terça-feira, 6 de novembro de 2012

VW





A Filosofia ensina que a negação pode ser determinante. É algo mais do que a negação da possibilidade. A privação tem consequências que não podemos antecipar ou avaliar com acerto. O livro não escrito é o que poderia ter feito a diferença. Que nos poderia ter permitido falhar melhor. Ou talvez não.  
George Steiner

Tornei-me um estranho para mim próprio, e nem na minha alma encontro respostas.
S. Agostinho


Tinha um rosto de jovem Parca (M. Yourcenar dixit), um rosto (digo eu) onde se expressavam a complexidade e a fragilidade da vida. Ninguém como Virginia Woolf conferiu tanto sentido à tese de Sartre segundo a qual "toda a técnica romanesca remete para uma metafísica". Era ela que não acreditava em relógios, no tempo mensurável e divisível em parcelas fixas e estanques capazes de balizar uma vida humana, decompondo-a em instantes definidos e definíveis; sabia que o tempo que conta é o subjectivo, que a personalidade individual se faz e refaz como as vagas (já lá vamos), não podendo ser narrada do exterior, mas sim a partir de um interior que é ele mesmo indeterminado, indefinido, em constante mutação, um pouco à maneira de Goethe descobrindo que a forma é metamorfose.
O corolário deste modo de pensar a escrita literária surge-nos sob a forma de personagens em silhueta, fantasmas absortos no nevoeiro, despojados de particularidades exteriores e ricos em percepções, imagens e recordações e atinge a plenitude no romance (?) "As Vagas" que culminam uma arte essencialmente elíptica, anti-realista e baseada em constantes metamorfoses dos conteúdos emocionais da consciência, libertando-se progressivamente da tirania dos factos e das formas a fim de surpreende no instante mesmo em que ocorre o escoar-se no tempo dessa coisa perecível a que chamamos vida. Essa mesma vida não passa, afinal, de uma manta de retalhos, de peças de empréstimo, de vagas sucessivas de encontros e memórias, miragens, quimeras, ilusões, sonhos, de destroços e de momentos fugidios de felicidade e de outros momentos, ainda mais ilusórios e fugidios de liberdade, sendo o romance um reflexo fiel e necessário dessa incoerência e do caos que habita aquilo a que chamamos consciência. A obra dessa escritora elusiva e frágil inunda-nos constantemente com as mesmas matérias, com as exactas substâncias de que a vida é feita: sensações, o volume confuso das impressões que somos, a fim de captar por meio de clarões isolados e descontínuos a realidade contínua (ou a continuidade que julgamos constituir o núcleo duro da realidade, como se a realidade fosse real).
Muitas vezes a técnica revolucionária de Virginia Woolf faz-me lembrar o cinema, como se estivéssemos no domínio puro daquilo que se designa por "camera eye"; ora faz deslizar o aparelho de captar imagens ao longo do seu eixo, ora o desloca do interior para o exterior, exactamente como sucede com os "travellings", as panorâmicas e outros movimentos de câmara, subtis e arrojados que são o segredo de alguns (muito poucos) grandes mestres da arte cinematográfica. A estes movimentos faz suceder efeitos de montagem, encadeamentos fluidos, sucessões de movimentos em frente e de retorno, elipses (comparáveis às do grande mestre delas que foi Kenji Mizoguchi), sucessão e escala de planos nos campos da consciência como, no cinema, se sucedem os planos no espaço e no tempo. O resultado é uma multiplicação até ao infinito de pontos de vista distintos, sucessivas perspectivas de imagens sobre uma mesma realidade, visando aumentar o conhecimento dessa mesma realidade e o aprofundamento das sensações que provoca. Como se percebe, Woolf nunca quis explicar nem descrever fosse o que fosse: deu a ver, explorou, fez sentir, submergiu os leitores nas correntes de consciência, abdicou de forçar o objecto tornando-o domesticado e acessível. Com ela, por causa dela, o artista já não o semi-deus que tudo observa e tudo compreende; a partir dela é um de nós, mergulhados nas mesmas incertezas, nos mesmos temores, na mesma e exacta indeterminação e nos mesmos instantes breves de felicidade.
Para descrever um mundo em pedaços (o seu e o nosso, hoje), inventou uma linguagem em separação, esquartejada  e uma técnica que procede por saltos, parcelada. As grandes obras literárias são assim : não basta que nos mostrem que somos apenas um mosaico de impressões, uma tábua rasa na qual se vêm inscrever os fenómenos que nos são exteriores e que nos dilaceram ou nos proporcionam alegria, não basta que nos digam que somos isso num tempo incaptável, arbitrariamente dispostos num espaço que nos foi dado habitar, mal ou bem: é preciso mostrá-lo, é necessário ver as imagens sucederem-se às imagens, os instantes aos instantes, é preciso que as frases nos dilacerem, nos puxem para o abismo, nos partam o coração, que a pontuação nos arranque a pele e que, por vezes, não ouçamos mais que uma sequência de palavras descosidas, desgarradas, ensanguentadas e uivadas ao vento. Mas ao mesmo tempo que nos mostra que somos vítimas (muito pouco inocentes) do tempo que passa e nos destrói, das sensações violentas e imprevistas que nos isolam dos outros, dos acontecimentos e dos acasos que nos vão desumanizando, a linguagem ambivalente de Virginia Woolf, a ausência de estruturas seguras naquilo que escreveu, mostra-nos esse outro tempo que goteja lentamente dentro de nós e que, longe de nos destruir, nos fortalece provisoriamente contra o caos circundante.
Mas não chega a ocultar-nos que as vagas atiram contra a praia os destroços do que fomos - miragens, quimeras, sonhos ilusões - e os cadáveres lívidos do que somos. Como dizia outro grande escritor. "entre a dor e o nada, prefiro a dor".

