terça-feira, 23 de outubro de 2012

MAIS UMA CRÓNICA DO BAIRRO



  Tive a sorte de crescer num bairro fantástico e de ter conhecido os melhores amigos do mundo, os mesmos que continuo a ter. Os nossos avós tinham sido jovens no tempo da República, contemporâneos da geração do Fernando Pessoa, dos surrealistas, anarquistas, sufocados no auge da existência por um manto negro de proibições, prisões, fome e “padrecas”. Eram republicanos, aristocratas falidos, operários especializados. Derrotados pelos ventos da História, nunca se renderam nem dobraram as costas à ditadura. Falavam de coisas que não se viam na televisão, encaravam as vicissitudes da vida com um olhar fixo, as velhas diziam palavrões quando se irritavam, os velhos não tinham pejo nenhum em andar ao soco. Os nossos pais eram mais amedrontados, nunca tinham vivido em liberdade mas também não se resignavam. Resistiam, falavam de política, ouviam o Rock’ n Roll que chegava em discos de vinil com dois anos de atraso, foram presos políticos, fizeram a guerra, desertaram, foram pioneiros em relação ao amor livre, às drogas, à nova postura sussurrada pelos ventos do Woodstock e do Maio de 68. Éramos crianças livres debaixo de um manto repressivo. Com o 25 de Abril, pouco tempo depois da “FESTA”, as coisas voltaram à normalização. Mas no bairro, não. Fomos adolescentes, ouvíamos “Punk Rock” e “New Wave”, e desdenhávamos dos parolos que se iam inscrevendo nas juventudes partidárias. Os que agora se chamam “jotinhas” e fazem questão de acabar com o que resta deste país. Experimentámos a vida para além de todos os limites, abrindo uma guerra na qual muitos não sobreviveram. Acidentes de carro, Sida e drogas cruzaram-se no nosso caminho e eliminaram mais de metade de uma geração. Continuámos a viver livres sob um manto negro de facções partidárias apostadas em controlar todas as dimensões da vida.

E, ao longo de todas estas fases urbanas de crescimento, além de um amor quase obcecado pela liberdade, existiu sempre um espírito comunitário de solidariedade e respeito entre todos. Um espírito herdado das anteriores gerações. Era comum cumprimentarmo-nos na rua, mesmo não conhecendo formalmente o outro. Era comum acompanhar os velhos que viviam sozinhos, desenrascar o vizinho, emprestar isto ou aquilo, passear o cão que não era nosso, ficar com os filhos dos outros à noite.

No fantástico bairro de Campo de Ourique, as árvores cresceram abanadas pelos ventos da Liberdade, regadas pelas lágrimas das vítimas da tirania, as ruas foram rasgadas pela firmeza da resistência ao infortúnio, decoradas pela teimosia de viver e pela ganância de roubar à vida tudo o que pudesse ser roubado, compensando o muito que ela nos rouba desde o primeiro dia. Uma geração após outra assumia pagar o preço de ser livre, deixando nas memórias, nas pequenas histórias urbanas, o legado de quem não se resigna, de quem não se vende nem se rende. E não trocava esta experiência de vida, esta existência privilegiada, por todo o poder do mundo…

 

