quarta-feira, 11 de abril de 2012

ROSA, ROSAE



Este chama-se rosalino (tem cara disso, por acaso) e tem como missão perseguir e desmantelar a Função Pública. O pensamento badalhoco dos bandalhos neoliberais tem vindo a transformar a natureza semântica da expressão; de substantivo, ou nome comum composto, transmuta-se no linguajar bárbaro do gang em adjectivo e, num salto qualitativo pornográfico-liberal, em anátema. Agora que o mito da suma sabedoria do gasparzinho se desmoronou, e ficou à vista a sua extraordinária incompetência; face ao analfabetismo político (e não só) do passos coelho, da irrelevância da cristas, da manha e do xico-espertismo do portas e da ganância e avidez do relvas, há que desviar a atenção do pagode e atribuir a um qualquer bode expiatório as culpas dos problemas que, não se resolvendo, antes se vão agravando: se a economia não cresce, se os indicadores vão de mal a pior, se a pobreza, a miséria e o crime crescem assustadoramente, a culpa é dos funcionários públicos, esses parasitas que asseguram o funcionamento da máquina estatal (na administração, nos impostos, na segurança, no fornecimento de bens e serviços, na educação, na saúde, na justiça, etc, etc.), contribuem para a produção de riqueza, pagam impostos (até ao último centavo) e fazem descontos para a Segurança Social. Não é, portanto, um bode expiatório qualquer; é uma parte essencial e estruturante do nosso tecido social, económico e cultural, que não pode ser desprezada nem espezinhada, muito menos diabolizada ou ostracizada como se fosse lixo para a canalha neoliberal reciclar a seu bel-prazer. De qualquer modo, este rosalino já teve o seu prémio: deixaram-no blindar o estatuto dos trabalhadores do Banco de Portugal, pondo-os a salvo das medidas de austeridade, cortes de salários, pensões e subsídios a que eles despreocupadamente submetem todos os outros trabalhadores. Está-se mesmo a ver porquê: é que este e o gasparzinho são funcionários dessa entidade e, quando forem corridos a pontapé, têm já a vidinha garantida, a reformazinha assegurada e as alcavalas à mão de semear.

domingo, 8 de abril de 2012

TEMPO



"Ninguém vive do Presente, porque está nele. Essa é a parte da vida, que não a nossa. Vivemos, ou da saudade, ou da esperança. Nisto somos almas, que são súbditas do Tempo, como as plantas e os que não pensam. (...)

A vida humana é feita de esperança, e por isso a vida das nações, que é a vida humana maior, é feita de profecias."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ALBERT, SAINT ALBERT




Dedicado à Teresa Tainha, leitora benevolente, atenta, fiel e crítica, no dia do seu aniversário.


No dia 4 de Janeiro de 1960, pelas 13 h e 55 m, na estrada que liga Sens a Paris, morria Albert Camus num acidente de automóvel conduzido pelo editor Gaston Gallimard. Passados todos estes anos, todos estes acontecimentos que ele não viveu, um movimento natural leva-me a perguntar: que teria ele pensado ? ou melhor, o que pensa ele ? Na verdade, não o sei já ?  Os factos repetem-se com a mecânica de uma máquina duplicadora e Camus teria dado, antes da sua morte, as respostas que o nosso presente exige. É neste ponto que a História, por vezes, parece obedecer à sua visão. Os Grandes Inquisidores invadiram Praga; os franceses torturaram e mataram indiscriminadamente na Argélia; no Vietname os homens arderam nas fogueiras acesas por outros homens, pelos políticos e religiosos que Albert Camus denunciou; a sociedade capitalista (de mercado, dizem eles) suscita a revolta metafísica que ele previu; o dogma marxista colapsou definitivamente; a Burguesia de Função ergue o domínio que ele decompôs nos seus mais ínfimos mecanismos; os terroristas islâmicos deitaram abaixo as Torres Gémeas; e não é que até os regionalismos e a ressurgência um pouco por todo o lado, até na sua amada França (veja-se o caso dos assassinatos de Toulouse) das etnias e do fanatismo religioso encontram a sua definição naquilo que escreveu sobre a verdadeira unidade, baseada no respeito e não no apagar das diferenças ?

Escutemos o que ele diz sobre o nosso tempo. E reconheçamos que poucos autores obtiveram na difícil passagem que se seguiu à sua morte esta continuidade, sem um único fio a romper-se, um só instante de esquecimento.