UM NADA QUE SERÁ QUALQUER COISA

Um raio de Sol oblíquo desenha no chão a grelha das frestas do estore. Encostado a um cigarro tranquilo distraio-me com as argolas de fumo que a boca vai expelindo em contracções mecânicas. A televisão desligada com o sinal vermelho de presença, por cima a estante dos livros, soldados de chumbo alinhados em parada dos tempos, bibelôs, alguns retratos. Mais a um canto a mesa com as fotografias dos que já foram, o meu avô muito magro, a minha avó com vinte e poucos anos, uma jovem linda vestida com um vestido leve em paisagem campestre. O Sol que se vai deitando lentamente, a grelha que se alarga até ser sombra, cada vez mais sombra, o cigarro a apagar-se ao fim da tarde. Títulos e mais títulos de romances inventados a esta hora do dia, Outonos preguiçosos, contemplativos, paisagens campestres inocentes, mulheres jovens a preto e branco, homens magrinhos com chapéus de aba redonda, que sorriem. Venerandos farfalhudos de suíças arrebitadas em uniformes de gala, tias com penteados altaneiros e óculos de modelos estranhos parecidos com o Batman. Eu todo nu sem dentes com um caracol em cima da testa e olhar apreensivo (talvez frio), a minha irmã em pose assustada a protestar contra um flash inesperado, o meu irmão sentado ao colo do Pai Natal a chorar baba e ranho, os livros a cantar títulos outonais para uma plateia de soldados de chumbo pouco participativa, a televisão em modo escuro, a tarde que vai morrendo lentamente em esplendores de luz espalhados pelo tapete da sala. Um dia tudo isto não vai passar de uma recordação, um dia eu não serei mais do que uma recordação, talvez um jovem magrinho a segurar um peixe ridículo de panamá na cabeça ao lado do meu tio, um caracol a sair do panamá, o meu tio de bigode, a televisão muda. Um dia tudo isto não será mais do que…qualquer coisa. Qualquer coisa entre a memória e o prazer, a meditação e o nada. Um dia tudo isto será qualquer coisa, qualquer coisa como um filme guardado nos arquivos de uma cinemateca qualquer, terá existência real mesmo que ninguém saiba que existe. Estará enrolado numa caixa metálica circular e identificado com uma etiqueta. Um título outonal, o filme de um gajo, a sala de um gajo, as fotografias e os livros, enquanto o Sol se deita lentamente. Uma mulher nova a preto e branco, um filósofo antigo sentado na estante com as pernas a abanar

