sábado, 30 de março de 2013
LOST IN TRANSLATION
Chin Ku Ji Da, meu ganda sacana, acabei de saber que foste tu quem hoje de manhã me assaltou a marmita e me roubou os pastéis de bacalhau que a minha mãezinha tinha feito para o meu almoço. Foste denunciado pela tua falta de negligência quando te atiravas descaradamente à rapariga da meteorologia ao exibir pedaços de salsa nos dentes, restos de comida e vestígios de lixo em geral. Chin Ku Ji Da, estou-te a avisar que quando saír daqui vais-te arrepender seu filha da puta, porque quando te apanhar não só te farei as orelhas em bico como te arranco o fígado para fazer iscas, penduro-te as orelhas em anzóis, seco-as e dou-as a uma fábrica de alguidares. E se mesmo assim a minha vingança não estiver devida e apropriadamente satisfeita vou cagar em cima de um jornal, vou deixá-lo à tua porta e pego-lhe fogo. Assim, quando abrires e começares a apagar com os pés, vais-te encher de merda que era aquilo que te deviam ter feito à nascença. Comigo ninguém brinca Chin Ku Ji Da.
sexta-feira, 22 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
DIAS DE LIBERDADE, TABERNA E MATANÇA
Por viver longe dos avós e
restante família materna, uma vez por mês ou por vezes a intervalos maiores,
Fernando deslocava-se com os pais e a irmã quatro anos mais nova à terra onde
eles viviam, uma pequena aldeia poucos quilómetros a norte de Caldas da Rainha.
Tudo era atractivamente diferente do sítio onde morava.
O trajecto demorava quase três
horas de pequenas quezílias e moderadas guerrilhas com a irmã pela conquista fronteiriça
e manutenção de território no banco de trás do carro, atazanando a paciência
dos pais num crescendo até ao limite de uma intervenção mais ou menos sentida
na pele. Depois era o forçado restabelecimento de um débil tratado de paz que
durava poucas dezenas de quilómetros, num belicoso conflito local que acabava
por durar até ao destino.
Sem paragens, esse tempo de viagem
era o suficiente para o levar até aos avós e primos que adorava, avançando
estoicamente o Ford Escort branco pelos últimos quatro quilómetros numa estrada
de terra, buracos e pedras, por entre pinhais, para uma terra onde ter-se luz à
noite obrigava a um ritual exótico que envolvia sempre alguma forma de fogo.
À chegada tinha o avô Evaristo
atrás do balcão da taberna e a avó Angelina de volta dos tachos com um guisado
pronto para o almoço. De ar austero, desfaziam a máscara pela alegria de
matarem saudades dos recém-chegados. A avó logo retomava o semblante carregado
que Fernando procurava desfazer, normalmente com sucesso.
O avô a atender o povo da
aldeia, atrás do balcão onde a uma ponta estava uma torre de quatro frascos de
vidro cheios de rebuçados para serem vendidos ao peso ou a avulso. Era amistoso com
toda a gente mas sempre pronto a pôr na ordem quem se esticava na conversa ou
nos actos, mantendo uma aura de respeito que ninguém se atrevia a pôr em causa.
Era um estabelecimento misto de taberna com prateleiras recheadas de copos e
copinhos de vidro grosso, mercearia e casa de adubos e produtos químicos, com as
paredes exteriores caiadas a ocre e as portas e janelas contornadas por listas
azuis escuras, num edifício comprido com zonas diferenciadas, unidas por
passagens interiores de comunicação. Começava pela casa da Legião, que era uma
sala de reuniões, depois a retrete que consistia numa simples latrina com um
buraco no chão e um poço com um balde, convenientemente localizado do lado de
fora num pequeno pátio de terra onde estava também o Tarzan, um imponente cão
de longo pelo ruivo, arraçado de setter irlandês mas em versão gigante,
suficientemente forte para aguentar no dorso Fernando e a prima Isabel. A
seguir uma zona de armazenamento para produtos secos, outro pátio com pequenas
árvores, a cozinha e sala de refeições e um escritório, um quarto e a única cabine
telefónica em quilómetros para uso da população. Entrando pela porta que estava
ao lado da cabine telefónica e descendo três degraus estava-se no lagar que
tinha uma grande janela com portadas de madeira que dava para a rua, o depósito
dos químicos nas traseiras e a seguir num patamar poucos degraus abaixo
acompanhando o declive da rua, um amplo armazém de vinhos com grandes tonéis
em cimento e enormes cascos de madeira escurecida pelos anos e barris de
diferentes tamanhos mais pequenos. No armazém havia ainda uma outra divisão: um
laboratório vinícola dentro de uma estrutura com porta e paredes de ripas de
madeira dividindo centenas de vidros aos quadrados que permitiam ver todos os
tubos de ensaio e toda uma parafernália de utensílios próprios de um
laboratório científico, e estantes com grandes livros de anotações. Apesar de
todas estas coisas estarem neste espaço enorme que podia ainda servir para
guardar várias camionetes, estava vazio para gáudio dos pequenos índios, numa
tribo engrossada pelos restantes primos e amigos deles, todos de idades
aproximadas, numa animada agitação de jogos de escondidas e apanhada. O armazém
ainda tinha outras zonas com diferentes patamares em cimento armado e um
declive para facilitar o carregamento de pipas de vinho, emprestando assim o
cenário ideal para coboiadas.
Nos intervalos, Evaristo retemperava
a energia aos netos com um copinho pequeno de jeropiga e um pratinho de
bolachas torradas colocados em cima da mesa com uma cobertura de plástico
grosso pregado com tachas, em xadrez branco, cinzento e preto, à qual se
sentavam em bancos de pau corridos.
Em frente à taberna do outro
lado da rua morava uma personagem caricata: Gertrudes Careca, uma viúva de pele
muito branca e sempre vestida de preto até aos pés, de chapéu de palha de abas
largas preso por debaixo do queixo proeminente por duas fitas pretas atadas que
a ajudavam a fixar uma peruca pastosa de cabelo ruivo. Apesar da sua simpatia,
a imagem inspirava algum temor à canalha que insistia a vê-la como uma
praticante de magia negra.