Podemos dizer que Camus não inventou nada, e é verdade, uma verdade sumária e redutora. Como escritor e filósofo descende em linha recta dos Gregos, de Nietzsche, Dostoievski, Unamuno (Pascal e Molière, acrescentaria ele); entre os contemporâneos, Gide, Malraux, Montherlant, sendo essas influências bem menores. Todos, no entanto, foram ultrapassados, num golpe de asa. Em todo o caso, Intermediários, seria a palavra mais justa. De facto, a obra de Albert Camus não ignora nenhuma paísagem, preocupando-se apenas com as terras essenciais, sobrevoando aquelas que o não são, sem nelas pousar.Para quem contempla as poderosas marés do Eterno Retorno, as pequenas vagas tornam-se insuportáveis. Ora, é de pequenas vagas que vive uma literatura de época. O olhar de Camus dirige-se para os cumes, talvez inacessíveis: a literatura de puro divertimento nunca o interessou, nem sequer o estilo, embora o possuísse num grau de clareza quase tão insuportável como olhar o Sol de frente.

Foi um moralista, como a maior parte dos escritores franceses. Como eles, foi-lhe impossível escapar a séculos de moral e racionalismo cristãos. Herdou a Grécia e o Cristianismo e aceitou a sua herança. Foi sempre fiel à terra, às obras dos homens, à dimensão humana aliada às forças materiais, lembrando constantemente que a justiça é, antes de mais, um equilíbrio pessoal incessantemente ameaçado, o esforço contínuo de uma dupla visão ("O Avesso e o Direito").

Vivemos num tempo em que a tecnocracia moral e a burguesia material sustituíram o tipo de moral que Camus professava, sem que eu deixe de pensar que o burguês de hoje, o tecnocrata dos becos políticos e o especialista das eficácias fragmentárias valem infinitamente menos que esse moralista (quase, quase um santo), morto em 4 de Janeiro de 1960. Nesse dia levava uma pasta que continha a obra inacabada que viria a ser publicada com o título "O Primeiro Homem". Aí se pressente a dureza do caminho que percorreu, do bairro popular de Belcourt, em Argel,ao Prémio Nobel da Literatura, passando por todas as glorificações que consagraram o homem, o combatente, o escritor e o filósofo. No entanto, o mais comovente dessa obra, o mais profundo, o mais trágico e sublime encontra-se nas páginas em que descreve o encontro com a campa do pai, morto em 1914 na batalha do Marne (viu pela primeira vez a França e morreu), tinha Camus um ano de idade, descobrindo ser "o primeiro homem", e aquelas outras em que o adolescente penetra pela reflexão e pelos estudos na grande explicação das coisas e observa a mãe, calma, profunda, impenetrável e silenciosa como o mar (mère/mer, mãe/mar, Camus aproximará rapidamente essas duas palavras) que, em toda a eternidade de miséria e aquiescência vive na intimidade das coisas.

DR. PINÓQUIO

Somos governados por uma gentalha cobarde, imoral e, sobretudo, mentirosa. Isto não é uma interpretação. São factos. Vejamos: anteontem, um obscuro burocrata europeu, depois de uma conferência de imprensa de avaliação do cumprimento do programa de ajustamento português, deu-se ao luxo de responder a questões de jornalistas num esconso corredor de uma qualquer ala da Comissão Europeia. Uma das perguntas referia-se ao corte do 13º e 14º mês dos funcionários públicos portugueses, tendo o sábio apressadamente considerado que tal corte poderia vir a tornar-se definitivo. Logo o gasparzinho veio desmentir tal vatícinio, assegurando que esse corte só vigoraria durante o período de aplicação do programa da "troika", isto é, durante 2012 e 2013. Ontem, o passos coelho anunciou com aquele ar de contrição beata e aquela máscara de constrangimento que afivela na altura de anunciar as medidas de roubo, pilhagem e confisco a que já nos habituou, que tal corte se estenderá a 2014, sendo os vencimentos roubados gradualmente repostos a partir de 2015. Ou seja, revelando grande cobardia e mendácia, aproveitou o deslize do burrocrata europeu para introduzir uma medida há muito pensada. Isto diz tudo sobre o carácter e a personalidade do indivíduo.
Já uma vez aqui disse que a direita portuguesa é a mais estúpida da Europa. Pois bem, agora acrescento que não só é a mais estúpida, como também que é a mais canalha e sebosa de todo o Universo conhecido. Aproveitam a crise para os seus ajustes de contas, sobretudo com os funcionários públicos e o "Estado", exactamente o mesmo Estado que lhes proporcionou os cursos que lhes permitiram tornarem-se advogados, economistas e políticos e assim rastejarem para fora das tocas e  das pedras onde nasceram para enriquecerem eles próprios e permitirem o enriquecimento dos amigos à custa do esforço colectivo, eternamente abancados à mangedoura do Orçamento.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