Artur

domingo, 21 de outubro de 2012

O ADEUS DO MESTRE

Ás vezes o silêncio entristece, outras consegue transformar-se no melhor companheiro que podemos ter. Li com atenção a última crónica de António Lobo Antunes publicada na VISÃO desta semana, intitulada “Adeus”. Desde os treze anos, desde que me chegou às mãos “Os Cus De Judas” que nunca mais perdi uma palavra deste que considero o Mestre por muitas razões. Nesta crónica ele despede-se enquanto autor, deixando no ar a publicação de mais um ou dois títulos antes de fechar a loja. A obra fica aí para quem quiser aproveitar, sussurrada por uma voz indefinida, não pela mão de quem escreve. Mais do que o amor, a solidão e o riso, Lobo Antunes foi um elemento chave na análise do “Inconsciente Colectivo” das ultimas décadas do século XX. Ele e Herman José. Se este foi a fotografia, a caricatura do colectivo, António Lobo Antunes foi o psiquiatra, aquele que mais fundo penetrou na intimidade desse “Inconsciente” e tentou trazer para a superfície pedaços para análise, rostos, pensamentos, comportamentos. Razões, não. Nesta área não se trabalha com razões mas com emoções, com causas e efeitos, com culpas, faltas, remorsos, dores e um sem fim de ferramentas. Ao fim de muito tempo imerso neste gigantesco tanque sem sentido, acaba por, ele próprio perder o sentido, fica surdo (literalmente), autista do mundo (como a Clara Ferreira Alves escreveu uma vez), escrevendo documentos autistas onde os personagens falam e se interrompem, trocam de voz, de cenário, com uma enorme dificuldade para o leitor conseguir descortinar o que está a ler. Mas, tal como Joyce, Lobo Antunes sabe perfeitamente o que está a escrever, embora num limbo de percepção difícil de definir entre as margens finais do texto literário e as comportas escancaradas do inconsciente. A meio da obra, já não é literário o seu texto, já não é coisa nenhuma, por ausência de definição do seu trabalho. Uma ausência que só os futuros investigadores da língua conseguirão definir. As emoções empilham-se num amontoado aparente de desorganização que será tudo menos desorganizado. Compreender Lobo Antunes é tentar antes de mais nada conseguir penetrar no seu universo, saber traduzir a sua voz, como quem tenta reunir um molho de lenha numa praia para fazer uma fogueira para a noite. Parecendo uma tarefa impossível de realizar à partida, o certo é que com esforço e dedicação acaba-se sempre por conseguir.

Ao Mestre só tenho a agradecer os inúmeros momentos de bem estar e tranquilidade que os seus livros me deram, as gargalhadas e as lágrimas. Principalmente agradecer-lhe ter-me ensinado a escrever. A ajudar-me a entender os pássaros, a empurrar um baloiço vazio no Jardim zoológico a meio da noite, a passear uma tia mongolóide numa feira em Monsaraz com um feirante a querer comprar-ma, a jogar à bisca lambida com o Camões em cima do caixão do pai dele num barco a caminho de Lisboa em plena descolonização. E tantas, tantas outras imagens que, além de me sinalizarem enquanto marcos da existência, serviram para me estruturar melhor a minha personalidade. Se esta é a sua despedida então adeus, Mestre. Se depender de mim, nunca partirás para fora da tua relevância.



Artur

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA

1943 - 2012
"É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo "eu"entre nós e nós?"

VANILLLA SKIES


Por Sofia P. Coelho

terça-feira, 16 de outubro de 2012

DESILUSÃO

Declaro que estou muito desiludido com a Academia Sueca. Não só desiludido, como ofendido e humilhado: esperava que o Prémio Nobel da Economia de 2012 fosse atribuído ao Prof. Dr. Herr Viktor Gaspar e, colossal balde de água fria, foi entregue a dois obscuros economistas norte-americanos, a léguas da genialidade estratosférica do nosso Professor Doktor. Não conhecendo eu os estudos dos dois laureados senão nas linhas gerais que foram transmitidas na comunicação social, não me parece que se equiparem ao monumental estudo do Doktor Gaspar, intitulado sinteticamente: "Como Destruir Um País Através da Aplicação Prática da Estupidez e da Incompetência, Falhando Todas as Previsões, Errando Todas as Contas e Abrindo a Boca de Espanto Quando a Realidade Se Encarrega de Desmentir as Folhas Excel, Adquirindo Mesmo Assim Uma Quantidade Colossal de Credibilidade". Além disso, penso que o Professor Dr. Gaspar deveria ter ganho o Prémio Nobel da Física pela elevada e colossal qualidade da experimentação que consiste em cometter sempre o mesmo erro, esperando que o resultado seja diferente (por exemplo, deixar cair duas vezes um copo ao chão e, verificando que ele se parte, ter fé que à terceira vez fique inteiro). A estes dois prémios, deveria juntar-se o da Literatura, premiando o brilho, a magnificência e a erudição da sua oratória. Em vez disso, foi entregue a um chinês gorducho, que escreve pantominices semi-pornográficas. Aos chineses não bastava serem donos da EDP, da REN e do Professor Doutor Catroga, ainda tinham que abichar o Nobel da Literatura. Tenho para mim que isto foi mais uma desconsideração e uma ofensa dos nórdicos à Lusa Pátria; quando conseguirmos endireitar a bandeira logo verão com quantos paus se faz uma canoa : nem mais um Volvo a circular nas estradas, a Ericksson que vá vender telefones para Cantão e o Ikea  deserto, sem um único comprador luso