- A continuidade? Uma chachada…

A despejar o cachimbo distraído sobre a cabeça dos soldados de chumbo,

- A memória, a continuação, o presente…uma valente chachada.

o peixe ridículo a reclamar que quer voltar para casa, o antepassado farfalhudo desconfiado a esticar o olhar sobre uma garrafa de whisky, o meu tio sem bigode numa cama do hospital a arfar para uma máquina, um soldado mais atrevido para o filósofo

- E se fosses cagar a puta da tua mãe ?

Um dia tudo será um nada que será qualquer coisa, qualquer coisa que se apaga lentamente ao sabor do sono do Sol, como a sombra que vai crescendo no tapete enquanto apaga os últimos raios de uma tarde de Outono. Assim se apaga o cigarro, os livros, os soldados de chumbo, as fotografias dos que já foram, as fotografias do que já fomos, as memórias. Assim se enrola um filme antes de o acondicionar cuidadosamente numa lata circular, colocar uma etiqueta de identidade e arrumar numa arrecadação de uma cinemateca qualquer, esperando que um dia alguém o encontre numa tarde de Outono. Que alguém o encontre e resolva pôr a tocar num ecran mudo por baixo de uma estante. Que alguém acenda um cigarro e fique ali simplesmente a olhar, enquanto o Sol se vai deitando devagar e a sombra cresce sobre a luz do tapete.

 

Artur

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

THE MAN THEY LOVE TO HATE

Dizia o Coronel Vasco Lourenço : "Eles não podem ser tão estúpidos que não percebam que estão a destruir o país".


Podem, podem. Provavelmente, o Vasco Lourenço não imagina a que abismos podem conduzir a estupidez e a imbecilidade humanas. Não concebe, talvez, a que Himalaias de estupidez pode ascender esta mistura explosiva de arrogância, ignorância, maldade, ganância, incompetência, selvajaria e poder. Ignora, porventura, a definição que Roland Barthes deu de estupidez:

"A estupidez é a euforia do lugar"

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DESENCONTROS

"Às vezes sentimo-nos desamparados sem saber que desamparados sempre, outra pessoa na sala desamparada também, sorrimos-lhe, sorri-nos de volta e embora pensemos que sim os sorrisos não se cruzam, as palavras não se encontram, dispersam-se antes de chegarem, que palavras seriam, a mão que pega na nossa mão é um nós que toca, os móveis viram-se de costas, as jarras, embora ali, ausentes, os objectos que julgamos conhecer perguntam
Quem és tu?"

António Lobo Antunes in "Não é Meia- Noite Quem Quer"

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SAMHAIN


 

