quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

LANÇAMENTO


Convido todos os que quiserem e puderem a estar presentes no lançamento do meu último romance.

Artur Guilherme Carvalho

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O DESENCONTRO DO LOBO


Chego cansado do trabalho e encho-me com o amanhecer como se fosse o mais deslumbrante milagre da vida. A luz vai-se erguendo tímida e incerta, devolvendo à cidade as formas perdidas no escuro da noite. A estrada assume o seu destino, as casas erguem-se orgulhosas no alinhamento das ruas, as pessoas caminham em todas as direcções, o carro assume vontade própria e pára à porta da tua casa. Como um autómato encontro no bolso a chave que nunca tive e subo as escadas que nunca subi para te encontrar, ou voltar a ver na cama onde nunca dormi. Acordas do sonho com um sorriso de boas vindas e sentas-te lentamente como se todas as manhãs estivesses à minha espera. A tua boca que eu não beijo de forma sôfrega e desesperada diz o nome que nunca soube dizer e que por acaso é o meu. Os corpos falam entre si recordando as formas que nunca conheceram como velhos amigos. E recordam manhãs de despedida entre promessas e lágrimas de eternidade, noites desenfreadas de paixão inexistente, carícias nunca executadas, obstáculos e mais obstáculos que nos mantiveram longe, muito longe de nós. As horas dos encontros em que nunca nos encontrámos desfilam num corrupio de memórias, enquanto o chá e as torradas passam de mão em mão. Deixei de te ver quando caiu o nevoeiro antes da minha última batalha contra os invasores, deixei de acreditar em ti depois de uma intriga que me convenceu que tudo estava perdido para o nosso lado, toda a nossa história é um desfile de desencontros e mal entendidos, excelentes objectos de romances e filmes, canções e quadros. Tal como aquela lenda medieval de uma mulher que caminhava de noite com um lobo e de um cavaleiro que galopava de dia com um falcão fêmea no braço. A maldição que os possuía só os deixava ser homem e mulher duas vezes. Ao entardecer e ao nascer do dia. Por isso erravam juntos, humano e animal. Assim, lentamente crescem as penas no teu corpo logo a seguir a terminares o chá. Os teus braços abrem-se cada vez maiores até serem asas. Já nem sobra tempo para um adeus. Escolhes a janela da cozinha e voas lá para fora. Agarrado a um resto de torrada fica um homem a uivar antes de adormecer, fica a memória de um lobo que de noite se arrastou por entre as sombras da floresta. Na manhã que nunca te encontrei as memórias desaparecem enquanto o Sol nasce, os encontros assumem o seu destino na linha do tempo, os corpos regressam às suas formas escondidas pela noite, o carro ganha vontade própria e o destino é sempre um desencontro mal combinado, uma piada de mau gosto de que ninguém se lembra antes de rir.

 

Artur

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

LABIRINTOS


Os sonhos ficam localizados á entrada dos territórios da lucidez. A peça final de um puzzle que se andava a montar há bastante tempo, a solução de um problema, a iluminação necessária para arrumar uma contradição. Sem ser através de palavras ou de uma outra qualquer construção racional, as mensagens dos sonhos vêm até nós sob a forma sensorial/vibratória, não são para ser lidas nem inteligíveis. Alojam-se no Ser e espalham a sua vibração, comunicando assim a sua mensagem. Restam-me 10/15 anos de vida útil e tenho sido ao longo dos anos um verdadeiro campeão do desperdício de tempo. A Vida é uma dádiva, sem dúvida, mas uma dádiva armadilhada, um presente embrulhado em papel de absurdo. É uma dádiva na medida de todas as possibilidades que nos oferece através das experiências e dos contactos com os outros seres, mas carrega consigo um sem fim de exigências, de pressupostos, de obrigatoriedades que têm de comum estarem sempre a afastar-nos do nosso caminho, da nossa verdadeira natureza. Daí que a frustração seja na maior parte dos casos a nossa companheira mais presente. Antes de morrer gostaria de escrever mais um livro ou dois. Mas antes de poder-me dedicar a essa tarefa tenho de preencher uma série de requisitos, de cumprir um sem fim de prioridades, satisfazer uma data de obrigações, que não sei se terei tempo para o que realmente (me) importa. Não se escolhe ser escritor, ou criador em geral. A escrita está dentro de quem escreve como o ar que respira, o ar que tem de ser trabalhado pelo sistema respiratório e devolvido à atmosfera. Não se trata de uma escolha mas antes de uma descoberta, a da nossa natureza, a da identidade do Ser. Escreve-se por inúmeras razões, sendo a mais evidente a de tentar evitar rebentar por dentro.

