sábado, 10 de novembro de 2012
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
PEREGRINO E ESTRANGEIRO
Tomo de empréstimo o título de um livro de Marguerite Yourcenar para relembrar o aniversário de Albert Camus (nascido a 7 de Novembro de 1913), já que estas três palavras evocam no meu espírito uma imagem desse homem único que um dia escreveu:
"… a criança morrera naquele adolescente magro e vigoroso, de cabelos revoltos e olhar arrebatado, que trabalhara todo o Verão para levar um salário para casa e acabava de ser nomeado guarda-redes titular da equipa do liceu e, três dias antes, saboreara pela primeira vez, quase desfalecido, o contacto com a boca de uma jovem.” (O Primeiro Homem)
Relembro essa página gravada na pedra em que Camus se descobre "o primeiro homem", sem o referente do pai, construindo-se a partir de si próprio e de uma vivência ética da pobreza que o marcaria enquanto indivíduo e marcaria todo o século XX fundamentando-se na reflexão que enceta na sua escrita sobre múltiplas dimensões de uma humanidade que, longe de se dar como adquirida, permanentemente se põe em causa, se questiona e se refaz, invocando a marca da estraneidade e do absurdo da condição humana prisioneira de um destino que a amarra à pedra de Sísifo e a impede de se completar.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
VW
A Filosofia ensina que a negação pode ser determinante. É algo mais do que a negação da possibilidade. A privação tem consequências que não podemos antecipar ou avaliar com acerto. O livro não escrito é o que poderia ter feito a diferença. Que nos poderia ter permitido falhar melhor. Ou talvez não.
George Steiner
Tornei-me um estranho para mim próprio, e nem na minha alma encontro respostas.
S. Agostinho
Tinha um rosto de jovem Parca (M. Yourcenar dixit), um rosto (digo eu) onde se expressavam a complexidade e a fragilidade da vida. Ninguém como Virginia Woolf conferiu tanto sentido à tese de Sartre segundo a qual "toda a técnica romanesca remete para uma metafísica". Era ela que não acreditava em relógios, no tempo mensurável e divisível em parcelas fixas e estanques capazes de balizar uma vida humana, decompondo-a em instantes definidos e definíveis; sabia que o tempo que conta é o subjectivo, que a personalidade individual se faz e refaz como as vagas (já lá vamos), não podendo ser narrada do exterior, mas sim a partir de um interior que é ele mesmo indeterminado, indefinido, em constante mutação, um pouco à maneira de Goethe descobrindo que a forma é metamorfose.
O corolário deste modo de pensar a escrita literária surge-nos sob a forma de personagens em silhueta, fantasmas absortos no nevoeiro, despojados de particularidades exteriores e ricos em percepções, imagens e recordações e atinge a plenitude no romance (?) "As Vagas" que culminam uma arte essencialmente elíptica, anti-realista e baseada em constantes metamorfoses dos conteúdos emocionais da consciência, libertando-se progressivamente da tirania dos factos e das formas a fim de surpreende no instante mesmo em que ocorre o escoar-se no tempo dessa coisa perecível a que chamamos vida. Essa mesma vida não passa, afinal, de uma manta de retalhos, de peças de empréstimo, de vagas sucessivas de encontros e memórias, miragens, quimeras, ilusões, sonhos, de destroços e de momentos fugidios de felicidade e de outros momentos, ainda mais ilusórios e fugidios de liberdade, sendo o romance um reflexo fiel e necessário dessa incoerência e do caos que habita aquilo a que chamamos consciência. A obra dessa escritora elusiva e frágil inunda-nos constantemente com as mesmas matérias, com as exactas substâncias de que a vida é feita: sensações, o volume confuso das impressões que somos, a fim de captar por meio de clarões isolados e descontínuos a realidade contínua (ou a continuidade que julgamos constituir o núcleo duro da realidade, como se a realidade fosse real).