P.S.: Declarou o Professor Doutor Vítor Gaspar que só estava no Governo para retribuir ao País o colossal investimento feito na sua educação. O País, lamentando tanto dinheiro tão mal gasto, declina a retribuição e pede-lhe que não pense mais nisso.

domingo, 14 de outubro de 2012

AS ÁRVORES MORREM DE PÉ


Há dois dias atrás o Cardeal Patriarca veio a público afirmar que as manifestações não servem para nada, que a Democracia não funciona ao ser pressionada da rua para os centros de decisão, que isto até está a andar bem e que a solução para a crise terá que ser encontrada dentro do sistema existente, o mesmo sistema que a criou. E em breves frases conseguiu dizer tudo, conseguiu resumir uma ideologia, um método e um objectivo único. Tentando não deixar para trás nenhum aspecto relevante, começarei por abordar o problema das manifestações. As da rua não resolvem nada, não servem para nada. Mas, em compensação as da igreja católica, cada vez que ocorrem conseguem trazer sempre um valor acrescentado aos problemas da Humanidade. É por isso que continuam a acontecer ao longo de séculos e a civilização não pára de obter benefícios, a começar nas perseguições e execuções da inquisição, no genocídio de povos inteiros e nas infinitas guerras em nome de deus. Aliás não há aqui nada que não se aplique às religiões de uma forma geral. Todas são donas da verdade, todas estigmatizam e tentam exterminar quem não concorde com elas, e, por fim, todas acham que têm carta branca para estabelecer as guerras que quiserem e matar em nome do seu deus. Primeiro dividem a Humanidade, depois dizem-lhe como é que deve viver, que comida comer, que pensamentos ter, como se reproduzir, como obedecer, e por fim, mandam odiar o “outro”, o “diferente”, o que adora outro deus em nome de uma salvação pronta a atribuir ao virar da esquina. As coisas começam a complicar-se para esta gente quando o pensamento abre mais que uma possibilidade, quando se questiona, quando percebe que há outra realidade para além daquela que querem que viva. Chama-se “defesa da dignidade humana” quando as pessoas protestam. A Democracia é feita pelas e para as pessoas e, se as pessoas entendem que devem pressionar aqueles que elegeram de forma legítima acerca de temas que estão a prejudicar as suas existências e a pôr em causa a sua dignidade, então isso é a DEMOCRACIA a funcionar.

O discurso religioso, a fragmentação partidária e a divisão de opiniões de uma forma geral são todas faces do mesmo poliedro que nos orienta e controla desde sempre. Dividindo se controla a totalidade, estigmatizando se manobra o rebanho em qualquer direcção pretendida. E a História ensina-nos que as crises vêm sempre numa sequência repetida. Fome, desequilíbrio social, ódio, estigmatização, guerra. No fim, milhões de mortos de todos os lados, milhões de lucros do mesmo lado. As instituições políticas e religiosas em geral acabam por atravessar todas as crises e todas as tragédias com as mãos nos bolsos e a assobiar para o ar. Ensaiam os ódios que o povo terá que interpretar, fazem as apostas que o povo terá que pagar. E estou a falar de TUDO duma maneira geral.