Por isso compreendo perfeitamente a frase de Kafka quando dizia que na sua vida lhe interessava apenas e só a Literatura. Tudo o resto era um desperdício, uma perda de tempo. Um tempo que nos fazem perder desde que nascemos com uma encenação barata que mais não é que a justificação permanente de um sistema, de uma condição, de um modo de vida em que se embeleza a condição de escravo de uma maioria para o enriquecimento de um punhado de espertos. Os padrões culturais e religiosos vão cumprindo o seu papel de domesticação de uma espécie (a nossa) afastando-a das suas raízes, da profundidade do seu Ser. A raiva, o ódio, a violência são expressões desse afastamento, cuidadosamente aproveitados para beneficiar sempre no mesmo sentido. São as válvulas de escape que nada aliviam para que todos se sintam mais aliviados.

De modo que vivemos numa condição onde reina o “tragicamente patético” ou o “pateticamente trágico”. Exemplos, apenas dois. Os eternos programas de debates, tão uniformemente iguais em todas as estações de televisão do mundo inteiro, onde especialistas em generalidades se espremem para debitar conceitos, repetir cantigas antigas, em suma, pavonear um determinado tipo de conhecimento inútil, inodoro e inconsequente. Após os seus números tudo vai continuar a acontecer exactamente da mesma maneira. As tragédias, as tragédias que são noticiadas até à exaustão, os massacres, as guerras, as mortes de crianças, sem que nada aconteça que as consiga evitar. Tenho que ficar longe destes debates estéreis e destas tragédias absurdas para preservar a minha sanidade mental. Tenho que me fechar ainda mais no espaço da minha natureza e trabalhar a partir daí. A idade afasta-me cada vez mais do erro ou da vontade de errar porque cada vez tenho menos forças para pedir desculpa e para repetir o que no passado foi lido como errado. O sonho da última noite enviou-me mais um aviso. Tenho mais 10/15 anos de vida útil à minha frente e é melhor equacionar e destacar o que é realmente importante. Além da família e dos amigos, tenho que deixar feitos mais um ou dois livros, isso sim é que importa. A insanidade do mundo não cabe toda nas minhas costas, é um peso excessivo, um problema que não me cabe resolver. A intoxicação de uma informação inútil e permanente não me serve para nada. Os sonhos falam comigo. Felizmente com cada vez mais tempo, cada vez mais dentro dos territórios da lucidez.

 

Artur

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

MELHORES DIAS VIRÃO...OU NÃO

                                                             FELIZ ANO NOVO

sábado, 29 de dezembro de 2012

PAULO ROCHA


                                                           1935 - 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS

Este blog deseja a todos os seus amigos, conhecidos, leitores, seguidores, copiadores, corredores, correntes de ar, fantasmas (aqueles palhaços que se fartam de passar aqui e nunca deixam uma palavra, uma mensagem mínima sobre o nosso trabalho), maçadores ( aqueles que estão sempre escondidos a ver quando é que um de nós comete um erro para virem logo corrigir), aos silenciosos que se sentiriam profundamente violados nos seus egos para deixar um elogio, aos que numa noite de insónias vieram aqui parar e rapidamente perceberam que se enganaram no estúdio, à dona Celeste que trata de deixar as instalações acessíveis antes de entrarmos de manhã, ao senhor Joaquim do café, aos modelos das fotografias da Sofia, aos arquivos da memória do Arnaldo, ao estranho mundo do João que tanto gostamos de conhecer, ao Asterix que era para ter colaborado connosco mas acabou por ir para o Totenham à última da hora, ao Franz Kafka, esse ganda maluco, ao Fernando Pessoa, ao Dostoievsky que nos despejou a garrafeira e partiu sem deixar um textozinho à malta, às nossas famílias e amigos "porque sim" e "sempre", ao Brasil por ser o nosso cliente nº 1 em utentes, aos cinco anos que já levamos disto, ao azar de termos nascido em Portugal e não noutro sítio muito mais agradável (como o Cambodja, por exemplo), ao Pasolini, ao Fellini e ao Jean- Luc Goddard, essa Santíssima Trindade do Cinema sem a qual tudo seria completamente diferente, ao Platão, ao Sócrates, ao Albert Camus ( nosso grande amigo e colaborador), à Vida, à Morte, à Liberdade e à Cultura, desejamos a todos um excelente Natal e que o ano que aí vem não leve com uma providência cautelar dos Maias ou com um pedaço de bolo rei do Presidente da República, o que acaba por ir dar ao mesmo. Onde é que ia???

