sexta-feira, 27 de julho de 2012

POSSIBILIDADES

Da maneira como a ofensiva neo-liberal tomou o freio nos dentes neste mundo, afiguram-se dois desfechos prováveis, ambos trágicos. Ou o genocídio consentido pela passividade de uma humanidade assustada, ou a generalização da luta entre classes. Os que têm tudo e querem mais e os que já nada têm para perder... Oxalá que eu me engane...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

PANIC ON A WEIRD SUMMER DAY



Naqueles tempos a minha vida era uma incógnita absoluta, sem respostas fáceis, sem sombras de perspectivas nem silhuetas nítidas, em suma, nada a que me pudesse agarrar com um pouco de eternidade. Estava em Londres há três meses, trabalhava num “pub” e vivia numa daquelas casas típicas de postalinho, num quarto, dividindo a casa de banho com mais três quartos, numa rua simpática entre Cromwell Road e Queens Gate Gardens, no bairro de Kesington. Comigo viviam o Bruce e o António, que trabalhavam no mesmo lugar que eu, a irmã do Bruce e um gajo suíço que tocava baixo nos corredores do metro. Era uma manhã de Sábado e tinha ido comprar o jornal. Quando voltei vi um gajo a rondar a nossa porta com ar suspeito. Dirigi-me a ele, perguntei se queria alguma coisa. Perguntou-me se morava ali, respondi que sim. Depois começou a falar num gajo paquistanês que lhe devia dinheiro e se ele não morava ali. Respondi que não, que ali não morava ninguém que correspondesse aquela discrição. Começou a insistir que queria entrar e certificar-se por si próprio. De início resisti mas tive rapidamente que mudar de estratégia. O tipo dizia que se não o deixasse entrar, acabaria por voltar, e desta vez com a policia da emigração. Naquela época, tínhamos acabado de entrar na comunidade europeia, mas a livre circulação de pessoas ainda não estava completamente liberada em Inglaterra. Eu, por exemplo, tinha entrado com um visto de turista para seis meses, não podia trabalhar. Por outro lado, o António era desertor dos fuzileiros. Se a policia o apanhasse recambiava-o logo para a “terrinha” e, assim que chegasse, o destino dele seria o presídio militar. Aquele tipo não podia voltar ali com nenhuma espécie de policia. Mudei de ideia, disse-lhe para entrar, para confirmar pelos seus próprios meios. Lá dentro, alguma coisa me haveria de ocorrer. Entrámos para o pequeno hall, fechei a porta e avaliei-o. Era ligeiramente mais alto que eu, embora muito mais magro. Tinha um aspecto manhoso, cabelo rapado, vestia um blusão surrado de cabedal e umas “jeans” velhas onde, num dos bolsos de trás espreitava o cabo preto de uma navalha. Na altura os nazis da National Front eram um grupo bastante activo, empenhado em dar caça a emigrantes. O António tinha dormido fora, o Bernard já tinha saído para o metro. Só lá estava eu, o Bruce e a irmã dele. O cheiro a incenso denunciava que ela já tinha acordado e dado início às suas orações diárias ao senhor buda. Seguia-se uma tigela de cereais e uma caminhada em Queens Gate Gardens. Subimos até ao meu quarto no primeiro andar. Esquecido sobre um dos degraus da escada estava um prato de bateria deixado para trás por algum amigo do Bernard. O outro não dava sinais de se querer ir embora, não parava de fazer perguntas, de onde é que eu era, se o de baixo não era australiano, etc. Andava de certeza atrás de qualquer coisa. Ou dinheiro, ou droga ou de reconhecimento de um lugar onde voltaria com os amigos para a caça. Foi então que me ocorreu uma saída. Convidei o desconhecido a ir lá abaixo ao quintal e beber um chá frio, para estarmos mais à vontade. Concordou. Deixei-o ir à minha frente. A meio das escadas agarrei no prato da bateria e continuei. Abri a porta do quintal e deixei-o passar. Depois, assim que fechei a porta fiz meia volta, alcei o braço e acertei-lhe com o prato em cheio na tromba. Ele nem teve tempo de perceber o que lhe tinha acontecido. Serpentinas vermelhas começavam a esvoaçar-lhe do nariz. Dei-lhe mais duas cacetadas para ter a certeza que adormecia por algum tempo. O Bruce chegou logo a seguir. Contei-lhe a história em três frases. Agarrámos nele e viemos para a rua das traseiras. Deixámo-lo deitado entre dois caixotes de lixo. Quando voltámos para casa tivemos que pensar numa história para fechar aquele episódio desagradável. Eu ia-me embora pelo menos até as coisas acalmarem, era o único que ele conhecia. Encontrávamo-nos mais tarde no “Pub”, que ficava do outro lado da cidade. Domingo ao fim da tarde. Ele logo me diria em que é que paravam as modas, se poderia regressar para casa ou não. Entretanto tinha que arranjar lugar para dormir. Se não telefonasse até à hora do jantar era porque estava resolvido. Agora tinha que me pôr a andar dali para fora. Ele ficaria encarregue de um telefonema anónimo para a policia a dizer que estava um homem caído nas traseiras da rua tal. Deu-me dois charros para o caminho. Abraçámo-nos e fui à minha vida. Para trás o rádio tocava musica dos “Smith”: 



                     Panic in the streets of London

                     Panic in the streets of Birmingham

                     I wonder to myself

                     Will life be sane again?



