteve em Timor, Moçambique e Angola, tendo obtido um louvor
em 1914. Abandona o Exército em 1916 no posto de segundo sargento regressando à
sua terra de origem. Tenta ainda realistar-se como voluntário para a Primeira
Guerra Mundial mas foi recusado. Quando em 1918 ocorreu uma greve dos
trabalhadores rurais de vale de Santiago. José Júlio da Costa assumiu a posição
de negociador entre as autoridades e os revoltosos, acabando por conseguir um
acordo. A actuação daqueles trabalhadores, liderados pela ala anarquista da
“Comuna da Luz” de António Gonçalves Correia foi considerada como perigosa para
a ordem pública e o Governo não aceitou os termos do acordo. Os grevistas foram
severamente punidos, tendo muitos sido deportados para África.
Sentindo-se traído pela falta de
palavra das autoridades, José Júlio da Costa jura vingar os seus conterrâneos
do Vale de Santiago, optando por assassinar o Presidente Sidónio Pais.
Artur
terça-feira, 14 de maio de 2013
COMO ADQUIRIR UM SENTIDO APURADO DE ESTÉTICA CINEMATOGRÁFICA
1. Não se pode estar sempre a ver e a admirar os clássicos do cinema. Esses clássicos ficarão por aí, para sempre, até que a morte nos separe, ou até ao fim dos tempos, consoante o que acontecer primeiro. Procure-se, antes, as obras negligenciadas que revelam o mundo do cinema a uma luz brilhante e coruscante. Escrevi "mundo do cinema" e não "mundo". Se eu quiser ver o mundo revelado, vou por aí andando e tenho-o sempre à frente dos olhos. Por que raio alguém gastaria o seu tempo a procurar a realidade no écran, quando ela está sempre presente ? Devemos ir ao cinema para nos esquecermos da realidade, o que quer ela seja. Ou melhor, exprima o que exprimir o termo "realidade" e as nebulosas construções fraseológicas, linguísticas e conceptuais que esse termo permite.
As pessoas costumam dizer que os filmes a preto e branco são mais realistas que os filmes a cores. Acontece que os filmes a preto e branco não são realistas de todo e, portanto, aqueles que assim se expressam querem realmente significar é que desejam fantasias disfarçadas de realismo, sugando-lhe a cor.
2. As pessoas sugam, ou chupam. Chupam bebidas com palhinhas enquanto vêem filmes, chupam o ar quando a acção se torna quente e acelerada, chupam nos polegares para se parecerem com Charlton Heston no cartaz do filme "Ben-Hur", etc. etc. Pois bem, todo esse ar aspirado tem que sair em algum momento, mas a nossa sociedade congela a sua saída natural no lobbie dos cinemas e é por isso que vemos os sujeitos saírem dos cinemas com uma intensa ginástica facial, tentando reter noventa minutos de sucção. Devemos ser livres de expelir esse ar e compreender que aquilo que vimos no écran é uma equívoca representação da vida real, com uns mamíferos encantadores a fingirem ser santos e pecadores.
3. O realismo só acontece no écran quando a película fica entalada no projector e a imagem começa a ficar cheia de bolhas. O que já só acontece raramente e deixará definitivamente de acontecer quando todas as salas de cinema estiverem equipadas com projecção digital. Até lá, um instintivo medo do escuro manifesta-se quando a luz de projecção falha... aumentado ainda pelas pequenas criaturas peludas, com longas caudas, que se escondem por debaixo dos assentos. A natureza elétrica do sexo torna-se evidente quando sentimos o sopro do ar na nuca, exalado pelo prevertido da cadeira da esquerda a tentar estabelecer contacto com o nosso joelho. É nesses momentos de verdade que o cinema revela a sua faceta realista.
4. Mas, o cinema é uma criatura ambígua, de dupla face. Essa outra face é constituída por uma paleta de cabeleiras pintadas, maquilhagem de pastel de nata e vísceras humanas agarradas a fatos desenhados por anões analfabetos e tarados sexuais. Superestrelas que batem nos filhos com cabides de pendurar casacos ou rolos de arame farpado e que lhes inpingem refrigerantes com potência suficiente para lhes arruinar as dentaduras, mulheres envelhecidas sofrendo numerosos edemas, homens viris condenados a excruciantes regimes de exercícios a fim de conservarem os seus posteriores sodomizados em perfeito estado de conservação, actrizes treinadas para mostrarem ao mundo as maravilhas da libertação da celulite, celebridades alcoólicas que vertem em livros o seu passado para que todos nos possamos maravilhar com a uma vida miserável limpa pelo renascimento cristão, ou da Cientologia, tanto faz, harpias cheias de herpes que destroçam fornicadores, crianças inocentes que cantam e dançam ao longo da "estrada de tijolos amarelos" rumo à dependência das drogas e ao veneno das bilheteiras.
