terça-feira, 5 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
O INTRÍNSECO DE JOÃO
“O Intrínseco de Manolo”
João Rebocho Pais
Ed. Teorema, 2012
No ambiente de uma aldeia perdida
na imensidão do Alentejo (Cousa Vã), os dias correm sem sobressalto, as vidas
de hoje são iguais às de ontem e voltarão a ser amanhã. Para alternar à viragem
de minis no tasco ao fim da tarde e para abanar a pasmaceira, a aldeia inventa
histórias, cria boatos, tenta imaginar que algo de relevante se passa para
mascarar o “nada” enorme em que se afundam as suas vidas. Indiferente a boatos e
a acusações, Manolo vive a sua vida, socorrendo-se da presença de uma azinheira
para interlocutora dos seus medos, angústias e depressões. Perto dela acaba
sempre por encontrar uma resposta para os seus problemas, mesmo os mais
bicudos. E é precisamente na vida de Manolo que um acontecimento inesperado o
vai fazer reaprender a vida, o amor da sua mulher e o outro amor, até aí
adormecido, pela sua comunidade. Além de Manolo há outros personagens que vão
decorando este pequeno romance, uns mais pitorescos que outros, embelezando o
quadro comunitário, tentando sobreviver, adaptando-se às diversas agruras da
sua condição.
Para além de uma história muito
bem contada, o autor conquista um patamar que outros não conseguem atingir
antes do seu terceiro ou quarto título. Estou-me a referir ao encontro com a
“Voz” interior, o “intrínseco” do autor. Uma espécie de azinheira que habita no
nosso silêncio mas que nem sempre é fácil de ouvir, quanto mais de decifrar.
João Rebocho Pais atinge esse patamar logo na primeira tentativa ao desenvolver
uma linguagem original, muito própria, que consiste em misturar o linguarejar
popular com a profundidade emocional, propondo ao leitor um desafio de prazer e
entretenimento que o leva das lágrimas ao riso sem tréguas. Ler este romance de
estreia do autor é garantidamente a certeza de um tempo bem passado, a alegria
de uma história bem contada, o entusiasmo da intimidade com uma comunidade
perdida a poucos quilómetros da fronteira com a Espanha. E será
fundamentalmente, tempo bem aproveitado.
Falar do trabalho de uma autor
que conhecemos é sempre constrangedor e condicionante. Se esse autor é ao mesmo
tempo um amigo de longa data, ainda mais. Referência que poderia ter sido
omitida sem que a justiça destas palavras fosse comprometida. Porque se
estivesse perante um trabalho fraco e mal conseguido de um amigo, teria a
atitude de não o mencionar, debater, criticar. Como felizmente, nada disso se
passou, não hesito em o divulgar e aconselhar a todos os leitores de boas
histórias. E se não chegarem as minhas palavras, julgo que o interesse do maior
grupo editorial do país fala por si. No seu romance de estreia, o João é
editado pelo grupo Leya que, tanto quanto me parece, não costuma fazer apostas
para perder. Leiam e divirtam-se.
Artur
sexta-feira, 1 de junho de 2012
GOLDMAN BORGES
Segundo Marc Roche, autor do livro "O Banco - Como a Goldman Sachs Dirige o Mundo", o borges foi corrido da Goldman Sachs por incompetência, o mesmo tendo ocorrido no FMI. Para além disso, foi visto durante algum tempo pelas elites parolas do PSD como um possível "salvador da Pátria", uma das tais reservas morais de que o país tanto necessitava. Gorada a expectativa de o ver concorrer à presidência dessa agremiação badalhoca e tornar-se, por inerência, candidato a primeiro-ministro, voltou aos negócios e às negociatas em que é exímio (cá pelo burgo, porque lá por fora não ficou muito bem visto). Pois bem, este gajo é agora o "ministro das privatizações", além de trabalhar para o merceeiro do Pingo Doce. Nada de novo debaixo do Sol, já estamos habituados a ser governados por incompetentes e à ganância desta gentalha que anda por aí a canibalizar e vampirizar o bom povo português. O problema é que este gajo é um daqueles que se farta de pregar sermões (para alguma coisa lhe havia de servir a cara de padre que ostenta com orgulho e vaidade), e é um daqueles palermas que advoga a "purga" como remédio e o "castigo" como salvação. Agora, este alarve vem declarar que a "redução de salários, mais do que uma política, é uma urgência". E não se cala. E ninguém o manda calar e tratar dos seus negóciozinhos ?