O resto da manhã e o princípio da tarde foi percorrido sem rumo pelas eternas linhas do Metro londrino, sem destino aparente. Era Verão e estava um dia quente. Voltei à superfície em Wembley Park e dirigi-me a um “pub” à procura de ar condicionado e de uma “pint” de cerveja. Entrei num ambiente acolhedor de barulhento. Na televisão um jogo de futebol animava as hostes. Pouco depois de me sentar entrou uma mulher sozinha, amparada por duas canadianas. Não tinha uma perna e exibia o coto por baixo da minissaia de ganga. Mandei vir outra cerveja e não consegui evitar olhar para a ausência do membro dela. Era loura, olhos azuis, cabelo curtinho muito leve a esvoaçar sem pressa ao sabor do ar condicionado. Ela percebeu que eu estava a olhar. Interpelou-me após um longo golo na sua bebida. – Para onde é que estás a olhar? – Fiquei sem resposta pronta, meio embaraçado. – Era para aqui que estavas a olhar? – apontava para o coto. – Era… - disse. – Queres mexer? – Olhei-a nos olhos sem desviar o olhar – Pode ser, porque não. – Levantei-me, dirigi-me a ela e estiquei o braço. A sensação era como estar a sentir uma almofada cheia de rugas, um espaço muito suave e frágil ao mesmo tempo. – Então, qual é a sensação? – continuou ela naquele registo de raiva e desafio. – É estranha. Não se parece com nada que tenha tocado anteriormente. Queres ir dar uma volta comigo? Prometo que não vou andar depressa. – Ela soltou uma gargalhada e chamou-me esquisito. Respondi-lhe que tudo naquele Verão na minha vida era esquisito. Bebemos mais uns copos e saímos. Comprámos comida na rua e fomos jantar a casa dela. Chamava-se Irene, trabalhava como secretária numa empresa de imobiliário e tinha perdido a perna num acidente de mota com o namorado. Ele tinha morrido. O que lhe faltava em termos de perna, sobrava e excedia as expectativas no resto do corpo. Ao fim de uma hora na cama já não me conseguia lembrar de nenhum defeito que a Irene pudesse ter. Passámos aquela noite juntos e assim ficámos todo o dia de Domingo. Ao fim da tarde disse-lhe que tinha que ir trabalhar e perguntei se queria ir comigo. Aceitou. Metemo-nos no metro e acabei por a apresentar ao Bruce e ao António. Ficou lá até fecharmos e pela noite fora a ouvir musica, a cantar e a beber cerveja. O gajo do dia anterior tinha desaparecido sem deixar rasto. Contaram-lhe a minha aventura naquele dia. Ela olhava para mim incrédula: “You are a crazy fuck, aren’t you?” Eu respondia meio envergonhado: “I think I´m a crazy fart, thats all?” O António emprestou-me a mota dele para a levar a casa. Dormi lá outra vez nessa noite. A Irene voltou ao “pub” mais duas ou três vezes e nunca mais a voltei a ver. Sabíamos que havia ali qualquer coisa. Qualquer coisa que não era suficiente para manter uma relação duradoura. Mesmo assim, ficámos amigos. A minha vida continuava uma espécie de incógnita permanente, sem esboços de futuro, sem nada a que me pudesse agarrar. Era como se estivesse amputado de respostas. Aqueles dias com a Irene, no entanto, serviram para me dar um pouco de paz e tranquilidade. Uma tranquilidade que já não sentia há muito, muito tempo. No rádio os Smiths cantavam o pânico. Na minha cabeça, era apenas mais uma canção daquele estranho Verão na Londres dos anos 80….

                       Burn down the disco

                       Hang the blessed DJ

                       Because the music they constantly play

                       It says nothing to me about my life





Artur




BOLO DE ANOS

                                                   
Imagens de Sofia P. Coelho






segunda-feira, 16 de julho de 2012

JON LORD


                                               

                                                 (1941 - 2012)


                                                Deep Purple...Whitesnake

domingo, 8 de julho de 2012

O CLARIM DA REVOLTA



TAPS

Harold Becker

 EUA, 1981



Tudo corria bem na  Academia de Bunker Hill até ao dia em que uma péssima notícia veio abalar a paz do seu normal funcionamento. O conselho de accionistas anuncia que os terrenos da academia irão ser vendidos para dar lugar a uma estrutura de condomínios. O seu encerramento terá lugar imediatamente após o fim do corrente ano escolar. O seu director, o general Bache, promete que fará tudo o que estiver ao seu alcance para manter a escola aberta. O general acabará por sofrer um trágico acidente que o irá levar ao hospital. Com o director fora do caminho, o conselho resolve antecipar as suas ambições e decreta o fecho imediato da escola. Sem o seu líder, sem a mais forte esperança de impedir  o encerramento da sua escola, os cadetes mais antigos decidem barricar-se lá dentro. O comandante do batalhão, Brian Moreland (Timothy Hutton) comanda toda a operação, tanto na defesa da continuidade da escola como na intenção de honrar o general Bache, mesmo que para tal tenham de recorrer à utilização de armas de fogo.

