sexta-feira, 8 de março de 2013

UM GIN AO FIM DA TARDE


É tarde, é tão tarde e ainda não viste nada, ainda quase nada se passou, sofrimento e alegria, marcos do caminho que percebes não percebendo, do amor que sentes não sentindo, forte e feio pelo destino acima. É tarde, é tão tarde para perceber que tudo sabe a pouco quando se quer tentar perceber o que raio significa tudo isto, estar aqui, porquê, de uma maneira que faça sentido, de uma maneira parecida com harmonias, de qualquer maneira passível de entrar por uma das portas do entendimento. É tão tarde e no entanto é tão alegre a imagem do crepúsculo, o adeus do Sol, o entendimento do fim. O fim, no fundo, a única razão, o único sentido, o remate lógico do absurdo que foi todo este caminho, o sentido perdido, a razão nunca encontrada. Nada, e como esta palavra reconfortante, corpo desejado de mulher inalcançável, como esta mulher ou esta palavra nos tranquilizam quando pronunciadas. Sentarmo-nos sobre o Nada e contemplar ao fim da tarde sobre um mar preguiçoso, um dia que se despede. Um gin tónico na mão, uma caneta na outra e as palavras que se vão desenhando sozinhas sobre o eterno caderno que nunca nos larga como se de uma identificação permanente estivéssemos a falar. As palavras que se desenham e dançam entre si um bailado que só elas conhecem, feito de pensamentos e desejos, remorsos e amores, os autores, os devedores, aqueles a quem ficou a faltar um cumprimento, uma vingança, um agradecimento. Fodam-se todos ao pôr-do Sol do dia em que me virem partir. Finjam as lágrimas ou sejam indiferentes como indiferente a vocês é este dia que acaba em paz sobre o mar.

Chegámos aqui sem saber nada e nada sabemos no dia em que formos embora. Uma viagem estranha, demasiado estranha para não ter sentido nenhum, uma viagem ao cu da ambiguidade eivado de penas e sofrimento, injustiças e dores. Algumas alegrias sem dúvida, mas apenas na dose suficiente para suportar as outras, para não rebentar mais cedo. E as tuas mãos que me embalam numa doce tranquilidade, as tuas mãos que me acariciam, as tuas mãos que seguram as minhas que tremem sem terem vontade de parar. As tuas mãos que mudaram de dona com a idade mas que sempre lá estiveram para me amparar, para me dar o que eu precisava ao longo do tempo.

É tão tarde e no entanto havia tanto para conhecer, tanto para saber, tanto para viver, havia uma vida completa e extensa por caminhar, uma série de paragens no caminho, havia uma vida que nunca abria as portas na hora de bater e preferia abrir as pernas a quem melhor pudesse exibir as cores do poder. Fodam-se todos de uma vez, tiranos e tiranetes, vítimas da conveniência, filhos e filhas do medo que nunca arriscaram, que nada souberam arriscar por recear partir mais cedo do que a hora em que deveriam acabar. A vida é um pôr-do-Sol que se expande num fim da tarde sobre o mar, é um riso desdentado de uma gargalhada com fraldas, um gemido sentido de uma mulher rendida ao limite do seu prazer, um abraço entre amigos, uma pedra contra um vidro, uma bebedeira sem sentido, um choro em coro pela morte de alguém, a vida é sempre a vida desde que não se escolha ser ninguém.

É tarde, tão tarde que nunca saberemos quantas cores têm os dias nem quantos paus fazem a jangada em que a atravessamos, mas é aquilo que temos, ou tivemos, ou outra coisa qualquer em forma de “assim”.

É sempre tarde e, no entanto, é um prazer terminar, chegar ao fim, descansar, deixar para trás tanta coisa que não percebemos, tanta coisa que não conseguimos encontrar, tanta coisa e coisa nenhuma lá longe, inacessível, a acenar.

E, afinal, nem tarde nem cedo mas um “agora” permanente e eterno, a consciência ou o “Ser”, a identidade de algo pensante, possante. O dia que desmaia vagaroso sobre o mar, o caderno onde as palavras se desenham a bailar, a parte de fazer parte sem lá estar, a alegria de sair sem acabar. E acabar o Gin sem entornar, telefonar à gaja que se andava a insinuar, dar um murro nos cornos daquele que nos andava a gozar, ouvir um som no carro aos berros sem me espetar, ir do fim ao princípio da existência, mergulhar a cabeça no mar…e ficar na mesma, sem perceber, sem sair do lugar.

É tarde…é tão tarde que já não há nada para compreender, nada a não ser acabar.

 

Artur

 

quinta-feira, 7 de março de 2013

O TEMPO


O Tempo é a substância de que sou feito.

 

O Tempo é um rio que me arrasta consigo, mas eu sou o rio;

 

é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre;

 

é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.

 

 

Jorge Luís Borges

quarta-feira, 6 de março de 2013

UMA PASSAGEM PELO OESTE

Exactamente quatro anos antes do dia da implantação da República em Portugal, um bébé nascia filho de João Nobre e Albertina Nery, numa pequena aldeia rodeada por terrenos baldios, poucos quilómetros a norte das Caldas da Rainha.

Vinha esta criança a uma família de camponeses tão pobres, que até o apelido tinha sido dado ao pai de João por ter sido impedido de um sargento Nobre, compondo-lhe assim o nome de nascimento.

Evaristo, o bébé, far-se-ia criança e ao contrário de muitos da sua idade enquanto ajudava os pais na agricultura, ainda ia à escola onde aprenderia a ler e a escrever.