Muitas vezes a técnica revolucionária de Virginia Woolf faz-me lembrar o cinema, como se estivéssemos no domínio puro daquilo que se designa por "camera eye"; ora faz deslizar o aparelho de captar imagens ao longo do seu eixo, ora o desloca do interior para o exterior, exactamente como sucede com os "travellings", as panorâmicas e outros movimentos de câmara, subtis e arrojados que são o segredo de alguns (muito poucos) grandes mestres da arte cinematográfica. A estes movimentos faz suceder efeitos de montagem, encadeamentos fluidos, sucessões de movimentos em frente e de retorno, elipses (comparáveis às do grande mestre delas que foi Kenji Mizoguchi), sucessão e escala de planos nos campos da consciência como, no cinema, se sucedem os planos no espaço e no tempo. O resultado é uma multiplicação até ao infinito de pontos de vista distintos, sucessivas perspectivas de imagens sobre uma mesma realidade, visando aumentar o conhecimento dessa mesma realidade e o aprofundamento das sensações que provoca. Como se percebe, Woolf nunca quis explicar nem descrever fosse o que fosse: deu a ver, explorou, fez sentir, submergiu os leitores nas correntes de consciência, abdicou de forçar o objecto tornando-o domesticado e acessível. Com ela, por causa dela, o artista já não o semi-deus que tudo observa e tudo compreende; a partir dela é um de nós, mergulhados nas mesmas incertezas, nos mesmos temores, na mesma e exacta indeterminação e nos mesmos instantes breves de felicidade.
Para descrever um mundo em pedaços (o seu e o nosso, hoje), inventou uma linguagem em separação, esquartejada e uma técnica que procede por saltos, parcelada. As grandes obras literárias são assim : não basta que nos mostrem que somos apenas um mosaico de impressões, uma tábua rasa na qual se vêm inscrever os fenómenos que nos são exteriores e que nos dilaceram ou nos proporcionam alegria, não basta que nos digam que somos isso num tempo incaptável, arbitrariamente dispostos num espaço que nos foi dado habitar, mal ou bem: é preciso mostrá-lo, é necessário ver as imagens sucederem-se às imagens, os instantes aos instantes, é preciso que as frases nos dilacerem, nos puxem para o abismo, nos partam o coração, que a pontuação nos arranque a pele e que, por vezes, não ouçamos mais que uma sequência de palavras descosidas, desgarradas, ensanguentadas e uivadas ao vento. Mas ao mesmo tempo que nos mostra que somos vítimas (muito pouco inocentes) do tempo que passa e nos destrói, das sensações violentas e imprevistas que nos isolam dos outros, dos acontecimentos e dos acasos que nos vão desumanizando, a linguagem ambivalente de Virginia Woolf, a ausência de estruturas seguras naquilo que escreveu, mostra-nos esse outro tempo que goteja lentamente dentro de nós e que, longe de nos destruir, nos fortalece provisoriamente contra o caos circundante.
Mas não chega a ocultar-nos que as vagas atiram contra a praia os destroços do que fomos - miragens, quimeras, sonhos ilusões - e os cadáveres lívidos do que somos. Como dizia outro grande escritor. "entre a dor e o nada, prefiro a dor".