Para grande azar deste governo, há duas coisas que começam a correr muito mal. Em primeiro lugar a direita democrática afasta-se e faz questão de tornar público o seu descontentamento para com a aplicação desta agenda neo-liberal, e para com este “autismo” governativo em ouvir e tentar perceber o povo. Em segundo lugar as permanentes manifestações colectivas de rua contra a política que nos governa têm decorrido na maior das tranquilidades sem actos violentos dignos de registo. Assim é difícil, o governo não consegue incendiar a mata e justificar a sua acção repressiva em nome da reposição da ordem. Por outro lado, tanto as Forças Armadas como as forças de segurança têm mostrado até aqui uma dignidade e um elevado sentido patriótico, dignos de registo. O único personagem que se está a portar mal é apenas e só este governo, que, deve sair já! Soluções há várias, e não me venham com inevitabilidades. Senão querem o quê? Assistir ao aniquilamento do país e o extermínio da população porque o governo deve terminar o mandato até ao fim?A Democracia funciona quando é verificado o equilíbrio entre representantes e representados, quando o “contrato social” se estabelece por consenso e pleno cumprimento de todas as partes. A Democracia funciona quando a Humanidade se começa a erguer como um todo e a questionar séculos e séculos de roubo, tirania, mentiras e crises cuja factura recai sempre para o mesmo lado.

E é este jogo viciado que parece que está a chegar ao fim. Os partidos e os sindicatos se quiserem que se integrem ao TODO que protesta, não ao contrário, como até aqui costumava acontecer. As divisões ideológicas e religiosas não servem para nada a não ser alimentar a besta que nos domina há séculos. A LIBERDADE começa a passar por aqui. Por isso há aqueles que tremem com o chão a fugir-lhes debaixo dos pés.

Estamos em guerra? Claro que sim. Mas numa guerra em que a Humanidade rebenta com as grilhetas da tirania e protesta pelo direito a caminhar livre sobre o planeta, pelo direito a existir. Uma guerra em que cada vez mais pessoas preferem morrer de pé do que a viver resignadas ao seu extermínio. Livres e de PÉ…De PÉ como as árvores!!!



Artur

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

POST-SCRIPTUM A "CAPITALISMO E ESQUIZOANÁLISE"

A mentira da imagem é a verdade do nosso mundo

CAPITALISMO E ESQUIZOANÁLISE

O propósito inicial deste texto consistia em dizer duas ou três coisas sobre o filme "Cosmopolis", de David Cronenberg, sobre ele debitando duas ou três verdades, de preferência sábias e originais. Mantendo embora essa intenção original, aconteceu lembrar-me de um livro que, desde há muitos anos, se constituiu para mim como uma das grandes referências do pensamento do século XX; refiro-me a "O Anti-Édipo : Capitalismo e Esquizofrenia", de Gilles Deleuze e Félix Guattari, uma obra que considero o mais fecundo e complexo contributo para a reflexão ética e política na pós-modernidade. Para além da análise da relação do desejo com a realidade e com a sociedade capitalista em particular, o livro aborda uma impressionate quantidade de questões relativas à psicologia humana, economia, sociedade, história, etc. Interessa-me sobretudo um dos problemas abordados por Deleuze e Guattari e que se revela um dos problemas fundamentais da filosofia política : o fenómeno contraditório através do qual um indíviduo ou grupo vem a desejar a sua própria opressão. A fim de tratarem esta questão, os autores examinam as relações entre a organização social, o poder e o desejo, particularmente no que concerne ao complexo de Édipo freudiano e os seus mecanismos familiares de subjetivação, constituindo-se a família como produtora de indivíduos dóceis, adaptáveis e prontos a serem oprimidos socialmente. A sociedade capitalista utiliza esse poderoso mecanismo para controlar os indíviduos e grupos, assegurando o completo controlo da sociedade por parte das classes dominantes. Ou seja, Deleuze e Guattari descobriram que é num movimento único que a família repressiva é substituída pela produção social repressiva, e que esse movimento produz o fenómeno do desejo por isso mesmo que nos explora e domina. Era assim que se pensava nos anos 70. Alguma coisa mudou entretanto: recentemente, José Gil - ele próprio discípulo de Gilles Deleuze - asseverou que a crise é anti-erótica. Outras coisas (fundamentais) não mudaram. Veja-se, por exemplo, o modo como Louis Althusser re-escreve a análise de Karl Marx da história dos modos sociais de produção; da fase "primitiva" à "despótica" e desta à "capitalista", detalhando as diversas organizações de produção "inscrição" (que corresponde em Marx à "distribuição" e "troca") e consumo ("Re-lire Marx").
Na extraordinária leitura que Michel Foucault faz do "Anti-Édipo" respingam-se alguns preceitos para a vida quotidiana que nos poderão guiar nos dias de hoje : não amar o poder; libertar a acção política de todas as formas de paranóia utilitária e totalizante; não exigir da política que ela restabeleça os direitos do indivíduo tal como a Filosofia os definiu - o indíviduo é o produto do poder -; o que é necessário é "desindividualizar" pela multiplicação  e deslocamento dos diversos agenciamentos; o grupo não deve ser o laço orgânico que une os indíviduos hierarquizados, mas uma constante geradora de "desindividualização", etc.