Sopas de urtigas ou de cardos eram refeições comuns nos seus primeiros anos, porque o que os pais pagavam para poderem trabalhar nas courelas dos rendeiros era demasiado, pouco sobrando para terem algo mais para comer. Também não se podia dizer que os baldios fossem terrenos férteis, daí que todo aquele trabalho, por ser o único disponível para aquela população, tivesse de ser suportado como forma de subsistência ou de sobrevivência.

Os tempos eram muito difíceis e a expectativa que aquelas populações rurais tinham em ver a sua qualidade de vida melhorar, ia-se gorando à medida que a esperança numa mudança positiva em resultado do derrube da monarquia, ia ficando mais longínqua.

Evaristo crescia assim e tornava-se rapaz, com alguma vantagem sobre os da mesma idade, pelas letras aprendidas até à terceira classe. Veria chegar os combatentes da Grande Guerra, os que se tinham marcado no corpo e na alma na Batalha de La Lys. Voltavam aqueles que tinham conseguido sobreviver, tuberculosos, gaseados, estropiados, pagando desta forma a ousadia de terem toureado a morte. Ironicamente esse infortúnio dos outros lembrava-o que havia mais terra do que aquela que os seus olhos conheciam. Sonhava com melhores dias enquanto se embeiçava por Angelina com quem viria a casar ainda adolescente. 
Quatro filhos depois e com a tropa feita aos 23 anos, frustrado por tanta miséria piorada pela crise do final da década de 20, decide partir para França. Consegue um contrato com o salário prometido de 23,10 francos diários e um visto de trabalho passado pelo consulado de Bordéus a 18 de Setembro de 1930. Sem perder tempo consegue juntar quinhentos escudos, uma pequena fortuna naquele tempo, para pagar a 24 de Setembro a “Taxa de Licença” ao Regimento de Infantaria nº5, e assim ter autorização para se ausentar do país. Paga ainda mais 136$80 pelo passaporte de emigrante a 3 de Outubro e ficaria pronto para embarcar numa aventura de três anos.
Deixando a família para trás, parte para França onde chega e é vacinado a 8 de Outubro de 1930. Começa a trabalhar a 10 de Outubro nas minas de carvão coque da Mines & Usines de Decazeville, passando depois para uma das fábricas metalúrgicas, até 2 de Fevereiro de 1931. Tem um breve trabalho nos caminhos de ferro na empresa Vincenzini Dario - Ingénieur, sediada em Rouen, e depois passa então no mesmo ofício de “carrier” para a empresa Gagneraud Père & Fils, onde estará nas obras do caminho-de-ferro na zona de Poitiers, que seria mais tarde destruído pelos bombardeamentos da II Guerra Mundial, a 13 de Junho de 1944.
Três anos longe que vão trazendo mais saudade da família deixada em Portugal. Ainda contacta o consulado português em Bordéus, para saber como e quanto custaria trazê-los para si e para um outro mundo, onde trabalhar compensava monetariamente. No entanto depois de uma resposta do consulado de 17 de Março, conclui que isso seria muito complicado e caro e decide regressar a Portugal, saindo de França um mês mais tarde, a 23 de Abril de 1933, deixando todas as portas abertas para regressar com a família. Não voltaria.
Amealhou nesse espaço de tempo, o suficiente arrendar uma grande propriedade com casa, que anos mais tarde acabaria por comprar. Estabeleceu-se em negócios de distribuição de lenha, adubos, vinhos e comprou ainda a taberna da aldeia, misto de mercearia, onde mais tarde haveria o primeiro telefone público em quilómetros em redor.

Tinha assim arranjado forma, de encetar uma vida melhor para ele e para os quatro filhos que entretanto trabalhariam nas terras e negócios do pai. Depois do regresso dele de França, Evaristo e Angelina ainda teriam mais três.

Habituou-se Angelina nesses três anos sem o marido, a ser a matriarca protectora do clã. Não sendo uma mulher corpulenta, gostava de largar foguetes e dar tiros, compensando com o estardalhaço, a falta de tamanho. Uma tesa mulher do oeste selvagem, dedicada à sua prole e pronta a dar dois tiros para o ar, sempre que sentia algo estranho, sozinha com os filhos na casa isolada plantada no meio da propriedade de trinta hectares. Certa noite em que os cães não se calavam e com uma arma nova, deserta para arranjar pretexto para a experimentar, depressa se pôs porta fora, acabando de premir o gatilho de pernas para o ar e com as costas pregadas ao chão. A arma marcara-a no peito e no orgulho. Naquela noite perdeu esse hábito, mas também por essa altura já todos lhe conheciam bem a fibra.
Prosperava Evaristo e num laivo de sorte quando a vida já lhe sorria, haveria de ganhar em 1935 a lotaria num grupo de três amigos, calhando-lhe cinco contos de réis. Levou-o este bafo de Fortuna, a outro nível no jogo da vida. Mais depressa do que um raio a notícia se espalhou, e logo apareceram alguns abutres para depenicar o que pudessem, convencendo-o a entrar na sociedade da Companhia de Vinhos do Oeste, através do investimento na compra de uma camionete para transporte de vinhos tão necessária à sociedade, conferindo-lhe assim o estatuto de respeitado e conhecido empresário das Caldas da Rainha. No entanto, seria uma sociedade onde ele entraria com dinheiro num fluxo de sentido único, tornando-se talvez no único erro da sua vida. Mesmo assim bem melhor do que os outros dois, a quem os cinco contos se esfumariam sem história nem proveito duradouro.