5. Esta é a outra face do cinema...a face que vende tablóides e cria lendas, uma herança cultural recusada, devorada por um olho ciclópico imaginado para "entreter", excitar e ensinar; a FORMA ARTÍSTICA do nosso tempo.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
CARTA AO BELMIRO
Senhor Belmiro de Azevedo,
Começo por lhe apresentar os meus respeitosos
cumprimentos.
Quero por meio desta carta aberta agradecer-lhe a sua
intervenção no Clube de Pensadores, essa instituição que tanto tem feito pelo
esclarecimento público daquilo que figuras proeminentes das mais variadas áreas
deste país são capazes, tanto em pensamentos, palavras, actos ou canções.
Por vezes o resultado saído dessas sessões públicas não
será provavelmente o desejado nem pelos organizadores, nem pelos convidados, mas sem dúvida são
extremamente reveladores. Mais até do que algum programa televisivo de
entrevistas (discutivelmente) bem estruturadas, de tal forma que acabam por não
acrescentar nada de novo ao que já se sabia – a não ser talvez ruído.
No Clube dos Pensadores não.
Talvez por quem expõe as suas ideias achar que está mais
à vontade, pelo facto de a plateia ser menor - o que é certo, é que de alguma
forma o que para lá é dito nesses encontros, acaba por ter repercussões na
sociedade e nas próprias pessoas que por lá vão intervindo a convite desse
grupo de filósofos.
Confesso que apesar de sinceramente ter gostado de saber
das suas ideias fiquei desiludido com o seu modo de ver as coisas. Nomeadamente
na revelação de advogar a baixa de salários para ajudar a economia portuguesa.
Pois é, senhor Belmiro de Azevedo, não concordo mesmo nada
consigo.
Primeiro, porque que desde que há anos sou cliente
Modelo/Continente/Worten, sempre fui muito bem atendido pelas pessoas que lá
trabalham. Como agora modernamente se chamam: seus colaboradores. Porque ao
saber os ordenados que muitos deles auferem, alguns com cursos superiores mas
sem colocação para a especialidade para a qual andaram a estudar durante largos
anos, são claramente abaixo daquilo que mereceriam receber. Apesar disso e
estarem numa função para a qual foram empurrados pela força das circunstâncias
(a principal, terem nascido em Portugal), evidentemente abaixo das suas
competências e formação, o fazem com elevado profissionalismo, eficiência e
simpatia.
Segundo, porque é graças ao estado das coisas a que
chegámos como por exemplo a precaridade do emprego e a elevada taxa de
desemprego que diariamente bate recordes, que o senhor Belmiro tem
possibilidade de lhes pagar o que paga, tendo uma infindável fila de pessoas
desesperadas para trabalhar e substituir os mais desiludidos a troco de um
salário que está uns trocos acima do mínimo.
Terceiro, tendo o senhor Belmiro recorrentemente ao longo
dos anos figurado na lista das maiores fortunas da Forbes, não terá noção do
que será viver na incerteza da precaridade, ou com um orçamento familiar à
justa para não passar fome, ou nalguns casos nem isso. Por ter o estatuto de um
dos mais ricos deste país até me parece mal que tenha achado que será à custa
dos baixos salários que esta nação avançará rumo ao desafogo económico.
Quarto, porque ao saber da relação das grandes
superfícies com os fornecedores e ainda mais com os produtores agrícolas, a
mesma não me parece justa. Para os agricultores, claro, aqueles que se esforçam
fisicamente, assumindo eles todos os riscos de eventuais prejuízos na produção
dos produtos e daqueles que se possam estragar até à sua venda. Isto já para
não referir prazos de pagamentos.
Quinto, porque estranhamente, o senhor Belmiro, que
considero pessoa informada ou com fácil acesso à informação, parece desconhecer
que os países onde as pessoas vivem melhor e onde o Índice de Desenvolvimento
Humano são mais elevados, são exactamente aqueles onde os ordenados pela sua
componente, dignificam quem trabalha e por isso proporcionam uma melhor
qualidade de vida. Terá certamente o senhor Belmiro ouvido falar destes:
Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Luxemburgo. Não fazem parte de uma
galáxia distante. São países até nem por isso muito longínquos. São europeus,
mas onde o índice de corrupção e os interesses financeiros mais obscuros são
praticamente inexistentes. Países onde o estado social, por cá incomportável, é
lá possível com uma carga fiscal e tributária presentemente idêntica à nossa. E
por cá aguentamos, aguentamos, um estado de coisas que entretanto se torna
impossível de aguentar porque não augura nada de bom e todos os sacrifícios que
são pedidos ao português comum, desaguam num buraco negro que continua a
alimentar um défice cada vez maior.
Sexto, porque todo o ser humano tem o direito de ser
respeitado. Muito mais por aquele para quem trabalha.
