sábado, 11 de agosto de 2012

PUSSY RIOT - PUNK'S NOT DEAD


Estou com elas. Estou com elas contra a farsa da política, estou com elas contra a hipocrisia da igreja, estou com elas porque são novas e pensam, e têm atitude, e provocam, e destapam a fralda invisível do rei que vai nu para que os outros possam ver também. Estou com elas contra um julgamento estalinista que quer apenas certificar-se que as torneiras da expressão estão bem fechadas e assim continuarão a estar. Estou com elas porque não fecho todos os espaços por onde ainda é possível vislumbrar alguma esperança sobre os dias negros que vivemos. Estou com elas pela coragem, pela personalidade e pelo direito que todos temos neste planeta a viver com dignidade e em paz, sem sermos roubados, humilhados e condenados à morte por meia dúzia de palhaços escondidos atrás da legalidade da sua ganância infinita. Uns palhaços que contratam outros palhaços para fingir que ganham eleições para fingir que estão legitimados para nos regular e dizer quando e onde e como deve ser a nossa vida. Estou com elas porque a sua coragem pode levá-las a passar algum tempo na prisão. Estou com elas em qualquer movimento que as apoie, em qualquer grupo disposto a enfrentar este absurdo estado das coisas que mais não é do que um genocídio organizado e planeado contra a Humanidade sem ter que recorrer a uma guerra como no passado. Enfim...estou com elas porque o Punk nunca morre. Beijo- vos, Valquírias do tempo moderno.

Artur

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

(AN) DANÇAS ANÓNIMAS


Parece que o sonho desapareceu para os recantos da memória e só sobram as saudades, as frases de "naquele tempo é que era...". As pernas já não correm com a velocidade pretendida, o fôlego pára mais vezes para recuperar, o tempo foge-me entre os dedos. Mas a ALMA voa entre todos os tempos, fura os portais de todas as dimensões, rebenta com todos os velocímetros. Fomos vida e VIDA continuaremos a ser, nas palavras, nos acordes, nos que foram mais cedo, nos que caminham ao nosso lado. Morrer é apenas voltar a estar vivo com mais intensidade, com as memórias do caminho, com os amigos, com concertos que foram verdadeiras manifestações religiosas. Aqui, os que ninguém conhece levantam os braços ao céu e dançam, e continuam a dançar os rituais do amor, da amizade e da eternidade...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