JARDIM ZOOLÓGICO
1. O caso relvas/secretas é um não caso. Ou melhor, é um casozinho, bem à medida da nossa insignificância e irrelevância. Nada de grandeza, vistas largas, ambição, John Le Carré ou Graham Greene, antes um Vilhena (o da extinta Gaiola Aberta e outras pérolas da cultura nacional). É um caso pequeno, triste, soturno, mesquinho. A começar pelos protagonistas : relvas, o silva carvalho e a sua cara suína, e todos os outros "agentes secretos", cuja única ambição é fazer recortes de imprensa, saber com quem X dorme e qual a matrícula do carro de Y. Convenhamos, é mais um retrato da sordidez e mesquinhice das "elites" político-partidárias nacionais e de todos aqueles que a elas pretendem aceder, manipulando-as a seu bel-prazer, sastifazendo os interesses particulares e obscuros que, a seu modo, também contribuíram para o estado a que isto chegou.
2. Obrigado, gasparzinho, por teres conseguido a maior taxa de desemprego da nossa história. Obrigado, também, por nos anunciares que para o ano ainda vai ser pior. Obrigado a todos os bandalhos neoliberais que propagam a ideia badalhoca segundo a qual a só se resolve o problema do desemprego aumentando a flexibilidade dos despedimentos. Obrigado, gasparzinho, por não conseguires fazer uma previsão acertada, quer no valor do défice, quer na percentagem de desemprego, tu que nos foste vendido como o maior sábio do universo e como um técnico de dimensão cósmica, com águas quentes e frias e vista para o Tejo. Tu, que até te dás ao luxo de nos explicares que 2015 vem depois de 2014 e que nem sequer sabes acertar as constas do teu ministério. Enfim, como queres que acreditemos quando fazes previsões optimistas para o evoluir da situação (que depende de factores que não controlas ), quando não consegues fazer previsões justas a partir de factores que controlas ? Pena é que não te possamos aplicar já a flexibilidade que tanto admiras, mandando-te para o desemprego à procura de oportunidades que agora não tens, proporcionando-te o ensejo de seres empreendedor, deixares de ser piegas e enfrentares corajosamente a situação. Olha, sei lá, talvez te pudesses inscrever no programa Novas Oportunidades...
3. Ainda por aí uma fauna, constituída por gente nova e outra ,não tão nova como isso, que se especializou nas actividades culturais. Eles, moles, sem fibra nem coragem, elas, mal-amanhadas e tristonhas (devendo-se essa tristeza, talvez à mencionada moleza, falta de coragem e fibra deles), deambulando da Cinemateca para colóquios, da Culturgest para debates, do CCB para eventos, da Gulbenkian para lançamentos de livros, do Zé dos Bois para exposições e de todos os lugares para os lugares todos em que lhes cheire a cultura. Trabalhar, produzir, pagar impostos, isso não, é bom para os bons burgueses que eles execram. Dessa fauna destaca-se uma sub-espécie, com características diferenciadas, que se especializou na obtenção de subsídios e bolsas de instituições públicas e privadas destinados à organização de eventos, festivais, ciclos, exposições e outras chachadas do género. Os mais espertos criaram uma rede internacional de contactos que lhes permite viajarem por todo o lado, promovendo eficazmente as diversas vanguardas, sobretudo aquelas que são paridas pelos amigos. Os outros, aqueles que têm que se auto-financiar, vão circulando por aí, bisonhos e compenetrados da sua missão na Terra, papando debates e exposições como quem toma a hóstia consagrada (e, já agora, os croquetes, rissóis e copinhos de vinho branco que costumam acompanhar os eventos mais abonados). À força de frequantarem os mesmos sítios conhecem-se todos uns aos outros e odeiam-se com cordialidade, odeiam-se com o mesmo afinco com que amam apaixonadamente as "obras", os "autores", os "criadores" e veneram a Arte e os artistas que a produzem. A Morte fica-lhes tão bem...