Este é em síntese o drama central de TAPS (que em Portugal ficou traduzido como: O CLARIM DA REVOLTA), um filme que 30 anos depois ainda se consegue visualizar confortavelmente, uma narrativa muito interessante que oscila entre o realismo e o romantismo. TAPS, a esta distância temporal, é também um filme de actores. Começando pelo gigante George C. Scott, que entrou para a história do cinema com a extraordinária interpretação do general Patton no filme com o mesmo nome, argumento de Francis Ford Copolla. Por outro lado, a escolha de Timothy Hutton para o papel do comandante dos alunos é feita logo após a atribuição do Óscar de melhor actor secundário pela sua actuação no filme ORDINARY PEOPLE. Com ele duas estreias de dois futuros gigantes da representação que acabarão por ultrapassar o seu comandante em popularidade. Um Sean Penn no papel do cínico e da má consciência do comandante, e por outro lado Tom Cruise num registo de grande intensidade, violento e desequilibrado. Imagens que ambos acabarão por afastar nos papéis futuros ao longo de carreiras triunfantes.

Os soldadinhos de brinquedo (com idades entre os 12 e os 18 anos) transformam-se então em soldados a sério, desenvolvendo uma operação de força tendente a forçar o “inimigo” a repensar a sua estratégia de encerramento da escola, ou pelo menos a encontrar uma solução de compromisso através de negociações com os alunos. E mais do que uma simples teimosia de jovens românticos, defendem os valores que lhes foram ensinados, o respeito pela honra do seu líder, a protecção da casa onde estudam e vivem, num exercício de dignidade até às últimas consequências. Não sendo rebeldes, nem invasores, nem inimigos do seu país, o que estes jovens acabam por fazer é dar um nó nas contradições do sistema. Colocam uma bandeira para assinalar o cruzamento entre a cartilha dos valores patrióticos e a hipocrisia da especulação gananciosa. O cerco começa então em frente aos portões da escola, com a Guarda Nacional os pais e os noticiários televisivos a tentarem dissuadir um extremamente motivado comandante a render-se.

Rodado em Valley Forge Military Academy na Pensilvânia oriental, o filme não encerra conclusões fáceis e está longe de nos dar alguma resposta simples. Se por um lado a conduta radical dos jovens cadetes é excessiva e quase irresponsável no que às consequências diz respeito, também não deixa de ser pertinente que, ao sentirem-se encurralados, não hesitaram em se defender. Em defender um modo de vida incompreensível para a maior parte do mundo exterior. Defesa essa que em muitos casos não consegue evitar a nossa simpatia…



Artur

quinta-feira, 28 de junho de 2012


IF

 Lyndsay Anderson

 Reino Unido, 1968



No final da década de 60, um grupo de jovens de um colégio interno inglês começa a despertar para o mundo e para a vida, vendo-se confrontado com um quotidiano de reclusão, disciplina férrea e abuso de autoridade sobre as suas pessoas. Mick Travis  (Malcolm McDowell) e os seus companheiros encontram-se no meio da hierarquia etária, entre os mais desprotegidos e os “Whips”, os mais velhos, encarregados de manter a disciplina, aplicar castigos, fazer dos outros seus criados pessoais.

Influenciado pelos “ecos” do Maio de 68 e, a nível estrutural, pelo filme ZERO DE CONDUITE (1933), de Jean Vigo, o filme aborda de uma forma libertária a questão do ensino nos colégios internos ingleses (public schools) com um olhar bastante duro, e por consequência a própria sociedade britânica e as suas relações de força e equilíbrio.

Numa época de transformação e conflito, em que tudo é questionado e tudo é experimentado, o grupo de Mick Travis culminará a sua emancipação da pior forma possível. No dia da cerimónia do ano escolar, socorridos de armamento encontrado numa cave, esquecido da última guerra, Travis, a sua namorada e os outros, sobem aos telhados do colégio e desatam a disparar indiscriminadamente causando o pânico e a destruição entre alunos, pais e professores. Este desenlace aparentemente improvável, este grito rebelde contra a instituição e aquilo que ela representa, surge não enquanto elemento anormal caído do céu por razão nenhuma, mas antes como consequência perfeitamente previsível, ainda que numa escala desequilibrada e desproporcional. A alegoria da revolta inscreve-se na velha máxima de que, os humanos são sempre uma consequência do meio onde vivem. Tratados com violência e injustiça, tendem a ser violentos e injustos. A cena final, que tanto e tantos escandalizou, não é mais do que um exercício de lógica em torno da forma como tudo se estrutura para trás.

Sinal de um tempo, identidade da revolta, delírio libertário, surrealismo conceptual, a base é toda ela assente em parâmetros reais, a que não será alheio o facto de tanto o realizador como os dois autores do argumento (David Sherwin e John Howlet) terem sido alunos de colégios internos ingleses.

Embora houvesse quem especulasse que a alternância entre cenas a preto e branco e a cores fosse devida a estados de Realidade/Fantasia, tal não aconteceu. Algumas cenas foram rodadas a preto e branco para obstar o facto de as janelas da escola onde decorrem as filmagens permitirem uma entrada de luz muito intensa que a cores iria inviabilizar a imagem. No entanto a oscilação entre a Sátira e a Fantasia combinam o par perfeito que a escolha da película não preencheu.

Outra nota curiosa é a de que a banda sonora do filme ser toda ela constituída por uma única peça. Trata-se de “Sanctus” da “Missa Luba”, uma versão africana da missa em latim cantada por um coro de crianças congolesas.

IF é um marco na história do cinema libertário na medida em que, influenciado pelos tempos em que foi feito desenvolve a eterna possibilidade da concretização da liberdade ao alcance do ser humano. As ovelhas podem perfeitamente transformar-se em lobos e contra-atacar quem as oprime. A História é um folhetim gigantesco acerca do homem oprimido e da sua luta para a libertação por um lado, e da reorganização da repressão e domínio de poucos para transformar de novo os lobos em ovelhas. Um folhetim em dois actos que se repete pelos séculos dos séculos. Nunca está fora de moda por mais que digam o contrário. Palma de Ouro em Cannes (1969), o filme foi também distinguido na revista “Total Film” como o 16º melhor de sempre na lista de filmes britânicos.

