Ah, o cansaço da ciência-errante, desse mundo-de-sonho onde a vida irrompe e se ri - riso claro & honesto - de toda a entropia. E como desconhece a morte e ruína não entende que o sonhador esteja, de perene, confrontado com essas e, por isso, deixe d'entender o sonho. E quer o sonhador sonhar mas não encontra no sonho seu lar e por isso deambula no mundo perdido & urrante.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
1984
"Estamos perante uma combinação fatal de poder e ignorância" - M.M. Carrilho
Já não vivemos em democracia; vivemos em merdocracia. Esta orientação política resulta de uma combinação fatal entre os resquícios de estalinismo, a agitação de alguns que se aproveitam para rapinar ao Estado e ao povo o pouco que resta da sua actividade de décadas a fazerem negócios chorudos para eles e ruinosos para o povo e uma generalizada e genuína estupidez (relembrando a definição de estupidez elaborada por Roland Barthes "A estupidez é a euforia do lugar"). Em relação ao primeiro elementos (resquícios de estalinismo) basta que nos lembremos da requintada teoria do "engenheiro das almas" e de Zinoviev : o Partido Comunista da URRS constituía a vanguarda revolucionária, portadora do verdadeiro pensamento marxista e intérprete fiel das ideias de Lenine; os planos quinquenais eram fabulosos e, se não resultavam, era porque o povo era estúpido, ignorante e não-colaborante. Para os Professores Doutores Passos Coelho, Relvas, Gaspar, Moedas e Borges, o povo, os empresários, os economistas, os sindicalistas, a oposição e, de um modo geral, a Humanidade, não só é estúpida, ignorante e não-colaborante como, mal dos males, não os merece. A novilíngua (George Orwell "1984") dos merdocratas enaltece o "empreendedorismo", a "inovação", o "mérito" e outras baboseiras e parvoíces do género, não se revelando o povo português capaz de compreender o brilhantismo destes fabulosos técnicos, destes seres de eleição, destes faróis da Humanidade e muito menos de lhes prestar o serviço de ser resignado, cabisbaixo e colaborante, à imagem do condenado à forca que enfia no seu próprio pescoço a corda que o há-de estrangular. Tal como Estaline, os merdocratas de agora precisavam do "homem novo", um ser puro e desenhado a régua e esquadro, capaz de corporizar as folhas Excel do Professor Doutor Vítor Gaspar, as teorias económicas do Professor Doutor Moedas, as lições académicas do Professor Doutor António Borges e a meritocracia do Professor Doutor Miguel Relvas. Estes infelizes Professores Doutores tiveram a infelicidade de cair na "piolheira" mais desbragada e incompetente, restando-lhes lamentarem-se diariamente de tão triste sina e de dizerem "sottovoce" "Como Portugal seria maravilhoso sem os portugueses...". Quanto ao elemento "rapina" deste merdocracia, ele é tão evidente que passa sem comentário. Aliás, convirá apenas acrescentar uma pequena nota marginal: estes Professores Doutores perceberam que em democracia não se pode governar desmantelando o Estado Social, desvalorizando e retirando dignidade ao trabalho e atirando os direitos sociais e políticos para uma espécie de caixote do lixo da História. Perante tal impossibilidade, restava-lhes, como é óbvio, transformar a democracia em merdocracia.
Ao genial Professor Doutor Pedro Passos Coelho deu-lhe agora para citar Camões (podia ser pior, e começar a citar frases da obra "A Fenomenologia do Ser", obra de Jean-Paul Sartre que assevera ter lido na juventude, com o pequeno senão de Sartre nunca ter escrito tal obra...), apesar de Camões, que se saiba, nunca lhe ter feito mal nenhum e ignorar olimpicamente a existência deste e dos outros Professores Doutores.Pois bem, dizia eu o Prof. Dr. PPC resolveu atirar-nos com a citação do Canto V "Sopram ventos favoráveis", etc. chamando o vate ao enaltecimento das suas fabulosas políticas, coisa que o poeta vomitaria se soubesse que os seus versos são tão abusiva e estupidamente utilizados. Um dia, quando estiver a gozar a sua reforma dourada num cargo de CEO de uma grande empresa, talvez o Prof. Dr. possar dar uma olhada num texto fundamental de Walter Benjamin que comenta o quadro de Paul Klee que se pode observar lá em cima. Esse quadro chama-se "Angelus Novus" e foi oferecido por Paul Klee a Benjamin que, a partir desse quadro, constrói uma imagem da História, caracterizada do seguinte modo (cito de memória) : Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e a dispersa aos nossos pés. Ele (o anjo) gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se nas suas asas com tanta força que ele não pode fechá-las. Essa tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce. Serão estes os "ventos favoráveis" que o Professor Doutor Passos Coelhos vislumbra ?