quarta-feira, 30 de maio de 2012
UM HERÓI MALDITO
SAGAL (UM HERÓI FEITO EM ÁFRICA)
António Brito
Porto Editora, 2012
Emiliano Salgado é uma espécie de
herói maldito, um ser que ninguém quer, e que no entanto teima em viver, em
percorrer o seu caminho animado pela dívida que tem sobre si próprio: a
sobrevivência. Odeia sinos e adora correr, sendo o exercício da corrida a
metáfora perfeita da sua existência. Na guerra colonial adquire a alcunha de
“Sagal”, ou de “Leão do Sagal”, na sequência de uma excelente prestação em
combate em terras do mesmo nome. Sagal nasceu, ou melhor, foi abandonado num
bordel da Mouraria, onde cresceu os primeiros anos da sua vida entre mulheres
de má reputação, clientes apressados, ranger de camas, gemidos e sujidade.
Vítima de uma denúncia, numa Sexta-feira Santa a polícia veio buscá-lo e foi
internado na Casa Pia. Tinha seis anos. Daí em diante, a sua vida é uma
gigantesca corrida contra as adversidades, a violência, o estatuto de vítima, o
mundo em geral. Ao
longo da sua corrida matinal, Sagal vai relembrando o passado, interrogando-se
se corre para recordar ou para esquecer. Enquanto corre vai desfiando a sua
vida, que foi tudo menos monótona.
Com “Sagal”, António Brito
recupera o tema recorrente na sua obra, a guerra colonial, para desenhar um
homem que viveu corajosamente e venceu todas as possibilidades que convergiam
para a sua destruição eminente. Da Casa Pia para a marginalidade das ruas em
Lisboa, da fuga à policia para os pára-quedistas, do final da guerra colonial
para a África do Sul e para o seu contrato como mercenário nas manobras no Sul
de Angola, e finalmente do continente africano de volta para Lisboa. No fundo
trata-se de um aventureiro dos tempos modernos, um homem empurrado pelos
acontecimentos e pelas circunstâncias, cuja única orientação é a de correr para
a frente, sem destino nem paragem. Não por escolha própria mas pela
inevitabilidade dos acontecimentos.
A originalidade deste romance de
aventuras, para além da verosimilhança com a História (o autor foi combatente
pára-quedista em Moçambique na guerra colonial), reside principalmente na forma
como se desenham os cenários narrativos, isto é, pela maneira como são
introduzidos ao longo do romance factos, histórias e passagens da actualidade,
cenários esses atravessados pelo protagonista. É o caso da organização da rede
masculina de prostituição na Casa Pia, os momentos caóticos que se seguem entre
o 25 de Abril e a independência da ex-colónias, as manobras do exército
sul-africano na Namíbia e no Sul de Angola, o ambiente do processo revolucionário
em Portugal, em suma, as manchetes dos jornais da época. Sagal vive as décadas
de 70 e 80 do século passado sem preocupações ideológicas e, em virtude das
suas capacidades tenta dar corpo à sua ideia de justiça, de equilíbrio dentro
do caos social. Sem grandes problemas de consciência nem referências morais. Em
muitas situações, um personagem com que muitos se identificarão, admirando as
suas proezas, não tendo a coragem de as realizar. Pelo seu percurso, Sagal
identifica o lado cruel e desumano daqueles com quem se cruza, os oportunistas,
os prepotentes, etc. A Justiça é um valor pessoal que defende e faz valer ao
seu critério.