Das memórias dos negócios de Evaristo, contaria ele de uma vez em que já altas horas numa noite de lua cheia, voltava de bicicleta da Nazaré depois de ter recebido um grande pagamento em dinheiro. Decorridos poucos quilómetros, dois vultos saíram-lhe ao caminho numa ponte estreita sobre o rio Alcôa, acercando-se lentamente e perguntando-lhe em jeito de não o afugentarem, qual era o caminho para a Nazaré. Estacaram a aproximação pelo reflexo frio do luar no metal reluzente da arma que trazia consigo, apontando com ela o caminho para a Nazaré para um lado, o de Alfeizerão para o outro, e para o inferno se eles se atrevessem. Não se atreveram e mais depressa desapareceram no breu.

Os afazeres estendiam-se a todos os concelhos vizinhos, e um dia estava ele no escritório da taberna a atender um cliente que tinha a peculiar alcunha de “Sem-Cú”, quando um dos filhos os interrompeu a anunciar a chegada de outro de cliente da localidade de Cortém. O primeiro percebeu outra coisa, num assomo revoltado por ter entendido que o rapazola tinha provocadoramente anunciado ao pai que “O senhor de “Cú-Tem” está ali fora à sua espera!...”, gerando-se assim uma grande confusão. Acalmaram-se os ânimos explicada a situação, depois de uns copos de vintém e de algumas gargalhadas.

Evaristo, sem ligações ou cargos políticos, servir-se-ia da sua influência e reputação respeitada na região, para ser o principal empreendedor no asfaltamento da única estrada que ligava a aldeia ás Caldas da Rainha, até aí um caminho quase intransitável de terra batida e amplas crateras, bem como pela electrificação de toda aquela área, ainda antes do 25 de Abril de 1974. A festa da inauguração das duas inovações foi no armazém de vinhos que possuía, contiguo à taberna, e que já servia volta e meia para os bailaricos organizados pelos filhos, ao som de uma grafonola e discos em cerâmica com polkas e valsas, trazendo assim um pouco de animação a gentes que para além do duro trabalho, de uma côdea e de um copo de vinho, pouco mais tinham que os distraísse e alegrasse. O progresso era agora mais fácil, alterando significativamente a qualidade de vida daquela comunidade.

Teriam Evaristo e Angelina oportunidade de ver a família crescer em quinze netos e mais bisnetos, comemorando as bodas de ouro, vivendo a seguir a esse marco ainda quase por mais duas décadas com as alegrias e grandes desgostos que temperam a vida, não esperando muito ele lá do outro lado por ela.


Hélder


terça-feira, 5 de março de 2013

CRÓNICA DE UMA MORTE ASSINALADA


Após a gigantesca manifestação de 2 de Março torna-se confrangedor o silêncio tanto das instituições (Governo e Presidente da República) como da maioria dos actores principais do espectro político. Em seu lugar correm os escribas de serviço desvalorizando, minimizando, transformando os acontecimentos num fait-divers sem consequências, analisando o que não tem interesse nenhum, insistindo na ideia de que no dia seguinte tudo vai ficar na mesma. Ora, tanto a manifestação de 15 de Setembro como a de 2 de Março revestem duas etapas incontornáveis, dois momentos mais do que simbólicos de que os dias deste regime chegaram ao fim e que não há remendo suficiente para o manter de pé. O regime esgotou-se sobre si mesmo, apodreceu e não tem mais nada para dar. O que virá a seguir é sem dúvida uma colossal incógnita mas, a certeza de que alguma coisa acabará por acontecer cresce de dia para dia. Muito melhor teria sido que estas duas gigantescas manifestações incluíssem actos violentos, desacatos, pretextos para ocupar as forças policiais, os escribas do regime e os ofendidos governantes. Mas não. Em vez de uma aproximação à grega, o povo português mostrou o seu civismo, o seu sentimento de pertença, a sua maturidade democrática. O povo português fez questão de exibir o enorme volume da população excluída, a maioria esmagadora da pessoas, esclarecendo que já não vai embarcar em mais encenações que colocam uns contra os outros, que disfarçam a incompetência com rectificações de última hora, que justificam o injustificável.

O regime tal como o conhecemos acabou mas isso não significa que caia hoje para amanhã se erguer outro no seu lugar. Os regimes políticos em Portugal normalmente caem de maduros quando já não têm nada onde se sustentar. Um dia o vento sopra mais forte, a terra gira um pouco mais depressa e, eles simplesmente caem. Tal como a monarquia não caiu logo após o assassinato do rei, este regime também não vai cair já. Mas que terminou os seus dias, sobre isso não tenho dúvidas.

Aparte a asfixia de décadas a que os partidos foram submetendo a população, governando e fazendo política nas suas costas, excluindo a participação da sociedade, o governo actual acabou por assinar a sentença de morte do regime no momento em que começou a disparar na direcção dos poucos sectores da sociedade que o elegeram. Começando pela classe média, a grande massacrada dos cortes, dos aumentos de impostos, da destruição do estado social que sustentava praticamente sozinha. Foi essa classe média que se apresentou de forma esmagadora nas duas grandes manifestações. Cortando a torto e a direito em nome de uma rectificação, de um ajustamento financeiro, de uma imposição dos credores internacionais, o governo falhou os seus objectivos, voltou a falhar e falhou outra vez. Os sacrifícios da população não serviram para coisa nenhuma a não ser o carregar ainda mais o futuro com nuvens negras. A classe política continua alegre e contente a nadar nos seus privilégios, nas suas reformas, no seu circuito fechado como se nada fosse, assobia para o lado e faz interpretações semânticas das leis que publica para melhor continuar instalada na sua posição de supremacia. A justiça, lenta, ineficaz, inacessível aos de menores recursos, acompanha este abandono da população entregue á sua sorte e ao seu trágico destino. A educação e a saúde seguem-lhe os passos. Sobra um sector inatacável, inatingível, acima de tudo e de todos. O sector financeiro, aquele cuja única função é acumular dinheiro sem nada produzir. Aquele para quem os lucros são privados mas os prejuízos são públicos. Aquele principal responsável pela crise que nos trouxe até aqui e que menos prejuízos teve com ela. Por fim, as forças armadas e as forças de segurança. Não há dinheiro, não há orientação estratégica, não há respeito nenhum pelo ultimo reduto do sustentáculo do aparelho do Estado. A Democracia desapareceu quando acabou o Estado de Direito, quando as instituições deixaram de responder aos acontecimentos. O poder político perdeu influência, dignidade e capacidade quando se deixou infiltrar pela especulação financeira que lhe passou a marcar a agenda. Sem ninguém que proteja a sua soberania, o Estado deixa de existir. A sociedade mudou de rumo no dia em que a maioria esmagadora das pessoas passou a ser excluída das decisões, empurrada para o desespero, silenciada nos seus direitos, escarnecida pelos mais fortes.