Por estas e mais algumas razões que não vou enumerar,
para não tornar esta missiva demasiado extensa, junto envio-lhe os meus
cartõezitos Modelo que me permitiram “poupar” até há uns meses, quando deixei
de ir aos estabelecimentos da Sonae, a quantia de mais de €2.000,00. Leva-me
isto por outro lado a pensar em quanto terá o senhor ganho com as minhas
compras nas suas grandes superfícies, enquanto eu poupava.
Envio-lhe também os cupõezitos dos descontos de 10%
enviados para mim na semana passada pelo correio, e outros específicos para
produtos que acham os serviços comerciais do Continente me podem dar jeito para
os próximos 2 meses.
Não os quero mais, muito obrigado.
Fica aqui um ponto final ás minhas compras nas suas
grandes superfícies, e nas empresas do Grupo Sonae.
Peço-lhe humildemente desculpa, mas sou assim. Um individuo que acha
que a cidadania não se faz apenas de 4 em 4 anos nas urnas, até porque também
deixei de acreditar nesse mecanismo que só funciona em Democracia plena que não
é de todo a realidade vivida em Portugal, mas com “Pequenas Acções Quotidianas”
que o mais anónimo português pode tomar se tiver noção que a sua escolha faz a
diferença. As minhas “PAQ’s” surgiram um pouco antes dos PEC’s do governo
Sócrates e foram-se sucedendo até a um ritmo maior. Só que em vez de serem substituídos
pela seguinte, foram-se consolidando e surgindo uma nova “PAQ” sempre que as
circunstâncias o exigem ou me acordo para coisas que não acho bem. É bom ter
voz mais do que apenas de 4 em 4 anos, sabe? Não haverão muitos como eu, mas a palavra e a razão espalham-se e talvez daqui a um ano ou dois sejamos uns 10 ou 20 a fazer estas "PAQ's".
Fique o senhor Belmiro descansado porque tal como esta minha
“Pequena Acção Quotidiana”, já tenho tomado outras iguais em relação a outras
situações. Não é de todo exclusiva em relação ao Grupo Sonae. É apenas e só
isso, mais uma tomada de posição para aquilo que acredito, pode fazer a
diferença para um Portugal melhor. Têm-se tornado uma colecção pessoal que muito estimo.
Somos nós todos, o povo, que pode mudar mentalidades e isso
tem de começar por cada um de nós. Eu por mim, tento fazer a minha parte,
fazendo as minhas escolhas de acordo com aquilo que acho acertado e penalizando
da mesma forma as pessoas, instituições, princípios que estejam em total
oposição ao que acho certo.
Pelo estado das coisas a que chegámos, eu como tantos outros
pais portugueses, vou-me lentamente mentalizando para a ida da minha filha para
longe da minha família, para fora deste país que se tem tornado demasiado pequenino
e asfixiante, quando chegar a hora de ela começar a trabalhar, depois ou talvez
mesmo antes do final do curso universitário que está a frequentar. Não tenho
ilusões que ela por cá tenha futuro, a não ser que queira eventualmente ser por exemplo, caixa de supermercado desde que seja essa a sua vocação. Só quero que ela faça
na vida o que mais gosta e se for isso não tenho qualquer problema em aceitá-lo
porque é um trabalho tão digno como qualquer outro.
Aconselhar-me-ia o meu bom senso remeter-me simplesmente ao
recato, se estivesse no lugar do senhor Belmiro, ou dos senhores Fernando Ulrich,
Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Soares dos Santos, e outros que gostam de
emitir opiniões sobre o estado das coisas em Portugal, estando numa posição confortável
em relação aos demais. Eventualmente e por disponibilidade económica e porque
podia, a prestar uma ajuda efectiva aos seus “colaboradores” através de um
aumento de vencimentos, contribuindo assim para contrariar esta espiral
recessiva que nos conduz a um buraco negro sorvedor de pessoas e valores (e não falo dos económicos).
Não será certamente através das Missões Sorriso que
apenas servem para o supermercado ampliar as suas margens de lucro pela venda
dos produtos que pessoas bem-intencionadas adquirem para aderir a essas
iniciativas. Chamo a isto, caridade com o dinheiro dos outros, já que em
relação a quem a implementou basta-lhe vender os produtos com a respectiva
margem. O estado, claro, também agradece – sempre são mais uns euritos em IVA.
E os media efusivamente ampliam os resultados, naquilo que friamente para mim
não passa de acção de marketing.
Apesar de a
felicidade pura não depender do dinheiro, o que cada um consegue através do seu
salário tem de ser dignificante. A felicidade vem de dentro e da capacidade de
cada um em se maravilhar com as coisas mais simples. Mas essa é uma
capacidade inata. Ou se tem quando se nasce, ou nunca será compreendida por
quem a não tem, numa clara oposição de uma saudável ambição pessoal à mais
aviltante e destruidora ganância.
Lamento por tudo isto a sua opinião em relação ao momento
económico e social que Portugal atravessa mas que no entanto respeito.
Respeito, mas não compactuo.
Seu ex-cliente.
Hélder Martins
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