terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

PRAIA DAS MAÇÃS

                                             José Malhoa (1918)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

BUÑUEL – QUE VIVA MEXICO


                                                       LOS OLVIDADOS
 
O período mexicano, sendo o menos conhecido é talvez o mais completo na obra de Luís Buñuel. Após uma série de contratempos na sua estadia nos Estados Unidos, que vem a culminar no seu despedimento do MOMA, o cineasta vem a descobrir em terras mexicanas a sua grande oportunidade. No final dos anos 40 a Cidade do México é invadida por um ambiente artístico e cultural extremamente cosmopolita composto tanto pela parte hispânica como pela grande comunidade internacional de exilados do pós II Guerra Mundial. Luís Buñuel deixa-se conquistar por este ambiente e opta pela cidadania mexicana. A partir daqui a sua obra encontra o espaço e o amadurecimento necessários que o tornarão uma das referências incontornáveis do panorama cinematográfico mundial. Ao longo de 35 anos roda cerca de 20 filmes, desenvolvendo os conceitos mais significativos da sua cinematografia: elementos surrealistas, o melodrama, a comédia e a sátira social.

De radical vanguardista e arrojado surrealista, no México Buñuel vai aos poucos transformando-se num subversivo comprometido com o filme popular e as suas fórmulas. Apesar de nesta fase os seus filmes serem essencialmente comerciais e disporem de fracos recursos isso não o impede de, através de métodos narrativos aparentemente simples, insistir e desenvolver as suas obsessões de sempre. O machismo e o desejo feminino (EL BRUTO; SUSANA); o peso e a solidão do exílio (THE YOUNG ONE). Dentro de toda esta panóplia comercial e fraca de recursos acabará por alcançar o topo com obras como EL, EL ANGEL EXTERMINADOR, SIMÃO DO DESERTO e LOS OLVIDADOS, recebendo com este último o prémio para o Melhor Realizador no Festival de Cannes.

LOS OLVIDADOS (1950), considerado por muitos como o melhor filme desta fase, retrata de forma cáustica a marginalidade e a delinquência juvenis na cidade do México, combinando elementos realistas com poderosas sequências de sonho e evasão, o que serve para aprofundar ainda mais o dramatismo das personagens. Em contraste com o êxito internacional, a crítica mexicana não o poupa, acusando-o de denegrir a reputação do seu país.

El é o retrato perturbador de um homem respeitável obcecado pelo ciúme da sua mulher, obsessão que acaba por a destruir.

Tanto na abordagem da sociedade como na das relações homem/mulher não existe qualquer maniqueísmo definido. Num caso as relações familiares podem configurar a tirania e a repressão dos indivíduos, a amizade pode rapidamente converter-se em traição. Na oposição homem/mulher a sensualidade masculina confunde-se com a vontade feminina em dimensões que acabam por ridicularizar as pretensões do machismo.

SIMON DEL DESIERTO
Por fim o regresso aos conteúdos surrealistas na análise e ridicularização das crenças religiosas (EL ANGEL EXTERMINADOR e SIMÃO DO DESERTO). Explorando o ridículo e a irracionalidade do preceito religioso Buñuel acaba por acabar na crítica às pretensões de uma classe dominante mexicana. A própria ilusão é subvertida confrontando a fraqueza humana com a obsessão espiritual, a um ponto em que estamos irremediavelmente perdidos, desorientados…entregues a nós próprios e á nossa solidão.

E é neste território em que Buñuel nos abandona que tudo pode acontecer.

Ao nos trazer uma profundidade filosófica reforçada na expressividade e na surpresa, o que o realizador nos abre é uma janela meditativa. Um espaço aberto onde melhor podemos reconsiderar os ideais religiosos, as contradições políticas e a ligação directa entre a violência e o desejo. E a “fase mexicana” é sem dúvida o laboratório e a rampa de lançamento para todo este cenário.

 

Artur

domingo, 10 de fevereiro de 2013

LUIS BUÑUEL – O PRINCÍPIO


 
                                               UN CHIEN ANDALOU

Luís Buñuel (1900 – 1983) nasceu na província de Aragão e fez os seus estudos secundários em Saragoça nos jesuítas. Ao chegar a Madrid irá conhecer Gomez de la Serna, Garcia Lorca e a geração de 1927. Tal como eles escreve poesia, assina uma rubrica cinematográfica na “Gaceta Literária” e anima as sessões do primeiro cine clube espanhol. Em Paris torna-se assistente de Epstein e em 1928 realiza o seu primeiro filme com Salvador Dali, UN CHIEN ANDALOU, abrindo o caminho para o movimento surrealista. A este propósito escreverá:
 
             “O Surrealismo ensinou-me que na vida existe um sentido moral que
              O homem não pode deixar de seguir. Através dele apercebi-me que
               o homem não é livre.”
 
