domingo, 23 de outubro de 2011

AND JUSTICE FOR ALL


AND JUSTICE FOR ALL

Norman Jewison

EUA, 1979

Num tribunal de Baltimore a funcionar a tempo inteiro, advogados, juízes, policias e funcionários judiciais vivem uma azáfama diária sem muito tempo para respirar. A complexidade e a urgência do funcionamento do sistema acelera os ritmos de vida, a um ponto em que é difícil reflectir sobre o mais importante de todas aquelas tarefas. A correcta administração da justiça e as consequências humanas do resultado do trabalho dessa gigantesca máquina que deve garantir “justiça para todos”. Arthur Kirkland (Al Pacino) é um jovem advogado dividido entre essa existência stressante e a correcta defesa dos direitos dos cidadãos.
Dividido entre o drama e a comédia causada pelas circunstâncias do quotidiano, o filme acompanha a vida desses funcionários da justiça, as suas misérias e contradições e centra-se na luta divisória comportamental entre o lado prático e material da vida e o das consciências. Perante um conflito interior insanável os seres humanos ou estoiram submergidos nessa contradição ou desenvolvem defesas, desvios comportamentais para se defenderem. Um advogado (Jeffrey Tambor), quando percebe que, através de uma habilidade técnica consegue pôr em liberdade um homem que a seguir assassina duas crianças, enlouquece temporariamente. Um juiz, antigo veterano na Guerra da Coreia, ensaia comportamentos suicidas nos intervalos da sua actividade. Passeia-se com um código civil na mão e um revólver debaixo do braço. Outro juiz (John Forsyth), inflexível e extremamente duro na aplicação da lei revela-se um pervertido implacável. E é este mesmo juiz que vai nomear Kirkland para seu defensor. Encurralado, Arthur vê-se obrigado a aceitar a defesa de um homem que já o tinha mandado prender por desrespeito ao tribunal. Se recusar, está sujeito a ser expulso da ordem e impossibilitado de exercer advocacia. É este paradoxo que vai crescendo na cabeça de Kirkland ao ponto de explodir em pleno julgamento. O filme levanta questões extremamente importantes em torno da moralidade humana e do confronto que é continuar válido e vivo dentro do sistema e, ao mesmo tempo defender essa mentalidade, esses valores de justiça e humanismo que todos transportamos.
Mais uma grande interpretação de Al Pacino no filme que se seguiu ao PADRINHO, com a particularidade de contracenar com o seu grande mestre do Actors Studio. Lee Strasberg interpreta o avô que vive num lar e que tem grandes falhas de memória. Um filme a que todos devemos voltar de vez em quando.

Artur

sábado, 22 de outubro de 2011

O CORNO DO RINOCERONTE

Lembro-me de há alguns anos atrás ter visto um filme russo onde uma família se apresentava numa hospedaria. O pai, devidamente fardado de oficial do exército, explicava que tinha acabado de ser destacado para aquela cidade e que procurava alojamento temporário enquanto não encontrava uma casa. A história é-nos contada enquanto memória do filho entretanto adulto. O oficial, que afinal era seu padrasto, a mãe e o rapaz, ficavam então alojados, conquistando a simpatia dos outros hóspedes e do dono (ou dona) da estalagem. Passados alguns dias, o respeitoso oficial aparece com uma série de convites para a ópera. Convites esses que faz questão de oferecer a todos os seus vizinhos de quarto. Há uma sessão nessa noite e alguém lhe facultou os bilhetes. Toda a gente agradece a generosidade do novo hóspede e prepara-se para a grande noite. Enquanto estão todos na ópera, o oficial, a mulher e o enteado tratam de esvaziar literalmente tudo o que podem da pensão vazia. Despacham-se para o comboio e partem para outra cidade a fim de dar mais um golpe. Esta situação ocorre duas ou três vezes, até que o falso militar acaba por ser detido e preso. Mas isto passa-se num filme.
Na vida real o colectivo continua sistematicamente a ser entretido e insiste em ser roubado. Só que os ladrões conseguem sempre escapar e não precisam de falsas identidades, nem de apanhar o comboio para fora da cidade.
Chama-se o pagode para a rua e avançam as variedades. O jogador que abandonou a selecção porque amuou, os impostos dos ricos, os cornos de rinocerontes que valem uma fortuna, a taxação da fast food, julgamentos da grande corrupção, vale tudo no elenco da distracção. Agitam-se ao vento bem alto todas estas notícias vazias com grande alarido. E depois é deixar passar uns tempos, deixar o esquecimento ganhar espaço, inventar novas distracções. O pagode guincha de delírio, ri e vocifera consoante a dança. E no fim, volta para casa e percebe que já lá não tem nada. Foi gamado para além do tutano, foi roubado até à alma, porque muitas vezes o roubo acaba-lhe com a vida. E o serviço noticioso é esta ópera errática apresentada todos os dias a todas as horas, sempre da mesma maneira em todas as diferentes salas de exibição (TVs). Já não chega roubar-nos de todas as maneiras e feitios, já não chega alargar mais ainda o fosso entre senhores e escravos, agora até o próprio espectáculo, até o próprio entretenimento está a tornar-se de muito má qualidade. A distracção já não cumpre o seu objectivo porque as mentiras estão cada vez mais mal contadas. As ideias dos argumentistas estão fracas e os seus argumentos pouco credíveis. Os actores representam cada vez pior e convencem cada vez menos. A opera está a degradar-se a olhos vistos. E, pelo andar da carruagem, vamos acabar todos a vaiar a companhia, ou a nem sequer ir ao teatro. Porque muitos de nós estarão mortos antes disso.