Os primos sempre que sabiam
que ele chegaria estavam invariavelmente à sua espera. João, quatro anos mais
velho e Isabel, cinco dias mais nova eram os que moravam mais próximo da
taberna, com quem Fernando passava mais tempo e por isso também os mais
chegados. Era com eles que descobria um outro tipo de vida próprio das pequenas
aldeias. Jogatanas de bola na rua organizadas pelo primo, numa altura que quase
não havia trânsito de espécie nenhuma a não ser bicicletas e umas quantas motorizadas
Kreidler Florett, uma delas do avô.
Por vezes, quando o avô precisava
de ir ás fazendas ver o andamento dos trabalhos levava Fernando e Isabel
sentados em cima do depósito da mota, noutra experiência electrizante da viagem
quanto mais não fosse pela vibração sentida pelas mãos apoiadas no depósito de
combustível. Talvez pela dormência das mãos, talvez por pura velhaquice, um dia
achou Fernando por bem encher os olhos e a boca de Isabel daquela poeirenta
terra preta. O avô que estava por perto, ouviu bem a reclamação da miúda e deu
o único safanão que alguma vez daria a Fernando, de certeza doendo-lhe mais a
ele que ao meliante.
À noite no Verão, era o cantar
ininterrupto dos grilos e a luz de dezenas de pirilampos que ajudavam a alumiar
o caminho cem metros abaixo até à casa dos avós, com candeias nas mãos, ás
vezes um petromax, debaixo do céu mais estrelado do mundo. Na Lua gigante conseguiam-se
ver os detritos deixados pelas missões dos astronautas pouco tempo antes.
Em casa dominava o cheiro dos
fósforos acabados de acender e da cera queimada das velas. Fernando utilizava
um pequeno candeeiro a petróleo e todo aquele ritual mexia com a imaginação. Durante
os dias ali passados, gostava ainda da inequívoca ordem de soltura que o
libertava de asas soltas numa autonomia para brincar, jogar à bola, ir visitar
os tios a trabalhar nos terrenos agrícolas e voltar dentro dos cestos dos
burros, completamente suado e sujo de pó preto da terra areenta, ficando
fascinado à noite quando se lavava antes de ir para a cama, com o grau de
negridão e consistência de porcaria conseguido na água - quanto mais negra
estivesse, melhor tinha atingido o objectivo, algo a repetir e eventualmente
suplantar no dia seguinte. Depois de um copo de leite morno, afundava-se no duro
colchão de palha de milho e tapava-se com ásperos cobertores de papa, picando-o
ao perpassarem a finura dos lençóis. Nada disso importava, e estranhamente até
lhe era agradável lembrando-o do conforto que tinha na casa dele, no
contentamento que era para ele poder estar com os primos.
As casas dos tios separadas
entre si por centenas de metros, e unidas por muito definidos e estreitos
carreiros de terra firmemente batida de tão calcorreada contornando os terrenos
agrícolas, eram atravessados por intermináveis filas de formigas e alguns
escaravelhos.
O Outono era época de matança
do porco, em que os tios à vez tratavam da festança. Eram fins-de-semana em que
todo o clã de mais de cinquenta se reunia logo ao sábado de manhã, para espetar
a faca na goela do bicho. Apesar de ser criança, não se impressionava Fernando
com os guinchos do porco que ecoavam por aqueles campos fora. Muito menos o
impressionava a torrente vermelha que escorria para um alguidar já com umas
boas mãos cheias de sal e que alguma mulher se encarregava de misturar com o sangue ali caído. Depois era a chamuscagem do pelo com caruma num
cheiro que se impregnava na roupa como uma tatuagem de grupo. Pendurava-se o
porco, abria-se, tiravam-se as tripas e aquilo que os gaiatos mais esperavam: a
bexiga. Depois de esvaziada, era cheia com uma bomba de ar e lá ia a matilha toda
para a eira jogar à bola, como se aquela fosse a ideal para os encontros
futebolísticos oficiais. Para desapontamento deles, o esférico rolando no
cimento ou terra batida da eira nunca durava muito.
O resto desse dia era gasto
com parte das mulheres a irem lavar as tripas ao riacho para depois se fazerem
os enchidos, enquanto as outras tratavam de fazer o almoço e pôr a mesa num
festim que duraria até à noite de domingo, enquanto os homens esquartejavam a
carcaça e os mais velhos jogavam à sueca em intermináveis discussões regadas a
tinto.
Ficava Fernando confundido
pela constante alegria dos primos. Apesar de não terem electricidade,
televisão, ou outros confortos que ele tinha, vivendo em casas de adobo com chão
de terra batida, levavam-no a questionar se a verdadeira felicidade era a deles
– a tribo do vento.
Quando voltava a casa mal
podia esperar pelo regresso ao sítio onde era tudo mais a preto e branco, sem
grande margem para degradés de cinzento.
Hélder
Hélder
sábado, 16 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
ANOS 70 - UMA PASSAGEM PARA OUTRO UNIVERSO
O conceito de morte é de
difícil compreensão para uma criança com 4 ou 5 anos. Percebe a ideia da
ausência. Mas não a possibilidade de uma pessoa que lhe é querida e num
momento está ali próxima, sem qualquer aviso, explicação ou despedida desaparecer para um sítio qualquer de onde não voltará mais.
Outra coisa perturbadora nessa
idade, é ser literalmente o imperador do universo e de repente ter uma
concorrente recém-chegada, que não fala, só chora, come e dorme, exige atenção
constante a quem antes era um exclusivo seu e mesmo assim, tão frágil e
indefesa, com a absoluta capacidade de lhe roubar o protagonismo, numa evidente
e inevitável despromoção a actor secundário, quase a figurante.
Como se a confluência destes
dois acontecimentos de morte e nascimento não bastassem para agitar e
estilhaçar o seu universo perfeito, vê-se numa onda imparável de novidade a
mudar de casa, de ambiente, deixando o conhecido e os portos de abrigo,
transportado para outra estranha dimensão paralela.
Nandinho, o "menino da cidade”
em poucos meses, tinha perdido um dos melhores e mais chegados amigos, tinha
ganho uma irmã concorrente de afectos e atenção, e mudado de casa, dos
arredores da capital para uma pequena vila de província vinte quilómetros a
norte de Coimbra.
O pai tinha sido promovido
profissionalmente, o que implicava a mudança de casa. Essa alteração fazia com
que a sua mãe deixasse a sua profissão e os amigos do Cacém, para ficar
definitivamente em casa a cuidar dele e da mana bébé.