Ossa et Cineres (#3)
... dess'arte, faz irromper nesse jardim a insuportável mutilação do que perverte o que há de belo, de puro, de bom.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Ossa et Cineres (#2)
Erguer em sistema o negrume, sondar o fundo do quanto da vida se renuncia; uma ideia-una, passível de quas'infinita variação na exacta medida em que o deserto é também labirinto. Mas porque não a narrativa d'esplendor, onde a presença de quanta potestade essente rescende a Primavera e isso é ternura e doce-alor, pulsão profundamente telúrica que, no entanto, de tal leveza que haja ascenso da terra? Talvez que a escrita seja morte em verbo e a fixação espúria desse esplendor do múltiplo mutável contenha a insciente impiedade da palavra que ao cindir de um todo de luz uma parte logo inventa & impõe uma sombra...
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Ossa et Cineres (#1)
... ortodoxia da existência onde sempr'impera qualquer Inverno, urbe negra, bucólica vastidão d'espinhos também eles eivados de breu; essa, do mesmo modo, a solenidade de quem usa tal manto, ainda que esfarrapado e sujo é pleno & puro porque o que haja de sempre igual a si próprio rescende a fúnebre e se é morte o que não varia, o que seja de vida tem a irrisão própria de toda a alegria, vária e mutável e leve e doida e fresca e suave e irresponsável e outra.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
SILÊNCIO ABSOLUTO SOBRE A ISLÂNDIA, PORQUÊ?
Se há quem acredite que nos dias de hoje não existe censura, então que nos esclareça porque é ficámos a saber tanta coisa acerca do que se passa no Egipto e porque é que os jornais não têm dito absolutamente nada sobre o que se passa na Islândia.
Na Islândia: - o povo obrigou à demissão em bloco do governo; - os principais bancos foram nacionalizados e foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto dos bancos do Reino Unido e da Holanda, dívidas que tinham sido geradas pelas suas más políticas financeiras; - foi constituída uma assembleia popular para reescrever a Constituição. Tudo isto pacificamente. Uma autêntica revolução contra o poder que conduziu a esta crise. E aí está a razão pela qual nada tem sido noticiado no decurso dos últimos dois anos. O que é que poderia acontecer se os cidadãos europeus lhe viessem a seguir o exemplo? Sinteticamente, eis a sucessão histórica dos factos: - 2008: o principal banco do país é nacionalizado. A moeda afunda-se, a Bolsa suspende a actividade. O país está em bancarrota. - 2009: os protestos populares contra o Parlamento levam à convocação de eleições antecipadas, das quais resulta a demissão do primeiro-ministro e de todo o governo. A desastrosa situação económica do país mantém-se. É proposto ao Reino Unido e à Holanda, através de um processo legislativo, o reembolso da dívida por meio do pagamento de 3.500 milhões de euros, montante suportado mensalmente por todas as famílias islandesas durante os próximos 15 anos, a uma taxa de juro de 5%. - 2010: o povo sai novamente à rua, exigindo que essa lei seja submetida a referendo. Em Janeiro de 2010, o Presidente recusa ratificar a lei e anuncia uma consulta popular. O referendo tem lugar em Março. O NÃO ao pagamento da dívida alcança 93% dos votos. Entretanto, o governo dera início a uma investigação no sentido de enquadrar juridicamente as responsabilidades pela crise. Tem início a detenção de numerosos banqueiros e quadros superiores. A Interpol abre uma investigação e todos os banqueiros implicados abandonam o país. Neste contexto de crise, é eleita uma nova assembleia encarregada de redigir a nova Constituição, que acolha a lições retiradas da crise e que substitua a actual, que é uma cópia da constituição dinamarquesa. Com esse objectivo, o povo soberano é directamente chamado a pronunciar-se. São eleitos 25 cidadãos sem filiação política, de entre os 522 que apresentaram candidatura. Para esse processo é necessário ser maior de idade e ser apoiado por 30 pessoas. - A assembleia constituinte inicia os seus trabalhos em Fevereiro de 2011 a fim de apresentar, a partir das opiniões recolhidas nas assembleias que tiveram lugar em todo o país, um projecto de Magna Carta. Esse projecto deverá passar pela aprovação do parlamento actual bem como do que vier a ser constituído após as próximas eleições legislativas. Eis, portanto, em resumo a história da revolução islandesa: - Demissão em bloco de um governo inteiro; - Referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais; - Prisão dos responsáveis pela crise e - Reescrita da Constituição pelos cidadãos: Ouvimos falar disto nos grandes media europeus? Ouvimos falar disto nos debates políticos radiofónicos? Vimos alguma imagem destes factos na televisão? Evidentemente que não! O povo islandês deu uma lição à Europa inteira, enfrentando o sistema e dando um exemplo de democracia a todo o mundo. | ||