UM NADA QUE SERÁ QUALQUER COISA
Um raio de Sol oblíquo desenha no chão a grelha das frestas
do estore. Encostado a um cigarro tranquilo distraio-me com as argolas de fumo
que a boca vai expelindo em contracções mecânicas. A televisão desligada com o
sinal vermelho de presença, por cima a estante dos livros, soldados de chumbo
alinhados em parada dos tempos, bibelôs, alguns retratos. Mais a um canto a
mesa com as fotografias dos que já foram, o meu avô muito magro, a minha avó
com vinte e poucos anos, uma jovem linda vestida com um vestido leve em
paisagem campestre. O Sol que se vai deitando lentamente, a grelha que se
alarga até ser sombra, cada vez mais sombra, o cigarro a apagar-se ao fim da
tarde. Títulos e mais títulos de romances inventados a esta hora do dia,
Outonos preguiçosos, contemplativos, paisagens campestres inocentes, mulheres
jovens a preto e branco, homens magrinhos com chapéus de aba redonda, que
sorriem. Venerandos farfalhudos de suíças arrebitadas em uniformes de gala,
tias com penteados altaneiros e óculos de modelos estranhos parecidos com o
Batman. Eu todo nu sem dentes com um caracol em cima da testa e olhar
apreensivo (talvez frio), a minha irmã em pose assustada a protestar contra um
flash inesperado, o meu irmão sentado ao colo do Pai Natal a chorar baba e
ranho, os livros a cantar títulos outonais para uma plateia de soldados de
chumbo pouco participativa, a televisão em modo escuro, a tarde que vai
morrendo lentamente em esplendores de luz espalhados pelo tapete da sala. Um
dia tudo isto não vai passar de uma recordação, um dia eu não serei mais do que
uma recordação, talvez um jovem magrinho a segurar um peixe ridículo de panamá
na cabeça ao lado do meu tio, um caracol a sair do panamá, o meu tio de bigode,
a televisão muda. Um dia tudo isto não será mais do que…qualquer coisa.
Qualquer coisa entre a memória e o prazer, a meditação e o nada. Um dia tudo
isto será qualquer coisa, qualquer coisa como um filme guardado nos arquivos de
uma cinemateca qualquer, terá existência real mesmo que ninguém saiba que
existe. Estará enrolado numa caixa metálica circular e identificado com uma
etiqueta. Um título outonal, o filme de um gajo, a sala de um gajo, as
fotografias e os livros, enquanto o Sol se deita lentamente. Uma mulher nova a
preto e branco, um filósofo antigo sentado na estante com as pernas a abanar
- A continuidade? Uma chachada…
A despejar o cachimbo distraído sobre a cabeça dos soldados
de chumbo,
- A memória, a continuação, o presente…uma valente chachada.
o peixe ridículo a reclamar que quer voltar para casa, o
antepassado farfalhudo desconfiado a esticar o olhar sobre uma garrafa de
whisky, o meu tio sem bigode numa cama do hospital a arfar para uma máquina, um
soldado mais atrevido para o filósofo
- E se fosses cagar a puta da tua mãe ?
Um dia tudo será um nada que será qualquer coisa, qualquer
coisa que se apaga lentamente ao sabor do sono do Sol, como a sombra que vai
crescendo no tapete enquanto apaga os últimos raios de uma tarde de Outono.
Assim se apaga o cigarro, os livros, os soldados de chumbo, as fotografias dos
que já foram, as fotografias do que já fomos, as memórias. Assim se enrola um
filme antes de o acondicionar cuidadosamente numa lata circular, colocar uma
etiqueta de identidade e arrumar numa arrecadação de uma cinemateca qualquer,
esperando que um dia alguém o encontre numa tarde de Outono. Que alguém o
encontre e resolva pôr a tocar num ecran mudo por baixo de uma estante. Que
alguém acenda um cigarro e fique ali simplesmente a olhar, enquanto o Sol se vai
deitando devagar e a sombra cresce sobre a luz do tapete.
Artur
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
THE MAN THEY LOVE TO HATE
Dizia o Coronel Vasco Lourenço : "Eles não podem ser tão estúpidos que não percebam que estão a destruir o país".
