quarta-feira, 30 de maio de 2012

SUINICULTURA III

"Cada vez que oiço um discurso político ou que leio os que nos dirigem, há anos que me sinto apavorado por não ouvir nada que emita um som humano. São sempre as mesmas palavras que dizem as mesmas mentiras. E visto que os homens se conformam, que a cólera do povo ainda não destruiu os fantoches, vejo nisso a prova de que os homens não dão a menor importância ao próprio governo e que jogam, essa é que é a verdade, que jogam toda uma parte da sua vida e dos seus interesses chamados vitais"

Albert Camus "Primeiros Cadernos"

Onde o passos coelho, e os outros arautos do pensamento badalhoco neoliberal, vêem uma oportunidade de mudar de vida e ser empreendedor, o Congresso dos Psiquiatras Portugueses descobre um aumento exponencial de depressões conducentes ao suicídio. Como se percebe, são duas visões distintas do problema do desemprego : A primeira é uma baboseira sem sentido, uma parvoíce, uma calinada monumental, uma espécie de retórica desértica, vazia e inútil; a segunda, pelo contrário, constitui uma constatação corajosa e frontal de um drama que vai corroendo e apodrecendo a sociedade portuguesa.

domingo, 20 de maio de 2012

SEC propõe plano de emergência para o Instituto do Cinema e do Audiovisual

        Este anúncio foi feito esta sexta-feira, no final da reunião em        que o secretário de Estado Francisco José Viegas recebeu um        grupo de realizadores e produtores do sector, e que aconteceu no        dia imediatamente a seguir à notícia da demissão da direcção do        ICA, constituída por José Pedro Ribeiro, director, e por Leonor        Silveira, sub-directora.
“O secretário de Estado garantiu-nos que, no prazo máximo de        duas semanas, o processo de aprovação inter-ministerial da nova        lei será concluído, de modo a ser agendada com carácter de        urgência a sua discussão na Assembleia da República antes das        férias parlamentares”, disse à saída da reunião Margarida Gil,        presidente da Associação Portuguesa de Realizadores (APR),        citada pela Agência Lusa.
        Num comunicado depois elaborado pela APR sobre a reunião, é        referido que Francisco José Viegas “deu a sua palavra de que as        alterações decorrentes do processo de discussão pública do        projecto da nova Lei do Cinema não ferem os princípios e a        substância do documento inicial que foi tornado público em        Fevereiro deste ano”. E acrescenta-se que Viegas “assegurou        ainda que, estando aprovada a nova lei, poderão existir        condições para a abertura de concursos no ICA ainda este ano”.        Nas declarações aos jornalistas à saída da SEC, Margarida Gil        referiu que o plano de emergência anunciado pela tutela visa        “atenuar ou resolver parcialmente o problema financeiro do ICA,        de modo a que os compromissos assumidos pelo Instituto sejam        cumpridos”.
Na reunião participaram também representantes dos subscritores        do documento Cinema Português: Ultimato ao Governo e da        Associação de Produtores de Animação. Ao lado de Francisco José        Viegas esteve o director demissionário do ICA, José Pedro        Ribeiro. Nenhum deles fez declarações no final. Sobre o futuro        do ICA, e da direcção demissionária, Margarida Gil disse que        José Pedro Ribeiro explicou na reunião que “colocou o seu lugar        à disposição e admitiu que acabou um ciclo e começará um outro        com a nova lei”.
O encontro foi pedido pelos profissionais do cinema, que        reclamam a aprovação urgente da nova Lei do Cinema, para que se        ultrapasse a situação de paralisia no sector.
 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SILÊNCIO





O portão que se fecha atrás de mim geme mais alto que o vento, como se estivesse a competir com ele. Geme e a seguir rebenta em vibração metálica, a protestar contra a minha falta de jeito. Os passos arrastam-se até à casa em movimento lento, lamentando cansaços do dia. Só quando finalmente me sento em frente à lareira a debicar um copo de qualquer coisa é que me consigo ouvir. Só quando tudo parece estar parado é que a minha imagem se consegue tornar nítida. No mais sagrado silêncio em que consigo pronunciar as palavras que posso ouvir, na mais pura tela onde a minha silhueta se desloca em movimento traduzível, em linguagem corporal perceptível ao espectador que sou eu. E o que eu digo, muitas vezes, aquilo que consigo dizer e que ouço perfeitamente, pode ser assustador. Pode atirar-me para longe, esmagar-me sem piedade, deixar-me cair das alturas. Fala-me da descompensação, fala-me da factura a pagar pelo grau de consciência, das piadas de que ninguém se consegue rir, do imposto devido à entrega absoluta e incondicional da actividade criativa. Essa actividade tão estranha e tão intensa, esse desafio tão desejável, esse insuflar de sentidos, essa força que nos ocupa todo o sentido da vida mas que nos suga a alma. Recorda-me conversa antiga com escritor de outra geração: “Então o menino quer ser escritor. Escolheu uma cruz bem pesada…” Sim, no silêncio consigo ouvir-me, quando não estou a escrever. Nessa altura não penso, só ouço os fantasmas que se aproximam de mim e insistem em contar a sua história. Nos fantasmas que invento para não pensar, nas histórias que conto para não sentir a minha história.