BREAKFAST ON PLUTO



Neil Jordan
Irlanda, Reino Unido, 2005

Sendo um filme à partida estranho e invulgar, BREAKFAST ON PLUTO cativa-nos desde a primeira imagem, deixando um rasto de riso incómodo, uma trágica propensão para a caricatura. O percurso de Patrick pelas esquinas mais violentas e negras do tempo é essencialmente uma lição de amor e persistência de um contra todos, ou contra tudo, em nome da individualidade.
Tudo começa na pequena aldeia de Tyrellin, próximo da fronteira da Irlanda do Norte, no ano de 1940, quando Patrick é abandonado pela mãe à porta da sede da paróquia e recolhido pelo padre Liam. Adoptado por uma família de acolhimento, Patrick cedo se transforma num incómodo permanente, seja pelo ostensivo comportamento de um rapaz que se quer transformar numa mulher, seja pela revelação de ter sido concebido pelo padre e pela governanta. Patrick rapidamente se transforma em Patrícia e depois em “Kitten”, pouco antes de fugir de casa e apanhar boleia de uma banda de rock, envolvendo-se com o vocalista. Billy instala “Kitten” numa roullotte isolada perto do mar, que era ao mesmo tempo esconderijo de armas do IRA. Irwin, um dos seus amigos, com grande contestação da namorada Charlie, junta-se ao exército de libertação. Quando um carro armadilhado vitima o seu outro amigo, Lawrence, “Kitten” decide pegar nas armas escondidas e atirá-las ao mar. Quando o IRA percebe o que aconteceu só não o executa porque o julga completamente maluco da cabeça. Kitten parte então para Londres, em fuga dos ares pesados da luta armada e em busca da sua mãe.
Segue-se um périplo acidentado de encontros e desencontros, desde um relacionamento amoroso com um mágico que sempre soube que Kitten era um homem, até ao reencontro com a mãe sem no entanto lhe dizer quem era, passando por uma casa de “peep show” onde o pai/padre o visita e convida para vir morar com ele na Irlanda.
Baseado no romance com o mesmo título de Pat Mc Cabe, a adaptação para filme sofreu várias alterações. Jordan e Mc Cabe começam por tirar o nome “Pussy” e substituir por “Kitten” em relação ao protagonista. Por outro lado, enquanto que no livro o protagonista se envolve em múltiplas cenas de sexo explícito tanto com homens como com mulheres, tendo mesmo com alguns estabelecido relações de longa duração, no filme não vemos sequer “Kitten” a dar um beijo na boca em ninguém. A opção formal foi a de privilegiar o poder de sugestão. Kitten não é mostrada abertamente em contactos sexuais, apenas se dá a entender que assim é, ou se supõe, transformando o personagem num ser ainda mais frágil e mais ingénuo do ponto de vista da sua perversidade.
A cena junto ao mar com o mágico Bertie é apontada por muitos como uma alusão ao filme anterior do mesmo realizador, THE CRYING GAME, que também envolvia a transexualidade num dos personagens. Se em THE CRYING GAME, o homem se apaixona por uma mulher que é afinal um híbrido (transexual) com o espanto e a reacção violenta que se segue, em BREAKFAST ON PLUTO, quando Kitten confessa a Bertie que não é uma mulher, a resposta é: “Eu já sabia.” O beijo que ele se preparava para lhe dar fica como que suspenso, interrompido perante a confissão.
Mais ingénuo, menos perverso, e mais frágil, Kitten acaba por atravessar o seu tempo numa luta desesperada contra o mundo, empenhado em sobreviver e, principalmente, em manter viva e activa a sua identidade. E é neste ponto que o filme consegue alcançar a sua força máxima expressiva. Dando-nos uma lição sobre a diferença, a procura do amor e a relativizar a importância da maior parte das coisas que nos acontecem na vida. Mesmo as grandes tragédias devem ser relativizadas à medida da nossa sensibilidade, à medida da nossa capacidade para não escondermos quem somos nem nos desviarmos daquilo que queremos. Só assim poderemos continuar vivos…

Artur

sexta-feira, 27 de julho de 2012

POSSIBILIDADES

Da maneira como a ofensiva neo-liberal tomou o freio nos dentes neste mundo, afiguram-se dois desfechos prováveis, ambos trágicos. Ou o genocídio consentido pela passividade de uma humanidade assustada, ou a generalização da luta entre classes. Os que têm tudo e querem mais e os que já nada têm para perder... Oxalá que eu me engane...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