terça-feira, 18 de setembro de 2012
O RUGIDO DA DEMOCRACIA
Mais do que um sobressalto cívico, mais do que um “baptismo” de cidadania, o que se ouviu no passado Sábado por todo o país foi a Democracia (do grego: o governo do povo). A Democracia levantou-se e emitiu um rugido imenso, inequívoco e assombroso que fez estremecer as paredes do poder e colocou em sentido os artificies da tirania. Gente de todas as classes, idades e condições, pessoas das mais variadas profissões vieram para a rua dizer “Basta!”. E a imensidão desse rugido trazia a mensagem clara de que as pessoas se recusam ser exterminadas todos os dias em nome de uns conceitos mal explicados de despesas e investimentos, de um “deve e haver” que acaba sempre para o mesmo lado. A imensidão do rugido veio claramente dizer que a sua religião, os seus ídolos, não são o lucro sem moral, o trabalho sem ética, a especulação sem limites, o controle da espécie por meia dúzia de sombras não definidas que contratam os políticos supostamente eleitos pelo povo para satisfazer a sua agenda de exploração, morte e destruição. Como é que é possível definir num gabinete em Wall Street o sucesso ou o fracasso de uma colheita de trigo três anos antes dela acontecer, e desta maneira decidir da morte ou da vida do agricultor e da sua família, dos preços para o consumidor, etc. ?Como é possível aceitar o parecer de umas agências de “rating” onde os mesmo tecnocratas responsáveis pelas crises económicas decidem também acerca da evolução económica, da vida e da morte dos países, troçando completamente das reclamações de soberania nacional? Só foi possível até hoje porque uma classe de pastores do rebanho ( nunca os proprietários, porque esses não têm rosto) foi contratada para tal. A coberto das eleições periódicas, a coberto de uma suposta escolha do povo nas urnas, esta gente predispõe-se a cumprir uma agenda que não é a dos seus eleitores, dos seus programas eleitorais, e muito menos dos seus países. Apoiados nas divisões dentro da sociedade, confrontando patrões com sindicatos, direita contra esquerda, pretos contra brancos, religiões contra religiões, heterossexuais contra homossexuais, crentes contra ateus, cidadãos contra emigrantes, instalados contra sem abrigo, numa palavra, fragmentando ao máximo o tecido social, dividindo para reinar, a agenda vai sendo cumprida como um rio que atravessa sem obstáculos uma suave pradaria. O que é que mudou nos últimos tempos? Mudaram dois elementos fundamentais: a informação, que circula a uma velocidade estonteante e chega a cada vez mais cidadãos; e a consciência colectiva de que estamos perante um genocídio em marcha, desta vez contra a Humanidade. E é precisamente essa Humanidade que hoje toma consciência de que antes de ser exterminada tem que reagir. Não pode assistir de braços abertos a esta sangria, a este festim de barbaridade que nos quer atirar sem apelo nem agravo para as condições da Idade Média. É esta Humanidade que se vai levantando aos poucos e que diz : Basta! A mesma Humanidade que começa assustar os arautos da burocracia, os exploradores, os enviados da tirania sem rosto.
Diziam os mais cépticos antes de
15 de Setembro: “Isto não vai dar nada. Depois da manifestação eles vão-se
continuar a rir e a fazer a mesma coisa.” Errado! Depois desta demonstração de
mais de um milhão de pessoas distribuídos por 40 cidades, o poder tremeu. Assustou-se.
Começou a manobrar, a marcar reuniões, a discutir entre si. A ideia do rebanho
manso deixou de ser uma realidade. As ovelhas começam a vestir a pele do lobo. Dirão
agora os mesmos cépticos:”Pois sim, a manifestação foi muito além do que se
estava à espera. E agora, o que é que se vai fazer depois? Qual é a alternativa?”.