É só quando me ouço que não gosto do barulho, do desequilíbrio de forças, da impotência, do quadro escuro, injusto e violento que se desenha à minha frente, da puta da vida. No silêncio, no meu silêncio tento estar pouco tempo, porque sei que perco sempre com ele. Posso ser atirado para longe, esmagado sem piedade, cair das alturas. O meu silêncio gosta da sensação metálica do cano de uma arma na cabeça, gosta de mergulhos para dentro de poços, de saltos de pontes para as águas em noites escuras. O meu silêncio sabe aquilo que eu sei há muito tempo e não lhe dou tempo para dizer. Preciso dele, visito-o de vez em quando, mas não me posso demorar. Posso me afogar no silêncio dos outros mas não posso perder tempo no meu silêncio. Embora precise dele. Embora precise sempre das suas palavras, dos seus gestos, das suas imagens que me devolvem quem sou quando me perco demasiado tempo longe de mim…



Artur

quinta-feira, 10 de maio de 2012

AU REVOIR



Au revoir Sarko, mas não chores. Afinal ainda tens a Carla e se é verdade, como dizia o outro, que Paris vale bem uma missa, a Carlocha vale bem uma novena e um Te Deum.
A tua partida tem já uma virtude: aqui em Portugal descobrem-se agora hollandistas por todo o lado, algumas arrastadeiras mais hollandistas que o Hollande. Ainda os veremos em peregrinação ao Eliseu, tal como os víamos arrastarem-se de joelhos para Berlim a deporem o tributo aos pés da Merkel, pedindo-lhe conselhos e acatando humildemente as suas recomendações.
Como dizia a minha avó: "Dá lá saudades,que é coisa que aqui não deixas"

SUINICULTURA - PARTE DOIS



Ontem, Portugal assistiu na televisão a um momento único, simultaneamente exaltante e degradante: o gaspartroika confrontado com as suas mentiras e aldrabices, de cabeça baixa, sem coragem para enfrentar os seus opositores que lhe chamaram mentiroso e aldrabão com todas as letras, além de exibirem sem pejo as provas daquilo que afirmavam. O mesmo aconteceu com o secretário de estado; João Galamba chamou-lhe mentiroso e não se desdisse, mesmo quando o outro teve o desplante de exigir, espumando, um pedido de desculpas. As arrastadeiras do PSD/CDS nem piavam, eles que por tudo e por nada cacarejam e grunhem a tempo e destempo. Este arauto e campeão do pensamento badalhoco neoliberal, que curvava a cabeça servil perante o seu homólogo alemão que lhe lia a cartilha e lhe dava uma lição de humilhação, sabemos agora, utiliza maquiavelicamente a mentira, a ocultação e a manipulação para fazer vingar a única ideia que lhe povoa o cérebro: o empobrecimento forçado do país, a desvalorização brutal do trabalho e a pauperização extrema daquilo que sobrar do Estado Social. Aliás, é um belo exemplo do tipo de ensino ministrado na Universidade Católica, considerada uma escola de excelência e que, afinal, produz incompetentes deste calibre. O que ainda estamos para perceber, se é que perceberemos algum dia, é porque é António José Seguro não dá um murro na mesa e rompe um consenso artificial, baseado em mentiras, manipulações, cenários e hipóteses falsas, previsões erróneas e incompetentes e, sobretudo, com um estado de coisas que piora de dia para dia, com mais recessão, desemprego e miséria. Esta é a obra do gasparzinho e não se vislumbra outro cenário, este sim, absolutamente objectivo e factual.

domingo, 6 de maio de 2012

CINEMA PORTUGUÊS: ULTIMATO AO GOVERNO


É hoje em dia indiscutível o reconhecimento do cinema português, tanto nacional como

internacionalmente.

E se dúvidas houvesse, os prémios que ao longo dos últimos meses os filmes portugueses têm

vindo a obter e o eco que a sua estreia entre nós tem tido, junto do público e da crítica, seriam a

sua mais evidente comprovação. E que as repetidas saudações feitas por responsáveis políticos

- e em primeiro lugar pelo senhor Presidente da República - vieram reiterar.

E no entanto, o cinema português vive neste momento uma situação dramática, com um corte de

100%, que não tem paralelo em mais nenhum sector de actividade!

Com o Instituto de Cinema em absoluta ruptura financeira e sem que o Secretário de Estado da

Cultura tenha para isso qualquer proposta ou solução, ao fim de 10 meses de Governo o cinema

português corre perigo de vida.

Não apenas os Concursos de 2012 não foram abertos, como os projectos aprovados em anos

anteriores não podem arrancar. A produção de novos filmes está paralisada - e uma boa parte

das empresas produtoras na iminência de encerrar, atirando para o desemprego milhares de

pessoas - e a distribuição, os festivais, os cineclubes, a promoção internacional, sem quaisquer

apoios.

E a nova Lei do Cinema - prometida há 10 meses no Programa do Governo e há quase 3 em

discussão pública -, continua a ser apenas isso mesmo: uma promessa por cumprir…

Apesar de ter tido um acolhimento positivo por parte de todo o sector, o seu período de

discussão pública terminou (depois de duas prorrogações sucessivas) sem que se perceba qual

o calendário que o Governo tem para a sua formalização e entrega à Assembleia da República,

para discussão e aprovação.