PANIC ON A WEIRD SUMMER DAY



Naqueles tempos a minha vida era uma incógnita absoluta, sem respostas fáceis, sem sombras de perspectivas nem silhuetas nítidas, em suma, nada a que me pudesse agarrar com um pouco de eternidade. Estava em Londres há três meses, trabalhava num “pub” e vivia numa daquelas casas típicas de postalinho, num quarto, dividindo a casa de banho com mais três quartos, numa rua simpática entre Cromwell Road e Queens Gate Gardens, no bairro de Kesington. Comigo viviam o Bruce e o António, que trabalhavam no mesmo lugar que eu, a irmã do Bruce e um gajo suíço que tocava baixo nos corredores do metro. Era uma manhã de Sábado e tinha ido comprar o jornal. Quando voltei vi um gajo a rondar a nossa porta com ar suspeito. Dirigi-me a ele, perguntei se queria alguma coisa. Perguntou-me se morava ali, respondi que sim. Depois começou a falar num gajo paquistanês que lhe devia dinheiro e se ele não morava ali. Respondi que não, que ali não morava ninguém que correspondesse aquela discrição. Começou a insistir que queria entrar e certificar-se por si próprio. De início resisti mas tive rapidamente que mudar de estratégia. O tipo dizia que se não o deixasse entrar, acabaria por voltar, e desta vez com a policia da emigração. Naquela época, tínhamos acabado de entrar na comunidade europeia, mas a livre circulação de pessoas ainda não estava completamente liberada em Inglaterra. Eu, por exemplo, tinha entrado com um visto de turista para seis meses, não podia trabalhar. Por outro lado, o António era desertor dos fuzileiros. Se a policia o apanhasse recambiava-o logo para a “terrinha” e, assim que chegasse, o destino dele seria o presídio militar. Aquele tipo não podia voltar ali com nenhuma espécie de policia. Mudei de ideia, disse-lhe para entrar, para confirmar pelos seus próprios meios. Lá dentro, alguma coisa me haveria de ocorrer. Entrámos para o pequeno hall, fechei a porta e avaliei-o. Era ligeiramente mais alto que eu, embora muito mais magro. Tinha um aspecto manhoso, cabelo rapado, vestia um blusão surrado de cabedal e umas “jeans” velhas onde, num dos bolsos de trás espreitava o cabo preto de uma navalha. Na altura os nazis da National Front eram um grupo bastante activo, empenhado em dar caça a emigrantes. O António tinha dormido fora, o Bernard já tinha saído para o metro. Só lá estava eu, o Bruce e a irmã dele. O cheiro a incenso denunciava que ela já tinha acordado e dado início às suas orações diárias ao senhor buda. Seguia-se uma tigela de cereais e uma caminhada em Queens Gate Gardens. Subimos até ao meu quarto no primeiro andar. Esquecido sobre um dos degraus da escada estava um prato de bateria deixado para trás por algum amigo do Bernard. O outro não dava sinais de se querer ir embora, não parava de fazer perguntas, de onde é que eu era, se o de baixo não era australiano, etc. Andava de certeza atrás de qualquer coisa. Ou dinheiro, ou droga ou de reconhecimento de um lugar onde voltaria com os amigos para a caça. Foi então que me ocorreu uma saída. Convidei o desconhecido a ir lá abaixo ao quintal e beber um chá frio, para estarmos mais à vontade. Concordou. Deixei-o ir à minha frente. A meio das escadas agarrei no prato da bateria e continuei. Abri a porta do quintal e deixei-o passar. Depois, assim que fechei a porta fiz meia volta, alcei o braço e acertei-lhe com o prato em cheio na tromba. Ele nem teve tempo de perceber o que lhe tinha acontecido. Serpentinas vermelhas começavam a esvoaçar-lhe do nariz. Dei-lhe mais duas cacetadas para ter a certeza que adormecia por algum tempo. O Bruce chegou logo a seguir. Contei-lhe a história em três frases. Agarrámos nele e viemos para a rua das traseiras. Deixámo-lo deitado entre dois caixotes de lixo. Quando voltámos para casa tivemos que pensar numa história para fechar aquele episódio desagradável. Eu ia-me embora pelo menos até as coisas acalmarem, era o único que ele conhecia. Encontrávamo-nos mais tarde no “Pub”, que ficava do outro lado da cidade. Domingo ao fim da tarde. Ele logo me diria em que é que paravam as modas, se poderia regressar para casa ou não. Entretanto tinha que arranjar lugar para dormir. Se não telefonasse até à hora do jantar era porque estava resolvido. Agora tinha que me pôr a andar dali para fora. Ele ficaria encarregue de um telefonema anónimo para a policia a dizer que estava um homem caído nas traseiras da rua tal. Deu-me dois charros para o caminho. Abraçámo-nos e fui à minha vida. Para trás o rádio tocava musica dos “Smith”: 



                     Panic in the streets of London

                     Panic in the streets of Birmingham

                     I wonder to myself

                     Will life be sane again?