IF é um marco na história da consciência da humanidade, um filme sempre actual que deveria ser (re)visto em cada geração…



Artur

quarta-feira, 27 de junho de 2012

NESTA DATA QUERIDA

Foi confrangedor assistir ao triste espectáculo, ou à pindérica encenação destinada a "comemorar" o primeiro aniversário deste (des)governo. Eles, os Professores Doutores, sem gravata, informais, muito sorridentes e satisfeitos consigo próprios. Elas, as Professoras Doutoras, aligeiradamente airosas nos seus casibeques de Verão. O Palco ?  O Palácio da Ajuda, anterior sede do Ministério da Cultura. Os motivos para comemorar eram muitos : uma taxa de desemprego nunca vista anteriormente; insolvências diárias ás catadupas; uma derrapagem orçamental "colossal" - para empregar um termo tão caro ao Professor Doutor Vítor Gaspar - um país completamente devastado, miserável, com um panorama social e económico em degradação acelerada. Em suma, comemorou-se a destruição de um país e a sua transformação em laboratório avançado das experiências pensamento badalhoco neo-liberal que, de catástrofe em catástrofe, nos vai aproximando do Terceiro Mundo : trabalho escravo, ausência de direitos sociais e, não menos importante, uma sociedade de uma vulgaridade espessa e viscosa, sórdida, desmoralizada, em franca, clara e agravada degenerescência.
Há uma ano atrás, estabelecia-se uma mafiosa coligação negativa destinada e obstinada em derrubar o governo PS, utilizando como meio o chumbo do chamado PEC IV. Nas imortais palavras do Professor Doutor Pedro Passos Coelho, a pressa "de ir ao pote" era muita. O Professor Doutor Paulo Portas, cansado de feiras e de beijocar velhinhas em lares de 3ª idade, tinha urgência em ser instalado como Ministro de Negócios Estrangeiros, onde pode exercer o seu alto "sentido de Estado". Os Professores Doutores Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, revelando a sua enorme irresponsabilidade, juntaram-se a este alegre bando de foliões e aplaudiram com ambas as mãos (ou teria sido com os pés ?) a eliminação de uma Esquerda governamental que, com ou sem Sócrates, nos poderia ter poupado a este estendal de miséria e mediocridade. Resta-me dizer-lhes, como a mãe de Boabdil depois da queda de Granada: "Chora agora como uma mulher aquilo que não soubeste defender como um Homem"

JÜNGER

Não tendo ainda sido elaborada uma biografia política de Ernst Jünger, um dos dois ou três grandes pensadores e escritores do século XX, gostaria de deixar algumas notas e reunir alguns elementos para o conhecimento do seu percurso político, esperando que, de alguma forma, esse percurso ilumine algumas das zonas obscuras deste nosso tempo. Convém, antes de iniciar esta pequena viagem, recordar que o pensamento de Nietzsche estrutura toda a obra de Jünger, projectada em primeiro lugar pela necessidade de organizar através da escrita a terrível experiência da I Guerra Mundial (na qual foi ferido 14 vezes e agraciado com a mais alta e rara condecoração militar germânica : a medalha "Pour Le Mérite", instituída por Frederico II da Prússia. Para se perceber o significado dessa condecoração, refiro o nome de outro ilustre agraciado : Erwin Rommel), processo que efectua através da obra "Tempestades de Aço". Essa reflexão sobre a experiência terrível nos campos de batalha origina uma primeira tese política: a guerra constitui-se como um confronto entre os indivíduos e o Ser bélico, do qual os sobreviventes saem transformados, já que passaram na horrenda prova. Esta tese inscreve-se totalmente no pensamento de Nietzsche, tornando-se um eco da célebre frase : "Aquilo que não me mata torna-me mais forte", e subscreve uma determinação essencial do pensamento do filósofo:  o home livre que livremente aceita o seu destino ("Amor Fati"). Ou seja, os sobreviventes da experiência bélica não se deixam enredar nos papéis de vítimas, tornam-se mais fortes e combativos; seres que desprezam os valores burgueses, opondo o sentido da acção ao cálculo, o desconforto à quietude do lar, o gosto do perigo ao sentimento de segurança, o desdém em relação ás necessidades materiais ao espírito do lucro, a camaradagem aos grupos de interesses.

Curiosamente, Jünger atravessa os anos vinte participando em revistas e grupados eivados do "pathos" nacionalista, antigos combatentes, nazis, nacionais-bolcheviques, autores de teatro de vanguarda, literatos, comunistas, todos frequentando os mesmos círculos, o que mostra até que ponto as correntes de ideias se confundiam e misturavam na República de Weimar. De qualquer modo, dou como adquirido que a obra "O Trabalhador" se constitui como a súmula do pensamento nacional-bolchevique : no princípio dos anos 30 Jünger concebe um império universal tecnocrático, sem classes sociais, mas desigual : uma sociedade na qual só o direito ao trabalho está garantido; tudo o resto precisando de ser conquistado pela força. Ao contrário do proletário marxista, o Trabalhador e a sua revolução não visam a propriedade privada, mas a cultura burguesa baseada sobre a razão, a moral e o individualismo. Claramente, Jünger nega a noção de progresso, motor do liberalismo e do marxismo. Seria interessante comparar esta visão com a de Walter Benjamin e a sua negação do conceito de progresso histórico, um tema de que já falei noutro texto publicado neste "blog".
Refiro ainda dois traços fundamentais do pensamento nacional-bolchevique que me são particularmente caros: o desprezo pela ideologia de massas a favor de um elitismo cultural e espiritual, a vontade de romper com o espírito burguês e a recusa do racismo e de todas as outras formas de discriminação. Este tipo de pensamento pode ser enquadrado no género de pensamento nacional socializante.