Que este regime terminou já não há dúvidas nenhumas. Depende agora de quem ainda exerce o poder saber se terminará de forma mais pacífica ou mais violenta, mais cedo ou mais tarde. Pela parte da população a sugestão é ir mais pelo lado da solução islandesa do que pelo lado grego. Mas ambas as hipóteses continuam em cima da mesa… A ver vamos.

 

Artur

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A DISSOLUÇÃO DA PERFEIÇÃO



No seu universo esteticamente perfeito e equilibrado, Nandinho acreditaria quase até aos dez anos no Pai Natal e na cegonha que traz os bébés de Paris.

No Pai Natal, porque todos os natais recebia presentes que se materializavam na chaminé da cozinha, segundo os seus pais, trazidos pelo generoso velhinho de longas barbas brancas, que gostava de crianças e assim as recompensava por terem sido boas ao longo do ano – para além das prendas recebidas, o implícito e inegável reconhecimento do bom serviço prestado pelo pequeno! E depois, as prendas estavam lá, não estavam? Prova aceite.
Na cegonha dos bébés, porque sempre lhe tinham dito que era assim que os bébés eram trazidos aos pais. Além disso, quando a irmã nasceu na mesma clínica onde ele tinha nascido, e o levaram a vê-la pela primeira vez, lá estava num lugar de destaque do hall de entrada, uma estátua em tamanho gigante de uma cegonha com uma fralda no bico e um bébé pendurado na dita, tudo isto em sinal de homenagem - prova aceite.

Uma pura ingenuidade infantil - por pouco adolescente - que o fazia viver num universo mágico de fantasia, ilusoriamente fácil.

Mas era um universo como todos, em evolução, revolução e mutação, à medida que foi descobrindo as cruas verdades da vida.

A fenda que iniciou o esboroar desta percepção perfeita, superprotegida, foi o seu primeiro contacto aos quatro anos com a morte de alguém muito próximo. O seu grande amigo Reis tinha ido de repente para um lugar incompreensível. Um lugar onde lhe diziam que ele estava bem mas de onde não podia regressar. Toda a gente gostava do Reis e ele não tinha feito mal nenhum a ninguém, era o seu melhor amigo, companheiro protector de aventuras diárias. Os pais e a Nênê adoravam-no e ele tinha-se ido embora para um sítio de onde não podia voltar, mesmo que quisesse?! Então porque é que ele tinha ido para lá? Depois, os pais ainda lhe tinham dito para não perguntar à Nênê pelo Reis, porque assim ela ficava ainda mais triste. Mas o Reis já não gostava dele nem da Nênê? Coisa estranha e dolorosa que iria permanecer por algum tempo na sua prateleira mental dos assuntos pendentes.

Até entender a morte. Até começar a perceber que a vida não era só alegria e um torpor de sedosa suavidade.

O contacto com as outras vertentes da vida, fá-lo-iam valorizar todas as coisas que tinha tido como inquestionavelmente certas.

Ele não viveria para sempre e as pessoas de quem gostava também não.
O Pai Natal não existia.
Os bébés não eram trazidos de Paris pelas cegonhas.
Há muitas coisas que não fazem qualquer sentido. Completamente incompreensíveis.
As pessoas podiam errar sem querer, propositadamente, ou por convicção.

Ele também.

O conforto material não era acessível a todos.
Aquilo que é certo para uns, não o é para outros.
Muitos não aceitam essas diferenças, a ponto de matar.
Poderiam ser diferenças culturais, políticas, étnicas, religiosas, racistas, desportivas, de opção de orientação sexual, e muitas mais numa listagem interminável.
Diferenças sem fim, que em vez de tornarem o mundo mais diversificado, mais colorido e interessante, abriam valas e erguiam muros entre pessoas, entre povos, muitas vezes por motivos extraordinariamente fúteis, sem importância, ou por outros igualmente incompreensíveis como a ganância, a arrogância, a soberba, o desejo de domínio sobre tudo e de todos sem olhar a meios.

As diferenças, quando não se sabem respeitar, tolerar, aceitar em coexistência, têm um potencial ilimitado para escravizar os mais fracos ou acabar com aquilo que se tem de mais valioso quando se nasce e enquanto por cá se anda, cada qual no seu Universo.

A preciosa Vida.

Hélder


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

AVISO

Vamos já avisando que este blog não passa facturas (ou serão faturas ?) e que os senhores fiscais escusam de se postar à nossa porta catando faltosos, relapsos, corrécios e outras espécies de contribuintes que, faltando ao dever de pedir o dito papelucho, tanto têm contribuído para que o Professor Doutor Vítor Gaspar se engane nas suas previsões e não consiga (pela terceira vez consecutiva) cumprir as metas do défice, errado nas previsões de queda do PIB (pela terceira vez consecutiva), do número de desempregados, de arrecadação de receita fiscal e outras minudências que só dizem respeito aos papalvos que o continuam a aturar (até quando ?).