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A MINHA VIDA NÃO VALE NADA e 12 PSICOPATAS

Dói-me ver essas legiões dos meus compatriotas à porta dos Centros de Emprego, esperando dia após dia, desilusão após desilusão, por algo que nunca chegará. Mas, digo para mim próprio, que lhes resta senão manterem semi-viva, semi-moribunda, essa esperança ? Não sabem eles que fazem parte das massas cuja insegurança foi planeada a sangue frio; ignoram que a única coisa que incita aqueles poucos que têm trabalho para oferecer é poderem fazê-lo a preços de saldos, a jorna de miséria e com a promessa de despedir facil e rapidamente. Mesmo esses, a quem um emprego miserável e sem segurança parecerá um maná divino, mesmo esses "felizardos" não conseguirão sair da miséria, nem alterar o seu destino: um longo cortejo de humilhações, privações, perigos, insegurança. Umas tantas vidas abreviadas. O lucro,claro, lucrará. Dir-me-ão: não é melhor ums tantos empregos mal pagos do que empregos nenhuns ? A quem assim pensa poderia responder: além da busca penosa de empregos que não existem, além da falta de recursos, além da perda (ou da ameaça da perda) de um tecto, além do tempo passado a ser recusado, além do desprezo dos outros e da depreciação de si próprio, além do vazio de um futuro aterrador, além da degradação física causada pela penúria, além da miséria moral e ética que atinge os longamente desesperados, além da fragilização dos casais e das famílias, tantas vezes destruídas - se, além de tudo isso as pessoas também se sentem encurraladas numa insegurança ainda maior, desta vez tecnicamente prevista por todos esses espíritos brilhantes e personalidades assombrosas que decidem dos nossos destinos, e se não têm ajuda, ou quando muito, contam com uma ajuda calculada para se insuficiente, pelo menos ainda mais insuficiente, e se mesmo essa ajuda lhes é representada como caritativa, ou como um favorzinho que se presta e não como um direito adquirido e duramente conquistado, se ainda assim estão dispostas a aceitarem, suportarem ou sujeitarem-se a qualquer forma de emprego, a qualquer preço, em quaisquer condições, então são entidades pressionáveis e manipuláveis: só resta esperar que assim continuem. Enquanto forem assim, enquanto permaneceram nesse estado de autofagia, serão tolerados. São aqueles que foram enfraquecidos, moralmente aniquilados, reduzidos a zero, fisicamente esmagados. São todos aqueles que, noutra situação, poderiam constituir um perigo para a "coesão social" e para a "ordem estabelecida". Como se existissem ordem e coesão no meio do caos, como se esses valores fossem aqueles que é preciso privilegiar, em abstracto, no plano dos princípios, sem qualquer ligação com a realidade. Como se aos alienados ainda interessassem as belas formulações teóricas que sustentam os regimes. Desses repudiados, desses excluídos lançados no vazio social, espera-se contudo que se portem bem, que sejam ordeiros, que mantenham a coesão, que se conduzam como bons cidadãos entregues a uma vida cívica toda feita de deveres e direitos, ao mesmo tempo que lhes é retirada qualquer possibilidade de cumprir qualquer dever, e os seus direitos, já muito restringidos, são deliberadamente ultrajados, menosprezados e ridicularizados pela nova elite que assaltou o poder, vinda do nada, sem saber nem conhecer nada, a não ser a proteção do Estado que agora vituperam e à sombra do qual prosperaram. Os outros ? Que tristeza, que decepção vê-los infringir os códigos de bem viver, as boas maneiras, as regras de bom comportamento dos que, numa situação de autoridade, os marginalizam, tratam por tu, empurram e desprezam ! Que punhalada no coração não os ver aderir às boas maneiras de uma sociedade que se manifesta tão exuberantemente alérgica à sua presença e os ajuda a verem-se como que fora do jogo (os jornais de hoje relatam o caso de um gerente bancário que atendeu na rua uma pessoa que pretendia levantar um cheque e que se tinha dirigido à sucursal com as roupas de trabalho e que, crime execrando, "parecia um romeno"...)