L’AGE D’OR (1930) surge no meio de ferozes críticas dos sectores mais conservadores ( Juventude Católica, Liga dos Patriotas e Liga Anti Judia) acabando por ser interdito após a destruição do cinema onde era exibido. Os surrealistas saem em sua defesa. “Buñuel formulou uma hipótese sobre a revolução e o amor que toca o mais profundo da natureza humana” – escreveu-se na altura.
De regresso a Espanha roda TIERRA SIN PÁN (1932), um documentário acerca de uma região deserta e amaldiçoada que vive nos limites da barbaridade. O governo republicano proíbe-o. Entretanto torna-se elemento importante da Filmofono, empresa madrilena empenhada na produção de filmes populares e tendenciosos. No começo da guerra civil será produtor executivo de quatro longas metragens. Monta o filme de propaganda ESPAÑA 1937. O fim do conflito apanha-o nos Estados Unidos a trabalhar no Museu de Arte Moderna (MOMA) em Nova Iorque. Acabará por partir para o México onde continuará a filmar entre 1946 e 1955.
                                             L'AGE D'OR
Desta primeira fase da sua vida, tanto UN CHIEN ANDALOU como L’AGE D’OR consolidam-se enquanto as traves mestras daquilo que vai ser tudo o resto da sua obra. Se no primeiro as imagens oníricas se associam ao desejo erótico, no segundo denunciam-se os obstáculos encontrados na sociedade burguesa e intrísecos à moral cristã. Em ambos os casos vamos encontrar uma total subversão dos valores estabelecidos para além de uma blasfema homenagem a Sade. UN CHIEN ANDALOU começa logo com a imagem de um olho a ser cortado por uma lâmina de barbear enquanto uma nuvem se cruza no caminho da Lua cheia em analogia de movimento. O choque inicial liberta a mente de qualquer tipo de associações e prepara-a para as imagens que se seguem: o padre arrastado por burros estrada fora; o cavalo morto sobre o piano; a multidão que contempla uma mão isolada numa estrada. Serão imagens demasiado horrorosas para se gostar, para se importar com o que significam se é que querem significar alguma coisa.
No entanto Buñuel não utiliza a experimentação de forma gratuita. Pretende recriar uma realidade poética, desmontar as vias normais do espectador, surpreender para melhor alterar a sua forma de observar.
L’AGE D’OR não é um filme de ambiguidades mas antes veículo de transporte da mensagem surrealista “ao serviço da revolução”. Dividido entre a sátira, o humor negro o erotismo e a heresia, dispara em todas as direcções ansioso por ferir e chocar o máximo possível de espectadores. É inovador pela dissociação do som com a imagem, utilização do diálogo em OFF, mistura de música clássica com paso doble. Há esqueletos com mitras na cabeça, cegos pontapeados, uma rapariga que chupa o dedo de uma estátua de forma despudorada. Anos mais tarde Buñuel dirá: “Depois dos assassínios em massa dos nazis e das bombas atómicas no Japão é impossível conseguir voltar a chocar.”

TIERRA SIN PAN / Las Hurdes
Em TIERRA SIN PAN a violência é contida. Buñuel apercebe-se que a condição desesperada daquelas gentes fala por si sem necessidade das indignidades da interpretação. Má nutrição, falta de higiene, relações intermatrimoniais, tudo é simplesmente registado pela câmara num plano de uma mulher de 30 anos que parece ter 60. À compaixão e ao humanismo o realizador prefere a lucidez e a revolta. A região, não muito longe de Salamanca, engloba um total de 52 aldeias para uma população de oito mil habitantes cuja alimentação é à base de feijão e batatas. Quando estes escasseiam são obrigados a subir às montanhas em busca de frutos silvestres. Em contraste com esta condição de miséria da população as igrejas vão cumulando riqueza. E bastou uma breve referência a este respeito para o filme ser banido em Espanha.