FINS DE SEMANA EM FAMÍLIA - ANOS 60


Eram doces os dias daquele puto afortunado, e ainda mais os fins-de-semana em família com os pais e com o casal idoso que tomava conta dele durante a semana, aproveitando assim de uma penada todos os que mais lhe importavam.

Almoços de domingo numa Sintra calma e tranquila da segunda metade dos anos sessenta, ainda não adulterada por atentados arquitectónicos, nem sobrepovoada. Um recanto pitoresco, reservado a uns quantos privilegiados pelo doce bafo das queijadas, dos travesseiros e das circunstâncias da vida.

Havia idas estivais à Praia das Maçãs no embalo mágico de um comboio que na linha iniciada em Sintra, se punha a correr em carris que seguiam sinuosamente lado a lado com os carros, e nalguns pontos atrevidamente atravessavam a estrada, rompendo por uma paisagem de encanto, enquanto o “carocha” do pai ficava a folgar no estacionamento.

Noutros domingos, era a travessia de um deserto de campo aberto e vegetação rasteira entre o Cacém e Paço de Arcos ou Carcavelos, recompensada pela chegada a praias plenas de ar a mar, algas frescas e pequenas poças por entre as rochas deixadas pela maré baixa, carregadas de brindes – conchas, pequenos peixes e caranguejos.

Podiam ser tardes passadas no jardim de Queluz onde no seu triciclo de motor eléctrico oferecido pelo padrinho, procurava percorrer todas as possibilidades dos percursos na terra batida, antes que as pilhas acabassem.

Havia cinema em tardes passadas a ver o único canal de televisão, e a aproveitar a reposição das “novidades” do Ribeirinho, de Leitão de Barros ou dos filmes do Sabu, Tarzan e companhia.

Ás vezes, menos frequentes, eram as viagens de meio dia de duração até chegar ás Caldas da Rainha onde visitava a família materna, ou ainda mais raras e homéricas até à “antípoda” aldeia da família paterna, perdida nas serras de Proença-a-Nova.

De vez em quando, lá calhavam visitas ao Jardim Zoológico de Lisboa. No entanto, muito estranhavam os pais quando ao perguntarem-lhe se preferia ir ver a bicharada ou os aviões, prontamente trocava uma tarde de macacada, leões e elefantes, por contemplações infindas a partir das colinas no topo sul da pista do aeroporto de Lisboa, dos aviões a chegar e a partir não sabia para onde.

Fascinado por aquelas partidas para o desconhecido, mas por onde iam os pássaros, teve ali uma centelha aos três anos, daquilo que o atrairia mais tarde como modo de vida.

Voar.


Hélder

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

UNIVERSO COLAPSANTE



Na rua os cabelos e barbas estavam a crescer, reflexo de um misto de cultura “ye-ye” e de um simbolismo contestatário do sistema.

Lá por fora, uma revolução estudantil e um enorme evento musical enlameado, tinham ecos agitadores nas mentes mais esclarecidas e com maior acesso à informação.

Aos poucos ia-se sentindo uma baforada mais fresca, primaveril, que se prestava dentro de alguns anos a arejar o mofo de décadas de uma sociedade arrebanhada.

Naquele final dos anos 60, as saias usadas pelas jovens estavam a ficar com falta de tecido, talvez pelo uso excessivo dele pelas mais velhas, talvez por causa de uma irreverente Mary Quant.

Algures queimavam-se soutiens.

Vozes mais destemidas tentavam em surdina, um pigarreio que lhes permitisse exprimir de maneira mais clara o desacordo por um sistema e por uma guerra que levava aqueles que estavam na primeira linha da vida para abrir caminho a um futuro que se desejava melhor. Uma geração mais preparada, mais instruída do que as anteriores, lançada para selvas devoradoras de homens e almas. Isso e outras coisas que não se podiam questionar. As tais coisas sagradas pelas quais se cometem as maiores atrocidades: Deus, Pátria, Família, sendo que a sobrevivência da última era dada como motivo asfixiante para alimentar os das outras duas.

De vez em quando ouvia-se o lamento sumido de alguém que recebia um estropiado, um enlouquecido, uma morte. Nos Estados Unidos era a guerra do Vietname. Portugal tinha várias versões do seu Vietname na Guiné, Angola e Moçambique, que de tão insanamente reais para os que lá estavam, mesmo convertidas em escrita ou filme, nada deviam à americana. Este império a colapsar também tinha a sua Alcatraz no Tarrafal, reactivado em 1961 depois de um encerramento de sete anos, como Campo de Trabalho do Chão Bom, para receber os prisioneiros das colónias.

Uma brutalidade ilógica como todas as guerras, que em crescendo se tornava mais cruel e infindável, e por isso, a cada dia mais presente na vida de todos.

Uns anos antes em 1961, quando as colónias africanas se prestavam a agitar com a bandeira da independência, já o pai recebera ajudas de custo e guia de marcha para a India. No entanto, por um desígnio providencial livrava-se à ida. Na vertigem de ir para uma guerra anunciada, ele e os camaradas gastaram todas as ajudas de custo, criando-lhe uma chatice imprevista e de resolução tramada. No dia anterior à partida, ficou a saber que estava tudo cancelado e teria de as devolver. Valeu-lhe nova guia de marcha para Angola, trocada pela vontade de um camarada seu em ir na sua vez, poupando-o a uma página negra da história portuguesa.

