quarta-feira, 13 de junho de 2012

A VERGONHA DA EUROPA



A VERGONHA DA EUROPA




Poema de Günter Grass



Tradução livre de Manuel Vitorino de Queiroz



Ainda que próxima do caos,porque não agradas aos mercados,

estás longe da terra que foi o teu berço.

O que com a alma buscaste e pensaste encontrar

Hoje rejeitas, como se fosse lixo, menos do que sucata.Nua como um devedor exposto no pelourinho, sofre uma nação

a quem nos tempos idos davas graças.

País por ti condenado a ser pobre, esquecendo as riquezas roubadas

que adornam os teus museus: espólio que conservas à tua guarda.

Aqueles que invadiram armados essa terra de ilhas benditas

levavam, com o uniforme, Hölderlin escondido na mochila.

País agora tolerado, mas cujos coronéis

outrora toleraste e fizeste teus aliados!

País sem lei, a quem o teu poder, que, como sempre, se substituí à razão,

aperta o cinto, mais e mais.

Trajando de negro, Antígona desafia-te e a Grécia inteira e o seu povo, de quem foste hóspede, veste-se de luto.

Entretanto os teus parentes, novos Cresos foram acumulando nos teus cofres

tudo o que tivesse brilho dourado.

¡Bebe de uma só vez, bebe! Gritou a claque dos comissários,

mas Sócrates irado devolveu-te a taça cheia a transbordar.

Os deuses amaldiçoar-te-ão em coro, se a tua vontade exigir a venda do Olimpo.

Sem esse país murcharás estupidamente, Europa

privada do espírito que um dia te concebeu.

terça-feira, 5 de junho de 2012

DECLARAÇÃO DE INTERESSES

1. Gosto das grandes rupturas, não das rupturazinhas, das meias-tintas, da zona cinzenta entre o sim e o não. Gosto das rupturas tipo "pontes dinamitadas" e do seu carácter definitivo: nem eu passo para o outro lado, nem os que estão do outro lado passam para este. Antes de ser um cineasta exasperado e exasperante, Jean Rouch foi engenheiro de pontes e fez parte de uma equipa militar que, no período da II Guerra Mundial, tinha como missão demolir pontes a fim de atrasar o avanço do exército alemão. Ouçamos o que ele diz a esse propósito: "E, por um estranho paradozo, tínhamos iniciado a nossa vida de engenharia civil fazendo saltar as pontes mais prestigiadas da França, a de Château-Thierry que tinha conhecido Jean de La Fontaine, a ponte-canal de Briare, uma vala de aço e de água passando por cima do Loire, insólita como um quadro de Magritte. Dito de outro modo, nunca uma geração de jovens foi tão rica, já que não tínhamos nada, absolutamente mais nada a perder..." (Jean Rouch, "Le Renard Fou et le Maître Pâle".

2. Fui um bandalho, sou agora um renascido. Guardadas as devidas distâncias, sou o S. Paulo dos tempos modernos. O outro, o dos tempos antigos era, como se sabe, um feroz perseguidor de cristãos, dando pelo nome de Saulo de Tarso. Um dia, na estrada de Damasco, viu um raio de luz e uma voz que perguntava : "Paulo, Paulo, porque me persegues ?". Esse fenómeno, uma epifânia, transformou-o finalmente em S. Paulo, o fundador do Cristianismo. Pois bem, eu não vi Cristo, mas vi a Cristas - perdão, a Prof. Dra. Assunção Cristas - num sonho, vestida com um belíssimo manto azul e branco, ostentando uma maravilhosa auréola feita na China e iluminada pela EDP. A senhora ministra admoestava-me gravemente sobre as minhas faltas e os meus erros, longamente me apostrofando sobre a falácia em que assentam os meus erróneos juízos e as minhas pretensas ideias. E então, irmãos, vi a Luz ! E renasci, sem deixar de ser quem era na essência, tema a que voltarei mais adiante. E então, arrependi-me dos epítetos e adjectivos com que tenho mimoseado os srs. ministros, deputados da maioria, economistas e donos de supermercados. Arrepelei os cabelos, rasguei as vestes e cobri a cabeça de zinzas, lembrando-me das muitas vezes em que disse que os nossos governantes são incompetentes, mentirosos, vendidos, mercenários, negociantes e vendilhões. Nesse sentido, venho agora declarar que tudo isso eram patranhas, erros falácias contumazes, larachas, baboseiras, imbecilidades, deboche puro e simples. Mais declaro, sem nenhuma reserva mental, que tudo me foi inspirado por um demónio gozador e maléfico, negativista e gozador, fáustico, que me instilou o vírus do niilismo, do cepticismo e do solipsismo. Por isso, e por tudo o que adiante direi sobre a minha natureza, peço que me perdoem e não me processem. Os meus filhos precisam de um pai presente, e não de uma abstração que se visita na cadeia ao Domingo e a quem se levam maços de tabaco e limas dentro de bolos amorosamente confecionados pela extremosa esposa do condenado e mãe dos sobreditos infelizes. Ah, já agoara, também precisam dos parcos euros que levo para casa ao fim do mês.