A luta contra a tirania, a denúncia da escravidão humana, a sátira, bem como a utilização do sonho enquanto porta para o inconsciente fazem parte integral do método de Buñuel acompanhando-o ao longo de toda a obra.

No México Buñuel vai dar continuidade ao seu trabalho, voltando a filmar em Espanha em 1961.

 

Artur

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

SEM TÍTULO

Eis a semana de um homem vulgar:

Sábado: (manhã) Reunião com um grupo de Aikido na Várzea de Sintra: duas horas a praticar a nobre arte, de uma forma descontraída, alegre, quedas e mais quedas, por vezes sem motivo, só pelo prazer de cair. Este, como todos os outros prazeres, tem muito que se lhe diga.

O sábado, adiantada manhã, começa a degradar-se: compras, o afã das compras, a tortura do supermercado, tentando não gastar muito dinheiro (coisa difícil, quando temos que alimentar cinco pessoas, sendo duas deles uma nova espécie de lobos esfomeados, que devoram tudo o que não mexe (e às vezes também o que mexe...)).

Adio para o fim da tarde um passeio na praia com a Matilde e o cão. Finalmente, nem para o fim da tarde.

Domingo: Almoço. A única vez em toda a semana que consigo reunir à mesa toda a matilha. Aproveito para exercer a esvaída autoridade paternal, fazendo perguntas, dando conselhos, fingindo uma sabedoria que não possuo e que, não possuindo, não posso transmitir (lembro-me do verso de Camões: "Não está em meu poder dá-la nem quitá-la"). Proíbo pela enésima vez o uso de telemóveis à mesa. Uma conversa sobre futebol entre os dois mais velhos descamba numa acesa discussão, seguida de insultos verbais e ameaças de agressão física. A custo, ponho cobro aos desmandos e remeto-os para as suas vidas, dispensando-os do almoço familiar e da maçada de aturarem os velhos, a miúda, o cão, os sermões e as perguntas indiscretas. Apaziguados, voltam tranquilamente aos telemóveis, aos computadores e a quaisquer outras parvoíces a que os adolescentes de hoje se dedicam.Não por muito tempo. Daqui a pouco virão, mansos e cordatos, pedirem a subvenção para a gasolina e para "um café".
Finalmente, consigo chegar à praia. Está sol, mas o vento quase não deixa que nos ouçamos. O cão foge e vai incomodar um casal de namorados entretidos nas promessas mútuas e em outras brincadeiras. Fazem cara de poucos amigos. Seguimos em frente, isto é, para o lado, já que a ventania não deixa que façamos um percurso normal. "-Pai, estamos à espera da Primavera ? Sim. - E porque é que a Primavera ainda não chegou ? - Porque o planeta tem que rodar à volta do Sol, para que as estações mudem - Então, porque é que o planeta não fica sempre quieto  e assim, era sempre Primavera, estava sempre bom tempo e muito quentinho..." Quem me manda a mim verter sobre mentes infantis os poucos conhecimentos científicos que possuo ? A lógica das crianças opõe uma barreira intransponível às grandes leis que gerem o Universo.
À noite procuro ajudar o do meio na interpretação de "Felizmente Há Luar". A obra de Sttau Monteiro provoca bocejos, olhadelas ansiosas para o telemóvel estrategicamente colocado na cadeira, e uma generalizada aversão a histórias que não metam lutas entre gangs rivais massacrando-se mutuamente com a ajuda de serras eléctricas e picaretas, surfistas capazes de vencerem ondas de 100 metros enquanto deglutem hamburguers e piscam o olho às fãs bronzeada em fio dental que, da praia, torcem e sofrem por eles ou de condutores de carros que circulam a duzentos à hora na baixa da cidade, em hora de ponta, toureando incólumes autocarros, peões, polícias e bombeiros, deixando atrás de si um rasto de destruição semelhante ao das cidades bombardeadas durante a II Guerra Mundial. A Literatura portuguesa não tem futuro. Finalmente, quando o gado menor recolhe aos aposentos (para mais meia hora de comunicação infrene com os membros da seita que não viam há meia hora e com quem hão-de estar logo de manhão, às oito horas) e a patroa, derreada, também se vai deitar, preparo-me para ver um filme, escolhido criteriosamente : "Una Giornata Particolare", de Ettore Scola. Adormeço no sofá, ao fim de dez minutos, ainda o Mastroianni não tinha conhecido a Loren, sua parceira desse dia "tão especial".
O Domingo aproxima-se do fim. Balanço : 1-1.