Tal como não se compreende por que não divulga o Governo de onde vêm os obstáculos - se é

que eles existem - à sua urgente concretização, deixando pairar as mais justificadas apreensões.

Enquanto os filmes portugueses continuam a circular internacionalmente e a ser recebidos e

premiados e depois estreados entre nós - sem quaisquer apoios públicos - o Governo demite-se

das suas responsabilidades.

Por isso não podemos deixar de tomar uma posição pública, exigindo:

1. Que enquanto a nova Lei do Cinema não for aprovada pela Assembleia da República e

entre em vigor, o Governo encontre uma solução de emergência para a situação de

ruptura e descalabro financeiro do Instituto de Cinema e que permita dotá-lo dos meios

financeiros necessários aos compromissos assumidos com os produtores e aprovados

entre 2010 e 2011.

2. E que essa solução de emergência permita também que os Concursos de 2011 sejam

homologados pelo Secretário de Estado da Cultura e contratualizados pelo Instituto.

3. Que a versão definitiva da nova Lei do Cinema seja tornada pública de imediato e que o

Governo assuma um prazo para a sua aprovação em Conselho de Ministros e posterior

apresentação à Assembleia da República.

4. Que essa Lei consagre os princípios gerais contidos no projecto apresentado,

nomeadamente no que diz respeito

a) às contribuições e investimentos de todas as empresas que operam no mercado do

cinema e do audiovisual,

b) ao reforço do princípio da atribuição dos dinheiros públicos de fomento do Cinema por

concursos públicos assentes em júris independentes e através de critérios equilibrados

de valoração dos projectos,

c) e finalmente à valorização do papel do Instituto do Cinema e Audiovisual na gestão e

regulação do sector.

Só assim se concretizará um projecto ambicioso de relançamento consistente do cinema em

Portugal.

Alexandre Oliveira
produtor

Anabela Moutinho
Cineclube de Faro

Dario Oliveira
Curtas Vila do Conde

Gabriel Abrantes
realizador

Gonçalo Tocha
realizador

João Botelho
realizador

João Canijo
realizador

João Figueiras
produtor

João Matos
produtor

João Nicolau
realizador

João Pedro Rodrigues
realizador

João Salaviza
realizador

Luís Apolinário
distribuidor

Luís Urbano
produtor

Manuel Mozos
realizador

Maria João Mayer
produtora

Miguel Gomes
realizador

Miguel Valverde
IndieLisboa

Pedro Borges
produtor

Pedro Costa
realizador

Sandro Aguilar realizador

sábado, 5 de maio de 2012

NAMÍBIA - CONCLUSÃO II





Correndo o risco evidente e absoluto de me repetir descaradamente, as fotografias da Sofia são, para mim, um deslumbramento e uma surpresa permanentes. A prová-lo está o simples facto de, na presença de muitas delas se me abrir a torneira dos sentidos e das palavras, e desatar a escrever que nem um doido. É o caso desta sequência hoje apresentada neste blog. Os espaços são as formas da realidade mas não a representam. Os espaços são fotografados, descritos, pintados, representados, apresentados aos outros com a nossa forma de os ver. A representação dos espaços é a nossa leitura deles, nunca o seu retrato. De cima para baixo, a Sofia pinta dois quadros de neblina e transporta-nos para as sensações da manhã africana, orvalhada e fria, da hora dos animais irem beber às nascentes de água. Dentro de uma intimidade distante e educada, os cheiros, os arrepios da humidade, a força da terra que amanhece, estão todos representados à distância suficiente do respeito pelos seres vivos na sua própria casa. Olhem outra vez. Vejam a neblina sobre a estrada deserta, as formas que se desvanecem em ângulos de sonho, pertencentes a vultos que já lá não estão...
Depois o antílope que contempla a montanha distante. A estrada que surge muito tímida para logo de seguida desaparecer para dentro do mato seco, como um segmento de recta de A a B. A solidão dos seres esmagados pela evidência da paisagem. A finitude num ambiente intenso, permanente e transbordante de vida.
Por fim, o deserto em duas vertentes. Uma quase pictórica, como um quadro, uma abstracção de luz e cor. Na segunda, uma capa perfeita para um livro: "O Princepezinho". Obrigado Sofia.

Artur

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SUINICULTURA

"O mundo de hoje é tão feio e cinzento, e o mundo do futuro, horrível, ignóbil"
Luchino Visconti