Quanto a "Cosmopolis", que dizer senão que é o retrato justo, alucinado e abismado do capitalismo em vias de se desmoronar ? Um mundo reduzido ao estatuto de Ideia, já que o dinheiro, tendo perdido a função de indexar a realidade, se tornou o índice de si próprio. Cronenberg está aqui no seu terreno de eleição: essa Ideia só tem existência nas superfícies que a refletem (computadores, televisões, LCD que anunciam permanentemente os movimentos bolsistas); o corpo humano desposando tristemente essas superfícies, símbolo das suas núpcias funestas com a Máquina e com a Tecnologia cega e auto-destrutiva; a Velocidade que submerge os seres e as coisas na sua destruição, já que o "hoje" é literalmente devorado pelo futuro; anulação da interioridade e da humanidade pela voragem da velocidade suicidária; violenta precipitação do desastre psíquico, suicídio e alucinação permanente. O protagonista, um capitalista hiper-lúcido, deseja furiosamente e, no delírio hermenêutico que é o corolário da fúria especulativa da Ideia, antecipa a sua morte, deseja-a secretamente, procura-a : será ela que o libertará do totalitarismo do conceito. Ele é o derradeiro símbolo da psicose esquizofrénica e suicidária do capitalismo.

Entre "O Anti-Édipo : Capitalismo e Esquizofrenia" de Gilles Deleuze e Félix Guattari e "Cosmopolis" de David Cronenberg existe uma relação que poderá não parecer evidente, mas que se revela muito forte: ambos são formas artísticas (sim, também a Filosofia é uma arte, no sentido em que se fala, por exemplo, de uma "arte erótica" e quem tiver dúvidas leia ou releia "O Banquete" de Platão), apoiadas em noções aparentemente abastractas de multiplicidades, fluxos e dispositivos que servem para analisar a relação do desejo com a realidade e com a "máquina capitalista". Nesse mesmo sentido, Foucault (outra vez...) estabeleceu um paralelo entre a "ars erotica", a "ars theoretica" e a "ars politica" que sublinha e sintetiza as analogias que, em vão, aqui tentei estabelecer.

Ossa et Cineres (#9)

Sê cada texto como fulguração única, deflagração de sentido, é certo, mas também de sua toada, ora scherzo ora requiem e, por vezes, sinfónico. Ainda um cosmo todo seu, expansivo e jovem, circular-fechado, em tom de negrume ou como fror e perfumado; um estado d'espírito, grito, fúria, melancolia. Talvez s'entreveja vertigem e abismo, circum-navegando-se: labirinto; fragmentado, na sua pequenez, cifra especular...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Ossa et Cineres (#8)