   Hoje é dia de manifestação contra o governo, noite de Halloween ( se não tiver doces em casa os putos pintam-me a porta), o acordo ortográfico continua em vigor, o orçamento que finalmente nos vai enterrar a todos vai ser aprovado, um zombie continua morto no palácio de Belém, o meu clube anda pelo fim da tabela, em suma, os demónios andam à solta, as bruxas dominam a rua, o inferno desceu à terra mais uma vez. É o caos total, o princípio do fim, o fim de um regime, o fim da democracia como a conhecemos e, se não nos revoltarmos rapidamente, o fim da nossa existência. Mergulhados numa tina de inferno e de absurdo. Mais negro que isto só uma invasão normanda sobre uma aldeia celta no noroeste da França. Ao amanhecer esperam ansiosos à entrada da floresta, ouvindo através do nevoeiro, os urros dos selvagens muito superiores em numero e em ferocidade. Trememos não percebendo se é do frio se é do medo. Conseguimos mandar as mulheres e as crianças para lugar seguro ainda a tempo. Hoje, festa do Samhain, os mortos regressam para ajudar os seus descendentes a sair da terra. As cerimónias estão feitas, os rituais cumpridos. Resta-nos aguentar o nosso destino. De repente as guerras liberais em 1820, as convulsões sociais europeias cem anos depois. Correria, bombas, mortos, confrontos, o diabo à solta pelas ruas e não há nada que possa ser feito, nenhuma frase, nenhum livro, nenhum poema que acalme esta ofensiva vinda do norte que nos pretende esmagar, saquear, queimar as nossas casas, violar as nossas mulheres. O inferno à solta como uma máquina de lavar connosco lá dentro, uma máquina de lavar como uma onda há muitos anos na Praia Grande, um dia cinzento sem Sol e a superfície que nunca mais chegava. Aproveita para encomendar a alma ao Criador, para celebrar os teus rituais, está quase a chegar a tua vez. A centrifugação dos ventos da História na minha cabeça, a centrifugação que nunca mais acaba, a entrada do bosque, os urros mecânicos da máquina que vão chegando através da neblina. E de vez em quando um livro, um filme, a tua mão que me resgata lá de dentro, breves balões de oxigénio, forças que me conseguem segurar o medo. Almas que fogem ao longo dos tempos, sempre a correr, a resistir, companheiros de uma corrida sem fim mergulhados numa onda na Praia Grande, a tentar cheirar através do nevoeiro o momento em que finalmente o inimigo terá um rosto. Cátaros incendiados em frente a Notre Dame, a maldição de Jacques de Molay, índios massacrados pelos conquistadores do novo mundo, corrompidos com bugigangas e garrafas de álcool, libertários da Catalunha perseguidos e assassinados por fascistas, estalinistas, todos os inimigos da liberdade, judeus a resistir no gueto de Varsóvia, Primo Levy que responde a um rabi: “Senão agora, então quando?” Lágrimas e sofrimento dentro deste infinito absurdo que ninguém percebe “para quê” nem “porquê”. E no horizonte uma frase, umas palavras, um livro, uma imagem, a tua mão que aparece de repente e me resgata de dentro da água, a tua mão que me concede momentos de breve eternidade. A correria imensa e eterna como um comboio desgovernado pela noite fora a rasgar o escuro com o grito da sua sirene, uma canção de rock’n roll a embalar-nos a consciência, a estabelecer contacto, a trazer-nos outra vez os mortos que nos recebem com um sorriso antes de morrermos. Um concerto com as guitarras eléctricas hipnotizadas, a bateria a alimentar-nos o coração, a nossa oração, a nossa religião, o universo a entrar pela porta da frente, a celebração do absoluto da existência. Foi bom irmãos, foi bom ter-vos conhecido, quem chegar lá primeiro manda vir as cervejas. Em batida de rock’n roll, anjos celtas agarrados a guitarras eléctricas hipnotizadas. Rostos familiares, rostos reencontrados que nos garantem “aqui não há máquinas de lavar”. Viagem entre o inferno e o absurdo a pretexto de não se sabe “para quê” nem “porquê”, sofrimentos em mares de lágrimas, ondas que não terminam, a resistência até ao fim porque sim, porque não nascemos para ser pisados, humilhados, massacrados por anões que se julgam donos desta merda. Não nascemos para ser escravos de uma ordem tirana, nem agora nem nunca em tempo nenhum por mais reencarnações que possamos ter, para que outros aprendam essa consciência. Às vezes a sabedoria de um livro, o preenchimento de um filme, a tua mão, um ritual em concertos, as nossas mãos no ar, as palavras a dançar, as imagens alinhadas em harmonias perfeitas. O inferno é a ausência de razão, o absurdo, a ausência de sentido. E nenhuma delas me esmagará sem luta, nenhuma delas tomará conta da minha aldeia sem que eu lhe pegue fogo primeiro, nenhuma delas se conseguirá rir quando finalmente se conseguir sentar em cima da minha cabeça. Nenhuma delas me deitará abaixo definitivamente porque voltarei em noite de Samhain e infernizarei os seus sonhos. A luta nunca termina, muda várias de vezes de comboio na mesma direcção.