O resto da manhã e o princípio da tarde foi percorrido sem rumo pelas eternas linhas do Metro londrino, sem destino aparente. Era Verão e estava um dia quente. Voltei à superfície em Wembley Park e dirigi-me a um “pub” à procura de ar condicionado e de uma “pint” de cerveja. Entrei num ambiente acolhedor de barulhento. Na televisão um jogo de futebol animava as hostes. Pouco depois de me sentar entrou uma mulher sozinha, amparada por duas canadianas. Não tinha uma perna e exibia o coto por baixo da minissaia de ganga. Mandei vir outra cerveja e não consegui evitar olhar para a ausência do membro dela. Era loura, olhos azuis, cabelo curtinho muito leve a esvoaçar sem pressa ao sabor do ar condicionado. Ela percebeu que eu estava a olhar. Interpelou-me após um longo golo na sua bebida. – Para onde é que estás a olhar? – Fiquei sem resposta pronta, meio embaraçado. – Era para aqui que estavas a olhar? – apontava para o coto. – Era… - disse. – Queres mexer? – Olhei-a nos olhos sem desviar o olhar – Pode ser, porque não. – Levantei-me, dirigi-me a ela e estiquei o braço. A sensação era como estar a sentir uma almofada cheia de rugas, um espaço muito suave e frágil ao mesmo tempo. – Então, qual é a sensação? – continuou ela naquele registo de raiva e desafio. – É estranha. Não se parece com nada que tenha tocado anteriormente. Queres ir dar uma volta comigo? Prometo que não vou andar depressa. – Ela soltou uma gargalhada e chamou-me esquisito. Respondi-lhe que tudo naquele Verão na minha vida era esquisito. Bebemos mais uns copos e saímos. Comprámos comida na rua e fomos jantar a casa dela. Chamava-se Irene, trabalhava como secretária numa empresa de imobiliário e tinha perdido a perna num acidente de mota com o namorado. Ele tinha morrido. O que lhe faltava em termos de perna, sobrava e excedia as expectativas no resto do corpo. Ao fim de uma hora na cama já não me conseguia lembrar de nenhum defeito que a Irene pudesse ter. Passámos aquela noite juntos e assim ficámos todo o dia de Domingo. Ao fim da tarde disse-lhe que tinha que ir trabalhar e perguntei se queria ir comigo. Aceitou. Metemo-nos no metro e acabei por a apresentar ao Bruce e ao António. Ficou lá até fecharmos e pela noite fora a ouvir musica, a cantar e a beber cerveja. O gajo do dia anterior tinha desaparecido sem deixar rasto. Contaram-lhe a minha aventura naquele dia. Ela olhava para mim incrédula: “You are a crazy fuck, aren’t you?” Eu respondia meio envergonhado: “I think I´m a crazy fart, thats all?” O António emprestou-me a mota dele para a levar a casa. Dormi lá outra vez nessa noite. A Irene voltou ao “pub” mais duas ou três vezes e nunca mais a voltei a ver. Sabíamos que havia ali qualquer coisa. Qualquer coisa que não era suficiente para manter uma relação duradoura. Mesmo assim, ficámos amigos. A minha vida continuava uma espécie de incógnita permanente, sem esboços de futuro, sem nada a que me pudesse agarrar. Era como se estivesse amputado de respostas. Aqueles dias com a Irene, no entanto, serviram para me dar um pouco de paz e tranquilidade. Uma tranquilidade que já não sentia há muito, muito tempo. No rádio os Smiths cantavam o pânico. Na minha cabeça, era apenas mais uma canção daquele estranho Verão na Londres dos anos 80….