PROTESTO VEEMENTE


Segundo a imprensa de ontem, a IGAI (Inspecção Geral da Administração Interna) recomenda sanções disciplinares contra os elementos policiais envolvidos nas agressões a jornalistas e manifestantes no dia 22 de Março. Ora, eu que sou Inspector Geral do Abandalhamento da Inducação (IGAI), venho protestar veementemente contra tal recomendação, considerando-a desde já como iníqua e injusta. Como é que é possível recomendar uma sanção disciplinar contra este bravo e corajoso combatente, este Aquiles do chuço e do chanfalho, este novo Mouzinho de Albuquerque, este Paiva Couceiro da Buraca ? Por mim, recomendaria antes uma condecoração (pode ser a Torre e Espada) a entregar pelo Cavaco no dia 10 de Junho, perante as forças em parada e a multidão comovida pela consagração do Herói.

Entretanto, aproveito a ocasião para fazer um balanço da governação CDS-PP, elogiando as prestações dos três mais valorosos ministros do gang que agora nos (des)governa. São eles: o mota soares, com aquele ar de rato de sacristia devoto do onanismo e o fervor e o empenho que os patrões lhe exigem, lá tem vindo a desmantelar paulatinamente o estado social, tirando a todos os que necessitam a fim de favorecer os grupos económicos do Centralão de interesses, negócios e trafulhices (eu sei que é uma visão maniqueísta, mas gosto assim : o mundo que se divide entre o bem e o mal, o branco e o negro é bem mais inteligível e negociável que o asséptico  universo do politicamente correcto e moralmente neutro). Atribuo-lhe nota 8 pelo esforço e pelo empenho. Já não posso ser tão benevolente em relação a assunção cristas: entre rezas, candomblés e a tonga da milonga do cabulété, a senhora anda desnorteada e acrabunhada, sem saber o que fazer à seca, à agricultura, às pescas, ao ambiente e ao que demais houver e couber no MAMAOT, restando-lhe ir a Bruxelas de mão estendida, à espera de umas migalhas que os euroburocratas deixem cair no seu regaço, migalhas essas que, assim Deus o queira, hão-de aproveitar imenso ao cadáver da nossa agricultura e à falência generalizada dos nossos agricultores. Dou-lhe nota 3, sendo que um dos valores ponderados corresponde à aplicação demonstrada nas aulas de catequese dominicais ministradas pelo Padre Amaro. Finalmente, o rei da capoeira, paulo portas ele mesmo, o maior finório da política portuguesa. De volta à pose de "Estado", deixou-se daquelas declarações em voz esganiçada, proferidas em bicos de pés, de bonézinho parolo ou chapéu à caçador, durante uma visita à Feira de Gado da Corujeira ou do Nabo da Merdaleja, em defesa da "Lavoura", entretanto entregue ao descalabro da governação da Cristas. também tem estado calado no que se refere ao inquietante incremento da criminalidade violenta, da inoperância das polícias (exceptuando no que toca a agredir jornalistas) e da ineficária da justiça, não vá acontecer que a realidade nua e crua lhe estrague a fantasia de grande estadista e estradista que percorre o globo em nome da diplomacia económica que lhe vai tão bem e que só a ele tem aproveitado, visto que os resultados para o país foram até esta data absolutamente nulos. Assim, dou-lhe um 5, uma nota encorajadora, não pelos resultados, mas pela pose de estadista responsável e sereno e pelo silêncio a que se tem remetido, poupando o país à retórica balofa e vazia a que nos vinha habituando. No entanto, previno-o solenemente, vou mantê-lo sob vigilância e, tal como as agências de rating, posso baixar-lhe a notação à primeira bacorada ou proclamação inchada e patrioteira.