Não vou comentar a atitude do merceeiro santos, nem o valor simbólico dessa atitude. Aliás, o simbolismo de gente deste calibre importa-me tanto como o lixo que rola na sarjeta, colocando-o no nível moral da pedofilia, proxenetismo e outras coisa piores. Já tudo foi dito e redito sobre a acção do merceeiro no dia 1º de Maio, pelo que não me deterei muito sobre isso. Agora, não posso deixar de comentar a pasmosa e horrenda conclusão a que esses acontecimentos me conduziram, uma verdadeira visão do Inferno. Ei-la em todo o seus esplendor, com uma dupla faceta, sociológica e política : quando o empobrecimento e a miséria material aumentam, aumenta num grau proporcional a miséria moral e a indigência intelectual; toda essa gente que, devido ao empobrecimento, se deixou humilhar e degradar a troco de umas dezenas ou centenas de euros estava já degradada e humilhada, moral e intelectualmente, sendo o gang do gasparzinho o responsável pelo rebaixamento ao grau zero da dignidade de uma gente aflita e angustiada, transformada pelo medo em açambarcadora e selvática . A campanha do merceeiro santos foi apenas um aproveitamento suíno desse estado de coisas. Esta é a faceta sociológica e por aqui me fico, já que resolvi não comentar tudo o que já foi comentado. Vamos agora à conclusão política de todo este assunto, que resumo deste modo: o coelho vai ganhar as eleições em 2015. Porquê ? Porque, tendo conseguido rebaixar uma grande parte da população ao seu baixo nível moral e intelectual, conseguiu igualá-la a si mesmo e aos restantes membros desta seita badalhoca PSD/CDS. Nivelando por baixo, por muito baixo mesmo, coelho conseguiu criar uma base política e sociológica de apoio que o há-de reeleger. Esta conclusão nada tem de especulativo. É, pelo contrário, sustentada por uma lógica fria e implacável : os iguais elegem os iguais, a baixa extração moral e cultural compraz-se e refocila nas mesmas pocilgas. A única diferença entre o coelho, o relvas, o gasparzinho, o macedo e o restantes membros do (desgoverno), o super-merceeiro santos e a maralha que assaltou as lojas é apenas de grau : uns têm o poder, a posição social e a capacidade de acesso a cargos e mordomias que os outros não têm, restando-lhes aproveitar as migalhas que lhes são atiradas por  de vez em quando por estes bandalhos: desta vez foi o santos, amanhã será o belmiro ou um gajo qualquer desse género.

P.S. - Como o santos merceeiro tem ao seu serviço um grande e reputado sociólogo, um daqueles que fazem grandes proclamações sobre o estado da nação e a criticar acerbamente o estado a que chegámos (refiro-me a António Barreto), ficamos à espera das doutas explicações para o fenómeno exaradas por essa mente ilustre e ilustrada

terça-feira, 1 de maio de 2012

KITE



Fiz anos há pouco tempo. O meu filho mais velho, sem o saber, ofereceu-me um DVD dos U2, um concerto que andava a perseguir há anos mas que não conseguia encontrar. Chama-se GO HOME e foi filmado na Irlanda à beira do castelo de Sloan, arredores de Dublin, em 2001. Quando o comecei a visionar, saltou-me de lá de dentro esta musica, uma pérola que, por alguma razão, estava arquivada numa prateleira esquecida da minha memória. Fala da relação entre pai e filho. Tem duas vias de interpretação, uma para trás, outra para a frente. Para trás, Bono evoca a memória do pai falecido há pouco tempo. Para a frente, fala de uma tarde em que ele saiu com uma filha para o campo para tentarem pôr a voar um papagaio de papel (“pipa” no Brasil, “kite” em inglês). A tentativa de colocar o dispositivo no ar não foi bem sucedida. A filha então perguntou ao pai se podiam voltar para casa e ver um DVD. Nessa altura, ele percebeu que estava a chegar o dia em que ele iria deixar de ser decisivo, ou pelo menos vital, na sua existência. A canção começou a ser criada a partir daí. A cria ia começar a sair do ninho. As lágrimas começaram a cair sem que lhes tivesse dado autorização para isso. Há sempre uma canção que nos faz recordar o essencial da existência. O amor entre os seres, a duração limitada de tudo o que nos acontece, por mais que nos pareça vestida com as cores da eternidade. Os meus filhos são dois homens extraordinários, cada um no seu estilo, duas criaturas que amarei incondicionalmente enquanto houver consciência de mim. A ajuda para empurrar o baloiço, o aviso acerca dos aspectos traiçoeiros do caminho, uma tarde a tentar fazer voar um papagaio, tudo isso faz parte de uma canção extraordinária. A canção da nossa condição humana, onde o amor é a maior força que nos pode orientar e a finitude o conceito máximo que tudo regula. Não é bom nem mau, é um dos aspectos normativos mais importantes e incontornáveis da existência. E, como tudo na vida, não foi nenhuma coincidência ter recebido esta mensagem de um filho. Esta mensagem que hoje decido partilhar convosco…




Artur

terça-feira, 24 de abril de 2012

24 de ABRIL 1974 / 24 de ABRIL 2012

"O valor hoje mais caluniado é certamente o valor da liberdade. Bons espíritos (sempre pensei que havia duas espécies de inteligência, a inteligência inteligente e a inteligência estúpida) fazem doutrina de ela não ser senão um obstáculo ao caminho do verdadeiro progresso"