De acordo com uma entrevista do
autor ao “Jornal de Letras”, Sagal poderá ser o início de uma série de livros
onde o herói maldito continuará a agir no fio da navalha entre o legal e o
ilegal. Umas vezes colaborando com a policia, outras por conta própria. E
sempre em volta dos acontecimentos da ordem do dia, nacionais ou internacionais
tratados ficcionalmente. Para já é um bom começo, uma excelente proposta de
entretenimento a fazer lembrar outros heróis malditos como Corto Maltese ou
Fernão Mendes Pinto. Ficamos à espera dos próximos episódios da vida de Sagal.
Artur
SUINICULTURA III
"Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam toda uma parte da sua vida e dos seus interesses chamados vitais"
Albert Camus "Primeiros Cadernos"
Onde o passos coelho, e os outros arautos do pensamento badalhoco neoliberal, vêem uma oportunidade de mudar de vida e ser empreendedor, o Congresso dos Psiquiatras Portugueses descobre um aumento exponencial de depressões conducentes ao suicídio. Como se percebe, são duas visões distintas do problema do desemprego : A primeira é uma baboseira sem sentido, uma parvoíce, uma calinada monumental, uma espécie de retórica desértica, vazia e inútil; a segunda, pelo contrário, constitui uma constatação corajosa e frontal de um drama que vai corroendo e apodrecendo a sociedade portuguesa.
Albert Camus "Primeiros Cadernos"
Onde o passos coelho, e os outros arautos do pensamento badalhoco neoliberal, vêem uma oportunidade de mudar de vida e ser empreendedor, o Congresso dos Psiquiatras Portugueses descobre um aumento exponencial de depressões conducentes ao suicídio. Como se percebe, são duas visões distintas do problema do desemprego : A primeira é uma baboseira sem sentido, uma parvoíce, uma calinada monumental, uma espécie de retórica desértica, vazia e inútil; a segunda, pelo contrário, constitui uma constatação corajosa e frontal de um drama que vai corroendo e apodrecendo a sociedade portuguesa.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
FRASES QUE MARCAM INDELEVELMENTE O PENSAMENTO OCIDENTAL, REVELANDO GENTE DE GRANDE CULTURA, SUPREMA ERUDIÇÃO, PENSADORES PROFUNDOS, PESSOAS DE GRANDE QUALIDADE MORAL E INTELECTUAL, FARÓIS DA CIVILIZAÇÃO, INCONTORNÁVEIS REFERÊNCIAS, RESERVAS DE INTELIGÊNCIA NACIONAL, LUMINÁRIAS DE INFINITA INTENSIDADE, SÁBIOS.
"A Grécia é uma invenção, foi uma província otomana"
José Luís Arnaut
José Luís Arnaut
domingo, 20 de maio de 2012
SEC propõe plano de emergência para o Instituto do Cinema e do Audiovisual
Este anúncio foi feito esta sexta-feira, no final da reunião em que o secretário de Estado Francisco José Viegas recebeu um grupo de realizadores e produtores do sector, e que aconteceu no dia imediatamente a seguir à notícia da demissão da direcção do ICA, constituída por José Pedro Ribeiro, director, e por Leonor Silveira, sub-directora.
“O secretário de Estado garantiu-nos que, no prazo máximo de duas semanas, o processo de aprovação inter-ministerial da nova lei será concluído, de modo a ser agendada com carácter de urgência a sua discussão na Assembleia da República antes das férias parlamentares”, disse à saída da reunião Margarida Gil, presidente da Associação Portuguesa de Realizadores (APR), citada pela Agência Lusa.
Num comunicado depois elaborado pela APR sobre a reunião, é referido que Francisco José Viegas “deu a sua palavra de que as alterações decorrentes do processo de discussão pública do projecto da nova Lei do Cinema não ferem os princípios e a substância do documento inicial que foi tornado público em Fevereiro deste ano”. E acrescenta-se que Viegas “assegurou ainda que, estando aprovada a nova lei, poderão existir condições para a abertura de concursos no ICA ainda este ano”. Nas declarações aos jornalistas à saída da SEC, Margarida Gil referiu que o plano de emergência anunciado pela tutela visa “atenuar ou resolver parcialmente o problema financeiro do ICA, de modo a que os compromissos assumidos pelo Instituto sejam cumpridos”.