quarta-feira, 28 de março de 2012

PÃO, PAZ, POVO E LIBERDADE

Considerando que as grandes estrelas do comentarismo político português - sejam aquelas que opinam nas televisões ou as que opinam nos jornais ou, ainda, aquelas verdadeiras super-estrelas que poluem simultaneamente os dois meios de comunicação - não conseguiram explicar adequadamente a obsessão dos laranjas pelo José Sócrates, bem patente no último Congresso desta agremiação de ranhosos que dá pelo nome de PSD; considerando ainda que nem sequer os reputados politólogos de serviço ao comentário e ao bitaite avulso foram capazes de adiantar o mínimo argumento explicativo do fenómeno; relembrando que um ranhoso que é presidente da Câmara Municipal de Gaia, chamado Luís Filipe Meneses, se babou de gozo com uma piada parva sobre alunos e exames da Sorbonne (felizmente, desta vez não saiu a chorar depois de ter sido pateado e insultado pelos seus pares, a quem tinha acusado de serem liberais, sulistas e elitistas); tudo isto considerado, dizia eu, resolvi republicar um "post" anterior no qual adianto a minha própria teoria explicativa que, a julgar pelo modo como a gentalha laranja acanalhada se atira ao homem, ainda mantém a sua validade científica. Só mais uma nota: se Sócrates se tivesse abarbatado com um valente tacho, bem remunerado, com todos os luxos e mordomias subsequentes, tal como a canalha laranja está habituada a fazer depois de ter estado abancada durante décadas à mangedoura do Estado, beneficiando os amigos para ser depois beneficiada como pagamento pelo esforço desemvolvido na consciente delapidação dos recursos do Estado, em vez de se ter tornado um simples estudante em Paris, os canalhas laranjas lhe tivessem perdoado com o sorriso complacente que significa "Afinal, é um dos nossos..."


Um método muito, muito, perigoso


Não é Freud quem quer, mas quem pode. Ora, eu posso e quero ser o Dr. Freud durante um breve momento e psicanalisar a direita portuguesa. Dir-me-ão: qual a utilidade do exercício ? o que se poderá obter ao analisar a direita mais estúpida da Europa ? o que se alcançará penetrando nesse vazio insondável, nesse deserto sem fim, nessas catacumbas de inanidade ? Pois bem, a esses cépticos eu respondo : a resolução de um persistente enigma, enigma esse que me tem intrigado atrozmente e que passo a enunciar: qual a razão do ódio tenaz que essa gentalha tem votado a José Sócrates (ódio pessoal, não político, entenda-se bem) ? A recente onda de histeria que os agitou até à loucura depois da última aparição pública do recente estudante de Filosofia, onde tem ela a sua origem ? Finalmente, através de uma intuição muito poderosa, consegui chegar a uma resposta, a uma iluminação que estou pronto a partilhar com todos vós: não é o ódio que os agita, mas sim o amor, ou melhor, o desejo animal, primitivo, cavernícola. À menor menção do nome ou ao mais leve traço de aparição iconográfica de Sócrates, logo as hormonas de ministros e ministras, secretários e secretárias de estado, deputados, jotas e demais militantes do CDS e do PSD entram em feroz ebulição e, sem mesmo terem a coragem de o confessarem a si próprios, sentem-se completamente dominados pelo irreprimível desejo de lhe saltarem para cima, destroçarem-lhe as roupas e fornicarem com ele até se derreterem. O impulso masturbatório, logo satisfeito à socapa no recato dos gabinetes, ou na fundura macia dos estofos de couro dos Audi A7 (em Vespas não é possível) ou dos BMW de serviço, provoca-lhes um sentimento de culpa que nem a ida ao confessionário dos muito católicos poderá apaziguar. Nem ida ao confessionário, nem penitências, nem jejuns, nem mesmo a utilização de cilícios poderá apagar esse fogo que os consome e os não deixa sossegar. Só um acontecimento transcendente poderia, enfim, trazer-lhes a paz que agora não alcançam: depois de "comerem" metaforicamente o homem (fornicando-o até à morte) assarem-no lentamente numa grande fogueira e degustarem prazenteiramente o seu corpo, comendo-o agora literalmente, pedaço a pedaço (começando por aquele que todos nós sabemos), até nada restar da orgia canibal senão os corpos suados e lambuzados de sangue e vísceras, finalmente satisfeitos num último estremeção de prazer