Fazem-me lembrar uma personagem do filme "Amarcord" de Federico Fellini, um velho fascista inválido, lamentando-se da incompreensão dos cidadãos em relação à bondade das medidas do governo, ao mesmo tempo que manda despejar uma garrafa de óleo de rícino pelas goelas de um pobre pai de família que tinha feito um comentário inocente sobre a situação social. Que diria Fellini, que era um excelente observador da sociedade e dos seus meandros,embora às vezes gostasse de se esconder por detrás dos seus números circenses, se tivesse conhecido a sociedade portuguesa em 2012 ?
Que diria do governo de uma nação que envida esforços tremendos para colocar um parte do país contra a outra, declarada vergonhosamente favorecida (funcionários públicos de base, agentes públicos em geral), reformados contra trabalhadores no activo, etc., sem tomar em conta os que de facto o são, a não ser para os designar como os "empreendedores", as "forças vivas", os "inovadores", os "exportadores" e outras baboseiras quejandas ? E considerar essa gente como a única a ousar correr riscos, como aventureiros impacientes por correr perigos incessantes e infinitos... sempre ansiosos por pôr em jogo...não se sabe bem o quê, enquanto os nababos condutores de metropolitano, os novos-ricos empregados de correio, os operários multimilionários, as mulheres da limpeza magnatas prosperam escandalosamente, em total segurança ! Os "empreendedores", assim denominados por se supor serem detentores e criadores de empregos, mas que, mesmo subvencionados, exonerados de impostos, mimados e levados ao colo para esse fim, não só não criam nenhum ou quase nenhum (o desemprego continua a aumentar diariamente), como, mesmo recebendo benefícios (em parte graças às vantagens mencionadas), dependem do Estado a torto e a direito e se dão ao supremo luxo de continuarem a distribuír dividendos pelos acionistas e a aumentarem escandalosamente o seu ordenado. Os tais empreendedores e inovadores, antigamente deseignados de forma bastante estúpida como "patrões", que relegam músicos, pintores, escritores, investigadores científicos e outros saltimbancos para o papel de pesos mortos, sem contar com o resto dos humanos, todos convidados a erguer para o brilho de tais constelações humildes olhares de vermes ofuscados por tanto brilho. Quanto aos usurpadores que se refastelam sem vergonha na garantia de um emprego, a sua imunidade ao pânico resultante da precariedade, da fragilidade, do desaparecimento desses mesmos empregos representa um perigo escandaloso. E, pior ainda, retardam a asfixia do mercado de trabalho. Ora, asfixia e pânico são o sustento da economia na sua exuberante modernidade, e os melhores garantes da "coesão social". A nossa única consolação, que nos faz rebentar de orgulho, são as exportações exuberantes, o progresso vertiginoso da balança de pagamentos, que nos garante um lugar no pódio, entre os abrigos de cartão dos vagabundos, as curvas ascendentes do desemprego e as descendentes do consumo, mas que, paradoxalmente não parecem ter influência sobre a vida dos casebres. Nem sobre a das cidades.
Esta era a minha mensagem de Natal, sabendo embora que o tom e a matéria não fazem parte daquilo que tipicamente constitui as mensagens de Natal. Faltam-me as boas maneiras, o "pathos" da ordem e da coesão, falta-me sobretudo o bom gosto para falar de renas, neve, bondade, solidariedade, presentes pela chaminé e outros motivos próprios da quadra. Sobra-me, talvez, a audácia de um sentimento agreste, ingrato, de um rigor intratável e recusando qualquer excepção - o respeito pelo meu semelhante. E, sobretudo, falta-me paciência para aguentar a resignação com que os meus compatriotas aceitam viver sem conhecimento de causa, o modo como aceitam pacificamente as análises económicas e políticas que lhes passam ao lado e não lhes respeitam a inteligência e que mencionam apenas como elementos ameaçadores, que obrigam a medidas cruéis, e mais cruéis ainda se não forem suportadas com docilidade. Análises ou relatórios peremptórios, segundo os quais a modernidade, reservada às esferas dirigentes, só se aplica à economia de mercado, e só funciona na mão dos seus iluminados decisores.