Ao contrário do que por vezes se diz, a relação de Jünger com o nazismo é tudo menos equívoca : para o provar bastaria ter em conta o seu comentário ao convite que lhe foi feito para ocupar um lugar elegível nas listas do partido nazi: "Prefiro escrever um verso a representar 60.000 cretinos no Parlamento".
Refiro agora um momento crucial no pensamento político do escritor. se no fim de "As Falésias de Mármore" o mal triunfa, sendo a obra uma indisfarçável alegoria do regime nazi, em "Heliopolis" (1949) instaura-se um precário equilíbrio de forças. De novo, a resistência é conduzida por um grupo aristocrático de militares. No entanto, Jünger constata o falhanço do seu empenhamento político e vira-se para a esfera simbólica do sagrado. Considera agora que as sociedades modernas são todas totalitárias, quaisquer que sejam as formas de governo. A questão é : como combater o Mal utilizando os seus métodos e dispositivos (tecnológicos). O Rebelde refugia-se nas florestas que todo o homem transporta em si : a arte e o pensamento. Com "Heliopolis" e "O Tratado do Rebelde", Jünger demarca-se da filosofia contemplativa e do retiro interior de "As Falésias de Mármore", afirmando a necessidade de resistência à alienação e totalitarismo da sociedade moderna. Na obra seguinte - "Eumeswil" - Jünger estabelece mais uma metamorfose das suas personagens : o Anarca que, ao contrário do anarquista, não deseja suprimir a autoridade, antes se acomoda e aprende a viver no seu seio, preservando sempre a sua liberdade de espírito. O Rebelde fugia da sociedade, o Anarca insere-se nela.

Em 1994, quando fez 100 anos, Jünger declara numa entrevista a propósito da figura de Martin Heidegger, que o escritor se deve distanciar da política, a fim de não se deixar contaminar. Não consigo decidir se tal declaração representa um desgosto ou uma lassidão do velho soldado-escritor em relação à longa evolução do seu pensamento : do empenho político total à "emigração interior".
De qualquer modo, o que me interessa deixar sublinhado é o facto de a sua ética aristocrática ter atravessado o século, mau grado as terríveis provações e o imenso desgosto provocado pela morte do seu filho durante a II Guerra Mundial, em Itália, enquanto ele mesmo fazia parte do exército de ocupação da França, conservou sempre o rigor moral e a liberdade de espírito que o tornou o terno "anarquista prussinao". O horror que sentia em relação à democracia parlamentar não se refletiu em polémicas verbais: espírito livre, recusou qualquer sujeição ou vassalagem em relação a partidos e regimes. Anti-burguês, desenvolveu a sua personalidade em detrimento do individualismo. O encontro com a técnica, simultaneamente criadora e destruidora, marca toda a sua obra, de "Tempestades de Aço" a "Eumeswil" : o soldado afrontou-a nos campos de batalha, o Trabalhador pretendeu dominá-la, o Rebelde desprezava-a, o Anarca utilizava-a.
Sem homens como Jünger, que respeito poderia a Humanidade ainda ter por si própria ?

NOTA: "Tempestades de Aço", "A Guerra Como Experiência Interior", "As Falésias de Mármore"e "Eumeswil" estão disponíveis em excelentes traduções portuguesas. De particular relevância, para quem se interessar por Jünger e pela sua época, recomendo as seguintes obras: "Ernst Jünger : Une Bio-Bibliographie" de Alain de Benoist e "Irrationalisme et Humanisme. Critique d'une ideólogie impérialiste" de Theodor Schwartz.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Discurso do Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa

Lisboa, 10 de junho de 2012

As palavras não mudam a realidade. Mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência. E a consciência, essa sim, pode mudar a realidade.
As minhas primeiras palavras são, por inteiro, para os portugueses que vivem situações de dificuldade e de pobreza, de desemprego, que vivem hoje pior do que viviam ontem.
É neles que penso neste 10 de Junho.
A regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos. Penso nos outros, logo existo (José Gomes Ferreira). É o compromisso com os outros, com o bem de todos, que nos torna humanos.
Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa, agora, sem as redes das sociedades tradicionais.
Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização.
Façamos um armistício connosco, e com o país. Mas não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas.
A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade. E nestes estranhos dias, duros e difíceis, podemos prescindir de tudo, mas não podemos prescindir nem da Liberdade nem do Futuro.
O futuro, Minhas Senhoras e Meus Senhores, está no reforço da sociedade e na valorização do conhecimento, está numa sociedade que se organiza com base no conhecimento.
Há a liberdade de falar e há a liberdade de viver, mas esta só existe quando se dá às pessoas a sua irreversível dignidade social (Miguel Torga).
Gostaria de recordar o célebre discurso de Franklin D. Roosevelt, proferido num tempo ainda mais difícil do que o nosso, em 1941. A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos.