NAMÍBIA - AVES






Imagens de Sofia P. Coelho

terça-feira, 27 de março de 2012

Valor e Coragem



Esta fotografia documenta um momento-chave nos acontecimentos do passado dia 22 de Março: o momento em que um valoroso e corajoso profissional da PSP agride à bastonada uma repórter fotográfica que, carregada de material fotográfico (o género de material que os desordeiros costumam levar para as manifestações e utilizar contra os agentes da polícia), representava uma grave ameaça para a ordem pública em geral e , em particular, para a segurança deste valente. Podemos dormir descansados, o fácies deste bravo é um símbolo da luta anti-crime levada até às últimas consequências: tanta ferocidade contra uma rapariga indefesa, uma mera jornalista no desempenho da sua profissão, podemos imaginá-la quando se tratar de enfrentar ladrões e outros criminosos: aqueles óculos escuros, aquele esgar de leão que solta as garras, aquele empenho em golpear empenhando todo o corpo, se algum forem empregues contra criminosos farão de Portugal o país mais seguro do Mundo.
Ironia à parte, devo dizer que este é um daqueles ranhosos  que vi às dezenas quando fui instrutor nos Rangers: muito valentes contra os fracos; muita prosápia nos comboios e nos cafés, borravam-se todos quando tinham que se arriscar a sério, borregando que nem cachorrinhos perante o verdadeiro perigo e chamando pela mamã quando a coisa apertava. Este palerma é um sério candidato a uma comenda no próximo dia 10 de Junho ou, quem sabe, para "nouvel" detentor da gloriosa Torre e Espada.

sexta-feira, 23 de março de 2012

RESISTÊNCIA – 20 ANOS DEPOIS






A Resistência existe muito aquém do lugar das estrelas,
Muito longe delas…
Cantará sempre…e os sons
Elevar-se-ão aos céus.
Em Lisboa
E as guitarras tocarão para sempre.

Pedro Ayres de Magalhães in “Mano a Mano”, 1992




No final de 1991, uma improvável junção de músicos de várias proveniências, apresenta-se pela primeira vez ao vivo no teatro S. Luiz em Lisboa.” Improvável”, porque elementos de bandas que à primeira vista nada tinham de comum (Tim /Xutos & Pontapés, Miguel Ângelo e Fernando Cunha / Delfins, Pedro Ayres de Magalhães (ex Heróis do Mar e Madre Deus) e Olavo Bilac (Santos e Pecadores), e ainda Fernando Júdice e José Salgueiro (recém-saídos dos Trovante), Alexandre Frazão, Fredo Mergner e Rui Luís Pereira, se envolveram num projecto comum que, ao recuperar temas antigos numa roupagem acústica, quase folk, dava prioridade aos poemas. Cantando as palavras desta nova forma, foi possível trazer ao conhecimento do grande público, alguns temas que haviam passado despercebidos em versão rock na década anterior. A adesão foi praticamente total e imediata e, dessa forma, temas como “Não Sou o Único”e “Nasce Selvagem” transformam-se, com a nova proposta, em hinos de uma geração, de um tempo prodigiosamente criativo.
Para além dos dois álbuns publicados com enorme sucesso de vendas, e aqui reeditados nesta edição comemorativa (“Palavras ao Vento” e Mano a Mano”), ficam para a memória os concertos ao vivo. Para além do já referido concerto de apresentação no teatro s. Luiz, há a destacar o do Armazém 22 em 1992, dando este último um álbum ao vivo. Destaca-se ainda a participação dos “Resistência” no concerto “Portugal ao Vivo” no estádio de Alvalade, onde cerca de 50 mil pessoas celebraram várias bandas e muitas das canções que os “Resistência” também cantavam.
Durando pouco mais de dois anos, o projecto “Resistência” serviu de catálogo do cancioneiro disperso de uma década, mas foi também a marca vincada de uma geração que encontrou na música o seu mais alto e mais significativo elemento de expressão. Assim como um marcador no livro da História. A junção e solidariedade entre várias tendências, provou que era possível ultrapassar o egoísmo sectário de uma sociedade dividida por partidos e construir o futuro. Uma geração que entrou em cena tão depressa como saiu, esquecida dos discursos oficiais do poder.
A celebração dos 20 anos deste projecto musical é uma maneira de celebrar um tempo e uma geração, uma maneira de manter a tocar as guitarras eternas que subiram aos céus…

Artur