UM FIO DE LIBERDADE

 

                                         One generation goes,

                                         another generation comes

                                         And the Sun also rises…

 

                                                     Ernest Hemingway

 

 

   Lisboa, vinte anos depois as guitarras voltaram a subir ao céu. No Campo Pequeno. Casa cheia para acolher um dos mais originais e virtuosos projectos musicais resultante das décadas de 80 e 90. “Resistência”, sinónimo de perseverança, dignidade, Liberdade.

As guitarras voltaram a fazer-se ouvir junto com as múltiplas vozes que recuperaram palavras e músicas de vários tempos e lhes juntaram alguns originais. Herdeiros assumidos de José Afonso e de uma corrente libertária que atravessa todos os tempos e envolve todas as gerações, esta geração agora na casa dos 40 a cair para os 50, voltou a apresentar-se perante um público entusiástico de várias idades que não regateou aplausos, que não hesitou em entoar as baladas tocadas, que elevou aos céus esta mensagem de Liberdade e Soberania que provou mais uma vez ser intemporal. Esta geração que quase não tem representantes no parlamento, que só existiu nas estatísticas, esta “marcha de desalinhados” que cedo percebeu o logro onde estava a cair e que não se cansou de o dizer, veio outra vez relembrar as queixas dos derrotados, dos esquecidos, voltou a cantar os hinos dos homens livres. Sonoridades típicas do cancioneiro português, tocadas pelas eternas guitarras da tradição ibérica, palavras desenhando os poemas de uma condição humana que não tem idade mas que sempre sofreu as mesmas consequências, que sempre teve que pagar o preço mais alto por afirmar a Liberdade, esta raça de Et’s reuniu-se na nave do Campo Pequeno para perceber que a vida é uma só e que a luta pela dignidade do ser humano é eterna. Sintonizaram-se tempos, afinaram-se circuitos, acertaram-se sincronias. As lições do passado são as apreensões do presente, os temas antigos continuam actuais. Por isso a tarefa nunca está acabada. A geração que nunca existiu, aquela que não quis “entrar no jogo a perder” voltou para dizer que não muda um milímetro àquilo que sempre disse, que não se desvia nem por um momento da linha que traçou. A geração que não existe, provavelmente amanhã já não estará aqui, mas fica contente porque o seu trabalho terá sempre continuidade, Desprezará a vida enquanto um jogo de simulações e egoísmos, ganâncias e hipocrisias. Nunca fará parte dela. Descende dos “filhos da madrugada” que também não se renderam, de Mário de Sá Carneiro e do seu grito contra toda a conformação ao estado das coisas. Recusa qualquer solução que não seja absoluta para toda a Humanidade, qualquer solução que deixe seja quem for do lado de fora. Canta a utopia como uma das maiores santas desta nova religião que transforma os concertos nas suas missas, nos seus actos de comunhão com a música. A música que liberta e sintoniza, a música herdada desde os tempos mais remotos da tradição trovadoresca. A música, única porta para a Liberdade e a Solidariedade entre os homens. Gerações vêm e vão, mas, como diz Hemingway no princípio desta crónica, “o Sol vai continuar a nascer”. E de facto, assim é, o Sol volta a nascer todos os dias. Essa Luz imensa de Liberdade e comunhão que cada geração constrói em todas as eras com o seu sacrifício e criatividade. Cada geração, cada fio de luz dessa imensidão solar que nunca se apaga. Cada fio de luz que no fundo é apenas um fio de Liberdade. RESISTÊNCIA SEMPRE!!!

 

Artur


sábado, 15 de dezembro de 2012

UM FILME BELO


TABU

 

Miguel Gomes

 

Portugal, 2012

 

 

Antes de mais nada, TABU é um filme belo. Desde a sua concepção formal até ao modelo narrativo utilizado, passando pela atmosfera deixada, pelo rasto das suas imagens, o filme consegue surpreender, sobressaltar, preencher as lacunas mais exigentes do espectador mais treinado. Dividido em duas partes, começa por nos introduzir a um bairro cinzento de Lisboa onde vive Aurora, uma octogenária temperamental e excêntrica acompanhada pela criada cabo-verdiana, Santa. Aurora tem o vício do jogo e, sempre que pode, gasta tudo o que tem no casino. Fala de uma filha que vive no Canadá mas que pouco ou nada quer saber dela. Além de Santa, a sua única amiga é Pilar, a vizinha, mulher de meia-idade profundamente católica envolvida em movimentos sociais. Aurora faz várias vezes referência a um episódio trágico protagonizado por si nos tempos da juventude em África mas nunca revela os seus contornos. Á beira da morte manda chamar um amigo, Gian Luca Ventura, um idoso estacionado num lar e que, dizem, já não regula muito bem da cabeça. É depois do funeral de Aurora que Gian Luca contará o terrível segredo a que Aurora se referia. O filme salta então para a segunda parte, para uma África antiga habitada por brancos ricos, loucos e errantes que se encaixam naquela magnífica paisagem, embora nunca dela venham a fazer parte. Aurora era filha de fazendeiros e casada com um estrangeiro. Gian Luca, um aventureiro sem poiso fixo que acaba por ir lá parar, formar uma banda e apaixonar-se por ela.

E é na sequência desta paixão, deste amor impossível que a tragédia se acabará por precipitar, ainda que nunca da maneira mais previsível. O desfecho fatal terminará com um morto (um amigo deles que os surpreende juntos), uma criança (a filha de Aurora e do marido) e o fim de um época no continente africano.