 

 

Artur

MURAL

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
  B. Brecht




REFUNDA A TUA MÃE, PÁ !!!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

UM LOUCO NO SEU GABINETE, COM UMA FOLHA DE EXCEL

"Considerai o seguinte, vós, orgulhosos homens de acção: não passais de instrumentos inconscientes dos homens de pensamento, que no seu humilde sossego com frequência traçam os vossos planos de acção mais completos"  Heinrich Heine

O aviso que Heine deixa aos homens de acção do seu tempo, referindo-se ao rescaldo da Revolução Francesa e do Império napoleónico, foi objecto de uma magnífica paráfrase de Isaiah Berlin que, em 1958, se lia assim:

"´Há mais de cem anos, Heine, o poeta alemão, aconselhou os franceses a não substimarem o poder das ideias : os conceitos filosóficos, criados no sossego de um gabinete de professor, poderiam destruir uma civilização" (Two Concepts of Liberty, 1958)

Se Heine tinha em mente a influência dos filósofos das Luzes nos transcendentes acontecimentos ocorridos entre 1789 e 1793, prolongados por Napoleão Bonaparte até 1814, Berlin quer chamar a atenção para a importância da história intelectual e do "poder das ideias" sobre os acontecimentos políticos e sociais de cada época. Esta influência tem uma génese e uma história e um dos fenómenos intelectuais que considero mais importantes é o da busca universal por parte dos filósofos de certezas absolutas, de respostas que não fosse possível pôr em causa, de uma segurança intelectual total. Esta busca - quase se diria faústica - constitui uma assombrosa etapa da história das ideias e um dos fundamentos das reflexões de Heine e de Berlin, como adiante procurarei demonstrar. Começo por Karl Marx e o modo como o estudo dos seus conceitos conduz à investigação dos seus predecessores e, particularmente dos filósofos franceses setecentistas - adversários letais do dogmatismo, do tradicionalismo, da religião, da superstição, da igonrância e, de uma forma geral, de todas as formas de opressão do homem. É assim que passamos a admirar a ciclópica tarefa que os autores da "Encylopédie" levaram a cabo e o objectivo supremo que para si mesmos fixaram: libertar os homens das trevas - clericais, metafísicas, políticas e outras. Com algum distanciamento crítico, compreendi que as consequências, tanto de ordem lógica como social desse esforço, desembocaram no dogmatismo marxista e dos seguidores de Marx. Entre filósofos do Iluminismo e marxistas, o traço de união pode ser definido deste modo: pensavam sinceramente terem encontrado a vida que levava à solução de todos os problemas que, desde o começo, haviam atormentado e degradado a Humanidade; uma vez conjugadas todas as respostas certas às questões morais, sociais e políticas mais profundas que ocupam (ou deveriam ocupar os homens), o resultado constituiria a solução final de todos os problemas da existência. No entanto, os seres humanos podem ser demasiado estúpidos, de tal modo infelizes, tão enormemente oprimidos e pauperizados que não logrem alcançar as respostas. Ou, ainda, que essas respostas sejam demasiado difíceis, os meios insuficientes, a descoberta das técnicas demasiado complicada. Da ideia inicial - encontrados os modelos, as soluções viriam natural ou penosamente a serem encontradas - ao Terror revolucionário vai apenas um pequeno passo, embora a ameaça de destruição da civilização se mostre excessiva. É melhor o excesso revolucionário, mesmo com tudo o que comporta de trágico, de sanguinário e de totalitário, que as meias-tintas da interpretação estética e moral da vida.