Podem, podem. Provavelmente, o Vasco Lourenço não imagina a que abismos podem conduzir a estupidez e a imbecilidade humanas. Não concebe, talvez, a que Himalaias de estupidez pode ascender esta mistura explosiva de arrogância, ignorância, maldade, ganância, incompetência, selvajaria e poder. Ignora, porventura, a definição que Roland Barthes deu de estupidez:
"A estupidez é a euforia do lugar"
Podem, podem. Provavelmente, o Vasco Lourenço não imagina a que abismos podem conduzir a estupidez e a imbecilidade humanas. Não concebe, talvez, a que Himalaias de estupidez pode ascender esta mistura explosiva de arrogância, ignorância, maldade, ganância, incompetência, selvajaria e poder. Ignora, porventura, a definição que Roland Barthes deu de estupidez:
"A estupidez é a euforia do lugar"
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
DESENCONTROS
"Às vezes sentimo-nos desamparados sem saber que desamparados sempre, outra pessoa na sala desamparada também, sorrimos-lhe, sorri-nos de volta e embora pensemos que sim os sorrisos não se cruzam, as palavras não se encontram, dispersam-se antes de chegarem, que palavras seriam, a mão que pega na nossa mão é um nós que toca, os móveis viram-se de costas, as jarras, embora ali, ausentes, os objectos que julgamos conhecer perguntam
Quem és tu?"
António Lobo Antunes in "Não é Meia- Noite Quem Quer"
Quem és tu?"
António Lobo Antunes in "Não é Meia- Noite Quem Quer"
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
SAMHAIN
Hoje é dia de manifestação contra o governo, noite de
Halloween ( se não tiver doces em casa os putos pintam-me a porta), o acordo
ortográfico continua em vigor, o orçamento que finalmente nos vai enterrar a
todos vai ser aprovado, um zombie continua morto no palácio de Belém, o meu
clube anda pelo fim da tabela, em suma, os demónios andam à solta, as bruxas
dominam a rua, o inferno desceu à terra mais uma vez. É o caos total, o
princípio do fim, o fim de um regime, o fim da democracia como a conhecemos e,
se não nos revoltarmos rapidamente, o fim da nossa existência. Mergulhados numa
tina de inferno e de absurdo. Mais negro que isto só uma invasão normanda sobre
uma aldeia celta no noroeste da França. Ao amanhecer esperam ansiosos à entrada
da floresta, ouvindo através do nevoeiro, os urros dos selvagens muito
superiores em numero e em ferocidade. Trememos não percebendo se é do frio se é
do medo. Conseguimos mandar as mulheres e as crianças para lugar seguro ainda a
tempo. Hoje, festa do Samhain, os mortos regressam para ajudar os seus
descendentes a sair da terra. As cerimónias estão feitas, os rituais cumpridos.
Resta-nos aguentar o nosso destino. De repente as guerras liberais em 1820, as
convulsões sociais europeias cem anos depois. Correria, bombas, mortos,
confrontos, o diabo à solta pelas ruas e não há nada que possa ser feito,
nenhuma frase, nenhum livro, nenhum poema que acalme esta ofensiva vinda do
norte que nos pretende esmagar, saquear, queimar as nossas casas, violar as
nossas mulheres. O inferno à solta como uma máquina de lavar connosco lá
dentro, uma máquina de lavar como uma onda há muitos anos na Praia Grande, um
dia cinzento sem Sol e a superfície que nunca mais chegava. Aproveita para
encomendar a alma ao Criador, para celebrar os teus rituais, está quase a
chegar a tua vez. A centrifugação dos ventos da História na minha cabeça, a
centrifugação que nunca mais acaba, a entrada do bosque, os urros mecânicos da
máquina que vão chegando através da neblina. E de vez em quando um livro, um
filme, a tua mão que me resgata lá de dentro, breves balões de oxigénio, forças
que me conseguem segurar o medo. Almas que fogem ao longo dos tempos, sempre a
correr, a resistir, companheiros de uma corrida sem fim mergulhados numa onda
na Praia Grande, a tentar cheirar através do nevoeiro o momento em que
finalmente o inimigo terá um rosto. Cátaros incendiados em frente a Notre Dame,