Segunda, terça, quarta, quinta,. sexta: Trabalho. Olho para esta casa, o local onde há 25 anos desenvolvo a minha actividade profissional e lembro-me dos tempos esplendorosos que aqui vivemos. Onde estão esses tempos ? Olho para os esforços que continuamos a fazer e pergunto-me como é possível continuarmos a desenvolver as nossas actividades, proteger o património e prestar serviço público, se tudo isso é considerado despesa supérflua ? Observo a estratégia da luminária das Finanças: estrangular e constranger as instituições até que elas, por si próprias, diminuam as suas actividades para o minímo dos minímos. Exaustas e esgotadas, hão-de render-se à sua evidente inutilidade. Pois desengane-se, sr. Gaspar: daqui a uns anos ninguém se lembrará de si (a não ser pelo pormenor de ter conseguido destruir o país) e a Cinemateca e outras instituições ainda andarão por aqui; os especatdores continuarão a vir às salas de cinemas, os investigadores e académicos continuarão a procurar a nossa biblioteca e haveremos de continuar a restaurar e guardar os filmes que as gerações anteriores nos deixaram para que os legássemos às gerações posteriores.

Amanhã é sábado. Tudo recomeçará. "It's all the same fucking days !"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

OS CELTAS – CONCLUSÃO

                                        Vercingetorix rende-se a Júlio César

Apesar de os celtas terem sido uma grande civilização, eles nunca foram uma unidade, isto é, nunca se organizaram nem se entenderam enquanto realidade única. No fundo representavam um vasto colectivo de inúmeras tribos que partilhavam uma língua comum. E com o passar do tempo até mesmo essa característica se foi dissipando.

Durante o séc. II e o séc. I AC a civilização romana começa a sua expansão para Norte na direcção da Gália. A máquina bem treinada e bem oleada do exército romano é a principal razão das suas quase sempre bem sucedidas campanhas. Há no entanto uma outra arma quase tão eficaz e tão rentável que os romanos aplicavam. A diplomacia reforçada pelos cofres de Roma. Apoiando umas tribos celtas na luta contra outras, interferindo militarmente nos conflitos entre elas. Quando davam pelo seu erro já era tarde demais. A terra já tinha sido anexada à vastidão do império romano. Em 57 AC, quando Júlio César afirmou que a maioria dos gauleses eram romanos, a sua afirmação não estava muito longe da realidade.

Numa fase final da campanha da Gália os gauleses tomaram consciência das verdadeiras dimensões da catástrofe que lhes caía em cima da cabeça. O atrasado esforço unificador de resistência ao invasor romano terá o seu trágico epílogo em Alésia, a última barreira.

Vercingetorix teria ainda tempo de afirmar que a sua participação na guerra se devia não para fins pessoais, mas em nome da causa da liberdade. Pouco depois deporia as suas armas e o seu escudo aos pés de Júlio César. Ao fim de seis anos de cativeiro, Vercingetorix foi apresentado numa parada como um animal pelas ruas de Roma, momentos antes de ser estrangulado até à morte.

Após a queda de Alésia os celtas e a sua cultura quase desaparecem do continente europeu. Nos tempos seguintes os seus territórios a ocidente e a oriente levaram o mesmo destino que o da Gália. As comunidades celtas independentes haveriam de encontrar o seu refúgio e afirmação um pouco por todas as ilhas britânicas, nomeadamente a Irlanda, partes de Gales e as terras altas da Escócia. No séc. VI   DC estas regiões seguem o resto da Europa ao assumir uma nova cultura: o Cristianismo.

E é através desta nova etapa da civilização europeia que a cultura celta, em vez de desaparecer definitivamente, ganha novo fôlego na medida em que passa a ser objecto de atenção dos novos escribas cristãos que registam as histórias mais antigas. Pela primeira vez, deuses e heróis da tradição céltica saem das sombras. Monges cristãos, interpretando a memória à sua maneira, repuseram os mitos antigos no livro do Génesis, de tal maneira que acabamos por não saber distinguir de que forma é que o paganismo celta interpretava a origem do cosmos. Nos relatos monásticos, mitos pagãos e história do cristianismo misturam-se de uma forma que é impossível desmontar. O guerreiro Oisin regressou do mundo pagão para ser S. Patrício, e os mitos da deusa Brigit acabam por ser absorvidos para a sua sucessora cristã, S. Brígida.