Hoje, os filósofos no sossego humilde dos seus gabinetes foram substituídos por uma prole larvar de tecnocratas, burocratas, eurocratas e afins, constituíndo uma nova casta de sacerdotes, de ungidos, de alucinados místicos, capazes de separarem as ovelhas meritórias dos bodes indignos de serem salvos. A estes moralistas redentores e messiânicos - a quem em tempos chamei "devotos do onanismo" - nos seus gabinetes estofados a bons couros e ar condicionado, basta-lhes uma folha Excel para destruírem civilizações, modos de vida, estruturas sociais. Por isso, se tornam cada vez mais prementes velhas questões que não obtêm resposta: "Até que ponto sou controlado por esta gente ?" ("Quem me controla ?") "Quem controla aqueles que me controlam ?", "Quem determina as minhas acções,a minha vida ?" "Sou eu que as determino, livremente, seja qual for a minha escolha ?" "Ou estou sob controlo de outra fonte de controlo ?" "Estou submetido à disciplina de um sistema jurídico, da ordem capitalista, de um proprietário de escravos, do governo (democrático, autoritário, oligárquico ), da seita dos loucos-fanáticos nos seus gabinetes manipulando modelos econométricos ? Em que sentido sou senhor do meu destino ? Quem são os que ocupam o meu lugar em vez de mim, que poder detêm ?"
Mesmo depois do último 15 de Setembro, esta gente persiste no esforço de nos fazer engolir pela goela abaixo a tese de que a verdadeira liberdade (a minha liberdade enquanto indíviduo e a liberdade da sociedade enquanto grupo) consiste na obediência sem reservas a essas autoridades, aos sábios, aos que conhecem a verdade, à elite dos esclarecidos, ou ainda, a minha obediência é ilimitadamente devida  aos que compreendem as forças que forjam e determinam os destinos do homem.

Mas, se perguntar "o que significa o futuro ?", saberão eles dar a resposta ?

UM ADEUS AO VERÃO II

 
 
Por Sofia P. Coelho

terça-feira, 23 de outubro de 2012

MAIS UMA CRÓNICA DO BAIRRO



  Tive a sorte de crescer num bairro fantástico e de ter conhecido os melhores amigos do mundo, os mesmos que continuo a ter. Os nossos avós tinham sido jovens no tempo da República, contemporâneos da geração do Fernando Pessoa, dos surrealistas, anarquistas, sufocados no auge da existência por um manto negro de proibições, prisões, fome e “padrecas”. Eram republicanos, aristocratas falidos, operários especializados. Derrotados pelos ventos da História, nunca se renderam nem dobraram as costas à ditadura. Falavam de coisas que não se viam na televisão, encaravam as vicissitudes da vida com um olhar fixo, as velhas diziam palavrões quando se irritavam, os velhos não tinham pejo nenhum em andar ao soco. Os nossos pais eram mais amedrontados, nunca tinham vivido em liberdade mas também não se resignavam. Resistiam, falavam de política, ouviam o Rock’ n Roll que chegava em discos de vinil com dois anos de atraso, foram presos políticos, fizeram a guerra, desertaram, foram pioneiros em relação ao amor livre, às drogas, à nova postura sussurrada pelos ventos do Woodstock e do Maio de 68. Éramos crianças livres debaixo de um manto repressivo. Com o 25 de Abril, pouco tempo depois da “FESTA”, as coisas voltaram à normalização. Mas no bairro, não. Fomos adolescentes, ouvíamos “Punk Rock” e “New Wave”, e desdenhávamos dos parolos que se iam inscrevendo nas juventudes partidárias. Os que agora se chamam “jotinhas” e fazem questão de acabar com o que resta deste país. Experimentámos a vida para além de todos os limites, abrindo uma guerra na qual muitos não sobreviveram. Acidentes de carro, Sida e drogas cruzaram-se no nosso caminho e eliminaram mais de metade de uma geração. Continuámos a viver livres sob um manto negro de facções partidárias apostadas em controlar todas as dimensões da vida.

E, ao longo de todas estas fases urbanas de crescimento, além de um amor quase obcecado pela liberdade, existiu sempre um espírito comunitário de solidariedade e respeito entre todos. Um espírito herdado das anteriores gerações. Era comum cumprimentarmo-nos na rua, mesmo não conhecendo formalmente o outro. Era comum acompanhar os velhos que viviam sozinhos, desenrascar o vizinho, emprestar isto ou aquilo, passear o cão que não era nosso, ficar com os filhos dos outros à noite.