Albert Camus


Hoje é dia 24 de Abril. Amanhã será dia 25 de Abril (como vês, gasparzinho, as tuas piadas parvas, grosseiras, torpes e inanes sempre ensinam alguma coisa. Formalmente ainda vivemos num regime democrático (o passos coelho foi eleito democraticamente e democraticamente há-de ser corrido para o caixote de lixo da história dentro de três anos). Mas, por entre os dislates proferidos pela canalha, com o tom solene e o ar grave das grandes ocasiões ou das verdades escritas na pedra, vamos percebendo que estes políticos/negociantes querem fazer da liberdade um uso exclusivo e unilateral, considerando-o mais como um direito (do mais forte) do que um dever, não receando pô-la, tão frequentemente quanto puderem, como uma liberdade de princípio ao serviço de uma opressão de facto. Essa é apenas uma das facetas deste regresso a 24 de Abril de 1974. Outra, igualmente preocupante, revela-se no desprezo que esta gentalha devota às instituições democráticas, elas próprias garante do funcionamento do regime. Dou um exemplo : a teixeira da cruz, num discurso cheio de baboseiras, não se eximiu a referir 4 (quatro) vezes a situação de bancarrota do país, numa óbvia tentativa de pressionar o Tribunal Constitucional no que concerne à decisão sobre o confisco do 13º mês e do subsídio de férias dos funcionários públicos. Bem podem andar o passos coelho e o gasparzinho a tentarem convencer o mundo inteiro de que estamos no bom caminho, a recuperar economicamente, que o futuro é risonho e outras patranhas do mesmo quilate; bem pode o portas continuar o seu périplo digno de Ulisses (a grande questão é: será que tem uma Penélope à sua espera ? E, tendo-a, será que ela vai esperar eternamente ?) promovendo a excelência do nosso (des)governo (armado de pastéis de nata e couve portuguesa), bem podem bradar alto e bom som que o genial gasparzinho nos vai tirar do buraco e alcandorar-nos ao sétimo céu da produtividade e da competitividade (e de outras saloices que trazem sempre na boca); basta uma pequena entrevista entre-portas (?) de uma qualquer teixeira da cruz para ir tudo por água abaixo, ou seja, o afã de desvalorizar o Tribunal Constitucional é tão premente, de tal modo urgente, que a criatura nem se deu conta da facada que estava a dar na nossa imagem externa e interna. Mas, têm o que merecem: o desprezo a que votam as instituições democráticas tem um equivalente exacto no desprezo que o povo sente por eles.
Ontem, dia 23 de Abril (a que segue o dia de hoje, dia 24 de Abril), soubemos que a Associação 25 de Abril (com a legitimidade moral que lhe assiste) emitiu um comunicado no qual explica as razões pelas quais não participará este ano nas comemorações oficiais do 25 de Abril (e que pode ser lido na
íntegra aqui http://www.25abril.org/ ), assumindo uma posição ética e moral coerente com o comportamento e as atitudes dos militares que fizeram o 25 de Abril e constituindo o sobressalto cívico que urgentemente necessitamos. Desse manifesto respigo três excertos:

"O contrato social estabelecido na Constituição da República Portuguesa foi rompido pelo poder. As medidas e sacrifícios impostos aos cidadãos portugueses ultrapassaram os limites do suportável. Condições inaceitáveis de segurança e bem-estar social atingem a dignidade da pessoa humana.

O rumo político seguido protege os privilégios, agrava a pobreza e a exclusão social, desvaloriza o trabalho.

Sem uma justiça capaz, com dirigentes políticos para quem a ética é uma palavra vã, Portugal é já o país da União Europeia com maiores desigualdades sociais."

Pegando na expressão "desvaloriza o trabalho", resta-me dizer que esta é, talvez, a faceta mais hedionda da actual ofensiva bandalha e liberal contra o mundo do trabalho. São tão estúpidos que consideram o salário como um custo, logo, algo que tem que ser reduzido à sua expressão mínima, em vez de o consideraram uma relação social; tão canalhas que consideram os direitos sociais como custos, não percebendo que uma sociedade é tanto mais rica quanto mais eficiente for na distribuição da riqueza. Estas verdades, de tão evidentes, não atingem os altos cumes em que as suas estúpidas inteligências vagueiam. A recompensa espera-os no fim da linha (se ainda houver linha), quando estiverem bem aboletados nas empresas dos parasitas que agora privilegiam e servem. Comemoremos pois o 25 de Abril, enquanto a canalha comemora o 24.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O PRIMEIRO HOMEM