Numa situação de guerra, Roosevelt sabia que os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”.
Em mar de águas revoltas, é preciso manter o rumo, ter a sabedoria de separar o acessório do fundamental. A Europa não é uma opção, é a nossa condição. Uma Europa com uma nova divisa: liberdade, diversidade, solidariedade.
A Europa é o nosso futuro, mas não nos iludamos. Ou nos salvamos a nós, ou ninguém nos salva (Manuel Laranjeira). Falemos, pois, de Portugal e dos portugueses.
Pelo Tejo fomos para o mundo… mas quantas vezes estivemos ausentes dentro de nós? Preferimos a Índia remota, incerta, além dos mares, ao bocado de terra em que nascemos (Teixeira de Pascoaes).
A Terra ou o Mar? Portugal ou o Mundo? A pergunta foi feita por todos aqueles que pensaram Portugal.
No final do século XIX, um homem da Geração de 70, Alberto Sampaio, explica que as nossas faculdades se atrofiaram para tudo que não fosse viajar e mercadejar. Nunca nos preocupámos com a agricultura, nem com a indústria, nem com a ciência, nem com as belas-artes. As riquezas que fomos tendo “mal aportavam, escoavam-se rapidamente, porque faltava uma indústria que as fixasse”, e o património da comunidade, esse, “em vez de enriquecer, empobrecia”.
Nos momentos de prosperidade não tratámos das duas questões fundamentais: o trabalho e o ensino. Nos momentos de crise é tarde: fundas economias na administração aumentariam os desempregados, e para a reorganização do trabalho falta o capital; falta o tempo, porque a fome bate à porta do pobre. Então a emigração é o único expediente: silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura.

Este texto foi escrito há 120 anos. O meu discurso poderia acabar aqui. Em silêncio.



Senhor Presidente da República,

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É esta fragilidade endémica que devemos superar. O heroísmo a que somos chamados é, hoje, o heroísmo das coisas básicas e simples – oportunidades, emprego, segurança, liberdade. O heroísmo de um país normal, assente no trabalho e no ensino.

Parece pouco, mas é muito, o muito que nos tem faltado ao longo da história.

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si:

- Num sistema político cada vez mais bloqueado;
- Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício;
- Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial.

Estão a surgir, é certo, sinais de uma capacidade de adaptação e de resposta, de baixo para cima. Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade.
Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história.
Portugal tem de se organizar dentro de si, não para se fechar, mas para se abrir, para alcançar uma presença forte fora de si.
Não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo, se formos ninguém em nós.
Não é por sermos um país pequeno que deve ser pequenas as nossas ambições. O tamanho não conta; o que conta, e muito, é o conhecimento e a ciência.



Senhor Presidente de República,

O convite de V. Ex.ª, que muito agradeço, é um gesto de reconhecimento das universidades e do seu papel no futuro de Portugal.

Em Lisboa, na célebre Conferência do Casino (1871), Antero disse o essencial: A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência: foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos.

Antero tinha razão e o século XX ainda mais razão lhe veio dar. O drama de Portugal, do nosso atraso e da nossa dependência, tem sido sempre o afastamento de sociedades que evoluíram graças ao conhecimento e à ciência.

Nas últimas décadas, realizámos um esforço notável no campo da educação (da escola pública), das universidades e da ciência.

Pela primeira vez na nossa história, começamos a ter a base necessária para um novo modelo de desenvolvimento, para um novo modelo de organização da sociedade.

É uma base necessária, mas não é ainda uma base suficiente.

Existe conhecimento. Existe ciência. Existe tecnologia. Mas não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego.

É este o nosso problema: a ligação entre a universidade e a sociedade. É esta a questão central do país: uma organização da sociedade com base na valorização do conhecimento.

Insisto. Apesar de todos os contratempos, Portugal tem hoje uma capacidade instalada, nas universidades e na ciência, que nos permite sair de uma posição menor, periférica, e superar o fosso tecnológico que se cavou entre nós e a Europa.

Não temos tempo para hesitações. As universidades vivem de liberdade, precisam de ser livres para estarem à altura do que a sociedade lhes pede.

É por aqui que passa o nosso futuro, pela forma como conseguirmos ligar as universidades e a sociedade, pela forma como conseguirmos que o conhecimento esteja ao serviço da transformação das nossas instituições e das nossas empresas.

É por aqui que passa o nosso futuro, um outro futuro para Portugal.



Minhas Senhoras e Meus Senhores,

Também Lisboa se está a transformar graças à criação, à energia da cultura e da ciência, graças aos estudantes que aqui chegam de todas as partes do mundo.

Lisboa é dos poetas. Em abril, a poesia esteve na rua e fez-nos emergir da noite e do silêncio. A poesia volta sempre à rua, através desta língua que é a nossa mátria, desta língua que nos permite estar connosco e com os outros, nas comunidades que nos multiplicaram pelo mundo e nos países que são parte de nós.

25 anos depois, não esqueço José Afonso: Enquanto há força, cantai rapazes, dançai raparigas, seremos muitos, seremos alguém, cantai também.

Cantemos todos. Por um país solidário. Por um país que assegura o direito às coisas básicas e simples. Por um país que se transforma a partir do conhecimento.

Não podemos ser ingénuos. Mas denunciar as ingenuidades não significa pôr de lado as ilusões, não significa renunciar à busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo (Sophia).