Aquela convulsão radical na
vida dele, também lhe trazia mesmo assim alguns interesses e novidades. A
descoberta de uma casa muito maior do que aquela onde ele antes vivia, bastante
comprida e com divisões com nomes estranhos nunca ouvidos, como “sótão” ou
“barracão”. No sótão o pai tinha colocado um baloiço com acento de madeira,
preso por cordas a um grosso tronco de eucalipto que servia de viga e estava assente nas empenas de pedra à
vista sustentando o telhado. No barracão, um anexo da casa, havia uma
capoeira que lhe proporcionava o primeiro contacto com animais de quinta, as
galinhas e os coelhos. Haveria lugar também à adopção de duas gatas irmãs, a
arisca Tigre e a carente Rosinha.
A paisagem era diferente. A
frente da casa dava para uma rua de paralelepípedos negros bastante movimentada
por pessoas a pé, muitas bicicletas, mais motorizadas, carros e camionetes e ás
vezes intermináveis rebanhos de cabras e ovelhas. Nas traseiras a vista era para a serra do
Buçaco e muito mais longe para a do Caramulo. Ali à volta eram vinhas, campos
cultivados e pinhais da zona da Bairrada.
Também as pessoas eram diferentes das
que conhecera até aí. Mais duras e secas, dedicadas à agricultura, à frente de burros, vacas e
juntas de bois. Uma família de anões vendia
leite porta-a-porta na sua carroça puxada por um cavalo castanho de longas
crinas numa imagem matinal quase mística.
Teria nos meses anteriores à
entrada para a escola primária uma experiência equivalente a uma pequena
recruta digna das tropas especiais ao ir para a Casa da Criança, a creche da
vila que lhe mostraria definitivamente que ele não era imperador, rei, príncipe
ou privilegiado de coisa nenhuma. Lá brincava com miúdos bons, assim-assim e
cruéis, que nas mudanças de humores trocavam de personalidades entre si e neles
próprios, testando a sua capacidade de sobrevivência em distribuições de
estalos e pontapés, complementados pelas cuidadoras que zelosas da ordem
infantil, passavam a mão a eito por quem estava ao alcance. A saída à tarde era sempre na companhia de um quarto de pão de alqueire, recheada por grossas fatias de marmelada.
O ponto alto desta experiência conforme a
perspectiva que se possa ter, foi a ida para uma colónia balnear infantil no início do Verão, na
praia da Barra, onde os escaldões apanhados durante o dia eram refrescados num
banho colectivo ao início da noite em que a miudagem nua, na penumbra de poucas
fracas lâmpadas e ao ritmo da marcha dos condenados, avançava em fila
indiana para duas grandes tinas de alumínio cheias de água e sabão azul. Seria
resgatado pelos pais ao terceiro dia não conforme as escrituras, mas por causa
da preocupação deles. Nandinho já não existia, era agora Fernando, de recruta
feita.
O Zé Malha era um rapaz com 12
ou 13 anos de cabelo espetado, nariz adunco, olhos desfocados perdidos no infinito e boca de balbuciantes lábios finos, normalmente a deixar escorrer um fio de baba. Quando apanhava os miúdos mais pequenos
na rua e sem qualquer motivo que não fosse a sua condição mental, parava o
vertiginoso rodopio auto-inebriante, de cabeça levantada ao céu e braços erguidos no ar acompanhados por uma incompreensível lengalenga cantada, para
lhes aplicar uma portagem de pancadaria. Satisfeito apenas quando ouvia choro,
continuava a sua lunática dança pelo meio da rua obrigando à paragem de todos os
veículos que com ele se cruzassem. Fernando aprenderia a passar por ele com
um salvo-conduto conseguido pela forçada coragem de lhe falar cumprimentando-o, o que confundia o outro pela novidade a que não estava habituado, e com
a ajuda da mãe que apanhando o Zé Malha a passar à porta de casa, lhe faria
prometer que não tocaria no seu filho. O rapaz cumpriria o prometido. Em
compensação brincava com o filho no barracão onde tinha alguns brinquedos à
disposição, numa aprendizagem mútua que acabaria por ser muito mais aproveitada
por Fernando, ensaiando capacidades diplomáticas com um interlocutor
difícil, imprevisível e instável. O outro tinha assim um pouco de paz, enquanto
a agitação mental não voltasse e sem aviso desatasse a correr para a rua como se a
loucura não pudesse esperar. O resto das pessoas estranhavam e comentavam à boca pequena, como
é que alguém se atrevia a pôr um reconhecido diabrete, incontrolável inimigo
público, em casa e a brincar com o filho pequeno. Tornar-se-ia esta para Fernando uma primeira lição forçada, inteligentemente engendrada pela mãe, de respeito, tolerância e coexistência.
Uma tarde ouvir-se-iam gritos animalescamente guturais vindos da rua. Era a progenitora do Zé Malha um pouco adiante, com os
pés em cima do pescoço dele numa insana tentativa de estrangulamento público,
acorrendo algumas pessoas que o salvariam naquele momento. Apareceria algum
tempo depois morto dentro de um poço em circunstâncias nunca esclarecidas. Placidamente se assumiu o suicídio.
Julgando já compreender a morte, queria acreditar Fernando que o Zé Malha agora estaria melhor. Bem vestido, lavado, sem fome, sem frio e confortável num abraço de carinho que lhe daria a paz nunca conseguida deste lado.
O Inverno de 1970 tinha sido tão
frio que pela primeira vez veria neve lá ao longe na serra do Caramulo coberta pela alvura. Tudo aquilo era sem dúvida nenhuma uma mudança tão profunda, que lhe tinha aberto aos cinco anos a página para o segundo capítulo da sua vida que duraria
toda a década de 70.
Hélder
Hélder
quarta-feira, 13 de março de 2013
segunda-feira, 11 de março de 2013
PASSAGEM PELA BEIRA BAIXA
Perdida nas serras da Beira
Baixa entre a Sertã, Proença-a-Nova e Cardigos, a aldeia que se avista no vale
lá em baixo desde o Cabeço da Porca, entre pinhais e riachos, foi testemunha de
um amor rebelde que vingaria contra todos os obstáculos, numa afronta
desafiadora aos costumes e tradições de uma comunidade fechada e parada no
tempo.