Para além da fotografia a preto e branco, a rara beleza deste filme prende-se com pequenos pormenores que, em conjunto, concorrem para uma atmosfera idílica de nostalgia, paixão e tragédia. Em primeiro lugar, o som. Na segunda parte é utilizado em exclusivo o OFF, ou seja, tudo nos é relatado pela voz do narrador enquanto os actores se confrontam, falam entre si, mas sem serem ouvidos. A única excepção vai para a entrada das músicas, breves pausas narrativas que aliviam o peso do passado. Depois temos a ausência total de referências ao espaço e ao tempo. Sabemos vagamente que estamos em África mas desconhecemos por completo em que região (talvez Moçambique por uma matrícula de carro e um volante à direita); sabemos que estamos no passado, mas, a única certeza que temos é a de estar na segunda metade do séc. XX porque a guerra colonial está a dar os primeiros passos. De certo temos as personagens, os seus sonhos e sentimentos, as suas angústias e as suas dúvidas. A história delas percorre esse vago conceito espácio-temporal ignorando-o quase por completo. Um circuito fechado que se basta a si próprio para existir, ser digno de memória, indiferente ao “onde” e ao “quando”. Quando Aurora e Gian Luca se refugiam numa cabana próximo da fronteira ( com que país, nunca saberemos) , acabam por ser surpreendidos por um amigo que os tenta dissuadir da sua loucura. Ele e Gian Luca pegam-se à pancada, ela ergue um revólver e dispara. Logo de imediato entra em trabalho de parto. Desesperado Gian Luca manda chamar o marido. Este chega e leva consigo Aurora, a filha recém-nascida e o cadáver do amigo. Gian Luca fica para trás. Nunca mais voltará a estar com ela, mesmo após a morte do marido. Aurora decide pagar pelo seu crime afastando para sempre o grande amor da sua vida. A morte daquele branco acaba por ser misteriosamente reivindicada por um grupo de libertação.

Quadro final e alegoria absoluta: no jipe seguem Aurora, o marido e a filha na cabine. Atrás, na caixa, o corpo do amigo assassinado por ela. No rádio o movimento de libertação apropria-se da execução de um branco, acusando-o de andar a fazer espionagem das suas actividades e movimentações. Portugal em África. Uma história de amor e morte, errância, abandono, uma nova vida que começa e um sem fim de equívocos e situações mal esclarecidas.

Premiado em vários certames internacionais (Berlim, Paris, Las Palmas, Zadar (Croácia) e Gant (Bélgica), TABU concorre ao título do melhor filme deste ano em qualquer categoria. Um filme original, surpreendente, extraordinário. Um filme BELO…

 

Artur

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DO EVANGELHO



Dos quatro testemunhos dados da vida de Jesus Cristo, Pasolini escolheu - e essa escolha não foi certamente fruto do acaso - o Evangelho mais sistemático, mais doutrinal, mais austero, aquele que ignora a pequena anedota e coloca em relevo o combate contra as autoridades do país dotadas então de poder político : os escribas, os príncipes dos sacerdotes, os fariseus. É a todos e não somente aos cristãos que Pasolini dá esta lição : é preciso reler Mateus como ele mesmo o releu, sem tomar fôlego, para aí discernir a batalha mais heróica e exemplar que um profeta levou a cabo.
Depois de ter desistido de filmar na Palestina (por razões que explico no texto sobre "Sopraluoghi In Palestina"), Pasolini decidiu filmar na Calábria, nas terras secas e áridas em que uma povoação em ruínas na borda de um declive faz as vezes de Jerusalém. E porque não o faria ? Não é a paisagem mediterrânica muito semelhante nos diversos países ? E o rosto da pobreza, o único que aqui importa, não é o mesmo em toda a parte e em toda a parte semelhante a si mesmo ? Terá mudado alguma coisa em 2000 anos ? O mundo de aqui fervilha de crianças, de doentes, de pequenos burros; homens pobres vagueiam exibindo belas fasces ingénuas; e o drama renasce da terra, o Evangelho vai recomeçar. Faço notar que Pasolini não se detém num realismo que poderia ser simultaneamente simbólico e popular; o estilo da obra é complexo; o décor genericamente teatral. A recordação surge através de obras pictóricas, Giotto por exemplo. Os movimentos das multidões, os motins, a presença dos soldados e, sobretudo, a movimentação da câmara frente aos rostos dos príncipes sacerdotais evocam por vezes Dreyer. Mas o estilo que predomina é sobretudo o do drama sagrado, como o cinema o concebe ainda hoje. Um Cristo de rosto bizantino percorre apressadamente vastas paisagens com os seus discípulos, a quem ministra ensinamentos sem descanso; a ternura e a compaixão afloram raramente. Muito contidas, emergem mesmo assim nas admiráveis cenas do início ou quando a câmara se atarda sobre Maria, envelhecida e desdentada, seguindo Cristo no caminho do Calvário; aflora uma vez ou duas no sorriso de Cristo no meio das crianças. Sinto em Pasolini a vontade de respeitar no homem a transcendência que os crentes vêem em Jesus e que ele mesmo afirma. Esta vontade não passa sem uma certa frieza e sem uma busca demasiado formal do artifício, que nos mostra um Mestre autoritário, comandando homens e elementos naturais, um Pantocrator sublime, sem vida privada, sem afectos, sem humor e sem aquela facilidade soberana de se tornar homem aí mesmo, onde aprendemos a reconhecer o rosto de Deus.
Pasolini escolhe mostrar com insistência as violências exercidas pelos reis e poderosos sobre os pobres e os profetas (massacre dos Inocentes, assassinato de João Baptista na prisão, as brutalidades da Crucifixão) e retrata um Cristo combatente, aguerrido, sem concessões ao sentimentalismo e à piedade. Creio saber porque o fez: o grande texto de Mateus foi longo tempo desmantelado, emasculado, desvitalizado, tornado num conjunto de vozes untuosas e porosas, destinado a adormecer as crianças e a acalmar os moribundos. Através do cinema, Pasolini devolveu-lhe a impaciência, a actualidade, o sentido revolucionário.