Pois bem, a alternativa começa
por gritar bem alto que se vamos morrer, não o faremos resignados, cruzando os
braços. Para nos exterminar vão ter que se esforçar bastante porque estamos
dispostos a levantar os braços. Estamos dispostos a resistir. Essa foi a mais importante
mensagem transmitida no passado dia 15. E resistir de que maneira?
Em todas as ruas, em todas as esquinas do
nosso quotidiano, em todas as ocasiões em que for possível agir
individualmente. Como povo, saindo cada vez mais para a rua. Já na próxima
sexta-feira frente ao palácio de Belém. Na semana seguinte noutro lado
qualquer. E na outra semana, e na outra e na outra. Os boys dos partidos
entupiram as veias da sociedade com a distribuição de tachos e cunhas em todas
as direcções, apropriaram-se do tecido produtivo do Estado para satisfazer as
suas clientelas, bloquearam os corredores da justiça. O Governo já mostrou que
não faz tensão de recuar. Está na hora de lhe continuar a dar a nossa resposta.
Nas ruas. Outro governo virá que, se cometer os mesmos erros, voltará a sair. E
outro, e outro, e outro até que percebam que a força não é só do voto numas
eleições subvertidas da realidade. É contra este estado de coisas que é preciso
sair para a rua todas as semanas, todos os dias se for necessário. Defendendo
as nossas vidas, defendendo o nosso direito à vida, estamos a defender a Humanidade.
Artur
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
A MORTE FELIZ
Só os mortos são felizes: a sua felicidade tem a duração da eternidade e mais um ou dois dias
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
FAKEBOOK
Ocorre a determinados indivíduos um fenómeno espantoso : com o passar do tempo a máscara vai-se transformando em face; a face assumindo os contornos da máscara, até se tornarem indiscerníveis. Já toda a gente suspeitava que o Professor Doutor Paulo Portas era completamente irrelevante, uma espécie de excesso de bagagem, o idiota da família a quem não se presta grande atenção, embora sirva para compôr uma sala durante uma recepção a parentes longínquos e incómodos. Agora ficou provado: o núcleo duro deste (des)governo - ou seja, os Professores Doutores Miguel Relvas, Vítor Gaspar e Passos Coelho - não lhe passa cartão, a não ser quando precisa de maioria parlamentar. Mas, enfim, nesse estado de coisas a sua responsabilidade é , digamos assim, mitigada : tem a importância que a grandeza do seu partido lhe confere. Coisa diferente é quando a sua irrelevância se transforma em patético e ridículo: as justificações e desculpas esfarrapadas com que tem tentado escapar à avalanche de selvajaria e estupidez que os Profs. Drs. acabam de lançar sobre o país. "Patriotismo", chama ele à cobardia em que assentam as suas atitudes e os seus discursos (essa do "patriotismo" deve ser um resquício do tempo em que cumpriu o serviço miliar nos Comandos, perdão, nos Fuzileiros...). Alguém lhe devia explicar que o verdadeiro "patriotismo", aquele que não se mede pelas proclamações nem faz parte dos discursos ocos e vazios, consiste em não pactuar com toddos aqueles que vendem a Pátria a retalho e a vão destruindo, atirando para a miséria e desespero milhares e milhares dos seus compatriotas. Aliás, por falar em vender a retalho, tenho-me fartado de rir ao ver a subserviência com que o Professor Doutor Paulo Portas tem andado de mão estendida a bater à porta de angolanos, venezuelanos e, sobretudo, chineses, logo ele que tanto criticava José Sócrates por andar a fazer negócios com ditadores... Pena é que Khadafi já cá não esteja, ou ainda o veríamos a pernoitar na tenda beduína do ditador líbio tentando sacar-lhe uns negóciozitos.... Eu, por mim, gosto muito do Professor Doutor Paulo Portas, sobretudo quando ela passa semanas seguidas no estrangeiro, beijando a mão a ditadores asiáticos, africanos e sul-americanos, maoístas, marxistas convertidos às delícias do capitalismo (o capitalismo em proveito próprio, entenda-se), marxo-bolivaristas, etc. Aliás, seria bom que desaparecesse para sempre nesse turbilhão internacional levando consigo a pose de grande estadista, o discurso balofo e vazio, os esgares hipócritas e o moralismo de pacotilha, e também os Professores Doutores Telmo, Pires de Lima, Teresa Caeiro e os restantes membros de tão nefanda seita.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
O COSTA DE ÁFRICA
Este é mais um momento alto da Comédia Portuguesa, inserido no filme O COSTA DE ÁFRICA, de 1954. O filme em si não tem muita história, podendo mesmo ser classificado como uma segunda versão de O GRANDE ELIAS, realizado anteriormente. Em vez da tia rica chegada do Brasil, aqui é um tio rico que chega de África. A característica mais relevante de O COSTA DE ÁFRICA, e que acaba por o inscrever na galeria dos grandes filmes, prende-se com a lição que nos ensina como um filme aparentemente banal é salvo por um actor excepcional (Vasco Santana). Esta cena termina com a queda da cabine telefónica com todos os actores lá dentro. Infelizmente a cópia disponível no youtube não a mostra.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
terça-feira, 28 de agosto de 2012
ENTÃO E SE..?