3. Declaro, por minha honra, que sou um imbecil e um medíocre inimputável. Nesse sentido, devo esclarecer Vossas Reverências (ministros, deputados da maioria, economistas e outras sumidades) que, embora a cólera dos imbecis encha o Mundo, a ideia de redenção os atormenta "in extremis", já que essa ideia constitui a essência da esperança humana, o último reduto antes do desespero total. Embora, como já disse, vivamos atormentados pela ideia de redenção, nós os imbecis, negaremos tal coisa, se interrogados. REDENÇÃO ? Nunca ouvimos falar. Na verdade, nós os imbecis e os medíocres, não dispomos de nenhum instrumento mental que nos permita entrar em nós mesmos. Só conseguimos explorar superficialmente o nosso ser. Mas atenção, srs. ministros e ministras e demais poderosos deste Mundo, não vos atrveis a tocar num só dos nossos cabelos, escreveu o Anjo no portão de entrada dos tempos modernos. Não toqueis num só dos nossos cabelos. A vossa vingança majestosa é, por assim dizer, metafísica : Basta pensarem que a ideia de grandeza nunca passou pela cabeça dos imbecis e medíocres como eu próprio, visto que a grandeza é uma ultrapassagem perpétua e os medíocres não dispõem de nenhuma imagem mental que lhes permita avaliarem o seu ímpeto irresistível : Estamos à porta da História (mas do lado de fora) e na fronteira do Paraíso (mas sem passaporte). Estamos para além da inocência , mas aquém da sabedoria. Em suma, não existimos, estamos aí mas não somos, falamos como Cassandra uma língua estranha e incompreensível. Nem sequer somos inquietantes, apenas ligeiramente  inquietos na nossa vacuidade. Portanto, é lícito acreditar que certas naturezas, como a minha, se defendem institivamente da piedade mediante uma desconfiança justa de si mesma, da brutalidade das suas reações. Acreditamos, meus caros senhores, na ignóbil mistura da ignorância com as ideias feitas e os lugares comuns, o que nos facilita a existência, eximindo-nos da única tarefa para a qual estamos completamente incapacitados: pensar.

4. Na primeira página de "O Mito de Sísifo", Albert Camus observa que Galileu, na posse da mais importante verdade científica do seu tempo, dela abjurou com a maior facilidade no momento em que a defesa dessa verdade colocava a sua vida em risco. Portanto, nenhuma verdade vale a nossa vida, ou melhor, nenhuma verdade exterior a essa mesma vida. Se 2 e 2 são 4 e se a Terra gira em volta do Sol ou se, pelo contrário, é o Sol que gira em volta da Terra, tais verdades são-me profundamente indiferentes; a única verdade que me deve interessar é a que está contida no sentido da minha vida, ou na completa ausência desse sentido. Por outras palavras, a única coisa que me interessa é a verdade do Mundo, que consiste em não ter nenhuma.
Por outro lado, a vossa dignidade ou indignidade, a vossa honra ou a falta dela, são-me indiferentes, não me interessam absolutamente nada. Quanto a mim próprio, não posso dispensar o meu desprezo nem o meu ódio, não sou suficientemente resignado para me permitir dispensar esses pequenos luxos. Quanto à minha honra, também não a posso dispensar : Como dizia Albert Camus "não sou suficientemente grande para  poder dispensar a minha honra".
E agora, calo-me.