Estava-se no final dos anos 20
e em quase todos os cumes das serras em redor, verdes de tanto pinheiro bravo,
sobressaiam pequenos marcos brancos, cujas velas prenhes de vento acenavam
ostensivamente o poder daquela família que monopolizara anos antes, no início
do século XX, a moagem de todos os cereais produzidos na região. O ranger das
rodas de madeira das azenhas misturado com o som da água corrente da Isna, uma
ribeira que ao longo de muitos quilómetros rasga o leito rochoso, em sucessivas
cascatas e curvas hesitantes para desaguar no Zêzere, também não tinha escapado
ao poder crescente do Silva “Moleiro”.
Valorizava-se o trabalho e o
respeito pelo respectivo lugar na hierarquia social, até quando toda a
comunidade profundamente católica se reunia aos domingos na pequena igreja, aí entrando
com a segunda chamada sineira ecoada por montes e vales, distribuindo-se nos lugares
conforme o seu estatuto. Separados pelo corredor central, homens de um lado, mulheres e raparigas do outro. Os mais remediados à frente, os menos
a seguir, vestidos com a melhor roupa depois de seis dias de trabalho nas
terras e nos pinhais, lavados da poeira e suor semanal. Cristo pregado na cruz lá
no altar. Nos dois corredores laterais havia cadeiras com placas
identificadoras dos donos em madeira trabalhada, com os apoios para a
genuflexão forrados a veludo vermelho, propriedade dos mais abastados que assim
tinham um lugar cativo mais junto ao Senhor. A miudagem e a rapaziada cá atrás
de pé, mais a jeito para se pôr porta fora no adro logo que a cerimónia
dominical findasse. Em toda a comunidade haviam apenas um ou dois proscritos
que no torpor da sua bebedeira constante, achavam que ficar cá fora era mais
compensador, quanto mais não fosse para curar a dor de cabeça e mau estar geral
que voltariam irremediavelmente a procurar lá mais para a tarde, alienando-se
daquela realidade enquanto tivessem alguns tostões que não os obrigasse a
agarrar numa enxada.
As ruas com tapetes de
carqueja, cíclica e zelosamente renovados pelos moradores minimizavam o
pó no Verão e a lama no Inverno.No entanto o largo da igreja, por ser um local de
convívio todas as tardes de domingo, era mantido com uma impecável superfície
de terra batida. De que outro modo poderia ser senão deste, para as gerações
masculinas se juntarem e passarem longas horas a jogar chinquilho? A
assistência era composta pelos mais novos que admiravam a pontaria e aprendiam
a técnica, e pelos mais velhos que agarrados aos seus queijados e sentados nos
muros de xisto, maldiziam os falhanços dos jogadores, cujo arremesso da malha
volta e meia teimava em não tocar na estaca de madeira, na recalcada frustração
dos seus próprios movimentos tolhidos pelo tempo que já só lhes dava liberdade
suficiente para se arrastarem até ao muro de pedra onde descansavam os ossos e
libertavam a língua.
Sebastião, rapaz de cabelo e
olhos claros, nascido de família modesta, de pai carpinteiro que
se dedicava ao cultivo, à apicultura e ao pastoreio de cabras, fascinara-se
pela morgada da região, a filha mais velha da abastada família do Silva
“Moleiro”, dona de todos os moinhos e azenhas. Sentia que era
recíproco pela troca de olhares que todos os rapazes iam ensaiando com as moças
casadoiras que em grupos iam passando pelo adro da igreja, interrompendo a tempos
o arremesso das bolachas de metal. As suas origens modestas e a sua humildade
pouco mais lhe permitia do que observar e esperar, mas poucas dúvidas lhe
restavam que aquela morena alta e elegante tinha reparado nele mais do que uma
vez.
Ficou a incerteza dissipada
quando um dia enchendo-se de coragem lhe foi falar e se tomou pela avassaladora
incredulidade por uma das raparigas mais cobiçadas da região admitir que gostava de si. Tê-lo ela escolhido para um improvável namoro que ia
contra o preconceito social da comunidade, e muito mais da família dela que
jamais aceitaria que a sua herdeira desperdiçasse a mão num remediado, em vez
dum futuro promissor e investidor de estatuto social ao lado de um doutor ou
engenheiro, abria um precipício vertiginoso ao qual era impossível escapar.
Entretanto e interrompendo os encontros escondidos, iria Sebastião para a tropa
onde aprofundaria e aperfeiçoaria os conhecimentos e habilidade para a
carpintaria, cuja arte já tinha aprendido desde bem cedo com o pai.
No sonho de ficarem juntos, e
pela recusa petrificada de tudo e todos aceitarem a sua união de puro amor, quando
Sebastião terminou o serviço militar, Maria do Carmo num irreprimível impulso fugiu
de casa e da família e foi para Lisboa ter com ele. Em resultado do escândalo por alguém assumir frontalmente o seu amor contra tudo e contra todos, numa
época em que isso era completamente intolerável, seria o casal censurado, proclamado
vergonha da comunidade, devendo ser por isso banido e esquecido.
Teriam de começar do rascunho
na grande cidade, apoiando-se apenas um no outro e no grande amor que os unia,
ganhando batalhas e algum tempo depois em 1936, um filho. Valer-lhes-ia também
um engenheiro com ligações à vida militar e dono de uma empresa de construção, que
reconhecendo a qualidade do trabalho feito na tropa por Sebastião, lhe
ofereceria trabalho garantindo assim um meio de sustento ao jovem casal. Um dos
lemas preferidos e repetidos dele era: “O trabalho tudo vence!” Assim iniciaria uma fase de prosperidade constante que lhes permitiria a estabilidade económica.
No final de 1940 seriam de
novo pais. Quis o destino que esta segunda gravidez de Maria do Carmo fosse de
gémeos, acabando por sobreviver passados dois anos apenas um deles. No meio do
desgosto desta perda, voltariam à terra que os tinha escorraçado quando ao cabo
de uma década fora e com dinheiro, já não dependeriam de ninguém
para aí terem uma vida razoável.
A passagem dos anos tudo
amenizara e a família e conhecidos, acabaram por os receber bem de volta, assim
como ás notas com que Sebastião pagava a construção de uma grande casa num dos
melhores terrenos da aldeia e comprava outros ali à volta, tornando-se assim um
dos maiores proprietários, agora considerado como respeitado homem de bem.