Ficamos assim com uma vantagem distorcida. Se por um lado é louvável o trabalho dos monges, graças ao qual nada se saberia sobre a cultura celta, também não é menos verdade que, ao serem-lhe vestidas as novas roupagens da cristandade, muito se perdeu para sempre sobre uma cultura extraordinariamente importante.

 

Artur


sábado, 2 de fevereiro de 2013

O NEVOEIRO E AS SOMBRAS






Este texto tem origem na apresentação do livro "O Nevoeiro e As Sombras", de Artur Guilherme Carvalho", constituindo-se como uma extensão e aprofundamento dessa apresentação. Não representa uma leitura linear da obra, nem uma tentativa de hermenêutica fechada da mesma; pelo contrário, pretende ser um pequeno exercício muito pessoal de aproximação a algumas das temáticas que a leitura do livro evoca no espírito do leitor comum que sou, ou se quiserem, um testemunho. Assim, esta leitura não compromete o autor que, de qualquer modo, pode até nem se rever no todo ou em qualquer uma das partes deste comentário. Não que isso importe: o encontro de um livro com os seus leitores é um fenómeno que não é controlado pelo autor, e este é o aspecto mais fascinante dessa relação difusa e misteriosa. O texto escrito implica, entre o escritor e o leitor, uma promessa de sentido, sendo que aquilo que é prometido só pode ser cumprido na relação, o que significa que o sentido não se manifesta por antecipação, não está dado, não é óbvio: é antes uma conquista de cada leitor que, munido apenas dessa vontade de sentido, se procura apropriar da luz e afastar-se da sombra que cada obra projecta. Conta-se que Theodor Herzl e Adolph Hitler assistiram no mesmo dia a uma récita da ópera "Rienzi", de Richard Wagner, em Viena. Ao primeiro, a obra inspirou-lhe o ideal sionista e a redenção de todos os homens de boa vontade; ao segundo, a teoria da supremacia racial germânica e a urgência de exterminar os judeus e outros indivíduos não pertencentes ao ideal da raça ariana- Muitos anos depois, o filósofo francês Emmanuel Levinas, uma das vítimas do nazismo, escrevia um texto em que opunha as pretensões impostas e a forclusão da totalidade, do totalitário, e a promessa libertadora, essencialmente messiânica, do infinito.


I. Começarei por relembrar a violenta diatribe que Friedrich Nietszche  lança nas "Considerações Intempestivas" contra dois tipos de visão da História que considera catastróficas : a história monumental e a história antiquária, opondo-lhes a força plástica e estética de uma supra-história ou meta-história, que é a única capaz de resistir ao canto das sereias hegelianas dos grandes períodos , dos cumes de uma progressão teleológica das coisas e da promessa de um progresso infinito e indeterminado da história, a caminho da perfeição e da realização do Espírito, e às manias do antiquário que etiqueta as suas colecções e as arruma nas estantes de um passado morto ou domesticado. Essa supra-história encontrava-a Nietszche nas manifestações mais autênticas da arte, literária ou outra. Invoco estes pensamentos do filósofo alemão para me servirem de guia no comentário do âmbito da reflexão sobre a História - ou de uma filosofia da História - que encontro em filigrana no livro do Artur.

II. O passado não nos governa, nunca nos governou, isto é, não nos determina senão no sentido biológico ou genético. O que realmente nos determina são as imagens do passado, tão estruturadas e imperativas como os grandes mitos e as grandes narrativas. Elas encontram-se impressas na nossa sensibilidade à maneira de informações genéticas a que não podemos escapar e que não conseguimos iludir, sob pena de não nos reconhecermos, ou de nos perdermos numa identidade labiríntica. Esses ecos, são os meios através dos quais cada sociedade, em cada época, procura determinar a sua autoridade, a sua própria voz, a sua lógica. A nossa experiência do presente, os juízos tantas vezes negativos que fazemos do nosso lugar na História, vivem continuamente contra esse fundo de legitimação.
Apesar destas determinações, essas imagens do passado são como clarões que, uma vez entrevistas, correm o risco de desapareceram para sempre: a História afasta-se velozmente de nós e das nossas pretensões à perenidade e à duração. Como diz Walter Benjamin em "Dez Teses Sobre o Conceito de História": "Irrecuperável é ,com efeito, toda a imagem do passado que corre o risco de desaparecer com cada instante do presente que nela não se reconheceu". Esta operação de resgate das imagens do passado fundamenta o núcleo essencial de "O Nevoeiro e as Sombras", num sentido muito específico.