Na reunião participaram também representantes dos subscritores do documento Cinema Português: Ultimato ao Governo e da Associação de Produtores de Animação. Ao lado de Francisco José Viegas esteve o director demissionário do ICA, José Pedro Ribeiro. Nenhum deles fez declarações no final. Sobre o futuro do ICA, e da direcção demissionária, Margarida Gil disse que José Pedro Ribeiro explicou na reunião que “colocou o seu lugar à disposição e admitiu que acabou um ciclo e começará um outro com a nova lei”.
O encontro foi pedido pelos profissionais do cinema, que reclamam a aprovação urgente da nova Lei do Cinema, para que se ultrapasse a situação de paralisia no sector.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
SILÊNCIO
O portão que se fecha atrás de
mim geme mais alto que o vento, como se estivesse a competir com ele. Geme e a
seguir rebenta em vibração metálica, a protestar contra a minha falta de jeito.
Os passos arrastam-se até à casa em movimento lento, lamentando cansaços do
dia. Só quando finalmente me sento em frente à lareira a debicar um copo de
qualquer coisa é que me consigo ouvir. Só quando tudo parece estar parado é que
a minha imagem se consegue tornar nítida. No mais sagrado silêncio em que
consigo pronunciar as palavras que posso ouvir, na mais pura tela onde a minha
silhueta se desloca em movimento traduzível, em linguagem corporal perceptível
ao espectador que sou eu. E o que eu digo, muitas vezes, aquilo que consigo
dizer e que ouço perfeitamente, pode ser assustador. Pode atirar-me para longe,
esmagar-me sem piedade, deixar-me cair das alturas. Fala-me da descompensação,
fala-me da factura a pagar pelo grau de consciência, das piadas de que ninguém
se consegue rir, do imposto devido à entrega absoluta e incondicional da
actividade criativa. Essa actividade tão estranha e tão intensa, esse desafio tão
desejável, esse insuflar de sentidos, essa força que nos ocupa todo o sentido
da vida mas que nos suga a alma. Recorda-me conversa antiga com escritor de
outra geração: “Então o menino quer ser escritor. Escolheu uma cruz bem pesada…”
Sim, no silêncio consigo ouvir-me, quando não estou a escrever. Nessa altura não
penso, só ouço os fantasmas que se aproximam de mim e insistem em contar a sua
história. Nos fantasmas que invento para não pensar, nas histórias que conto
para não sentir a minha história.
É só quando me ouço que não gosto
do barulho, do desequilíbrio de forças, da impotência, do quadro escuro,
injusto e violento que se desenha à minha frente, da puta da vida. No silêncio,
no meu silêncio tento estar pouco tempo, porque sei que perco sempre com ele. Posso
ser atirado para longe, esmagado sem piedade, cair das alturas. O meu silêncio
gosta da sensação metálica do cano de uma arma na cabeça, gosta de mergulhos
para dentro de poços, de saltos de pontes para as águas em noites escuras. O
meu silêncio sabe aquilo que eu sei há muito tempo e não lhe dou tempo para
dizer. Preciso dele, visito-o de vez em quando, mas não me posso demorar. Posso
me afogar no silêncio dos outros mas não posso perder tempo no meu silêncio. Embora
precise dele. Embora precise sempre das suas palavras, dos seus gestos, das
suas imagens que me devolvem quem sou quando me perco demasiado tempo longe de
mim…
Artur
sexta-feira, 11 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
AU REVOIR
Au revoir Sarko, mas não chores. Afinal ainda tens a Carla e se é verdade, como dizia o outro, que Paris vale bem uma missa, a Carlocha vale bem uma novena e um Te Deum.
A tua partida tem já uma virtude: aqui em Portugal descobrem-se agora hollandistas por todo o lado, algumas arrastadeiras mais hollandistas que o Hollande. Ainda os veremos em peregrinação ao Eliseu, tal como os víamos arrastarem-se de joelhos para Berlim a deporem o tributo aos pés da Merkel, pedindo-lhe conselhos e acatando humildemente as suas recomendações.