Dividia a sua vida entre a
aldeia e os sítios para onde o trabalho o mandava, deslocando-se por longas
temporadas para obras em Lisboa. Fariam parte da sua lista a ponte pedonal em arco sobre o rio Trancão em Sacavém, a construção da fábrica de celulose do Caima
vivendo com a família toda em Albergaria-a-Velha por doze anos, a barragem de
Belver, um depósito de água em Málaga, pontes na mata de Leiria. Destas e de
outras obras, aquela que provavelmente marcaria a sua vida numa façanha épica,
seria também a de mais curta duração - a arrojada e heróica construção do farol
nas inóspitas ilhas Formigas nos Açores, em pleno Oceano Atlântico, a meio
caminho entre São Miguel e Santa Maria, no recife de Dollabarat, erigindo no
Verão de 1948 e apenas em 36 dias, mesmo com algumas paragens por causa do mau
tempo, um farol de 19 metros de altura, concluindo-se assim um projecto que já datava de 1883.
Assentariam no final da década de 60, Sebastião e Maria
do Carmo ainda com saúde e muitos anos de vida pela frente, na aldeia que
muitos anos antes os havia repudiado, dedicando-se definitivamente à
agricultura por puro prazer, em afazeres diários nos pinhais a roçar mato e a
recolher resina, nos pomares de macieiras, pereiras, pessegueiros, em regas
diárias nos terrenos de cultivo entre figueiras, laranjeiras e tangerineiras,
nas colmeias recolhendo os favos de mel aproveitando a cera para velas,
tratando das galinhas, dos porcos, das cabras e do burro, num equilíbrio cúmplice que duraria
quase até aos 90 anos, atravessando ele um pouco atrás dela a derradeira ponte para o outro lado, compensando-a assim pela
ousadia a que ela se tinha atrevido quase 70 anos antes.
Hélder
domingo, 10 de março de 2013
sexta-feira, 8 de março de 2013
UM GIN AO FIM DA TARDE
É tarde, é tão tarde e ainda não
viste nada, ainda quase nada se passou, sofrimento e alegria, marcos do caminho
que percebes não percebendo, do amor que sentes não sentindo, forte e feio pelo
destino acima. É tarde, é tão tarde para perceber que tudo sabe a pouco quando
se quer tentar perceber o que raio significa tudo isto, estar aqui, porquê, de
uma maneira que faça sentido, de uma maneira parecida com harmonias, de
qualquer maneira passível de entrar por uma das portas do entendimento. É tão
tarde e no entanto é tão alegre a imagem do crepúsculo, o adeus do Sol, o
entendimento do fim. O fim, no fundo, a única razão, o único sentido, o remate
lógico do absurdo que foi todo este caminho, o sentido perdido, a razão nunca
encontrada. Nada, e como esta palavra reconfortante, corpo desejado de mulher
inalcançável, como esta mulher ou esta palavra nos tranquilizam quando
pronunciadas. Sentarmo-nos sobre o Nada e contemplar ao fim da tarde sobre um
mar preguiçoso, um dia que se despede. Um gin tónico na mão, uma caneta na
outra e as palavras que se vão desenhando sozinhas sobre o eterno caderno que
nunca nos larga como se de uma identificação permanente estivéssemos a falar. As
palavras que se desenham e dançam entre si um bailado que só elas conhecem,
feito de pensamentos e desejos, remorsos e amores, os autores, os devedores,
aqueles a quem ficou a faltar um cumprimento, uma vingança, um agradecimento.
Fodam-se todos ao pôr-do Sol do dia em que me virem partir. Finjam as lágrimas
ou sejam indiferentes como indiferente a vocês é este dia que acaba em paz
sobre o mar.
Chegámos aqui sem saber nada e
nada sabemos no dia em que formos embora. Uma viagem estranha, demasiado
estranha para não ter sentido nenhum, uma viagem ao cu da ambiguidade eivado de
penas e sofrimento, injustiças e dores. Algumas alegrias sem dúvida, mas apenas
na dose suficiente para suportar as outras, para não rebentar mais cedo. E as
tuas mãos que me embalam numa doce tranquilidade, as tuas mãos que me
acariciam, as tuas mãos que seguram as minhas que tremem sem terem vontade de
parar. As tuas mãos que mudaram de dona com a idade mas que sempre lá estiveram
para me amparar, para me dar o que eu precisava ao longo do tempo.
É tão tarde e no entanto havia
tanto para conhecer, tanto para saber, tanto para viver, havia uma vida
completa e extensa por caminhar, uma série de paragens no caminho, havia uma
vida que nunca abria as portas na hora de bater e preferia abrir as pernas a
quem melhor pudesse exibir as cores do poder. Fodam-se todos de uma vez,
tiranos e tiranetes, vítimas da conveniência, filhos e filhas do medo que nunca
arriscaram, que nada souberam arriscar por recear partir mais cedo do que a
hora em que deveriam acabar. A vida é um pôr-do-Sol que se expande num fim da tarde
sobre o mar, é um riso desdentado de uma gargalhada com fraldas, um gemido
sentido de uma mulher rendida ao limite do seu prazer, um abraço entre amigos,
uma pedra contra um vidro, uma bebedeira sem sentido, um choro em coro pela
morte de alguém, a vida é sempre a vida desde que não se escolha ser ninguém.
É tarde, tão tarde que nunca
saberemos quantas cores têm os dias nem quantos paus fazem a jangada em que a
atravessamos, mas é aquilo que temos, ou tivemos, ou outra coisa qualquer em
forma de “assim”.
É sempre tarde e, no entanto, é
um prazer terminar, chegar ao fim, descansar, deixar para trás tanta coisa que
não percebemos, tanta coisa que não conseguimos encontrar, tanta coisa e coisa
nenhuma lá longe, inacessível, a acenar.
E, afinal, nem tarde nem cedo mas
um “agora” permanente e eterno, a consciência ou o “Ser”, a identidade de algo
pensante, possante. O dia que desmaia vagaroso sobre o mar, o caderno onde as
palavras se desenham a bailar, a parte de fazer parte sem lá estar, a alegria
de sair sem acabar. E acabar o Gin sem entornar, telefonar à gaja que se andava
a insinuar, dar um murro nos cornos daquele que nos andava a gozar, ouvir um
som no carro aos berros sem me espetar, ir do fim ao princípio da existência,
mergulhar a cabeça no mar…e ficar na mesma, sem perceber, sem sair do lugar.