Às vezes vou tranquilo a passear o cão pelo paredão a caminho da praia, quando, volta na volta, lá está ela, junto ao mar, cabelos soltos ao vento, internada nos seus pensamentos, olhos postos no horizonte. Outras vezes calha cruzarmo-nos no caminho, cumprimentamos uns “bons dias” muito formais e tudo fica na mesma. Registo a sua presença sem parar, mas não deixo de seguir caminho a pentear uma pergunta inútil. E como seria, como teria sido se ..? Aquelas perguntas que nunca se conseguem responder porque já atingiram o limite, o tempo útil de receber uma resposta. Há quê? Talvez vinte anos atrás, talvez mais, lembro-me de nos termos cruzado com um reservatório muito maior de expectativas no bolso. Possibilidades, desenvolvimentos. Ela não percebeu, eu tinha pressa, ou, se calhar, tinha medo e não avançou, ou não soube ler os meus avanços que, à falta de correspondência se começaram a tornar grosseiros e foram obrigados a retirar. Ou se calhar foi o medo que me mandou embora e é ainda hoje ele que me faz estremecer com a imagem da silhueta dela a caminhar ao longo do pontão. E o que é que isso interessa, mastigar imagens e possibilidades, inventar destinos que nunca aconteceram, tremer de medo ou ansiedade atrasados? O que é que isso interessa?
O meu avô morreu muito novo, nunca o conheci mas, por esquinas do destino acabei por ser educado pela mulher dele. Cresci na casa dele, entre recordações, histórias, livros e memórias dele. Aprendi a conhecê-lo nas palavras da minha avó, nos gostos literários com que decorava a sua biblioteca, os apartes e as notas que escrevia nas margens, nas fotografias. Nunca o vi e no entanto conheci tão bem aquele homem. E não deixo de me interrogar, como teria sido se..? Se o tivesse conhecido materialmente. Seria ele aquele homem o que as suas memórias me foram permitindo construir? E o que é que isso interessa? Onde é que esta especulação nos pode levar senão a lugar nenhum? Precisamente, a lado nenhum é para onde a vida nos leva, dia após dia, ano após ano. Fingimos que não é assim, cantamos umas cantiguinhas da treta uns aos outros, mas estamos apenas a disfarçar o enorme NADA que tudo isto representa. Por isso passamos tanto tempo a remoer o que não foi, o que poderia ter sido, o eterno “então e se…?”
Nunca conheci o meu avô, mas em compensação conheci uma data de tipos, uns mais cretinos que outros, todos excelentes pedagogos, todos excelentes conselheiros. Todos sabiam exactamente como eu devia viver a minha vida. Pena era que a vida deles fosse um caos que eles não controlavam. Vi campeões partir à mesma velocidade que chegavam, heróis invencíveis, craques disto e daquilo. Poucos tinham o olhar vazio da coragem na hora do perigo. Poucos tinham a vibração do amor na hora de decidir sobre os outros, no momento de arrepiar caminho e deixar o ego para trás.