BULHÃO PATO

1828 - 1912

sábado, 2 de junho de 2012

O INTRÍNSECO DE JOÃO









“O Intrínseco de Manolo”



João Rebocho Pais



Ed. Teorema, 2012





No ambiente de uma aldeia perdida na imensidão do Alentejo (Cousa Vã), os dias correm sem sobressalto, as vidas de hoje são iguais às de ontem e voltarão a ser amanhã. Para alternar à viragem de minis no tasco ao fim da tarde e para abanar a pasmaceira, a aldeia inventa histórias, cria boatos, tenta imaginar que algo de relevante se passa para mascarar o “nada” enorme em que se afundam as suas vidas. Indiferente a boatos e a acusações, Manolo vive a sua vida, socorrendo-se da presença de uma azinheira para interlocutora dos seus medos, angústias e depressões. Perto dela acaba sempre por encontrar uma resposta para os seus problemas, mesmo os mais bicudos. E é precisamente na vida de Manolo que um acontecimento inesperado o vai fazer reaprender a vida, o amor da sua mulher e o outro amor, até aí adormecido, pela sua comunidade. Além de Manolo há outros personagens que vão decorando este pequeno romance, uns mais pitorescos que outros, embelezando o quadro comunitário, tentando sobreviver, adaptando-se às diversas agruras da sua condição.

Para além de uma história muito bem contada, o autor conquista um patamar que outros não conseguem atingir antes do seu terceiro ou quarto título. Estou-me a referir ao encontro com a “Voz” interior, o “intrínseco” do autor. Uma espécie de azinheira que habita no nosso silêncio mas que nem sempre é fácil de ouvir, quanto mais de decifrar. João Rebocho Pais atinge esse patamar logo na primeira tentativa ao desenvolver uma linguagem original, muito própria, que consiste em misturar o linguarejar popular com a profundidade emocional, propondo ao leitor um desafio de prazer e entretenimento que o leva das lágrimas ao riso sem tréguas. Ler este romance de estreia do autor é garantidamente a certeza de um tempo bem passado, a alegria de uma história bem contada, o entusiasmo da intimidade com uma comunidade perdida a poucos quilómetros da fronteira com a Espanha. E será fundamentalmente, tempo bem aproveitado.

Falar do trabalho de uma autor que conhecemos é sempre constrangedor e condicionante. Se esse autor é ao mesmo tempo um amigo de longa data, ainda mais. Referência que poderia ter sido omitida sem que a justiça destas palavras fosse comprometida. Porque se estivesse perante um trabalho fraco e mal conseguido de um amigo, teria a atitude de não o mencionar, debater, criticar. Como felizmente, nada disso se passou, não hesito em o divulgar e aconselhar a todos os leitores de boas histórias. E se não chegarem as minhas palavras, julgo que o interesse do maior grupo editorial do país fala por si. No seu romance de estreia, o João é editado pelo grupo Leya que, tanto quanto me parece, não costuma fazer apostas para perder. Leiam e divirtam-se.



Artur




sexta-feira, 1 de junho de 2012

GOLDMAN BORGES




Segundo Marc Roche, autor do livro "O Banco - Como a Goldman Sachs Dirige o Mundo", o borges foi corrido da Goldman Sachs por incompetência, o mesmo tendo ocorrido no FMI. Para além disso, foi visto durante algum tempo pelas elites parolas do PSD como um possível "salvador da Pátria", uma das tais reservas morais de que o país tanto necessitava. Gorada a expectativa de o ver concorrer à presidência dessa agremiação badalhoca e tornar-se, por inerência, candidato a primeiro-ministro, voltou aos negócios e às negociatas em que é exímio (cá pelo burgo, porque lá por fora não ficou muito bem visto).  Pois bem, este gajo é agora o "ministro das privatizações", além de trabalhar para o merceeiro do Pingo Doce. Nada de novo debaixo do Sol, já estamos habituados a ser governados por incompetentes e à ganância desta gentalha que anda por aí a canibalizar e vampirizar o bom povo português. O problema é que este gajo é um daqueles que se farta de pregar sermões (para alguma coisa lhe havia de servir a cara de padre que ostenta com orgulho e vaidade), e é um daqueles palermas que advoga a "purga" como remédio e o "castigo" como salvação. Agora, este alarve vem declarar que a "redução de salários, mais do que uma política, é uma urgência". E não se cala. E ninguém o manda calar  e tratar dos seus negóciozinhos ?