É tarde…é tão tarde que já não há
nada para compreender, nada a não ser acabar.
Artur
quinta-feira, 7 de março de 2013
O TEMPO
O Tempo é a substância de que sou feito.
O Tempo é um rio que me arrasta consigo, mas eu sou o rio;
é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre;
é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.
Jorge Luís Borges
quarta-feira, 6 de março de 2013
UMA PASSAGEM PELO OESTE
Exactamente
quatro anos antes do dia da implantação da República em Portugal, um bébé nascia
filho de João Nobre e Albertina Nery, numa pequena aldeia rodeada por terrenos
baldios, poucos quilómetros a norte das Caldas da Rainha.
Teriam Evaristo e Angelina oportunidade de ver a família crescer em quinze netos e mais bisnetos, comemorando as bodas de ouro, vivendo a seguir a esse marco ainda quase por mais duas décadas com as alegrias e grandes desgostos que temperam a vida, não esperando muito ele lá do outro lado por ela.
Hélder
Vinha
esta criança a uma família de camponeses tão pobres, que até o apelido tinha
sido dado ao pai de João por ter sido impedido de um sargento Nobre,
compondo-lhe assim o nome de nascimento.
Evaristo,
o bébé, far-se-ia criança e ao contrário de muitos da sua idade enquanto
ajudava os pais na agricultura, ainda ia à escola onde aprenderia a ler e a
escrever.
Sopas
de urtigas ou de cardos eram refeições comuns nos seus primeiros anos, porque o
que os pais pagavam para poderem trabalhar nas courelas dos rendeiros era
demasiado, pouco sobrando para terem algo mais para comer. Também não se podia
dizer que os baldios fossem terrenos férteis, daí que todo aquele trabalho, por
ser o único disponível para aquela população, tivesse de ser suportado como
forma de subsistência ou de sobrevivência.
Os
tempos eram muito difíceis e a expectativa que aquelas populações rurais tinham
em ver a sua qualidade de vida melhorar, ia-se gorando à medida que a esperança
numa mudança positiva em resultado do derrube da monarquia, ia ficando mais longínqua.
Evaristo
crescia assim e tornava-se rapaz, com alguma vantagem sobre os da mesma idade,
pelas letras aprendidas até à terceira classe. Veria chegar os combatentes da
Grande Guerra, os que se tinham marcado no corpo e na alma na Batalha de La Lys.
Voltavam aqueles que tinham conseguido sobreviver, tuberculosos, gaseados,
estropiados, pagando desta forma a ousadia de terem toureado a morte.
Ironicamente esse infortúnio dos outros lembrava-o que havia mais terra do que
aquela que os seus olhos conheciam. Sonhava com melhores dias enquanto se
embeiçava por Angelina com quem viria a casar ainda adolescente.
Quatro
filhos depois e com a tropa feita aos 23 anos, frustrado por tanta miséria
piorada pela crise do final da década de 20, decide partir para França.
Consegue um contrato com o salário prometido de 23,10 francos diários e um
visto de trabalho passado pelo consulado de Bordéus a 18 de Setembro de 1930.
Sem perder tempo consegue juntar quinhentos escudos, uma pequena fortuna naquele
tempo, para pagar a 24 de Setembro a “Taxa de Licença” ao Regimento de
Infantaria nº5, e assim ter autorização para se ausentar do país. Paga ainda
mais 136$80 pelo passaporte de emigrante a 3 de Outubro e ficaria pronto para
embarcar numa aventura de três anos.
Deixando
a família para trás, parte para França onde chega e é vacinado a 8 de Outubro
de 1930. Começa a trabalhar a 10 de Outubro nas minas de carvão coque da Mines
& Usines de Decazeville, passando depois para uma das fábricas metalúrgicas,
até 2 de Fevereiro de 1931. Tem um breve trabalho nos caminhos de ferro na
empresa Vincenzini Dario - Ingénieur, sediada em Rouen, e depois passa então no
mesmo ofício de “carrier” para a empresa Gagneraud Père & Fils, onde estará
nas obras do caminho-de-ferro na zona de Poitiers, que seria mais tarde destruído
pelos bombardeamentos da II Guerra Mundial, a 13 de Junho de 1944.
Três
anos longe que vão trazendo mais saudade da família deixada em Portugal. Ainda
contacta o consulado português em Bordéus, para saber como e quanto custaria trazê-los
para si e para um outro mundo, onde trabalhar compensava monetariamente. No
entanto depois de uma resposta do consulado de 17 de Março, conclui que isso seria
muito complicado e caro e decide regressar a Portugal, saindo de França um mês
mais tarde, a 23 de Abril de 1933, deixando todas as portas abertas para regressar com
a família. Não voltaria.
Amealhou
nesse espaço de tempo, o suficiente arrendar uma grande propriedade com casa, que
anos mais tarde acabaria por comprar. Estabeleceu-se em negócios de
distribuição de lenha, adubos, vinhos e comprou ainda a taberna da aldeia, misto
de mercearia, onde mais tarde haveria o primeiro telefone público em
quilómetros em redor.
Tinha
assim arranjado forma, de encetar uma vida melhor para ele e para os quatro filhos
que entretanto trabalhariam nas terras e negócios do pai. Depois do regresso
dele de França, Evaristo e Angelina ainda teriam mais três.
Habituou-se
Angelina nesses três anos sem o marido, a ser a matriarca protectora do clã.
Não sendo uma mulher corpulenta, gostava de largar foguetes e dar tiros,
compensando com o estardalhaço, a falta de tamanho. Uma tesa mulher do oeste
selvagem, dedicada à sua prole e pronta a dar dois tiros para o ar, sempre que sentia
algo estranho, sozinha com os filhos na casa isolada plantada no meio da
propriedade de trinta hectares. Certa noite em que os cães não se calavam e com
uma arma nova, deserta para arranjar pretexto para a experimentar, depressa se
pôs porta fora, acabando de premir o gatilho de pernas para o ar e com as costas pregadas ao chão. A arma marcara-a no peito e no orgulho. Naquela noite
perdeu esse hábito, mas também por essa altura já todos lhe conheciam bem a
fibra.