Foi esta busca que me trouxe ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

PELO DIREITO A SONHAR

Haverá muitas definições de cultura, tantas quantas as vontades de comunicar, de transformar o nosso interior numa linguagem perceptível, mas a que melhor ilustra a urgência, a razão de ser da sua existência, será a de todo o ser humano ter direito ao sonho. Imagine-se a nossa vida sem um romance para ler, sem uma pintura que nos distraia por instantes da repetição quotidiana das imagens, de uma musica que nos embale, de uma escultura, uma peça teatral, de um filme, etc. Imagine-se que, além da nossa “vidinha” repetitiva, sem interesse, na longa caminhada para lado nenhum, não havia mais nada. A insuportabilidade seria absoluta. Nos tempos modernos a criação cultural perfila-se não só enquanto necessidade absoluta, mas também enquanto suporte de vida, garantia de sobrevivência ao desespero, alternativa aos buracos do caminho. Todas as religiões, todas as propagandas, todas as sociedades em todos os tempos se socorreram da criação cultural para passar a sua mensagem. Sem arte, sem cultura, as sociedades transformam-se em reservas de escravatura, em legiões de “zombies”, absorvidos apenas na execução das suas tarefas, desprovidos de iluminação humanista.

Mesmo numa lógica economicista, sabemos por estudos anteriores, que a cultura e a sua actividade industrial é sustentável, criadora de emprego e receitas.

Nos terríveis tempos que correm, a fase de genocídio está em marcha no nosso país. Os mais fracos, os velhos, os doentes, uns atrás dos outros vêem-lhes negado o direito à vida. Sem trabalho, sem saúde, sem comida, sem casa, em nome de uma lógica implacável, especuladora e desequilibrada, os conceitos de democracia e civilização vão-se diluindo. Agora é a vez de matar o sonho e concluir essa agenda que nos quer transformar num paraíso de mão-de-obra barata. A ditadura abate-se sobre nós fortalecendo-se um pouco em cada dia que passa. Deixámos de ser memória há muito tempo. Agora deixamos a vida e o sonho.

“2012 – Ano zero da Cultura”, expressão usada há dias num colóquio sobre o estado da cultura no nosso país, sintetiza o nosso desespero perante a ofensiva para matar a nossa capacidade de sonhar. Que fazer a partir daqui? Reagir, exigir, protestar. A excelente e elevada atitude de resposta às agruras da crise, o alargamento da solidariedade e a opção pela não violência poderão constituir o princípio de qualquer coisa. O princípio de uma reacção da sociedade, consciente do fim da democracia, do fim do estado de direito, o alargamento do fosso entre classes. Na cultura a única resposta é não parar. Usar todos os meios disponíveis para continuar a levar a criação aos outros, criar ainda com mais empenho e mais força. A cultura não é privilégio de ninguém, mas antes o espaço que resta entre nós e nosso extermínio enquanto seres. Xanana Gusmão disse um dia que “resistir é vencer”…Sonhar, também…



Artur

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A VERGONHA DA EUROPA



A VERGONHA DA EUROPA




Poema de Günter Grass



Tradução livre de Manuel Vitorino de Queiroz



Ainda que próxima do caos,porque não agradas aos mercados,

estás longe da terra que foi o teu berço.

O que com a alma buscaste e pensaste encontrar

Hoje rejeitas, como se fosse lixo, menos do que sucata.Nua como um devedor exposto no pelourinho, sofre uma nação

a quem nos tempos idos davas graças.

País por ti condenado a ser pobre, esquecendo as riquezas roubadas

que adornam os teus museus: espólio que conservas à tua guarda.

Aqueles que invadiram armados essa terra de ilhas benditas

levavam, com o uniforme, Hölderlin escondido na mochila.

País agora tolerado, mas cujos coronéis

outrora toleraste e fizeste teus aliados!

País sem lei, a quem o teu poder, que, como sempre, se substituí à razão,

aperta o cinto, mais e mais.

Trajando de negro, Antígona desafia-te e a Grécia inteira e o seu povo, de quem foste hóspede, veste-se de luto.

Entretanto os teus parentes, novos Cresos foram acumulando nos teus cofres

tudo o que tivesse brilho dourado.

¡Bebe de uma só vez, bebe! Gritou a claque dos comissários,

mas Sócrates irado devolveu-te a taça cheia a transbordar.

Os deuses amaldiçoar-te-ão em coro, se a tua vontade exigir a venda do Olimpo.

Sem esse país murcharás estupidamente, Europa

privada do espírito que um dia te concebeu.

terça-feira, 5 de junho de 2012

DECLARAÇÃO DE INTERESSES

1. Gosto das grandes rupturas, não das rupturazinhas, das meias-tintas, da zona cinzenta entre o sim e o não. Gosto das rupturas tipo "pontes dinamitadas" e do seu carácter definitivo: nem eu passo para o outro lado, nem os que estão do outro lado passam para este. Antes de ser um cineasta exasperado e exasperante, Jean Rouch foi engenheiro de pontes e fez parte de uma equipa militar que, no período da II Guerra Mundial, tinha como missão demolir pontes a fim de atrasar o avanço do exército alemão. Ouçamos o que ele diz a esse propósito: "E, por um estranho paradozo, tínhamos iniciado a nossa vida de engenharia civil fazendo saltar as pontes mais prestigiadas da França, a de Château-Thierry que tinha conhecido Jean de La Fontaine, a ponte-canal de Briare, uma vala de aço e de água passando por cima do Loire, insólita como um quadro de Magritte. Dito de outro modo, nunca uma geração de jovens foi tão rica, já que não tínhamos nada, absolutamente mais nada a perder..." (Jean Rouch, "Le Renard Fou et le Maître Pâle".