No fantástico bairro de Campo de Ourique, as árvores cresceram abanadas pelos ventos da Liberdade, regadas pelas lágrimas das vítimas da tirania, as ruas foram rasgadas pela firmeza da resistência ao infortúnio, decoradas pela teimosia de viver e pela ganância de roubar à vida tudo o que pudesse ser roubado, compensando o muito que ela nos rouba desde o primeiro dia. Uma geração após outra assumia pagar o preço de ser livre, deixando nas memórias, nas pequenas histórias urbanas, o legado de quem não se resigna, de quem não se vende nem se rende. E não trocava esta experiência de vida, esta existência privilegiada, por todo o poder do mundo…

 

Artur

domingo, 21 de outubro de 2012

O ADEUS DO MESTRE

Ás vezes o silêncio entristece, outras consegue transformar-se no melhor companheiro que podemos ter. Li com atenção a última crónica de António Lobo Antunes publicada na VISÃO desta semana, intitulada “Adeus”. Desde os treze anos, desde que me chegou às mãos “Os Cus De Judas” que nunca mais perdi uma palavra deste que considero o Mestre por muitas razões. Nesta crónica ele despede-se enquanto autor, deixando no ar a publicação de mais um ou dois títulos antes de fechar a loja. A obra fica aí para quem quiser aproveitar, sussurrada por uma voz indefinida, não pela mão de quem escreve. Mais do que o amor, a solidão e o riso, Lobo Antunes foi um elemento chave na análise do “Inconsciente Colectivo” das ultimas décadas do século XX. Ele e Herman José. Se este foi a fotografia, a caricatura do colectivo, António Lobo Antunes foi o psiquiatra, aquele que mais fundo penetrou na intimidade desse “Inconsciente” e tentou trazer para a superfície pedaços para análise, rostos, pensamentos, comportamentos. Razões, não. Nesta área não se trabalha com razões mas com emoções, com causas e efeitos, com culpas, faltas, remorsos, dores e um sem fim de ferramentas. Ao fim de muito tempo imerso neste gigantesco tanque sem sentido, acaba por, ele próprio perder o sentido, fica surdo (literalmente), autista do mundo (como a Clara Ferreira Alves escreveu uma vez), escrevendo documentos autistas onde os personagens falam e se interrompem, trocam de voz, de cenário, com uma enorme dificuldade para o leitor conseguir descortinar o que está a ler. Mas, tal como Joyce, Lobo Antunes sabe perfeitamente o que está a escrever, embora num limbo de percepção difícil de definir entre as margens finais do texto literário e as comportas escancaradas do inconsciente. A meio da obra, já não é literário o seu texto, já não é coisa nenhuma, por ausência de definição do seu trabalho. Uma ausência que só os futuros investigadores da língua conseguirão definir. As emoções empilham-se num amontoado aparente de desorganização que será tudo menos desorganizado. Compreender Lobo Antunes é tentar antes de mais nada conseguir penetrar no seu universo, saber traduzir a sua voz, como quem tenta reunir um molho de lenha numa praia para fazer uma fogueira para a noite. Parecendo uma tarefa impossível de realizar à partida, o certo é que com esforço e dedicação acaba-se sempre por conseguir.

Ao Mestre só tenho a agradecer os inúmeros momentos de bem estar e tranquilidade que os seus livros me deram, as gargalhadas e as lágrimas. Principalmente agradecer-lhe ter-me ensinado a escrever. A ajudar-me a entender os pássaros, a empurrar um baloiço vazio no Jardim zoológico a meio da noite, a passear uma tia mongolóide numa feira em Monsaraz com um feirante a querer comprar-ma, a jogar à bisca lambida com o Camões em cima do caixão do pai dele num barco a caminho de Lisboa em plena descolonização. E tantas, tantas outras imagens que, além de me sinalizarem enquanto marcos da existência, serviram para me estruturar melhor a minha personalidade. Se esta é a sua despedida então adeus, Mestre. Se depender de mim, nunca partirás para fora da tua relevância.



Artur

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA

1943 - 2012
"É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo "eu"entre nós e nós?"

VANILLLA SKIES


Por Sofia P. Coelho