Prosperava
Evaristo e num laivo de sorte quando a vida já lhe sorria, haveria de ganhar em
1935 a lotaria num grupo de três amigos, calhando-lhe cinco contos de réis.
Levou-o este bafo de Fortuna, a outro nível no jogo da vida. Mais depressa do
que um raio a notícia se espalhou, e logo apareceram alguns abutres para
depenicar o que pudessem, convencendo-o a entrar na sociedade da Companhia de
Vinhos do Oeste, através do investimento na compra de uma camionete para
transporte de vinhos tão necessária à sociedade, conferindo-lhe assim o
estatuto de respeitado e conhecido empresário das Caldas da Rainha. No entanto,
seria uma sociedade onde ele entraria com dinheiro num fluxo de sentido único,
tornando-se talvez no único erro da sua vida. Mesmo assim bem melhor do que os
outros dois, a quem os cinco contos se esfumariam sem história nem proveito
duradouro.
Das
memórias dos negócios de Evaristo, contaria ele de uma vez em que já altas
horas numa noite de lua cheia, voltava de bicicleta da Nazaré depois de ter
recebido um grande pagamento em dinheiro. Decorridos poucos quilómetros, dois
vultos saíram-lhe ao caminho numa ponte estreita sobre o rio Alcôa,
acercando-se lentamente e perguntando-lhe em jeito de não o afugentarem, qual
era o caminho para a Nazaré. Estacaram a aproximação pelo reflexo frio do luar
no metal reluzente da arma que trazia consigo, apontando com ela o caminho para
a Nazaré para um lado, o de Alfeizerão para o outro, e para o inferno se eles
se atrevessem. Não se atreveram e mais depressa desapareceram no breu.
Os
afazeres estendiam-se a todos os concelhos vizinhos, e um dia estava ele no
escritório da taberna a atender um cliente que tinha a peculiar alcunha de
“Sem-Cú”, quando um dos filhos os interrompeu a anunciar a chegada de outro de
cliente da localidade de Cortém. O primeiro percebeu outra coisa, num assomo
revoltado por ter entendido que o rapazola tinha provocadoramente anunciado ao
pai que “O senhor de “Cú-Tem” está ali fora à sua espera!...”, gerando-se assim
uma grande confusão. Acalmaram-se os ânimos explicada a situação, depois de uns
copos de vintém e de algumas gargalhadas.
Evaristo,
sem ligações ou cargos políticos, servir-se-ia da sua influência e reputação
respeitada na região, para ser o principal empreendedor no asfaltamento da única
estrada que ligava a aldeia ás Caldas da Rainha, até aí um caminho quase intransitável de terra
batida e amplas crateras, bem como pela electrificação de
toda aquela área, ainda antes do 25 de Abril de 1974. A festa da inauguração das
duas inovações foi no armazém de vinhos que possuía, contiguo à taberna, e que
já servia volta e meia para os bailaricos organizados pelos filhos, ao som de
uma grafonola e discos em cerâmica com polkas e valsas, trazendo assim um pouco
de animação a gentes que para além do duro trabalho, de uma côdea e de um copo
de vinho, pouco mais tinham que os distraísse e alegrasse. O progresso era
agora mais fácil, alterando significativamente a qualidade de vida daquela
comunidade.
Teriam Evaristo e Angelina oportunidade de ver a família crescer em quinze netos e mais bisnetos, comemorando as bodas de ouro, vivendo a seguir a esse marco ainda quase por mais duas décadas com as alegrias e grandes desgostos que temperam a vida, não esperando muito ele lá do outro lado por ela.
Hélder
terça-feira, 5 de março de 2013
CRÓNICA DE UMA MORTE ASSINALADA
Após a gigantesca manifestação de
2 de Março torna-se confrangedor o silêncio tanto das instituições (Governo e
Presidente da República) como da maioria dos actores principais do espectro
político. Em seu lugar correm os escribas de serviço desvalorizando,
minimizando, transformando os acontecimentos num fait-divers sem consequências, analisando o que não tem interesse
nenhum, insistindo na ideia de que no dia seguinte tudo vai ficar na mesma.
Ora, tanto a manifestação de 15 de Setembro como a de 2 de Março revestem duas
etapas incontornáveis, dois momentos mais do que simbólicos de que os dias
deste regime chegaram ao fim e que não há remendo suficiente para o manter de
pé. O regime esgotou-se sobre si mesmo, apodreceu e não tem mais nada para dar.
O que virá a seguir é sem dúvida uma colossal incógnita mas, a certeza de que
alguma coisa acabará por acontecer cresce de dia para dia. Muito melhor teria
sido que estas duas gigantescas manifestações incluíssem actos violentos, desacatos,
pretextos para ocupar as forças policiais, os escribas do regime e os ofendidos
governantes. Mas não. Em vez de uma aproximação à grega, o povo português
mostrou o seu civismo, o seu sentimento de pertença, a sua maturidade
democrática. O povo português fez questão de exibir o enorme volume da
população excluída, a maioria esmagadora da pessoas, esclarecendo que já não
vai embarcar em mais encenações que colocam uns contra os outros, que disfarçam
a incompetência com rectificações de última hora, que justificam o
injustificável.
O regime tal como o conhecemos
acabou mas isso não significa que caia hoje para amanhã se erguer outro no seu
lugar. Os regimes políticos em Portugal normalmente caem de maduros quando já
não têm nada onde se sustentar. Um dia o vento sopra mais forte, a terra gira
um pouco mais depressa e, eles simplesmente caem. Tal como a monarquia não caiu
logo após o assassinato do rei, este regime também não vai cair já. Mas que
terminou os seus dias, sobre isso não tenho dúvidas.
Aparte a asfixia de décadas a que
os partidos foram submetendo a população, governando e fazendo política nas
suas costas, excluindo a participação da sociedade, o governo actual acabou por
assinar a sentença de morte do regime no momento em que começou a disparar na
direcção dos poucos sectores da sociedade que o elegeram. Começando pela classe
média, a grande massacrada dos cortes, dos aumentos de impostos, da destruição
do estado social que sustentava praticamente sozinha. Foi essa classe média que
se apresentou de forma esmagadora nas duas grandes manifestações. Cortando a
torto e a direito em nome de uma rectificação, de um ajustamento financeiro, de
uma imposição dos credores internacionais, o governo falhou os seus objectivos,
voltou a falhar e falhou outra vez. Os sacrifícios da população não serviram
para coisa nenhuma a não ser o carregar ainda mais o futuro com nuvens negras.