JARDIM ZOOLÓGICO

1. O caso relvas/secretas é um não caso. Ou melhor, é um casozinho, bem à medida da nossa insignificância e irrelevância. Nada de grandeza, vistas largas, ambição, John Le Carré ou Graham Greene, antes um Vilhena (o da extinta Gaiola Aberta e outras pérolas da cultura nacional). É um caso pequeno, triste, soturno, mesquinho. A começar pelos protagonistas : relvas, o silva carvalho e a sua cara suína, e todos os outros "agentes secretos", cuja única ambição é fazer recortes de imprensa, saber com quem X dorme e qual a matrícula do carro de Y. Convenhamos, é mais um retrato da sordidez e mesquinhice das "elites" político-partidárias nacionais e de todos aqueles que a elas pretendem aceder, manipulando-as a seu bel-prazer, sastifazendo os  interesses particulares e obscuros que, a seu modo, também contribuíram para o estado a que isto chegou.

2. Obrigado, gasparzinho, por teres conseguido a maior taxa de desemprego da nossa história. Obrigado, também, por nos anunciares que para o ano ainda vai ser pior. Obrigado a todos os bandalhos neoliberais que propagam a ideia badalhoca segundo a qual a só se resolve o problema do desemprego aumentando a flexibilidade dos despedimentos. Obrigado, gasparzinho, por não conseguires fazer uma previsão acertada, quer no valor do défice, quer na percentagem de desemprego, tu que nos foste vendido como o maior sábio do universo e como um técnico de dimensão cósmica, com águas quentes e frias e vista para o Tejo. Tu, que até te dás ao luxo de nos explicares que 2015 vem depois de 2014 e que nem sequer sabes acertar as constas do teu ministério. Enfim, como queres que acreditemos quando fazes previsões optimistas para o evoluir da situação (que depende de factores que não controlas ), quando não consegues fazer previsões justas a partir de factores que controlas ? Pena é que não te possamos aplicar já a flexibilidade que tanto admiras, mandando-te para o desemprego à procura de oportunidades que agora não tens, proporcionando-te o ensejo de seres empreendedor, deixares de ser piegas e enfrentares corajosamente a situação. Olha, sei lá, talvez te pudesses inscrever no programa Novas Oportunidades...

3. Ainda por aí uma fauna, constituída por gente nova e outra ,não tão nova como isso, que se especializou nas actividades culturais. Eles, moles, sem fibra nem coragem, elas, mal-amanhadas e tristonhas (devendo-se essa tristeza, talvez à mencionada moleza,  falta de coragem e fibra deles), deambulando da Cinemateca para colóquios, da Culturgest para debates, do CCB para eventos, da Gulbenkian para lançamentos de livros, do Zé dos Bois para exposições e de todos os lugares para os lugares todos em que lhes cheire a cultura. Trabalhar, produzir,  pagar impostos, isso não, é bom para os bons burgueses que eles execram. Dessa fauna destaca-se uma sub-espécie, com características diferenciadas, que se especializou na obtenção de subsídios e bolsas de instituições públicas e privadas destinados à organização de eventos, festivais, ciclos, exposições e outras chachadas do género. Os mais espertos criaram uma rede internacional de contactos que lhes permite viajarem por todo o lado, promovendo eficazmente as diversas vanguardas, sobretudo aquelas que são paridas pelos amigos. Os outros, aqueles que têm que se auto-financiar, vão circulando por aí, bisonhos e compenetrados da sua missão na Terra, papando debates e exposições como quem toma a hóstia consagrada (e, já agora, os croquetes, rissóis e copinhos de vinho branco que costumam acompanhar os eventos mais abonados). À força de frequantarem os mesmos sítios conhecem-se todos uns aos outros e odeiam-se com cordialidade, odeiam-se com o mesmo afinco com que amam apaixonadamente as "obras", os "autores", os "criadores" e veneram a Arte e os artistas que a produzem. A Morte fica-lhes tão bem...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