O contingente português na India tinha-se rendido: o general Manuel Vassalo da Silva, o último governador do Estado Português da India, último governador-geral de Goa, Damão e Diu, poupara a vida de 4400 homens e evitara a destruição de Goa, numa clara afronta ao velho mais poderoso da nação que lhes exigia o sacrifício da vida na defesa do nome da pátria.

Seria o general Vassalo da Silva votado ao mais profundo desprezo por uma pátria que tinha servido com empenho, depois de recusar a sugestão do suicídio dada num encontro com um lacaio político na prisão indiana, que lhe tinha deixado em cima da mesa da cela um frasco com cianeto. Voltar à sua terra, só morto. Manuel Vassalo da Silva tinha trazido a Goa um desenvolvimento extraordinário nos últimos três anos de governação. No entanto, e tal como na segunda grande guerra tinha acontecido a outro grande português, o cônsul em Bordéus Aristides Sousa Mendes, que salvou muito mais altruisticamente do que Schindler milhares de judeus, a pátria mãe era madrasta com aqueles se atreviam corajosamente a desafiar, e efectivamente contrariar o poder instituído.

Anos mais tarde o velho cairia de uma cadeira, no Forte de S. Julião da Barra.

O miúdo tinha a sorte de ter uns pais que compraram uma televisão quando ele tinha oito meses, ouviam rádio e assinavam o Século Ilustrado, uma revista de actualidades onde a imagem era parte importante. Uma Time à portuguesa, embora com as “devidas correcções” do lápis azul. O garoto ainda não sabia ler, mas as imagens que via na televisão e nas revistas, a maioria delas de significado incompreensível para si, eram-lhe estimulantes e atraíam-no por coisas que não via no seu universo palpável.

Nunca se esqueceria, por toda a liberdade e equilíbrio que afortunadamente tinha na sua vida, do choque que teve, por uma chamada de atenção apavorada da Nênê. Tinha dito bem alto na rua a palavra “Rússia”!

Não era nenhuma asneira, porque essas aprendia-as com os primos mais velhos das Caldas da Rainha, que afincadamente se entretinham a fazê-lo repetir palavrões, como se de um papagaio se tratasse. Divertia-os disponibilidade dele para os satisfazer naquele chorrilho de impropérios inconsequentes. A ele divertia-o ser o palhaço de serviço, o actor principal que dava alegria à ampla plateia de uns quinze. Quando os pais depois o ouviam repetir aquelas palavras, diziam-lhe que eram palavras muito feias e para não as repetir, o que lhe causava alguma estranheza. Nosso Senhor zangava-se com os meninos que diziam aquelas coisas. “Palavras feias”… mas afinal elas faziam rir e eram feias?! Se faziam rir e rir era indiscutivelmente melhor que chorar, como podia Nosso Senhor ficar zangado por uma coisa que era boa? Ainda tentava com a Nênê e o Reis mas a reacção era a mesma, e assim ficava com dois carimbos de certificação, em como sabia que não as devia dizer a ninguém - bem, ao pé dos primos podia ser. Por isso, estranhou aquele susto da sua ama na reacção a uma palavra, que não estava no léxico das que lhe foram ensinadas pelos primos. Jamais se esqueceria.

Mais tarde, não muitos anos depois, haveria de compreender porquê.

Mas para aquele pequeno selvagem livre, o primeiro contacto com a censura, mesmo em versão protectora, a sensação foi inesquecível, momentaneamente castradora. 

Uma gaiola sem grades.

Hélder

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

LIÇÃO PRÁTICA DE DIALÉTICA HEGELIANA POST-MARXISTA

Factos: Passos Coelho foi interrompido quando discursava no Parlamento por um grupo de pessoas entoando a canção "Grândola Vila Morena". Miguel Relvas foi interrompido no denominado Clube dos Pensadores por um grupo de pessoas entoando a mesma canção e insultos variados. Miguel Relvas foi impedido de discursar no ISCTE por um grupo de estudantes entoando a sobredita canção e proferindo insultos avulso. Paulo Macedo discursava no Porto e foi interrompido por pessoas que entoaram "Grândola" e proposições avulsas contra as políticas deste Governo em geral, e contra as políticas de Macedo em particular.

Tese: Algumas almas bondosas e eivadas de espírito democrático manifestaram-se contra tal estado de coisas. Dizem elas que é inaceitável que cidadãos de qualquer categoria, mormente membros do Governo, sejam impedidos de manifestar publica e livremente as suas opiniões, constituindo tais factos uma subversão de um dos princípios fundamentais do Estado de direito e um atropelo a um direito consagrado constitucionalmente.

Antítese: É bom que estes governantes percebam que ainda existem pessoas que não estão dispostas a engolir as mentiras, trapalhadas, mistificações e aldrabices com que nos bombardeiam diariamente. É excelente que estas pessoas, formalmente legitimadas por um mandato que lhes foi concedido pelo soberano (o povo) para governarem em seu nome e que tudo têm feito para subverter o dito Estado de direito, a começar pela desvalorização e achincalhamento da Constituição, percebam que estão apenas a colher aquilo que semearam: embora não pareça, os direitos que sonegam aos cidadãos, a preversão ideológica com que perspectivam tudo aquilo que constitui a cidadania, os actos que diariamente empreendem e que prefiguram uma Revolução Cultural maoísta "soft", têm um correlato directo numa forma de contestação que não pode ser detida à bastonada e que não pode ser calada porque encontrará sempre vias de se fazer ouvir. Para além disso, estas pessoas não precisam de outros palcos para propagarem a sua ideologia manhosa e as suas ideias bacocas; para falarem de "mercados", ajustamento", "reforma do Estado" e outras baboseiras do género bastam-lhes os "microfones com pernas" (Marinho Pinto dixit) que são os jornalistas sempre à cata da última declaração de quem não tem nada a declarar, senão mais um acto da tragédia constituída pela sua governação.