a maldição de Jacques de Molay, índios massacrados pelos conquistadores do novo
mundo, corrompidos com bugigangas e garrafas de álcool, libertários da
Catalunha perseguidos e assassinados por fascistas, estalinistas, todos os
inimigos da liberdade, judeus a resistir no gueto de Varsóvia, Primo Levy que
responde a um rabi: “Senão agora, então quando?” Lágrimas e sofrimento dentro
deste infinito absurdo que ninguém percebe “para quê” nem “porquê”. E no
horizonte uma frase, umas palavras, um livro, uma imagem, a tua mão que aparece
de repente e me resgata de dentro da água, a tua mão que me concede momentos de
breve eternidade. A correria imensa e eterna como um comboio desgovernado pela
noite fora a rasgar o escuro com o grito da sua sirene, uma canção de rock’n
roll a embalar-nos a consciência, a estabelecer contacto, a trazer-nos outra
vez os mortos que nos recebem com um sorriso antes de morrermos. Um concerto
com as guitarras eléctricas hipnotizadas, a bateria a alimentar-nos o coração,
a nossa oração, a nossa religião, o universo a entrar pela porta da frente, a
celebração do absoluto da existência. Foi bom irmãos, foi bom ter-vos
conhecido, quem chegar lá primeiro manda vir as cervejas. Em batida de rock’n
roll, anjos celtas agarrados a guitarras eléctricas hipnotizadas. Rostos
familiares, rostos reencontrados que nos garantem “aqui não há máquinas de
lavar”. Viagem entre o inferno e o absurdo a pretexto de não se sabe “para quê”
nem “porquê”, sofrimentos em mares de lágrimas, ondas que não terminam, a
resistência até ao fim porque sim, porque não nascemos para ser pisados,
humilhados, massacrados por anões que se julgam donos desta merda. Não nascemos
para ser escravos de uma ordem tirana, nem agora nem nunca em tempo nenhum por
mais reencarnações que possamos ter, para que outros aprendam essa consciência.
Às vezes a sabedoria de um livro, o preenchimento de um filme, a tua mão, um
ritual em concertos, as nossas mãos no ar, as palavras a dançar, as imagens
alinhadas em harmonias perfeitas. O inferno é a ausência de razão, o absurdo, a
ausência de sentido. E nenhuma delas me esmagará sem luta, nenhuma delas tomará
conta da minha aldeia sem que eu lhe pegue fogo primeiro, nenhuma delas se
conseguirá rir quando finalmente se conseguir sentar em cima da minha cabeça.
Nenhuma delas me deitará abaixo definitivamente porque voltarei em noite de
Samhain e infernizarei os seus sonhos. A luta nunca termina, muda várias de
vezes de comboio na mesma direcção.
Artur
MURAL
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.B. Brecht
REFUNDA A TUA MÃE, PÁ !!!
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
UM LOUCO NO SEU GABINETE, COM UMA FOLHA DE EXCEL
"Considerai o seguinte, vós, orgulhosos homens de acção: não passais de instrumentos inconscientes dos homens de pensamento, que no seu humilde sossego com frequência traçam os vossos planos de acção mais completos" Heinrich Heine
O aviso que Heine deixa aos homens de acção do seu tempo, referindo-se ao rescaldo da Revolução Francesa e do Império napoleónico, foi objecto de uma magnífica paráfrase de Isaiah Berlin que, em 1958, se lia assim:
"´Há mais de cem anos, Heine, o poeta alemão, aconselhou os franceses a não substimarem o poder das ideias : os conceitos filosóficos, criados no sossego de um gabinete de professor, poderiam destruir uma civilização" (Two Concepts of Liberty, 1958)