Há duas maneiras possíveis de ler “O Primeiro Homem” de Albert Camus, ambas encantadoras. Se já conhecíamos a obra do autor, estamos na presença íntima do seu Ser, como quem conversa com um amigo durante uma noite inteira. Se, por outro lado, pouco ou nada sabíamos dele, este é um excelente ponto de partida para a descoberta do trabalho de um dos maiores pensadores do século XX. Prematuramente desaparecido num acidente de viação em 1960, Camus trazia consigo um manuscrito do seu último romance que, nas suas próprias palavras, versava sobre aqueles que amava. Daí que “O Primeiro Homem” se possa designar numa primeira abordagem como um romance de ternura. Ao escrever sobre aqueles que marcaram os seus primeiros anos de vida, Camus acaba por desenhar alguns dos contornos mais importantes da sua personalidade e da sua obra, apresentando-se a si próprio. Todo o romance é autobiográfico sem alterações de maior na transposição da realidade para a ficção. O percurso de Jacques Cormery, nascido numa noite de Outono de 1913 na planície argelina, pouco ou nada se afasta do percurso do seu autor, Albert Camus, nascido a 7 de Novembro do mesmo ano, num pequeno complexo vitícola próximo de Mandovi na Argélia. O pai, Lucien Camus, Henri Cormery no romance, era descendente de uma família alsaciana que nos finais do séc. XIX integrou os primeiros grupos de colonizadores desembarcados em solo argelino. È precisamente a figura paternal, ou a sua procura (Por ausência? Por ignorância?), a primeira a ser desenvolvida logo após a descrição acidentada do nascimento. Camus foi um entre milhões de órfãos que integraram a herança da I Guerra Mundial. Mobilizado em 1914, Lucien/Henri é ferido na batalha do Marne, vindo a falecer no mesmo ano no hospital improvisado de Saint Brieuc. A morte do pai gera, entre outras, duas passagens marcantes no romance. Numa vamos encontrar a saída clandestina de Henri do seu aquartelamento na noite da véspera da sua partida para França. Sem autorização, Henri beijará os filhos, despedindo-se da família pela ultima vez. Episódio simples, comovente e absoluto, se o soubermos sentir na carne. Ao longo de toda a sua vida, embora Jacques procure saber quem era o seu pai, encontra na mãe uma enorme barreira de palavras vagas, um silêncio de quem nada mais quer ter a ver com o sofrimento passado. Já com 40 anos, quando visita a campa do pai em Saint Brieuc, apercebe-se pela leitura da pedra tumular, de que ele teria morrido com 29 anos. Aí…a vaga de ternura e piedade que de repente lhe encheu o coração não era o movimento de uma alma que conduz o filho à evocação do pai desaparecido, mas a perturbada compaixão que um homem feito experimenta perante a criança injustamente assassinada. O caos tirava lugar à ordem, numa situação em que o pai era mais novo que o filho. Albert Camus visitou a campa do pai pela primeira vez em 1947, tinha então 34 anos. A mãe, Catherine Camus, conserva o seu nome no romance, apesar de ao princípio ser designada por “Lucie”. Oriunda de uma família espanhola de Menorca, os Sintés, é descrita na passagem do nascimento da seguinte forma: …tinha um rosto terno e regular, os cabelos de espanhola bem ondulados e negros, nariz pequeno e direito e um belo e quente olhar castanho. Ambas as famílias do escritor têm de comum a pobreza. Descendiam das vagas de deserdados da sorte, “despejados” pelas potências europeias nas suas colónias, o que, para além de reforçar a autoridade nos territórios ocupados, ainda resolvia alguns problemas criados pelo desequilíbrio social. Muitos morriam sem sequer terem tempo de pegar no arado ou na enxada. Os sobreviventes aravam a terra… com a espingarda à bandoleira e o quinino na algibeira. Com a morte do pai os Camus/Cormery vêem-se obrigados a retirar para Argel, para a casa da avó materna, no bairro pobre de Belcourt. É aí que Camus irá viver a sua infância e adolescência com a mãe, o irmão, a avó e dois tios, num apartamento de três assoalhadas sem água corrente nem electricidade (*). A avó integra desde tenra idade a família nuclear do escritor/Jacques. Símbolo da ordem e da sobrevivência, será também a trave mestra da consciência familiar. Uma tirana que “servia de pé à mesa” e que impunha a disciplina aos netos ante o vazio resultante da apatia da filha. É em relação aos tios que realidade e ficção não caminham juntas. Não sabemos se dos dois tios existentes na casa da avó de Albert, algum correspondia a Etiénne (às vezes Ernest, no livro). Sabemos que entre o sobrinho Jacques e o tio existiu uma enorme cumplicidade que se prolongou por toda a vida. Sabemos também da existência de um outro tio, Gustave, casado com uma irmã da mãe, que se poderia designar como um “talhante voltairiano”, quase anarquista. Gustave escolheria algumas das primeiras obras para o sobrinho ler. Quando morreu, Camus escreveu: "Foi o único homem que me fez imaginar um pouco o que poderia ser um pai "(*) Gustave é também referenciado no romance, ainda que de uma forma muito breve. Em Argel a infância de Jacques/Albert decorre de forma despreocupada, entre corridas clandestinas à praia com os amigos, breves assaltos às frutas em exposição à porta das lojas, brigas com o irmão Henri e as sempre existentes idas à caça com o tio Etiénne. Com a entrada para a escola primária, Camus vai conhecer um dos homens mais importantes na escolha do seu futuro. Trata-se do professor Germain Louis ( Monsieur Bernard no romance) que, ao reconhecer capacidades no jovem garoto, não hesita em influenciar a família no sentido de o deixar trabalhar para a otenção do estatuto de bolseiro do liceu. A única forma de um miúdo de uma família pobre seguir os seus estudos, libertando-se assim da impossibilidade financeira a que estava condenado. O professor primário Germain Louis ajudá-lo-á fora do horário escolar a vencer esta barreira, e a prosseguir na direcção de uma vida melhor. Da pobreza, Albert Camus só tomará consciência com a sua chegada ao liceu. Na escola comunal de Bel Court tudo tinha passado despercebido porque todos eram miseráveis. Inicialmente Albert Camus terá vergonha desse estatuto e, mais tarde, envergonhar-se-á de ter tido vergonha (*). Imediatamente antes do liceu, a avó obriga Jacques a frequentar a catequese. É aí que Camus escreverá uma das mais belas passagens de “O Primeiro Homem”. Um dia, por ser uma criança irrequieta, Jacques é surpreendido pelo padre a fazer caretas para os companheiros. Para o usar como exemplo, o padre prega-lhe um enorme estalo na cara que quase o derruba. A reacção de Jacques é sintomática. Não chora nem odeia, porque …em toda a sua vida foram a bondade e o amor que fizeram chorar e nunca o mal ou a perseguição que, pelo contrário lhe robusteciam o coração e a decisão. Com o liceu surge também de forma mais acentuada, uma das suas primeiras paixões: o futebol. Camus chegou mesmo a ser guarda-redes da equipa principal do RUA (Racing Universitaire d’Argel) (ver foto da capa do livro publicada no início deste texto). A ele fará referência na “Peste”, uma das suas obras mais importantes a par de “O Estrangeiro”. “O Primeiro Homem” termina nas recordações adolescentes, no despertar do desejo, bem como da consciência da passagem para homem. Jacques sente-se então invadido por uma ainda maior vontade de viver, de mesclar-se com aquilo que a terra tinha de mais quente. Por escrever ficou a referência a uma tuberculose prematura aos 17 anos que o obriga a cessar a actividade desportiva. Depois do desperdício que foi a morte do pai, encontra pela segunda vez as terras do absurdo, onde não existe ordem nem lógica que regule a existência humana. A partir daí amará mais intensamente, até aos limites da paixão, na eminência do seu fim sem motivo. O seu primeiro texto impresso é publicado quando tem 18 anos e com 26 termina “O Estrangeiro”, que lhe granjeará em 1957 o Prémio Nobel da Literatura. Da vida de Jacques Cormery ficou também por escrever a passagem de Camus pela Resistência Francesa aquando da ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial. Ficámos sem saber quais seriam as considerações de Jacques sobre a guerra e o dilema de “matar ou morrer” em que os homens se confrontam neste tipo de situações. Com uma escrita sóbria, essencial e humanista que caracteriza toda a sua obra, o pensador que escrevia ou o escritor que pensava, atravessa o rosário falando de si, apresentando aqueles que amou e que o amam na simplicidade da pobreza. Albert Camus dizia muitas vezes que só por aquela gente humilde e iletrada ter de alguma forma direito a registo, já valia a pena escrever. Sentia-se no entanto triste por saber que essa mesma gente nunca leria as suas palavras. Também Camus nunca chegou a ler “O Primeiro Homem” sob a forma acabada de livro. Por isso ele lhe foi dedicado pelas palavras da sua mulher.