III. A época em que a trama narrativa da obra se desenrola é uma daquelas em que se verifica o fenómeno de aceleração do tempo histórico, provocando essa aceleração uma assincronia entre o tempo cronológico e o tempo histórico, ou seja, uma aceleração brutal do tempo vivido, por contraposição ao tempo transcorrido. Significa isso uma alteração da percepção, ou da experiência, dos indivíduos, ficcionais ou reais, resultando colectivamente numa estimulação tremenda das terminações nervosas de uma sociedade. As grandes tempestades do Ser, as metamorfoses violentas da paisagem histórica, provocam igualmente um adensamento da experiência humana. A grande mestria deste romance consiste, entre outras coisas, no entrelaçamento plenamente conseguido das vivências pessoais das personagens, os acontecimentos históricos e a percepção do tempo histórico na existência comum desses homens e dessas mulheres, numa altura em que a própria História se torna o meio de existência do homem comum. Por outro lado, Artur Carvalho capta o "zeitgeist" (espírito do tempo), naquilo que ele tem de mais angustiante: a experiência alargada de violência, instabilidade e medo, magnificados pela volatilidade política de uma sociedade de massas emergente. Em Portugal, a modernidade, imposta do exterior, ou por forças internas actuantes, provocou sempre uma experiência traumática a que não são alheios atavismos e forças de reacção muito poderosas. A estas determinações teremos que juntar as cicatrizes deixadas pela I Guerra Mundial, um outro nível de experiência traumática para a qual não estavam preparados os homens que nela participaram, os portugueses e os de outras nações, mais habituadas a modernidades tecnológicas e a essas sofisticações da civilização que tantas vezes redundaram na mais cruel das barbáries. O grande escritor alemão Ernst Jünger escreveu um livro sobre a sua participação no conflito e sobre os efeitos que ele provocou nos indivíduos, livro esse a que chamou "A Guerra Como Experiência Interior", entrando o termo "experiência" no vocabulário filosófico com um significado polissémico, múltiplo, mas sempre associado a efeitos muito violentos na sensibilidade e na consciência. Um outro combatente, o poeta francês Charles Péguy morto nas trincheiras da Flandres, chamou-lhe "tempestades de aço". O grande historiador inglês Arnold Toynbee considerou que o século XX começou em 1914. Franz Kafka disse algures que não valia a pena perdermos tempo com livros que não fossem como a machadada do alpinista que quebra o gelo dentro dos nossos crânios e das nossas consciência. A inauguração do buraco que há-de tornar-se o monumento aos combatentes da Grande Guerra é uma dessas machadadas.

 
IV As expectativas de progresso, de emancipação pessoal e social, que outrora se revestiam de carácter convencional, e muitas vezes alegórico, de um horizonte milenar (os amanhãs que cantam), tornaram-se na época descrita no livro extremamente próximas. A grande metáfora da renovação, da criação, como por uma segunda vinda da graça secular, de uma cidade justa e racional para o homem, adquire a urgência premente de uma possibilidade concreta. Imagino a continuação deste livro: o retrato do colapso das esperanças revolucionárias, a brutal desaceleração do tempo e das perspectivas radicais, deixando atrás de si um deserto, um amontoado de ruínas, uma enorme quantidade de energias turbulentas e sem escape. O país de Camilo Castello Branco, por instantes ressuscitado, volta a ser domesticado, regressando à mansidão do país de Eça de Queiróz, mais refinado, mas muito mais hipócrita, manobrador, quezilento e medíocre. Atenuam-se as violências e as paixões homicidas, substituídas pelo cheiro a ranço das sacristias e pelo fedor a mofo das velhas crenças e do sarro das boas consciências.

V. Heteronímia identitária, "incapacidade de inscrição", volatilidade das convicções e livre arbítrio: as personagens deste livro escolhem ser agentes dos processos de mudança social, heróis colectivos, canalhas sem redenção ou marionetas nas mãos de poderes ocultos, apenas entrevistos pelos mais argutos dentre eles. Ou, como diz Mário de Sá Carneiro num poema escrito por esses anos: "Eu não sou nem sou o Outro, / Sou qualquer coisa de Intermédio/ Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro".