Como dizia a minha avó: "Dá lá saudades,que é coisa que aqui não deixas"
SUINICULTURA - PARTE DOIS
Ontem, Portugal assistiu na televisão a um momento único, simultaneamente exaltante e degradante: o gaspartroika confrontado com as suas mentiras e aldrabices, de cabeça baixa, sem coragem para enfrentar os seus opositores que lhe chamaram mentiroso e aldrabão com todas as letras, além de exibirem sem pejo as provas daquilo que afirmavam. O mesmo aconteceu com o secretário de estado; João Galamba chamou-lhe mentiroso e não se desdisse, mesmo quando o outro teve o desplante de exigir, espumando, um pedido de desculpas. As arrastadeiras do PSD/CDS nem piavam, eles que por tudo e por nada cacarejam e grunhem a tempo e destempo. Este arauto e campeão do pensamento badalhoco neoliberal, que curvava a cabeça servil perante o seu homólogo alemão que lhe lia a cartilha e lhe dava uma lição de humilhação, sabemos agora, utiliza maquiavelicamente a mentira, a ocultação e a manipulação para fazer vingar a única ideia que lhe povoa o cérebro: o empobrecimento forçado do país, a desvalorização brutal do trabalho e a pauperização extrema daquilo que sobrar do Estado Social. Aliás, é um belo exemplo do tipo de ensino ministrado na Universidade Católica, considerada uma escola de excelência e que, afinal, produz incompetentes deste calibre. O que ainda estamos para perceber, se é que perceberemos algum dia, é porque é António José Seguro não dá um murro na mesa e rompe um consenso artificial, baseado em mentiras, manipulações, cenários e hipóteses falsas, previsões erróneas e incompetentes e, sobretudo, com um estado de coisas que piora de dia para dia, com mais recessão, desemprego e miséria. Esta é a obra do gasparzinho e não se vislumbra outro cenário, este sim, absolutamente objectivo e factual.
domingo, 6 de maio de 2012
CINEMA PORTUGUÊS: ULTIMATO AO GOVERNO
É hoje em dia indiscutível o reconhecimento do cinema português, tanto nacional como
internacionalmente.
E se dúvidas houvesse, os prémios que ao longo dos últimos meses os filmes portugueses têm
vindo a obter e o eco que a sua estreia entre nós tem tido, junto do público e da crítica, seriam a
sua mais evidente comprovação. E que as repetidas saudações feitas por responsáveis políticos
- e em primeiro lugar pelo senhor Presidente da República - vieram reiterar.
E no entanto, o cinema português vive neste momento uma situação dramática, com um corte de
100%, que não tem paralelo em mais nenhum sector de actividade!
Com o Instituto de Cinema em absoluta ruptura financeira e sem que o Secretário de Estado da
Cultura tenha para isso qualquer proposta ou solução, ao fim de 10 meses de Governo o cinema
português corre perigo de vida.
Não apenas os Concursos de 2012 não foram abertos, como os projectos aprovados em anos
anteriores não podem arrancar. A produção de novos filmes está paralisada - e uma boa parte
das empresas produtoras na iminência de encerrar, atirando para o desemprego milhares de
pessoas - e a distribuição, os festivais, os cineclubes, a promoção internacional, sem quaisquer
apoios.
E a nova Lei do Cinema - prometida há 10 meses no Programa do Governo e há quase 3 em
discussão pública -, continua a ser apenas isso mesmo: uma promessa por cumprir…
Apesar de ter tido um acolhimento positivo por parte de todo o sector, o seu período de
discussão pública terminou (depois de duas prorrogações sucessivas) sem que se perceba qual
o calendário que o Governo tem para a sua formalização e entrega à Assembleia da República,
para discussão e aprovação.
Tal como não se compreende por que não divulga o Governo de onde vêm os obstáculos - se é
que eles existem - à sua urgente concretização, deixando pairar as mais justificadas apreensões.