Se Heine tinha em mente a influência dos filósofos das Luzes nos transcendentes acontecimentos ocorridos entre 1789 e 1793, prolongados por Napoleão Bonaparte até 1814, Berlin quer chamar a atenção para a importância da história intelectual e do "poder das ideias" sobre os acontecimentos políticos e sociais de cada época. Esta influência tem uma génese e uma história e um dos fenómenos intelectuais que considero mais importantes é o da busca universal por parte dos filósofos de certezas absolutas, de respostas que não fosse possível pôr em causa, de uma segurança intelectual total. Esta busca - quase se diria faústica - constitui uma assombrosa etapa da história das ideias e um dos fundamentos das reflexões de Heine e de Berlin, como adiante procurarei demonstrar. Começo por Karl Marx e o modo como o estudo dos seus conceitos conduz à investigação dos seus predecessores e, particularmente dos filósofos franceses setecentistas - adversários letais do dogmatismo, do tradicionalismo, da religião, da superstição, da igonrância e, de uma forma geral, de todas as formas de opressão do homem. É assim que passamos a admirar a ciclópica tarefa que os autores da "Encylopédie" levaram a cabo e o objectivo supremo que para si mesmos fixaram: libertar os homens das trevas - clericais, metafísicas, políticas e outras. Com algum distanciamento crítico, compreendi que as consequências, tanto de ordem lógica como social desse esforço, desembocaram no dogmatismo marxista e dos seguidores de Marx. Entre filósofos do Iluminismo e marxistas, o traço de união pode ser definido deste modo: pensavam sinceramente terem encontrado a vida que levava à solução de todos os problemas que, desde o começo, haviam atormentado e degradado a Humanidade; uma vez conjugadas todas as respostas certas às questões morais, sociais e políticas mais profundas que ocupam (ou deveriam ocupar os homens), o resultado constituiria a solução final de todos os problemas da existência. No entanto, os seres humanos podem ser demasiado estúpidos, de tal modo infelizes, tão enormemente oprimidos e pauperizados que não logrem alcançar as respostas. Ou, ainda, que essas respostas sejam demasiado difíceis, os meios insuficientes, a descoberta das técnicas demasiado complicada. Da ideia inicial - encontrados os modelos, as soluções viriam natural ou penosamente a serem encontradas - ao Terror revolucionário vai apenas um pequeno passo, embora a ameaça de destruição da civilização se mostre excessiva. É melhor o excesso revolucionário, mesmo com tudo o que comporta de trágico, de sanguinário e de totalitário, que as meias-tintas da interpretação estética e moral da vida.
Hoje, os filósofos no sossego humilde dos seus gabinetes foram substituídos por uma prole larvar de tecnocratas, burocratas, eurocratas e afins, constituíndo uma nova casta de sacerdotes, de ungidos, de alucinados místicos, capazes de separarem as ovelhas meritórias dos bodes indignos de serem salvos. A estes moralistas redentores e messiânicos - a quem em tempos chamei "devotos do onanismo" - nos seus gabinetes estofados a bons couros e ar condicionado, basta-lhes uma folha Excel para destruírem civilizações, modos de vida, estruturas sociais. Por isso, se tornam cada vez mais prementes velhas questões que não obtêm resposta: "Até que ponto sou controlado por esta gente ?" ("Quem me controla ?") "Quem controla aqueles que me controlam ?", "Quem determina as minhas acções,a minha vida ?" "Sou eu que as determino, livremente, seja qual for a minha escolha ?" "Ou estou sob controlo de outra fonte de controlo ?" "Estou submetido à disciplina de um sistema jurídico, da ordem capitalista, de um proprietário de escravos, do governo (democrático, autoritário, oligárquico ), da seita dos loucos-fanáticos nos seus gabinetes manipulando modelos econométricos ? Em que sentido sou senhor do meu destino ? Quem são os que ocupam o meu lugar em vez de mim, que poder detêm ?"
Mesmo depois do último 15 de Setembro, esta gente persiste no esforço de nos fazer engolir pela goela abaixo a tese de que a verdadeira liberdade (a minha liberdade enquanto indíviduo e a liberdade da sociedade enquanto grupo) consiste na obediência sem reservas a essas autoridades, aos sábios, aos que conhecem a verdade, à elite dos esclarecidos, ou ainda, a minha obediência é ilimitadamente devida aos que compreendem as forças que forjam e determinam os destinos do homem.