UM HERÓI MALDITO






SAGAL (UM HERÓI FEITO EM ÁFRICA)



António Brito



Porto Editora, 2012



Emiliano Salgado é uma espécie de herói maldito, um ser que ninguém quer, e que no entanto teima em viver, em percorrer o seu caminho animado pela dívida que tem sobre si próprio: a sobrevivência. Odeia sinos e adora correr, sendo o exercício da corrida a metáfora perfeita da sua existência. Na guerra colonial adquire a alcunha de “Sagal”, ou de “Leão do Sagal”, na sequência de uma excelente prestação em combate em terras do mesmo nome. Sagal nasceu, ou melhor, foi abandonado num bordel da Mouraria, onde cresceu os primeiros anos da sua vida entre mulheres de má reputação, clientes apressados, ranger de camas, gemidos e sujidade. Vítima de uma denúncia, numa Sexta-feira Santa a polícia veio buscá-lo e foi internado na Casa Pia. Tinha seis anos. Daí em diante, a sua vida é uma gigantesca corrida contra as adversidades, a violência, o estatuto de vítima, o mundo em geral. Ao longo da sua corrida matinal, Sagal vai relembrando o passado, interrogando-se se corre para recordar ou para esquecer. Enquanto corre vai desfiando a sua vida, que foi tudo menos monótona.

Com “Sagal”, António Brito recupera o tema recorrente na sua obra, a guerra colonial, para desenhar um homem que viveu corajosamente e venceu todas as possibilidades que convergiam para a sua destruição eminente. Da Casa Pia para a marginalidade das ruas em Lisboa, da fuga à policia para os pára-quedistas, do final da guerra colonial para a África do Sul e para o seu contrato como mercenário nas manobras no Sul de Angola, e finalmente do continente africano de volta para Lisboa. No fundo trata-se de um aventureiro dos tempos modernos, um homem empurrado pelos acontecimentos e pelas circunstâncias, cuja única orientação é a de correr para a frente, sem destino nem paragem. Não por escolha própria mas pela inevitabilidade dos acontecimentos.

A originalidade deste romance de aventuras, para além da verosimilhança com a História (o autor foi combatente pára-quedista em Moçambique na guerra colonial), reside principalmente na forma como se desenham os cenários narrativos, isto é, pela maneira como são introduzidos ao longo do romance factos, histórias e passagens da actualidade, cenários esses atravessados pelo protagonista. É o caso da organização da rede masculina de prostituição na Casa Pia, os momentos caóticos que se seguem entre o 25 de Abril e a independência da ex-colónias, as manobras do exército sul-africano na Namíbia e no Sul de Angola, o ambiente do processo revolucionário em Portugal, em suma, as manchetes dos jornais da época. Sagal vive as décadas de 70 e 80 do século passado sem preocupações ideológicas e, em virtude das suas capacidades tenta dar corpo à sua ideia de justiça, de equilíbrio dentro do caos social. Sem grandes problemas de consciência nem referências morais. Em muitas situações, um personagem com que muitos se identificarão, admirando as suas proezas, não tendo a coragem de as realizar. Pelo seu percurso, Sagal identifica o lado cruel e desumano daqueles com quem se cruza, os oportunistas, os prepotentes, etc. A Justiça é um valor pessoal que defende e faz valer ao seu critério.

De acordo com uma entrevista do autor ao “Jornal de Letras”, Sagal poderá ser o início de uma série de livros onde o herói maldito continuará a agir no fio da navalha entre o legal e o ilegal. Umas vezes colaborando com a policia, outras por conta própria. E sempre em volta dos acontecimentos da ordem do dia, nacionais ou internacionais tratados ficcionalmente. Para já é um bom começo, uma excelente proposta de entretenimento a fazer lembrar outros heróis malditos como Corto Maltese ou Fernão Mendes Pinto. Ficamos à espera dos próximos episódios da vida de Sagal.