Nunca fui amante daquela mulher…fui de outras. Umas melhores, outras piores. Aprendi a encontrar portos de abrigo, a ver as coisas com óculos diferentes, a relativizar a estupidez dos dias. Mães e amantes, enfermeiras e bruxas, bimbas e senhoras. Os seus corpos foram os melhores livros onde aprendi a vida e a morte. Poucas tinham o olhar vazio no momento do grito final, poucas hesitavam na hora de decidir, de deixar cair uma teimosia, de terminar uma discussão. Todas encantadoras, campeãs do outro lado da vida que só elas ensinam. Com os ocupantes do caminho da minha existência não houve “ses” mas certezas. Certezas do que realmente aconteceu, e me enriqueceu de lições e experiência. Para esse terreno não posso enviar um “então e se..?” porque tenho todas as respostas. A acção especulativa serve apenas para distrair da morte, para entreter enquanto não pensamos nela.
Nunca fui amante daquela mulher mas não deixo de estremecer quando ocasionalmente a encontro ali no pontão a passear, a contemplar o mar. E julgo que também ela estremece quando percebe que vou a passar. Também ela se interroga “então e se..?”
Hoje voltei a vê-la a caminho da praia. Deixei o cão com o meu irmão e fui nadar, aproveitando o mar agitado. Acho que ela não me viu. Nem quando passei a correr pelo pontão, nem quando meti uma moeda debaixo da língua momentos antes de me atirar ao mar e me pôr a nadar sem destino. Daqui a pouco vamos nos encontrar. Hoje não haverá “ses”, hoje não venho jantar.
Artur
O meu avô morreu muito novo, nunca o conheci mas, por esquinas do destino acabei por ser educado pela mulher dele. Cresci na casa dele, entre recordações, histórias, livros e memórias dele. Aprendi a conhecê-lo nas palavras da minha avó, nos gostos literários com que decorava a sua biblioteca, os apartes e as notas que escrevia nas margens, nas fotografias. Nunca o vi e no entanto conheci tão bem aquele homem. E não deixo de me interrogar, como teria sido se..? Se o tivesse conhecido materialmente. Seria ele aquele homem o que as suas memórias me foram permitindo construir? E o que é que isso interessa? Onde é que esta especulação nos pode levar senão a lugar nenhum? Precisamente, a lado nenhum é para onde a vida nos leva, dia após dia, ano após ano. Fingimos que não é assim, cantamos umas cantiguinhas da treta uns aos outros, mas estamos apenas a disfarçar o enorme NADA que tudo isto representa. Por isso passamos tanto tempo a remoer o que não foi, o que poderia ter sido, o eterno “então e se…?”
Nunca conheci o meu avô, mas em compensação conheci uma data de tipos, uns mais cretinos que outros, todos excelentes pedagogos, todos excelentes conselheiros. Todos sabiam exactamente como eu devia viver a minha vida. Pena era que a vida deles fosse um caos que eles não controlavam. Vi campeões partir à mesma velocidade que chegavam, heróis invencíveis, craques disto e daquilo. Poucos tinham o olhar vazio da coragem na hora do perigo. Poucos tinham a vibração do amor na hora de decidir sobre os outros, no momento de arrepiar caminho e deixar o ego para trás.
Nunca fui amante daquela mulher…fui de outras. Umas melhores, outras piores. Aprendi a encontrar portos de abrigo, a ver as coisas com óculos diferentes, a relativizar a estupidez dos dias. Mães e amantes, enfermeiras e bruxas, bimbas e senhoras. Os seus corpos foram os melhores livros onde aprendi a vida e a morte. Poucas tinham o olhar vazio no momento do grito final, poucas hesitavam na hora de decidir, de deixar cair uma teimosia, de terminar uma discussão. Todas encantadoras, campeãs do outro lado da vida que só elas ensinam. Com os ocupantes do caminho da minha existência não houve “ses” mas certezas. Certezas do que realmente aconteceu, e me enriqueceu de lições e experiência. Para esse terreno não posso enviar um “então e se..?” porque tenho todas as respostas. A acção especulativa serve apenas para distrair da morte, para entreter enquanto não pensamos nela.
Nunca fui amante daquela mulher mas não deixo de estremecer quando ocasionalmente a encontro ali no pontão a passear, a contemplar o mar. E julgo que também ela estremece quando percebe que vou a passar. Também ela se interroga “então e se..?”
Hoje voltei a vê-la a caminho da praia. Deixei o cão com o meu irmão e fui nadar, aproveitando o mar agitado. Acho que ela não me viu. Nem quando passei a correr pelo pontão, nem quando meti uma moeda debaixo da língua momentos antes de me atirar ao mar e me pôr a nadar sem destino. Daqui a pouco vamos nos encontrar. Hoje não haverá “ses”, hoje não venho jantar.
Artur
domingo, 26 de agosto de 2012
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