O filme chama-se "Il Vangelo Secondo Matteo / O Evangelho Segundo S. Mateus". Foi realizado por Pier Paolo Pasolini em 1963.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

APATIA

Folheio ao acaso um dos meus dicionários filosóficos e descubro o conceito que melhor descreve o meu estado de espírito: "apatheia", uma palavra grega que designa o facto de não se sofrer uma afecção, de estar intacto, indemne de todo o sentimento. Fecho o dicionário e procuro lembrar-me de antigas e esquecidas lições: para os estóicos, o afecto é sempre irracional, violento e contra-natura. A apatia é o estádio em que o sábio se livra de sarilhos; não se trata, segundo Séneca, de não sentir nada, mas de não ser conduzido pelas paixões. A ética estóica do distanciamento tem associada uma estética da privação do movimento que Winckelmann desenvolve em "Reflexões sobre as imitações das obras gregas em pintura e em escultura", mostrando-se sensível à "nobre simplicidade e grandeza serena das estátuas gregas". As páginas que Hegel consagrou à estatuária grega considerada como o estádio de desenvolvimento "clássico" da história da arte, associa a impressão de calma procurada pelas esculturas à esfera do divino. Não sou um estóico, nem um sábio, nem um esteta. Aliás, o meu credo político e estético é uma canção da Adriana Calcanhotto chamada "Senhas" e que reza assim : "Eu não gosto do bom gosto / eu não gosto do bom senso / eu não gosto dos bons modos / não gosto (...) Eu aguento até os modernos / e seus segundos cadernos / eu aguento até os caretas / e suas verdades perfeitas / o que eu não gosto é do bom gosto (...) / eu aguento até os estetas / eu aplaudo rebeldias / eu respeito tiranias / e compreendo piedades / eu não condeno mentiras / eu não condeno vaidades / o que eu não gosto é do bom gosto". Portanto, a apatia que sinto deriva de um imenso tédio, de uma nostalgia difusa, da ligeira naúsea que a vida me provoca e que queria transformar numa estética da distância (apatheia) que me permitisse abstrair-me das atribulações humanas. Não das minhas, que essas posso bem com elas, mas as desta legião de desesperados que todos os dias me entra pela casa dentro exibindo a sua humanidade imediata e violenta, óbvia nas suas necessidades não satisfeitas; os humilhados e ofendidos que vão alastrando como uma epidemia incontrolável; os despojados e a sua irresistível tendência para a resignação; os banqueiros e o cancro moral que os rói ; os economistas a pataco perorando sobre défices, balanças comerciais, dívida pública e afins; os gajos de fatinho com a bandeira nacional pregada na lapela; etíopes e abissínios; azeiteiros, merceeiros, boys e etc.
Erijo a apatia como uma categoria da imobilidade que situa a personagem de ficção que também sou no quadro de uma transcendência: a ausência do movimento corresponde a um hieratismo que é a expressão de um poder carismático. A apatia produz sentido e simula a indiferença. Vou a correr ver "Apocalypse Now": Marlon Brando encarna o misterioso Coronel Kurtz, uma espécie de buda avaro de movimentos, cujas meditações metafísicas oferecem um contraste agudo com a crueldade das suas acções. Onde estão agora as estátuas gregas ? Onde pára a sua serena beleza e onde se quedou a sua serena grandeza ?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O MÁRTIR IRLANDÊS