Artur

SUINICULTURA III

"Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam toda uma parte da sua vida e dos seus interesses chamados vitais"

Albert Camus "Primeiros Cadernos"

Onde o passos coelho, e os outros arautos do pensamento badalhoco neoliberal, vêem uma oportunidade de mudar de vida e ser empreendedor, o Congresso dos Psiquiatras Portugueses descobre um aumento exponencial de depressões conducentes ao suicídio. Como se percebe, são duas visões distintas do problema do desemprego : A primeira é uma baboseira sem sentido, uma parvoíce, uma calinada monumental, uma espécie de retórica desértica, vazia e inútil; a segunda, pelo contrário, constitui uma constatação corajosa e frontal de um drama que vai corroendo e apodrecendo a sociedade portuguesa.

domingo, 20 de maio de 2012

SEC propõe plano de emergência para o Instituto do Cinema e do Audiovisual

        Este anúncio foi feito esta sexta-feira, no final da reunião em        que o secretário de Estado Francisco José Viegas recebeu um        grupo de realizadores e produtores do sector, e que aconteceu no        dia imediatamente a seguir à notícia da demissão da direcção do        ICA, constituída por José Pedro Ribeiro, director, e por Leonor        Silveira, sub-directora.
“O secretário de Estado garantiu-nos que, no prazo máximo de        duas semanas, o processo de aprovação inter-ministerial da nova        lei será concluído, de modo a ser agendada com carácter de        urgência a sua discussão na Assembleia da República antes das        férias parlamentares”, disse à saída da reunião Margarida Gil,        presidente da Associação Portuguesa de Realizadores (APR),        citada pela Agência Lusa.
        Num comunicado depois elaborado pela APR sobre a reunião, é        referido que Francisco José Viegas “deu a sua palavra de que as        alterações decorrentes do processo de discussão pública do        projecto da nova Lei do Cinema não ferem os princípios e a        substância do documento inicial que foi tornado público em        Fevereiro deste ano”. E acrescenta-se que Viegas “assegurou        ainda que, estando aprovada a nova lei, poderão existir        condições para a abertura de concursos no ICA ainda este ano”.        Nas declarações aos jornalistas à saída da SEC, Margarida Gil        referiu que o plano de emergência anunciado pela tutela visa        “atenuar ou resolver parcialmente o problema financeiro do ICA,        de modo a que os compromissos assumidos pelo Instituto sejam        cumpridos”.
Na reunião participaram também representantes dos subscritores        do documento Cinema Português: Ultimato ao Governo e da        Associação de Produtores de Animação. Ao lado de Francisco José        Viegas esteve o director demissionário do ICA, José Pedro        Ribeiro. Nenhum deles fez declarações no final. Sobre o futuro        do ICA, e da direcção demissionária, Margarida Gil disse que        José Pedro Ribeiro explicou na reunião que “colocou o seu lugar        à disposição e admitiu que acabou um ciclo e começará um outro        com a nova lei”.
O encontro foi pedido pelos profissionais do cinema, que        reclamam a aprovação urgente da nova Lei do Cinema, para que se        ultrapasse a situação de paralisia no sector.
 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SILÊNCIO





O portão que se fecha atrás de mim geme mais alto que o vento, como se estivesse a competir com ele. Geme e a seguir rebenta em vibração metálica, a protestar contra a minha falta de jeito. Os passos arrastam-se até à casa em movimento lento, lamentando cansaços do dia. Só quando finalmente me sento em frente à lareira a debicar um copo de qualquer coisa é que me consigo ouvir. Só quando tudo parece estar parado é que a minha imagem se consegue tornar nítida. No mais sagrado silêncio em que consigo pronunciar as palavras que posso ouvir, na mais pura tela onde a minha silhueta se desloca em movimento traduzível, em linguagem corporal perceptível ao espectador que sou eu. E o que eu digo, muitas vezes, aquilo que consigo dizer e que ouço perfeitamente, pode ser assustador. Pode atirar-me para longe, esmagar-me sem piedade, deixar-me cair das alturas. Fala-me da descompensação, fala-me da factura a pagar pelo grau de consciência, das piadas de que ninguém se consegue rir, do imposto devido à entrega absoluta e incondicional da actividade criativa. Essa actividade tão estranha e tão intensa, esse desafio tão desejável, esse insuflar de sentidos, essa força que nos ocupa todo o sentido da vida mas que nos suga a alma. Recorda-me conversa antiga com escritor de outra geração: “Então o menino quer ser escritor. Escolheu uma cruz bem pesada…” Sim, no silêncio consigo ouvir-me, quando não estou a escrever. Nessa altura não penso, só ouço os fantasmas que se aproximam de mim e insistem em contar a sua história. Nos fantasmas que invento para não pensar, nas histórias que conto para não sentir a minha história.