Enquanto os filmes portugueses continuam a circular internacionalmente e a ser recebidos e
premiados e depois estreados entre nós - sem quaisquer apoios públicos - o Governo demite-se
das suas responsabilidades.
Por isso não podemos deixar de tomar uma posição pública, exigindo:
1. Que enquanto a nova Lei do Cinema não for aprovada pela Assembleia da República e
entre em vigor, o Governo encontre uma solução de emergência para a situação de
ruptura e descalabro financeiro do Instituto de Cinema e que permita dotá-lo dos meios
financeiros necessários aos compromissos assumidos com os produtores e aprovados
entre 2010 e 2011.
2. E que essa solução de emergência permita também que os Concursos de 2011 sejam
homologados pelo Secretário de Estado da Cultura e contratualizados pelo Instituto.
3. Que a versão definitiva da nova Lei do Cinema seja tornada pública de imediato e que o
Governo assuma um prazo para a sua aprovação em Conselho de Ministros e posterior
apresentação à Assembleia da República.
4. Que essa Lei consagre os princípios gerais contidos no projecto apresentado,
nomeadamente no que diz respeito
a) às contribuições e investimentos de todas as empresas que operam no mercado do
cinema e do audiovisual,
b) ao reforço do princípio da atribuição dos dinheiros públicos de fomento do Cinema por
concursos públicos assentes em júris independentes e através de critérios equilibrados
de valoração dos projectos,
c) e finalmente à valorização do papel do Instituto do Cinema e Audiovisual na gestão e
regulação do sector.
Só assim se concretizará um projecto ambicioso de relançamento consistente do cinema em
Portugal.
Alexandre Oliveira
produtor
Anabela Moutinho
Cineclube de Faro
Dario Oliveira
Curtas Vila do Conde
Gabriel Abrantes
realizador
Gonçalo Tocha
realizador
João Botelho
realizador
João Canijo
realizador
João Figueiras
produtor
João Matos
produtor
João Nicolau
realizador
João Pedro Rodrigues
realizador
João Salaviza
realizador
Luís Apolinário
distribuidor
Luís Urbano
produtor
Manuel Mozos
realizador
Maria João Mayer
produtora
Miguel Gomes
realizador
Miguel Valverde
IndieLisboa
Pedro Borges
produtor
Pedro Costa
realizador
Sandro Aguilar realizador
sábado, 5 de maio de 2012
NAMÍBIA - CONCLUSÃO II
Correndo o risco evidente e absoluto de me repetir descaradamente, as fotografias da Sofia são, para mim, um deslumbramento e uma surpresa permanentes. A prová-lo está o simples facto de, na presença de muitas delas se me abrir a torneira dos sentidos e das palavras, e desatar a escrever que nem um doido. É o caso desta sequência hoje apresentada neste blog. Os espaços são as formas da realidade mas não a representam. Os espaços são fotografados, descritos, pintados, representados, apresentados aos outros com a nossa forma de os ver. A representação dos espaços é a nossa leitura deles, nunca o seu retrato. De cima para baixo, a Sofia pinta dois quadros de neblina e transporta-nos para as sensações da manhã africana, orvalhada e fria, da hora dos animais irem beber às nascentes de água. Dentro de uma intimidade distante e educada, os cheiros, os arrepios da humidade, a força da terra que amanhece, estão todos representados à distância suficiente do respeito pelos seres vivos na sua própria casa. Olhem outra vez. Vejam a neblina sobre a estrada deserta, as formas que se desvanecem em ângulos de sonho, pertencentes a vultos que já lá não estão...
Depois o antílope que contempla a montanha distante. A estrada que surge muito tímida para logo de seguida desaparecer para dentro do mato seco, como um segmento de recta de A a B. A solidão dos seres esmagados pela evidência da paisagem. A finitude num ambiente intenso, permanente e transbordante de vida.
Por fim, o deserto em duas vertentes. Uma quase pictórica, como um quadro, uma abstracção de luz e cor. Na segunda, uma capa perfeita para um livro: "O Princepezinho". Obrigado Sofia.
Artur
Subscrever:
Mensagens (Atom)