      MICHAEL COLLINS



Neil Jordan



Irlanda, Reino Unido, EUA


É dentro de grande polémica que a Europa recebe MICHAEL COLLINS nos idos de 90 do passado século. Inteligente, absoluto e problemático, o filme aborda uma das figuras centrais na secular história de dor, sangue e luta pela independência do povo irlandês contra a administração e ocupação britânica. Passada no primeiro quartel do século XX, a época de Michael Collins carrega consigo o fardo suplementar de uma situação desagradável, aparentemente sem solução à vista. Tratando-se de um conflito regional deliberadamente pouco divulgado e pouco debatido nos “media” europeus, o tema podia ser pouco estimulante para os potenciais espectadores. Daí que o cineasta Neil Jordan ao escrever o argumento no início da década de 80 tenha encontrado uma solução que, embora ilustrando o conflito, não deixa de cativar audiências. Para tal concorrem por um lado as imagens de Chris Menges, e por outro o ritmo alucinante da acção.

Com tantas explosões, tiros de metralhadora e execuções, corremos o risco de nos julgarmos por momentos na Chicago dos anos 20 em vez de em Dublin alguns anos antes. O contraponto da violência é feito pelo triângulo amoroso Collins (Liam Neeson), Harry Boland (Adam Quinn) e Kitty Kiernan (Julia Roberts) que, tendo ou não acontecido, será o único espaço do filme onde é permitido respirar.

Michael Collins foi um dos primeiros guerrilheiros da luta pela independência da Irlanda que, após o fracasso do “levantamento da Páscoa” em 1916, concluiu que qualquer luta convencional com os ingleses estaria condenada ao fracasso. Por isso fundou os “Irish Volunteers”, um grupo de cidadãos comuns que acabaram por promover emboscadas e outro tipo de acções armadas bem sucedidas contra aqueles que ocupavam o seu território desde o séc. XII. O bombardeamento dos irlandeses em luta pela liberdade em 1916 e as subsequentes execuções da maioria dos cabecilhas do movimento são suficientemente esclarecedoras das noções de respeito e obediência exigidas pela coroa britânica. Dois anos depois, um dos soldados do movimento (Collins) é libertado, iniciando-se a partir desse momento uma actividade política renovada pelo auxílio de discursos inflamados. A célebre frase “by whatever means necessary” abre o caminho da luta armada, uma nova fase de acção mais dura e violenta, embrionária do futuro exército republicano de libertação (IRA). A violência entrará então em espiral, dos dois lados do conflito, não poupando ninguém pelo caminho.

Se por um lado podemos afirmar que foi dado o grito de guerra aos ingleses, por outro abriram-se também as primeiras grandes divisões entre irlandeses. Facto que ainda hoje enfraquece as pretensões mais radicais de emancipação. Como se, quando se conseguiu lidar com o passado, dificilmente se poderá projectar o futuro a uma só voz. Elemento que jogou sempre a favor das pretensões britânicas. Problema bastante complicado a que Neil Jordan nem tenta responder. Collins irá receber a Londres a independência da Irlanda mas a totalidade desse acto nunca será negociada. Os ingleses mantêm o Ulster sob a sua administração. Mártir da independência, Collins acabará por ser sacrificado na luta entre irlandeses que se segue. Os que exigem a independência total e absoluta e os que defendem começar a nova república. Os políticos manobram na sombra e conseguem livrar-se dos ícones revolucionários, sacrificando-os às incompreensões da História. A fórmula normal de qualquer revolução. Na parábola do triângulo amoroso entre Collins, Kitty e Harry vamos encontrar os dois lados amantes da mesma Irlanda, divididos pela exclusividade desse amor que reclamam. A Irlanda continuará viva, enquanto que as facções acabaram por se devorar entre si. Collins é o grande mártir da independência da Irlanda morto às mãos dos seus compatriotas, em vez de às da potência ocupante contra a qual sempre se bateu. Mais uma demonstração da criatividade e maturidade irlandesas que abordam temas tão sensíveis da sua consciência colectiva sem demagogias patrióticas nem maniqueísmos dispensáveis. A luta de um povo faz-se de contradições, erros, fatalidades. E é o conjunto de todos esses elementos, conjugado com a consciência que se tem deles, que permite construír um futuro mais sólido e amadurecido.

Leão de Ouro para o melhor filme e melhor actor no Festival de Veneza erm 1996, MICHAEL COLLINS é sem dúvida uma narrativa apaixonante sobre o amor e a guerra, a dignidade e a teimosia.



Artur

sábado, 8 de dezembro de 2012

JIM MORRISON

                                                      8 - Dezembro - 1943

                                                      3 - Julho - 1971