Síntese: Segundo o filósofo Georges Steiner "todo o acto de pensamento é uma acto linguístico". Logo, quem pensa mal só pode expressar mal aquilo que pensa. Inversamente, se fala mal é porque pensa mal. Se compulsarmos as expressões empregues pelo Primeiro Ministro ("mais bom gosto", "pratos que se habituaram", "que se lixem as eleições" e por aí fora) e o discurso pobre e ignorante dos restantes membros do Governo (lexical, semântica e gramaticalmente indigente) só poderemos concluir pela deficiente ou ausente qualidade do seu (deles) pensamento. Ou ainda, como certa vez Marcello Caetano (cruzes canhoto !!!) disse de uma célebre personagem do antigo regime: "Ele tem ideias inteligentes e originais. Pena que as inteligentes não sejam originais, e que as originais não sejam inteligentes". Portanto, o abandalhamento do espaço de comunicação pública com falsidades e mentiras, servidas por um paupérrimo discurso, só poder ser combatido com formas, ainda assim muito suaves, de contestação que impeçam esse mesmo discurso de poluir e emporcalhar a vida pública. Deixem-se ficar acantonados nos seus gabinetes, levando a cabo as suas tenebrosas tarefas, ou façam como o Prof. Cavaco que se deixou de ouvir há cerca de dois meses, não havendo notícia de alguém sentir a falta das suas banalidades e tergiversações. Por outro lado, há que obtemperar a falta de qualidade dos discurso dos nossos governantes e mitigar a irritação suscitada pelas suas aparições e discursos públicos: quem passou a vida inteira metido nos pântanos de mediocridade e selvajaria das juventudes partidárias, aprendendo a forma de conquistar e manter o poder, se possível enriquecendo e fazendo enriquecer os amigos à custa do erário público, não teve tempo de tomar contacto com os grandes cultores da língua portuguesa : Padre António Vieira (não, sr. Primeiro Ministro, não poderá contactá-lo na sua paróquia para lhe pedir uns conselhos), Sá de Miranda, Luís António Verney, os grandes poetas do século XVIII, os grandes prosadores do século XIX, Eça de Queiróz, Camilo Castello Branco et altri. Restam-lhes as patéticas formas vernaculares de discurso, as declarações arrastadas e entarameladas, recheadas de termos técnicos que não significam nada, para além do jargão inóspito com que pretendem ser sérios e demonstrar competência e o folclore surreal daquilo a que os franceses chamam "langue de bois", ou "língua de madeira", para quem não domina a língua de Molière, Racine e Balzac.


P.S.  Disse um dia Baudelaire nas suas "Fleurs du Mal" ("Flores do Mal" para quem não domina a língua de Pascal, Appolinaire, Rimbaud e Lautréamont): "Nada conheço da alma de um patife. Mas conheço a alma dos homens sérios, de fatos de bom corte, de bons hábitos, com amigos influentes: é de estremecer de nojo e de horror".

WE ARE ONE


terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

WIR SIND JUDEN – ALLES JUDEN


A História tem um fecho que esconde o lado mais negro da humanidade. Um fecho de onde sai um cheiro nauseabundo a tirania e pedaços de excrementos feitos de intolerância, extermínio e medo. De vez em quando consegue-se fechar essa cloaca imunda, de vez em quando ela volta-se a abrir. Nos dias que correm o fecho voltou a estar aberto sem que se consiga prever com grande exactidão o momento em que se conseguirá voltar a fechar. De cada vez que abre o fecho expele cada vez mais sofisticada matéria.

Hoje o buraco chega de mansinho com cantiguinhas de liberdade e democracia em vez de discursos empolgantes e radicais, paradas militares e fanatização/bebedeira colectiva. Hoje o buraco repete exaustivamente que és livre para melhor te escravizar, para melhor te tornar num autómato ao serviço da sua causa. Hoje já não é preciso encerrar-te em guetos e obrigar-te a usar estrelas de David ao peito; hoje não te arrancam de casa à força de insultos e coronhadas; hoje não separam os avós e os netos à entrada do campo, deixando os adultos em idade produtiva longe dos fornos crematórios ou do Zyklon B. Não!

Hoje convencem-te que és livre e que tens dinheiro, que podes ter tudo o que quiseres para depois te escravizarem enquanto toda a tua força de trabalho se esgota nos juros dos empréstimos que te fizeram; hoje não mandam a tropa a tua casa aos gritos a meio da madrugada. Em vez disso enviam-te um aviso das Finanças, aumentam-te os impostos a um ponto que não os poderás conseguir pagar, tiram-te a casa que nunca foi tua e mandam-te ir viver para debaixo da ponte. Hoje não constroem campos de extermínio, exterminam os direitos básicos da população, o direito à saúde, à educação, ao trabalho. Exterminados os direitos começarás a ser um nada cada vez maior com o passar dos dias. Um nada atacado pelo medo, pela depressão, um nada que se acabará por dissolver ao saltar de uma ponte, ao disparar um tiro na cabeça. E o nada que já existia confirma-se no nada que deixou de ser. Começarão pelos mais fracos, velhos e crianças, não precisando de os separar á entrada do campo. Separam-nos na secretaria com as eternas desculpas de que não há dinheiro para tanta gente, não há dinheiro para um estado social, não há dinheiro para nada. Apenas para manter de pé as instituições da ganância, da usura e da pilhagem legalizada. As mesmas que sustentam a secretaria, o escritório das leis, a manipulação da justiça.