A obsessão desse lugar secreto de subsistência vital: respirar, prover ao sustento do corpo e natural repouso. Respirar no tão -só existir num plano singelo sem ocupação alguma que não seja agitar o pulmão e tal também com o naco que de parco e são tonifique de simplicidade o espírito assim como sustém a carcassa que quando s'abandona ao sono sabe que se liberta de tod'angústia que um cônscio liame ao negócio do século, ao afã das gentes, inevitável e funesta porta consigo. Adivinho já o que ireis dizer: esse é o destino do sábio que apesar da raras vezes cumprido ganhou fama comum. Opto por contrapor incerto-tíbio talvez pois s'em tal houver sabedoria é apenas na constatação de que não sendo, nós e outros, mais do que um sôpro para que perder esse lapso em mais do que na plena exalação? Não pensar nem querer pensar, deixar o desejo e a renúncia, ser & ser em abandono de quanto constrangimento e sujeição jamais inventou a perfídia dos homens.

E DEPOIS?


É tarde, muito tarde. Na noite que avança, na existência cansada, no limite da paciência, é tarde de uma maneira geral. Todos os cantos deste quarto anónimo no cu do mundo destilam um cheiro a fim. Não há garrafa de whisky que chegue nem comprimidos que tranquilizem, que tornem este vazio imenso numa sensação mais agradável, mais fácil de suportar. Não há culpas escondidas em lado nenhum com o nome de ninguém, apenas cansaço. Um enorme, um insuportável cansaço de tudo em geral. Um virar de página em forma de vertigem, um sinal partilhado pela mente e pelo corpo que dizem que foram atingidos os limites. Daqui para a frente será outra coisa, nascerá um caminho sem rumo, uma existência fora da existência, uma coisa qualquer que poderá ser o nada. E depois?

É tarde, muito tarde para conseguir chorar, para arrependimentos, rancores, ódios de estimação, exibições desnecessárias. É o tempo das paisagens desérticas onde nada existe, onde nada faz sentido porque se perdeu o fio que segurava a minha fotografia na galeria da esperança. Quebrou-se a moldura onde me encontrava comigo. O esquecimento da consciência do Ser por afogamento na rotina dos dias todos iguais em direcção a lado nenhum. O cansaço do vazio, a impossibilidade de escrever o nosso nome até ao fim, a impossibilidade de reconhecer aqueles que nos importam, que nos importaram…Nada, apenas cansaço enrolado em torno de anéis de fumo que se dissipam tão rápidos como se formam, tal e qual as recordações, emoções, os tropeções e os estremecimentos do Ser, supostamente lições para ensinar qualquer coisa que já não apetece aprender.

Cansaço, um enorme cansaço vestido com as roupas da indiferença e da neutralidade de quem observa de fora, de quem vê de longe mas que já não estica o braço para agarrar.

Tudo termina e há momentos de fim que são aguardados com expectativa, como se já não houvesse espaço para esperar mais nada.

Nunca percebi grande coisa sobre a vida e, o pouco que consegui perceber, chegou sempre numa altura em que esse conhecimento já não me servia para nada. Tudo é ausente de explicação, de racionalidade, tudo tem uma função inexpugnável ao entendimento.

Um bafo metálico sopra-me canções de arrepiar aos pelos da nuca, demora-se, explica-me que veio ao meu encontro porque o chamei. Porque achei que o meu massacre também deveria acabar. Não podemos ser exterminados pela dor em modo infinito.

Tudo termina, tudo tem que ter um fim. E ainda bem…



Artur

domingo, 7 de outubro de 2012

Ossa et Cineres (#7)

O todo da inquietação, o fragmentado da incerteza. Um tempo sem esp'rança, o porvir d'incerto improviso: contas, a penas, negrume & cansaço. Será o artista como Cassandra: o ar imoto quando carece de eco pois fala e ninguém responde; aponta, por ventura, uma senda-de-verdade e não há quem o acompanhe no caminho. É certo que assim s'erra e desespera e quase s'amaldiçoa o momento em que a consabida e bem-dita e daimónica voz primeiro se manifestou ainda que seja ela farol & azimute, companheira na hora-má, privilegiada ouvinte do eco que em ti produziu; a confidente que, pacientemente, escuta o lamento sobre o ominoso silêncio das gentes quando sobre ti derramam o fel da indiferença.