VI. O Artur Carvalho é um moralista. De resto, todos os escritores o são, em maior ou menor grau: tenta a análise de uma sociedade que se condena a si própria por causa dos actos individuais (sabemos como esta história acabou); observa uma comunidade em decomposição e que, nas cidades ou nos campos, em todas as classes sociais algo está permanentemente errado, desacertando sistematicamente. Mas este não é o olhar de um moralista convencional, que compara os comportamentos com códigos éticos pré-estabelecidos, emitindo juízos; o moralista de "O Nevoeiro e As Sombras" é um grande narrador de casos humanos que ora observa com amargura e inquietação, ora com uma ironia fina que é, para todos os efeitos, uma forma de distanciamento que exclui a frieza do entomologista. A amargura e a inquietação são edificantes até um ponto: o lugar exacto em que uma obra literária pode ser pedagógica sem pretender sê-lo.

VII Qual é o efeito último deste tipo de obras ? Alicerçar as estabilidades clássicas da nossa inteligência e da nossa sensibilidade, inserindo-se de pleno direito na corrente daquilo a que Harold Bloom chamou com toda a propriedade "o canône ocidental"; mais um manifesto em prol da liberdade e da dignidade humanas, coisas de que ultimamente andamos falhos, ameaçados que estamos pelos movimentos centrífugos e anárquicos da política moderna.

LANÇAMENTO 1 DE FEVEREIRO


Ontem foi um dia  muito especial para mim. A sala foi pequena para acolher familiares e amigos na apresentação do meu último livro "O Nevoeiro e as Sombras". A todos o meu muito obrigado. Quero-vos tanto...

Artur Guilherme Carvalho

OS CELTAS – PARTE II

                                            Guerreiros celtas em acção

A reacção inicial perante os celtas era de medo. Gregos e romanos descrevem-nos como indivíduos corpulentos, bem constituídos. Molhavam o cabelo em sumo de limão e esticavam-no até ficar sob a forma de picos espetados. Pintavam a pele de azul. Os seus nobres deixavam crescer longos bigodes. Às vezes partiam nus para a batalha, parecendo criaturas de outro mundo. Na guerra apresentavam-se sempre de forma assustadora.

  Diodurus Siculus, um historiador romano do I século AC relatava: “ usam capacetes de bronze encimados por figuras que dão ao guerreiro o aspecto de uma estatura ainda maior do que a real; em alguns casos têm cornos nos capacetes, enquanto que noutros usam em relevo figuras ou partes de animais. As suas trompas emanam um som insuportável que prenuncia o tumulto da guerra”.

   Para os mediterrânicos não havia grandes dúvidas em classificar os celtas de bárbaros incivilizados. Mas trata-se de um julgamento apressado e incompleto. De facto os celtas tinham um elevado nível civilizacional. Eram hábeis agricultores, fazendeiros, mineiros e metalúrgicos. Tinham capacidade para construir sofisticadas povoações de dimensão considerável. Uma, no Sul da Alemanha, ocupava uma área superior a 450 hectares, rodeada por uma muralha de estacas de madeira de 6 Km de perímetro. Na maior parte do tempo os celtas coexistiam pacificamente com os seus vizinhos. Tinham uma rede comercial espalhada pela Europa e Mediterrâneo onde trocavam ferro e sal – os alimentos salgados dos celtas eram muito apreciados junto dos gourmets romanos – por vinho e metais preciosos. Além destes bens materiais também as ideias circulavam pelas estradas do comércio. Padrões artísticos de origem italiana, grega ou persa chegavam aos celtas, aproveitadas pelos artesãos. A arte clássica tendia para a harmonia e a simetria enquanto o estilo celta (também conhecido por “La Téne”, localidade suíça onde estes artefactos foram encontrados pela primeira vez em 1857) desenvolvia um imaginário baseado no mundo natural. Um animal, um ramo de árvore, o rosto humano, este era o padrão figurativo de uma cultura expressionista, por vezes irreal e sempre altamente individualizada. Por trás deste sistema figurativo estava uma estrutura, uma filosofia espiritual firmemente enraizada na Natureza. Há uma muito fraca possibilidade de os celtas terem uma hierarquia de deuses equivalente aos panteões greco-romanos. O seu mundo religioso dividia-se entre a superstição a magia e o simbolismo, não deixando no entanto de existir um exército de divindades para todos os gostos. Os celtas desenvolviam uma relação privilegiada com o ambiente que os rodeava e viam significados sobrenaturais em toda a parte. Para os orientarem neste vastíssimo mundo de significados e superstições existiam os druidas. Os druidas treinavam durante vinte anos até saberem de cor a totalidade do legado espiritual celta. E aqui residia o elemento fundamental que nos afasta de um muito maior conhecimento da cultura celta. Não existia linguagem escrita.