Mas hoje como ontem, por mais sofisticados que sejam, por mais subtis que se consigam insinuar, por mais catastróficas que as suas acções possam ser, há sempre um erro, um erro que insistem em cometer. Esquecem-se que depois do dilúvio, da seca sem fim, da fome, da injustiça, da brutalidade e da carnificina, depois de todas as atrocidades e de todos os genocídios haverá sempre quem sobrevive, haverá sempre alguém que termina a viagem como gado até ao campo, haverá sempre alguém que acorda e, que no acto de acordar acorde os outros. Esquecem-se sempre da força das vítimas que espezinham que aumenta em cada hora que passa. Esquecem-se que são muitos, muitos mais que eles, os filhos do fecho do cu do mundo, e que em qualquer momento vão perceber que têm muito mais força que eles. Subestimam a sua força e esse será sempre o seu eterno erro. No fim encontram sempre o fecho, o cu do mundo e da História e voltam a fechá-lo a sete chaves. Haverá sempre alguém que acabará por dizer: Basta! Falo daqueles que ficarem do lado de cá. Os que estiverem do outro lado também não descansarão enquanto não voltarem a fechar o fecho. Assombrarão os carrascos fazendo-os urrar de medo e remorso, inspirarão os rebeldes a pendurá-los bem alto no poste dos traidores. Sim, esses que nunca acabam continuarão vivos e voltarão a fechar o cu da História para que a Humanidade consiga voltar a respirar durante mais algum tempo em paz.

 

Artur

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A MARCA AMARELA

 

Ficava na secretaria da catequese da igreja de Sto. Condestável. Um grupo de álbuns de banda desenhada que era normalmente utilizado por aqueles a quem os pais se atrasavam a vir buscar. Entre vários, a minha curiosidade concentrava-se n’ “A Marca Amarela”. Saía das aulas da catequese em linha recta para a secretaria e não descansava enquanto não deitava mãos aquele álbum que me fascinava sem ter as razões concretas para tal deslumbramento. Infelizmente a minha avó não demorava muito a vir-me buscar com grande tristeza minha. Durante alguns meses nunca conseguia passar das primeiras vinte páginas onde os amigos Blake e Mortimer deambulavam por uma cidade de Londres escura e chuvosa, cavaleiros andantes na senda das ameaças e dos mistérios que colocavam em perigo o mundo inteiro. Mais tarde o meu pai, também ele apreciador do género, acabava por me oferecer esse álbum (a que se seguiram outros) dando-me finalmente a possibilidade de chegar ao fim naquela fantástica aventura. Anos depois a minha tia Paula emigrou para Inglaterra, onde casou e teve o seu único filho. Com esta família passei alguns dos melhores e mais felizes natais da minha vida a começar pelo dos meus doze anos, a primeira vez que visitei Londres. Nessa estadia lembro-me perfeitamente de uma tarde em que o meu tio Frank me levou a visitar a Torre de Londres (onde tudo começa n’ “A Marca Amarela”) e a paisagem urbana envolvente. Não faltava ali nada, a chuva, o frio, a noite escura e antecipada de Inverno, o rio Tamisa, Waterloo Bridge, Westminster. A minha fascinação pré-adolescente dizia-me que estava dentro do universo de Blake e Mortimer e que seria perfeitamente plausível que a silhueta de um deles aparecesse ao virar de uma esquina. Anos mais tarde (92), os Rádio Macau lançaram um álbum com o mesmo nome. Numa das poucas vezes que falei com o Alex perguntei-lhe se o título havia sido retirado do livro de Edgar P. Jacobs. Já não me lembro o que é que ele respondeu mas era capaz de jurar que confirmava a minha suspeita, em homenagem ao fascínio sentido na nossa infância. Em diferentes épocas da minha vida o universo de um álbum clássico da banda desenhada visitou-me, surpreendendo-me sempre de cada vez que o fazia com algo novo.

O Passado é uma maneira de nos lembrarmos de alguma coisa mas tem uma função ainda mais importante que é o facto de nos ajudar a construir quem somos, a estruturar o Ser. As memórias ficam dentro de nós enquanto inquilinos permanentes sem os quais a definição de identidade fica irremediavelmente incompleta e, consequentemente, seriamente comprometida. Talvez porque este blog entrou numa modalidade de nostalgia, talvez porque já há muito tempo que queria falar n’ “A Marca Amarela” e de como ela se inscreveu várias vezes no meu caminho, aderi ao season spirit. Com as memórias de estreia do Hélder e o brilhante texto do Arnaldo sobre o Cinema Europa, o certo é que me vi á vontade para explorar este campo.

As memórias, nunca é demais dizê-lo, ajudam a estruturar quem somos. Elas fizeram-nos e nós fabricamo-las um pouco todos os dias tornando-as propriedade nossa. Á medida que o tempo passa, o acto de lembrar é a ferramenta ideal (se calhar a única) que não nos permite afastar, ir para muito longe de nós mesmos. O cinema da infância que foi demolido não deixou por isso de existir. Ficou gravado na imaginação da época, primeira porta aberta para o mundo. O café da adolescência não encerrou definitivamente com grande tristeza nossa apesar de nos últimos dez anos lá termos passado duas ou três vezes. E, por fim, o Passado não é um país distante. É antes uma casa na qual vivemos quase todos os dias (vá lá, todas as semanas), um espaço de onde saímos frequentemente porque temos de ir trabalhar, visitar outros, tomar conta de partes da vida que vivemos em comunidade. O Passado é um amigo silencioso que nos deixa recados espalhados pelos cantos da casa, talvez em pequenos post its amarelos, sendo essa a cor da sua assinatura...a marca amarela…

 

Artur