Artur

(*) Grenier, Roger – “Albert Camus, Soleil et Ombre” Ed. Gallimard, Paris, 1987

quinta-feira, 19 de abril de 2012

IN GREED WE TRUST

"Estamos dispostos a suprimir a Política, para a substituir pela Moral. É o que chamamos uma Revolução"

Albert Camus

1. Para além de ser a direita mais estúpida da Europa (quiçá, do Mundo), a direita portuguesa é também a mais ignorante e analfabeta. A ela se pode aplicar o célebre dito que se aplicava aos Bourbons: "Não aprenderam nada, não esqueceram nada". O sinal mais evidente da sua estupidez e ignorância, além de outras "virtudes" que não me apetece enumerar, é a falta de memória histórica. De facto, esta canalha ignara está a levar a cabo um trabalho de destruição de estruturas e determinações que levaram séculos a construir, não sabendo eles que só o que tem história pode ser definido. Enfim, a estupidez e a ignorância não são um crime, nem uma desculpabilização; do ponto de vista ético essas características são neutras. O que deixa de ser neutro, passando a ser criminoso, é o facto de o governo - vamos chamar-lhe assim, para efeitos de conversa - ocupado por esta gente, utilizar a estupidez e a ignorância para poderem levar a cabo a sua "obra ao negro". Desenganem-se aqueles que pensam que esta gente tem um programa ideológico; para tal, era necessário que tivessem ideologia e esta, por sua vez, pressupõe ideias. Não, o que esta gente tem é uma missão a cumprir, consistindo no empobrecimento da população do país, no enfraquecimento da sua força laboral e na entrega dos recursos à canalha hedionda e aos mesmos bandalhos que nos conduziram a esta situação: banqueiros, financeiros, políticos corruptos e demais gentalha sem honra, sem escrúpulos e sem moral.