                       Burn down the disco

                       Hang the blessed DJ

                       Because the music they constantly play

                       It says nothing to me about my life





Artur




BOLO DE ANOS

                                                   
Imagens de Sofia P. Coelho






segunda-feira, 16 de julho de 2012

JON LORD


                                               

                                                 (1941 - 2012)


                                                Deep Purple...Whitesnake

domingo, 8 de julho de 2012

O CLARIM DA REVOLTA



TAPS

Harold Becker

 EUA, 1981



Tudo corria bem na  Academia de Bunker Hill até ao dia em que uma péssima notícia veio abalar a paz do seu normal funcionamento. O conselho de accionistas anuncia que os terrenos da academia irão ser vendidos para dar lugar a uma estrutura de condomínios. O seu encerramento terá lugar imediatamente após o fim do corrente ano escolar. O seu director, o general Bache, promete que fará tudo o que estiver ao seu alcance para manter a escola aberta. O general acabará por sofrer um trágico acidente que o irá levar ao hospital. Com o director fora do caminho, o conselho resolve antecipar as suas ambições e decreta o fecho imediato da escola. Sem o seu líder, sem a mais forte esperança de impedir  o encerramento da sua escola, os cadetes mais antigos decidem barricar-se lá dentro. O comandante do batalhão, Brian Moreland (Timothy Hutton) comanda toda a operação, tanto na defesa da continuidade da escola como na intenção de honrar o general Bache, mesmo que para tal tenham de recorrer à utilização de armas de fogo.

Este é em síntese o drama central de TAPS (que em Portugal ficou traduzido como: O CLARIM DA REVOLTA), um filme que 30 anos depois ainda se consegue visualizar confortavelmente, uma narrativa muito interessante que oscila entre o realismo e o romantismo. TAPS, a esta distância temporal, é também um filme de actores. Começando pelo gigante George C. Scott, que entrou para a história do cinema com a extraordinária interpretação do general Patton no filme com o mesmo nome, argumento de Francis Ford Copolla. Por outro lado, a escolha de Timothy Hutton para o papel do comandante dos alunos é feita logo após a atribuição do Óscar de melhor actor secundário pela sua actuação no filme ORDINARY PEOPLE. Com ele duas estreias de dois futuros gigantes da representação que acabarão por ultrapassar o seu comandante em popularidade. Um Sean Penn no papel do cínico e da má consciência do comandante, e por outro lado Tom Cruise num registo de grande intensidade, violento e desequilibrado. Imagens que ambos acabarão por afastar nos papéis futuros ao longo de carreiras triunfantes.

Os soldadinhos de brinquedo (com idades entre os 12 e os 18 anos) transformam-se então em soldados a sério, desenvolvendo uma operação de força tendente a forçar o “inimigo” a repensar a sua estratégia de encerramento da escola, ou pelo menos a encontrar uma solução de compromisso através de negociações com os alunos. E mais do que uma simples teimosia de jovens românticos, defendem os valores que lhes foram ensinados, o respeito pela honra do seu líder, a protecção da casa onde estudam e vivem, num exercício de dignidade até às últimas consequências. Não sendo rebeldes, nem invasores, nem inimigos do seu país, o que estes jovens acabam por fazer é dar um nó nas contradições do sistema. Colocam uma bandeira para assinalar o cruzamento entre a cartilha dos valores patrióticos e a hipocrisia da especulação gananciosa. O cerco começa então em frente aos portões da escola, com a Guarda Nacional os pais e os noticiários televisivos a tentarem dissuadir um extremamente motivado comandante a render-se.