Mas, se perguntar "o que significa o futuro ?", saberão eles dar a resposta ?
terça-feira, 23 de outubro de 2012
MAIS UMA CRÓNICA DO BAIRRO
Tive a sorte de crescer num
bairro fantástico e de ter conhecido os melhores amigos do mundo, os mesmos que
continuo a ter. Os nossos avós tinham sido jovens no tempo da República,
contemporâneos da geração do Fernando Pessoa, dos surrealistas, anarquistas,
sufocados no auge da existência por um manto negro de proibições, prisões, fome
e “padrecas”. Eram republicanos, aristocratas falidos, operários
especializados. Derrotados pelos ventos da História, nunca se renderam nem
dobraram as costas à ditadura. Falavam de coisas que não se viam na televisão,
encaravam as vicissitudes da vida com um olhar fixo, as velhas diziam palavrões
quando se irritavam, os velhos não tinham pejo nenhum em andar ao soco. Os
nossos pais eram mais amedrontados, nunca tinham vivido em liberdade mas também
não se resignavam. Resistiam, falavam de política, ouviam o Rock’ n Roll que
chegava em discos de vinil com dois anos de atraso, foram presos políticos, fizeram
a guerra, desertaram, foram pioneiros em relação ao amor livre, às drogas, à
nova postura sussurrada pelos ventos do Woodstock e do Maio de 68. Éramos
crianças livres debaixo de um manto repressivo. Com o 25 de Abril, pouco tempo
depois da “FESTA”, as coisas voltaram à normalização. Mas no bairro, não. Fomos
adolescentes, ouvíamos “Punk Rock” e “New Wave”, e desdenhávamos dos parolos
que se iam inscrevendo nas juventudes partidárias. Os que agora se chamam
“jotinhas” e fazem questão de acabar com o que resta deste país. Experimentámos
a vida para além de todos os limites, abrindo uma guerra na qual muitos não
sobreviveram. Acidentes de carro, Sida e drogas cruzaram-se no nosso caminho e
eliminaram mais de metade de uma geração. Continuámos a viver livres sob um
manto negro de facções partidárias apostadas em controlar todas as dimensões da
vida.
E, ao longo de todas estas fases
urbanas de crescimento, além de um amor quase obcecado pela liberdade, existiu
sempre um espírito comunitário de solidariedade e respeito entre todos. Um
espírito herdado das anteriores gerações. Era comum cumprimentarmo-nos na rua,
mesmo não conhecendo formalmente o outro. Era comum acompanhar os velhos que
viviam sozinhos, desenrascar o vizinho, emprestar isto ou aquilo, passear o cão
que não era nosso, ficar com os filhos dos outros à noite.