2. Notícias do CDS, uma boa e outra assim-assim. Primeiro a boa: o finório do portas continua desaparecido e para mim está bem assim. Só que ainda me lembro quando o rei dos garnizés ia a Espanha atestar o depósito de combustível, acompanhado de numerosos jornalistas, protestando com voz esganiçada e olhinhos em alvo contra o preço dos combustíveis em Portugal e a inoperância do governo nessa matéria. Outros tempos e outras moralidades... Ou quando, tomando para si as dores das grávidas e das parturientes, protestava contra o fecho das maternidades, sempre com a boca cheia de "sentido de Estado", "bem público" e outras baboseiras do mesmo género. E também me lembro quando andava pelas feiras, a defender a "lavoura" (ou seriam antes os "lavouradores" ?), protestando em biquinhos de pés contra o atraso do pagamento das indemnizações. O que nos leva à notícia assim-assim: enquanto o país permanece em seca extrema e severa, a cristas, coitadita,  continua a ir a reuniões em Bruxelas. À saída, esforçada e fervorosa, lá vai dizendo que "a reunião correu muito bem, foi muito produtiva, as medidas estão muito bem encaminhadas". No entanto, passados vários meses e dezenas de reuniões, nem uma só medida foi implementada, não passando de retórica e anúncios ocos de rápida resolução de todos os problemas da agricultura/lavoura, para além das pescas, do ambiente e da ordenação do território. Perdão, esquecia-me de um grande sucesso: o gasparzinho inventou mais um imposto (o da segurança dos bens alimentares) e a cristas já o anunciou com pompa e circunstância.

3. Confesso, gasparzinho, tu aborresce-me de morte. Não é tanto porque nos foste vendido como um génio e uma sumidade que iria resolver quase todos os problemas do país, uma espécie de Nobel da Economia que poderíamos ter pelo preço irrisório de um salário de ministro e, por fim, te tenhas revelado tão incompetente como todos os outros; não é sequer pela tua profunda fealdade, por esse corpo raquítico e enfezado, nem pelas tuas expressões grotescas que revelam que és tão feio por dentro como por fora, uma fealdade que se completa com uma gesticulação ridícula e descabida; não é pelas tuas piadas parvas e pífias, que conferem uma nova definição ao conceito de parvoíce, como aquela de explicares aos deputados e à Nação que 2015 virá a seguir a 2014; não é pelo teu modo de falar, pausado e vagaroso, que apenas serve para disfarçar o facto de não teres nada para dizer; não é pelo facto de seres uma não-personagem, um santo com pés de barro, nem por seres nefasto e fazeres mal à saúde; nem por seres um cego conduzindo outros cegos para o abismo. Também não é por me provocares uma avassaladora fúria homicida cada vez que tenho o desprazer de te ver, eu que sou o mais pacífico dos seres humanos, nem por me instilares cólera e ira, a mim que sou um cidadão cordato. Essencialmente, é por me obrigares a explicar-te as coisas de um modo didático e sendo-o, poder parecer pedante ou ridiculamente erudito. Isto porque me obrigas a explicar-te as coisas tal como julgas explicar-nos: como se fôssemos parvos ou atrasados mentais e tu fosses a suprema inteligência num mar de indig~encia mental, como se todos nós tivessemos a idade mental dos teus lacaios (tens que concordar que a supracitada piada do 2015 a seguir ao 2014, além de parva, fez-te descer à categoria do palhaço rico a gozar com o palhaço pobre, uma coisa tristíssima, pindérica, labrega, que ridiculariza quem procura gozar e não o suposto gozado), como eu dizia, obrigas-me a explicar-te tudo. Assim, vou falar de pessoas de quem tu nunca ouviste falar, protagonistas e visões e autores de pensamentos que nem ousas sonhar. Uma delas chama-se Hannah Arendt, discípula de Martin Heidegger (este fica para depois, agora não tenho tempo nem paciência para te explicar quem foi) e uma das intelig~encias mais poderosas do século XX. Se tivesses lido "As Origens do Totalitarismo", terias percebido que a tese central do seu pensamento consiste na consideração de um estado totalitário como um sistema em ruptura radical com o senso comum, que este é inseparável da interrogação sobre o sentido e sobre o sentido dos lçimites. Se não percebeste, levanta o bracinho e eu volto a explicar. Longe de mim comparar-te a Eichmann nos métodos : o alemão matava 5 ou 6 mil pessoas por dia, através de métodos violentos; tu, pelo contrário, asfixias lentamente um país, reduzindo ao empobrecimento e à miséria milhares dos teus conterrâneos. Portanto, nenhuma semelhança entre os dois, pelo menos no que toca aos métodos. Porque é que me disponho então a explicar-te sumariamente o pensamento de Hannah Arendt ? Porque há uma semelhança em abstracto entre ti, a tua actuação e o conceito de "banalidade do Mal". Tenho pena de ti e essa piedade tem origem no facto de viveres num sistema totalitário: provocas o vazio no teu interior fugindo da realidade, isto é, evacuas da tua experiência e da tua imaginação (existindo ela, o que está por demonstrar) a presença concreta dos outros; exprimes "clichés" atrás de "clichés" e colocas entre ti mesmo e o mundo o écran desses lugares-comuns (Roland Barthes dizia que a estupidez é a euforia do lugar), assim te eximindo de avalaires o mal que introduzes nesse mesmo mundo; o teu pensamento e a tua sensibilidade (se é que a tens, o que fica por demonstrar) colocam-se a si mesmos num estado de banalidade que é mais do que a simples ausência de pensamento ou de senbilidade : é antes de tudo uma intencional ausência de si. É triste e cruel. Sim, gasparzinho, o mal existe e tu és só um dos seus avatares.