2. Fui um bandalho, sou agora um renascido. Guardadas as devidas distâncias, sou o S. Paulo dos tempos modernos. O outro, o dos tempos antigos era, como se sabe, um feroz perseguidor de cristãos, dando pelo nome de Saulo de Tarso. Um dia, na estrada de Damasco, viu um raio de luz e uma voz que perguntava : "Paulo, Paulo, porque me persegues ?". Esse fenómeno, uma epifânia, transformou-o finalmente em S. Paulo, o fundador do Cristianismo. Pois bem, eu não vi Cristo, mas vi a Cristas - perdão, a Prof. Dra. Assunção Cristas - num sonho, vestida com um belíssimo manto azul e branco, ostentando uma maravilhosa auréola feita na China e iluminada pela EDP. A senhora ministra admoestava-me gravemente sobre as minhas faltas e os meus erros, longamente me apostrofando sobre a falácia em que assentam os meus erróneos juízos e as minhas pretensas ideias. E então, irmãos, vi a Luz ! E renasci, sem deixar de ser quem era na essência, tema a que voltarei mais adiante. E então, arrependi-me dos epítetos e adjectivos com que tenho mimoseado os srs. ministros, deputados da maioria, economistas e donos de supermercados. Arrepelei os cabelos, rasguei as vestes e cobri a cabeça de zinzas, lembrando-me das muitas vezes em que disse que os nossos governantes são incompetentes, mentirosos, vendidos, mercenários, negociantes e vendilhões. Nesse sentido, venho agora declarar que tudo isso eram patranhas, erros falácias contumazes, larachas, baboseiras, imbecilidades, deboche puro e simples. Mais declaro, sem nenhuma reserva mental, que tudo me foi inspirado por um demónio gozador e maléfico, negativista e gozador, fáustico, que me instilou o vírus do niilismo, do cepticismo e do solipsismo. Por isso, e por tudo o que adiante direi sobre a minha natureza, peço que me perdoem e não me processem. Os meus filhos precisam de um pai presente, e não de uma abstração que se visita na cadeia ao Domingo e a quem se levam maços de tabaco e limas dentro de bolos amorosamente confecionados pela extremosa esposa do condenado e mãe dos sobreditos infelizes. Ah, já agoara, também precisam dos parcos euros que levo para casa ao fim do mês.

3. Declaro, por minha honra, que sou um imbecil e um medíocre inimputável. Nesse sentido, devo esclarecer Vossas Reverências (ministros, deputados da maioria, economistas e outras sumidades) que, embora a cólera dos imbecis encha o Mundo, a ideia de redenção os atormenta "in extremis", já que essa ideia constitui a essência da esperança humana, o último reduto antes do desespero total. Embora, como já disse, vivamos atormentados pela ideia de redenção, nós os imbecis, negaremos tal coisa, se interrogados. REDENÇÃO ? Nunca ouvimos falar. Na verdade, nós os imbecis e os medíocres, não dispomos de nenhum instrumento mental que nos permita entrar em nós mesmos. Só conseguimos explorar superficialmente o nosso ser. Mas atenção, srs. ministros e ministras e demais poderosos deste Mundo, não vos atrveis a tocar num só dos nossos cabelos, escreveu o Anjo no portão de entrada dos tempos modernos. Não toqueis num só dos nossos cabelos. A vossa vingança majestosa é, por assim dizer, metafísica : Basta pensarem que a ideia de grandeza nunca passou pela cabeça dos imbecis e medíocres como eu próprio, visto que a grandeza é uma ultrapassagem perpétua e os medíocres não dispõem de nenhuma imagem mental que lhes permita avaliarem o seu ímpeto irresistível : Estamos à porta da História (mas do lado de fora) e na fronteira do Paraíso (mas sem passaporte). Estamos para além da inocência , mas aquém da sabedoria. Em suma, não existimos, estamos aí mas não somos, falamos como Cassandra uma língua estranha e incompreensível. Nem sequer somos inquietantes, apenas ligeiramente  inquietos na nossa vacuidade. Portanto, é lícito acreditar que certas naturezas, como a minha, se defendem institivamente da piedade mediante uma desconfiança justa de si mesma, da brutalidade das suas reações. Acreditamos, meus caros senhores, na ignóbil mistura da ignorância com as ideias feitas e os lugares comuns, o que nos facilita a existência, eximindo-nos da única tarefa para a qual estamos completamente incapacitados: pensar.

4. Na primeira página de "O Mito de Sísifo", Albert Camus observa que Galileu, na posse da mais importante verdade científica do seu tempo, dela abjurou com a maior facilidade no momento em que a defesa dessa verdade colocava a sua vida em risco. Portanto, nenhuma verdade vale a nossa vida, ou melhor, nenhuma verdade exterior a essa mesma vida. Se 2 e 2 são 4 e se a Terra gira em volta do Sol ou se, pelo contrário, é o Sol que gira em volta da Terra, tais verdades são-me profundamente indiferentes; a única verdade que me deve interessar é a que está contida no sentido da minha vida, ou na completa ausência desse sentido. Por outras palavras, a única coisa que me interessa é a verdade do Mundo, que consiste em não ter nenhuma.
Por outro lado, a vossa dignidade ou indignidade, a vossa honra ou a falta dela, são-me indiferentes, não me interessam absolutamente nada. Quanto a mim próprio, não posso dispensar o meu desprezo nem o meu ódio, não sou suficientemente resignado para me permitir dispensar esses pequenos luxos. Quanto à minha honra, também não a posso dispensar : Como dizia Albert Camus "não sou suficientemente grande para  poder dispensar a minha honra".
E agora, calo-me.