No fantástico bairro de Campo de
Ourique, as árvores cresceram abanadas pelos ventos da Liberdade, regadas pelas
lágrimas das vítimas da tirania, as ruas foram rasgadas pela firmeza da
resistência ao infortúnio, decoradas pela teimosia de viver e pela ganância de
roubar à vida tudo o que pudesse ser roubado, compensando o muito que ela nos
rouba desde o primeiro dia. Uma geração após outra assumia pagar o preço de ser
livre, deixando nas memórias, nas pequenas histórias urbanas, o legado de quem
não se resigna, de quem não se vende nem se rende. E não trocava esta
experiência de vida, esta existência privilegiada, por todo o poder do mundo…
Artur
domingo, 21 de outubro de 2012
O ADEUS DO MESTRE
Ás vezes o silêncio entristece, outras consegue transformar-se no melhor companheiro que podemos ter. Li com atenção a última crónica de António Lobo Antunes publicada na VISÃO desta semana, intitulada “Adeus”. Desde os treze anos, desde que me chegou às mãos “Os Cus De Judas” que nunca mais perdi uma palavra deste que considero o Mestre por muitas razões. Nesta crónica ele despede-se enquanto autor, deixando no ar a publicação de mais um ou dois títulos antes de fechar a loja. A obra fica aí para quem quiser aproveitar, sussurrada por uma voz indefinida, não pela mão de quem escreve. Mais do que o amor, a solidão e o riso, Lobo Antunes foi um elemento chave na análise do “Inconsciente Colectivo” das ultimas décadas do século XX. Ele e Herman José. Se este foi a fotografia, a caricatura do colectivo, António Lobo Antunes foi o psiquiatra, aquele que mais fundo penetrou na intimidade desse “Inconsciente” e tentou trazer para a superfície pedaços para análise, rostos, pensamentos, comportamentos. Razões, não. Nesta área não se trabalha com razões mas com emoções, com causas e efeitos, com culpas, faltas, remorsos, dores e um sem fim de ferramentas. Ao fim de muito tempo imerso neste gigantesco tanque sem sentido, acaba por, ele próprio perder o sentido, fica surdo (literalmente), autista do mundo (como a Clara Ferreira Alves escreveu uma vez), escrevendo documentos autistas onde os personagens falam e se interrompem, trocam de voz, de cenário, com uma enorme dificuldade para o leitor conseguir descortinar o que está a ler. Mas, tal como Joyce, Lobo Antunes sabe perfeitamente o que está a escrever, embora num limbo de percepção difícil de definir entre as margens finais do texto literário e as comportas escancaradas do inconsciente. A meio da obra, já não é literário o seu texto, já não é coisa nenhuma, por ausência de definição do seu trabalho. Uma ausência que só os futuros investigadores da língua conseguirão definir. As emoções empilham-se num amontoado aparente de desorganização que será tudo menos desorganizado. Compreender Lobo Antunes é tentar antes de mais nada conseguir penetrar no seu universo, saber traduzir a sua voz, como quem tenta reunir um molho de lenha numa praia para fazer uma fogueira para a noite. Parecendo uma tarefa impossível de realizar à partida, o certo é que com esforço e dedicação acaba-se sempre por conseguir.
Ao Mestre só tenho a agradecer os inúmeros momentos de bem estar e tranquilidade que os seus livros me deram, as gargalhadas e as lágrimas. Principalmente agradecer-lhe ter-me ensinado a escrever. A ajudar-me a entender os pássaros, a empurrar um baloiço vazio no Jardim zoológico a meio da noite, a passear uma tia mongolóide numa feira em Monsaraz com um feirante a querer comprar-ma, a jogar à bisca lambida com o Camões em cima do caixão do pai dele num barco a caminho de Lisboa em plena descolonização. E tantas, tantas outras imagens que, além de me sinalizarem enquanto marcos da existência, serviram para me estruturar melhor a minha personalidade. Se esta é a sua despedida então adeus, Mestre. Se depender de mim, nunca partirás para fora da tua relevância.
Artur
Ao Mestre só tenho a agradecer os inúmeros momentos de bem estar e tranquilidade que os seus livros me deram, as gargalhadas e as lágrimas. Principalmente agradecer-lhe ter-me ensinado a escrever. A ajudar-me a entender os pássaros, a empurrar um baloiço vazio no Jardim zoológico a meio da noite, a passear uma tia mongolóide numa feira em Monsaraz com um feirante a querer comprar-ma, a jogar à bisca lambida com o Camões em cima do caixão do pai dele num barco a caminho de Lisboa em plena descolonização. E tantas, tantas outras imagens que, além de me sinalizarem enquanto marcos da existência, serviram para me estruturar melhor a minha personalidade. Se esta é a sua despedida então adeus, Mestre. Se depender de mim, nunca partirás para fora da tua relevância.
Artur
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
MANUEL ANTÓNIO PINA
1943 - 2012
"É então isto um livro,este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo "eu"entre nós e nós?"
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