A classe política continua alegre e contente a nadar nos seus privilégios, nas
suas reformas, no seu circuito fechado como se nada fosse, assobia para o lado
e faz interpretações semânticas das leis que publica para melhor continuar
instalada na sua posição de supremacia. A justiça, lenta, ineficaz, inacessível
aos de menores recursos, acompanha este abandono da população entregue á sua
sorte e ao seu trágico destino. A educação e a saúde seguem-lhe os passos.
Sobra um sector inatacável, inatingível, acima de tudo e de todos. O sector
financeiro, aquele cuja única função é acumular dinheiro sem nada produzir.
Aquele para quem os lucros são privados mas os prejuízos são públicos. Aquele
principal responsável pela crise que nos trouxe até aqui e que menos prejuízos
teve com ela. Por fim, as forças armadas e as forças de segurança. Não há
dinheiro, não há orientação estratégica, não há respeito nenhum pelo ultimo
reduto do sustentáculo do aparelho do Estado. A Democracia desapareceu quando
acabou o Estado de Direito, quando as instituições deixaram de responder aos
acontecimentos. O poder político perdeu influência, dignidade e capacidade
quando se deixou infiltrar pela especulação financeira que lhe passou a marcar
a agenda. Sem ninguém que proteja a sua soberania, o Estado deixa de existir. A
sociedade mudou de rumo no dia em que a maioria esmagadora das pessoas passou a
ser excluída das decisões, empurrada para o desespero, silenciada nos seus
direitos, escarnecida pelos mais fortes.
Que este regime terminou já não
há dúvidas nenhumas. Depende agora de quem ainda exerce o poder saber se
terminará de forma mais pacífica ou mais violenta, mais cedo ou mais tarde.
Pela parte da população a sugestão é ir mais pelo lado da solução islandesa do
que pelo lado grego. Mas ambas as hipóteses continuam em cima da mesa… A ver
vamos.
Artur
domingo, 3 de março de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
A DISSOLUÇÃO DA PERFEIÇÃO
No seu universo esteticamente perfeito
e equilibrado, Nandinho acreditaria quase até aos dez anos no Pai Natal e na
cegonha que traz os bébés de Paris.
No Pai Natal, porque todos os
natais recebia presentes que se materializavam na chaminé da cozinha, segundo
os seus pais, trazidos pelo generoso velhinho de longas barbas brancas, que
gostava de crianças e assim as recompensava por terem sido boas ao longo do ano
– para além das prendas recebidas, o implícito e inegável reconhecimento do bom
serviço prestado pelo pequeno! E depois, as prendas estavam lá, não estavam?
Prova aceite.
Na cegonha dos bébés, porque
sempre lhe tinham dito que era assim que os bébés eram trazidos aos pais. Além
disso, quando a irmã nasceu na mesma clínica onde ele tinha nascido, e o
levaram a vê-la pela primeira vez, lá estava num lugar de destaque do hall de
entrada, uma estátua em tamanho gigante de uma cegonha com uma fralda no bico e um bébé pendurado na dita, tudo isto em sinal de homenagem - prova
aceite.
Uma pura ingenuidade infantil
- por pouco adolescente - que o fazia viver num universo mágico de fantasia, ilusoriamente
fácil.
Mas era um universo como todos,
em evolução, revolução e mutação, à medida que foi descobrindo as cruas verdades
da vida.
A fenda que iniciou o
esboroar desta percepção perfeita, superprotegida, foi o seu primeiro contacto aos
quatro anos com a morte de alguém muito próximo. O seu grande amigo Reis tinha
ido de repente para um lugar incompreensível. Um lugar onde lhe diziam que ele
estava bem mas de onde não podia regressar. Toda a gente gostava do Reis e ele
não tinha feito mal nenhum a ninguém, era o seu melhor amigo, companheiro
protector de aventuras diárias. Os pais e a Nênê adoravam-no e ele tinha-se ido
embora para um sítio de onde não podia voltar, mesmo que quisesse?! Então
porque é que ele tinha ido para lá? Depois, os pais ainda lhe tinham dito para
não perguntar à Nênê pelo Reis, porque assim ela ficava ainda mais triste. Mas o
Reis já não gostava dele nem da Nênê? Coisa estranha e dolorosa que iria permanecer
por algum tempo na sua prateleira mental dos assuntos pendentes.
Até entender a morte. Até
começar a perceber que a vida não era só alegria e um torpor de sedosa
suavidade.
O contacto com as outras
vertentes da vida, fá-lo-iam valorizar todas as coisas que tinha tido como inquestionavelmente
certas.
Ele não viveria para sempre e as
pessoas de quem gostava também não.
O Pai Natal não existia.
Os bébés não eram trazidos de
Paris pelas cegonhas.
Há muitas coisas que não fazem qualquer sentido. Completamente incompreensíveis.
As pessoas podiam errar sem
querer, propositadamente, ou por convicção.
Ele também.
O conforto material não era acessível
a todos.
Aquilo que é certo para uns,
não o é para outros.
Muitos não aceitam essas
diferenças, a ponto de matar.
Poderiam ser diferenças
culturais, políticas, étnicas, religiosas, racistas, desportivas, de opção de
orientação sexual, e muitas mais numa listagem interminável.
Diferenças sem fim, que em vez
de tornarem o mundo mais diversificado, mais colorido e interessante, abriam valas
e erguiam muros entre pessoas, entre povos, muitas vezes por motivos extraordinariamente fúteis, sem
importância, ou por outros igualmente incompreensíveis como a ganância, a
arrogância, a soberba, o desejo de domínio sobre tudo e de todos sem olhar a
meios.
As diferenças, quando não se
sabem respeitar, tolerar, aceitar em coexistência, têm um potencial ilimitado para escravizar os mais
fracos ou acabar com aquilo que se tem de mais valioso quando se nasce e
enquanto por cá se anda, cada qual no seu Universo.
A preciosa
Vida.
Hélder
Hélder
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
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