Um druida na floresta
Júlio César escreveu em dado momento: “ Os druidas acreditam que a sua religião lhes proíbe passar os seus conhecimentos para a linguagem escrita”. Possivelmente os druidas receavam que a sua sabedoria fosse corrompida ou vulgarizada uma vez acessível ao grosso da população. Mas as razões podem ser muito mais evidentes se pensarmos numa motivação política e de influência nas comunidades. Registos escritos reduziriam o prestígio dos druidas enquanto únicos representantes de todo o conhecimento cultural e religioso.

   A principal consequência desta situação foi a de que, antes do período cristão, os celtas produziram muito poucos documentos acerca das suas crenças. O que chegou desses tempos aos nossos dias foram essencialmente inscrições. Tudo o que não estivesse inscrito em pedra ou metal – e p. ex. os gauleses usavam a escrita para efeitos nem literários nem religiosos – desapareceu sem deixar rasto.

 

Artur

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

OS CELTAS – PRIMEIROS PASSOS

                                          Mancha de ocupação territorial da Europa no tempo
                                          dos Celtas.

Existem muito poucas certezas sobre um momento exacto em que a cultura celta apareceu de forma autónoma. Sabemos, linguisticamente falando, que ela está associada ao grosso dos povos indo-europeus, localizado vagamente nas regiões a norte do Mar Negro. Há cerca de 7 mil anos estes povos iniciaram a sua expansão para Sul na direcção da Índia, e para Oeste na direcção do continente europeu. A separação destes povos, bem como os dialectos que foram desenvolvendo, constituem os antepassados da maioria das línguas faladas hoje na Índia e na Europa.

   Falantes daquela que se acabaria por definir como uma língua celta são pela primeira vez assinalados na Alemanha no ano de 1000 AC. O povo nativo, conhecido como pertencente à cultura “Urnfield” era conhecido pelos seus rituais crematórios. Este grupo destacava-se pelo culto da bebida, da comida e do combate, usava roupas coloridas e adornava o corpo de jóias. Embora não havendo uma certeza absoluta, os “proto-celtas” e os “urnfield” acabaram por se misturar dando origem à primeira cultura céltica.

   Estes primeiros celtas dominavam as técnicas da metalurgia, introduzindo a fundição do ferro na Europa, com os inerentes avanços tecnológicos daí resultantes. Instrumentos agrícolas, ligamentos, rodas e toda uma série de aplicações passaram a fazer parte da vida e economia destes povos. Com a mesma tecnologia construíam-se espadas, lanças, capacetes, flechas e carroças com aros de ferro. Prósperos em tempos de paz, os celtas tornam-se imparáveis na arte da guerra. No séc. XI AC tinham-se expandido para o que hoje conhecemos como República Checa, Eslováquia, Áustria, Bélgica, Holanda e todo o nordeste da França. Três séculos mais tarde tinham ocupado o resto da França, atravessado o Canal da Mancha em direcção a Inglaterra e Irlanda. No Sul ocuparam cerca de metade da parte ocidental da Península Ibérica.

   Para Este, os guerreiros celtas atravessam os Balcãs e estabelecem-se em “Galatia”  na Ásia Menor.

   As grandes civilizações da época foram impotentes para conter o avanço dos celtas. Em 387 AC, o poder emergente de Roma é subitamente abalado quando a cidade eterna se vê ocupada durante sete meses numa autêntica orgia de pilhagens e incêndios. Os celtas só retiram porque são de repente atacados por uma doença epidémica que os começou a dizimar. Por isso e também pela cobrança de um elevado resgate aos romanos sob a promessa de partirem.

   Um século depois (297 AC) os celtas invadem a Grécia e saqueiam Delfos levando consigo uma enorme quantia em ouro que terá ido parar a Toulouse. Até o próprio Alexandre o Grande entendeu ser de toda a conveniência fazer uma aliança com esta gente a quem os gregos chamavam Keltoi ou Galati.

 

Artur


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

NAGISA OSHIMA

                                                                      1932 - 2013