Rodado em Valley Forge Military Academy na Pensilvânia oriental, o filme não encerra conclusões fáceis e está longe de nos dar alguma resposta simples. Se por um lado a conduta radical dos jovens cadetes é excessiva e quase irresponsável no que às consequências diz respeito, também não deixa de ser pertinente que, ao sentirem-se encurralados, não hesitaram em se defender. Em defender um modo de vida incompreensível para a maior parte do mundo exterior. Defesa essa que em muitos casos não consegue evitar a nossa simpatia…



Artur

quinta-feira, 28 de junho de 2012


IF

 Lyndsay Anderson

 Reino Unido, 1968



No final da década de 60, um grupo de jovens de um colégio interno inglês começa a despertar para o mundo e para a vida, vendo-se confrontado com um quotidiano de reclusão, disciplina férrea e abuso de autoridade sobre as suas pessoas. Mick Travis  (Malcolm McDowell) e os seus companheiros encontram-se no meio da hierarquia etária, entre os mais desprotegidos e os “Whips”, os mais velhos, encarregados de manter a disciplina, aplicar castigos, fazer dos outros seus criados pessoais.

Influenciado pelos “ecos” do Maio de 68 e, a nível estrutural, pelo filme ZERO DE CONDUITE (1933), de Jean Vigo, o filme aborda de uma forma libertária a questão do ensino nos colégios internos ingleses (public schools) com um olhar bastante duro, e por consequência a própria sociedade britânica e as suas relações de força e equilíbrio.

Numa época de transformação e conflito, em que tudo é questionado e tudo é experimentado, o grupo de Mick Travis culminará a sua emancipação da pior forma possível. No dia da cerimónia do ano escolar, socorridos de armamento encontrado numa cave, esquecido da última guerra, Travis, a sua namorada e os outros, sobem aos telhados do colégio e desatam a disparar indiscriminadamente causando o pânico e a destruição entre alunos, pais e professores. Este desenlace aparentemente improvável, este grito rebelde contra a instituição e aquilo que ela representa, surge não enquanto elemento anormal caído do céu por razão nenhuma, mas antes como consequência perfeitamente previsível, ainda que numa escala desequilibrada e desproporcional. A alegoria da revolta inscreve-se na velha máxima de que, os humanos são sempre uma consequência do meio onde vivem. Tratados com violência e injustiça, tendem a ser violentos e injustos. A cena final, que tanto e tantos escandalizou, não é mais do que um exercício de lógica em torno da forma como tudo se estrutura para trás.

Sinal de um tempo, identidade da revolta, delírio libertário, surrealismo conceptual, a base é toda ela assente em parâmetros reais, a que não será alheio o facto de tanto o realizador como os dois autores do argumento (David Sherwin e John Howlet) terem sido alunos de colégios internos ingleses.

Embora houvesse quem especulasse que a alternância entre cenas a preto e branco e a cores fosse devida a estados de Realidade/Fantasia, tal não aconteceu. Algumas cenas foram rodadas a preto e branco para obstar o facto de as janelas da escola onde decorrem as filmagens permitirem uma entrada de luz muito intensa que a cores iria inviabilizar a imagem. No entanto a oscilação entre a Sátira e a Fantasia combinam o par perfeito que a escolha da película não preencheu.

Outra nota curiosa é a de que a banda sonora do filme ser toda ela constituída por uma única peça. Trata-se de “Sanctus” da “Missa Luba”, uma versão africana da missa em latim cantada por um coro de crianças congolesas.

IF é um marco na história do cinema libertário na medida em que, influenciado pelos tempos em que foi feito desenvolve a eterna possibilidade da concretização da liberdade ao alcance do ser humano. As ovelhas podem perfeitamente transformar-se em lobos e contra-atacar quem as oprime. A História é um folhetim gigantesco acerca do homem oprimido e da sua luta para a libertação por um lado, e da reorganização da repressão e domínio de poucos para transformar de novo os lobos em ovelhas. Um folhetim em dois actos que se repete pelos séculos dos séculos. Nunca está fora de moda por mais que digam o contrário. Palma de Ouro em Cannes (1969), o filme foi também distinguido na revista “Total Film” como o 16º melhor de sempre na lista de filmes britânicos.

IF é um marco na história da consciência da humanidade, um filme sempre actual que deveria ser (re)visto em cada geração…



Artur