É só quando me ouço que não gosto do barulho, do desequilíbrio de forças, da impotência, do quadro escuro, injusto e violento que se desenha à minha frente, da puta da vida. No silêncio, no meu silêncio tento estar pouco tempo, porque sei que perco sempre com ele. Posso ser atirado para longe, esmagado sem piedade, cair das alturas. O meu silêncio gosta da sensação metálica do cano de uma arma na cabeça, gosta de mergulhos para dentro de poços, de saltos de pontes para as águas em noites escuras. O meu silêncio sabe aquilo que eu sei há muito tempo e não lhe dou tempo para dizer. Preciso dele, visito-o de vez em quando, mas não me posso demorar. Posso me afogar no silêncio dos outros mas não posso perder tempo no meu silêncio. Embora precise dele. Embora precise sempre das suas palavras, dos seus gestos, das suas imagens que me devolvem quem sou quando me perco demasiado tempo longe de mim…



Artur

quinta-feira, 10 de maio de 2012

AU REVOIR



Au revoir Sarko, mas não chores. Afinal ainda tens a Carla e se é verdade, como dizia o outro, que Paris vale bem uma missa, a Carlocha vale bem uma novena e um Te Deum.
A tua partida tem já uma virtude: aqui em Portugal descobrem-se agora hollandistas por todo o lado, algumas arrastadeiras mais hollandistas que o Hollande. Ainda os veremos em peregrinação ao Eliseu, tal como os víamos arrastarem-se de joelhos para Berlim a deporem o tributo aos pés da Merkel, pedindo-lhe conselhos e acatando humildemente as suas recomendações.
Como dizia a minha avó: "Dá lá saudades,que é coisa que aqui não deixas"

SUINICULTURA - PARTE DOIS



Ontem, Portugal assistiu na televisão a um momento único, simultaneamente exaltante e degradante: o gaspartroika confrontado com as suas mentiras e aldrabices, de cabeça baixa, sem coragem para enfrentar os seus opositores que lhe chamaram mentiroso e aldrabão com todas as letras, além de exibirem sem pejo as provas daquilo que afirmavam. O mesmo aconteceu com o secretário de estado; João Galamba chamou-lhe mentiroso e não se desdisse, mesmo quando o outro teve o desplante de exigir, espumando, um pedido de desculpas. As arrastadeiras do PSD/CDS nem piavam, eles que por tudo e por nada cacarejam e grunhem a tempo e destempo. Este arauto e campeão do pensamento badalhoco neoliberal, que curvava a cabeça servil perante o seu homólogo alemão que lhe lia a cartilha e lhe dava uma lição de humilhação, sabemos agora, utiliza maquiavelicamente a mentira, a ocultação e a manipulação para fazer vingar a única ideia que lhe povoa o cérebro: o empobrecimento forçado do país, a desvalorização brutal do trabalho e a pauperização extrema daquilo que sobrar do Estado Social. Aliás, é um belo exemplo do tipo de ensino ministrado na Universidade Católica, considerada uma escola de excelência e que, afinal, produz incompetentes deste calibre. O que ainda estamos para perceber, se é que perceberemos algum dia, é porque é António José Seguro não dá um murro na mesa e rompe um consenso artificial, baseado em mentiras, manipulações, cenários e hipóteses falsas, previsões erróneas e incompetentes e, sobretudo, com um estado de coisas que piora de dia para dia, com mais recessão, desemprego e miséria. Esta é a obra do gasparzinho e não se vislumbra outro cenário, este sim, absolutamente objectivo e factual.