Artur

sábado, 15 de outubro de 2011

A SOFIA NOS STATES


É com muito orgulho e satisfação que anuncio aqui que a partista e nossa amiga Sofia P. Coelho está a competir no terceiro concurso anual de fotografia em torno do parque natural de Yosemite, o 2011 Ansel Adams Gallery Photo Contest. Por estas bandas já sabíamos que trabalhávamos ao lado de uma excelente fotógrafa... Agora é a vez do mundo o reconhecer. Sofia, muitos beijinhos de parabéns e que corra tudo pelo melhor. És linda!

Artur, Arnaldo e João

Mais informações, aqui:
http://www.theanseladamsgallery.com/wp-content/plugins/wp-photocontest/view.php?post_id=4&order=chrono

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FEIRA DO LIVRO DO TRIPULANTE




Está a decorrer até dia 21 a primeira Feira do Livro do Tripulante nas instalações do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) na Av. Gago Coutinho. Apresentando cerca de 30 autores, esta primeira iniciativa pretende não só dar a conhecer algo mais sobre a actividade dos tripulantes como promover o debate e divulgação literária. Com iniciativas diárias todas as tardes de 2ª a 6ª, o programa da Feira conta com vários convidados que, não sendo tripulantes, estão de alguma forma relacionados ou com as suas vidas ou com as suas actividades. De facto, trata-se de uma classe profissional que acumula as mais diversas actividades paralelas, indo desde escritores a artistas plásticos, actores, cantores líricos, arquitectos, advogados e até médicos. A actividade de tripulante de cabine, apesar de pouco esclarecida junto da opinião pública, permite, pelas suas características próprias, um espaço paralelo de intervenção na sociedade que vai muito mais além do simples desempenho profissional. Quase a chegar a meio da sua duração, a Feira do Livro é mais uma iniciativa nesse sentido. Pela minha parte enquanto autor, estarei presente no próximo dia 21, 6ª Feira, no dia do encerramento, juntamente com o João Pais, o Afonso de Melo (amigo e jornalista) e o Carlos Lopes (amigo e Professor de Português) para um debate em volta dos livros das histórias e de tudo o resto que a assistência quiser falar. Agradeço desde já à comissão que organizou (José Ceitil, José Borges e José Brás) e ao SNPVAC e à APTCA (Associação Portuguesa dos Tripulantes de Cabine) o apoio decisivo que tornou esta iniciativa uma realidade. A entrada é livre e o programa pode ser consultado no site da Associação. Dependendo do sucesso que tiver agora, está aberta a porta para outra iniciativa igual no próximo ano. Se gostam de livros e de histórias escritas por tripulantes então não percam esta I Feira do Livro do Tripulante.

Artur

sábado, 8 de outubro de 2011

LOCAL HERO




LOCAL HERO

Bill Forsyth

Reino Unido, 1983

Um bom filme é como uma receita extraordinária em que nenhum dos ingredientes falha, nem na quantidade nem no papel decisivo que representa para a degustação final. Um nível de perfeição que ultrapassa a vontade e o empenho de cada elemento que o compõe, transcendendo-se desta forma através do superior desígnio do “perfeito colectivo”. Foi isso que aconteceu em LOCAL HERO, daí tratar-se de um filme a que regresso várias vezes.
Tudo começa nos escritórios da Knox Oil and Gas, uma gigante petrolífera americana, quando o excêntrico patrão, Harper (Burt Lancaster), convoca o jovem executivo Mac Intyre (Peter Riegert) para uma reunião no seu gabinete. A grande petrolífera pretende construir uma refinaria no norte de Escócia, já está tudo planeado até ao mais ínfimo detalhe, excepto um pequeno pormenor. Há uma aldeia costeira no caminho do progresso. A tarefa de Mac Intyre é a de viajar para lá e iniciar o plano das indemnizações aos habitantes de Ferness. A escolha recaiu nele porque, o nome assim o indica, se trata de um descendente de escoceses, o que facilitará a aproximação aos mais desconfiados. Mac Intyre, muito mais habituado a tratar de dados estatísticos, a fazer projecções e a armazenar ficheiros no pequeno espaço do seu escritório, não fica muito contente com esta nova missão, embora lhe seja completamente impossível recusar. Além do mais, Mac Intyre é descendente de emigrantes húngaros. Os pais escolheram aquele novo apelido no acto da naturalização, pensando tratar-se de um nome tipicamente americano. Está dada a partida para uma série de equívocos que se seguem uns aos outros até ao fim do filme. Nenhuma certeza ficará de pé.
O primeiro choque começa de imediato com a chegada do executivo americano da grande cidade a uma pacata aldeia com pouco menos de um centena de habitantes. Espaços diferentes, tempos diferentes, velocidades diferentes, existências diferentes. O choque cultural é inevitável, simbolizado talvez pela existência de um único telefone, uma cabine pública. Cada vez que Mac Intyre quer telefonar para o seu patrão tem que fazer uma colecta de moedas, e nunca chega. Os telemóveis ainda não tinham sido inventados. A reacção inicial de extrema desconfiança por parte dos aldeões não facilita o trabalho de um espírito prático e empreendedor, habituado a obter resultados rápidos no seu trabalho. Para estabelecer a ponte entre os dois tipos de interesses há o “chico-esperto” da terra, Gordon Urquhart (Denis Lawson), dono do único hotel e contabilista nas horas vagas. Casado com Stella (Jennifer Black), uma mulher que despertará uma paixão incómoda a Mac Intyre. Outra mulher importante nesta história será Marinna (Jeanny Seagrove), uma bióloga marinha que vê com muito maus olhos as consequências ambientais que a refinaria causará na região. Para uma simples aldeia piscatória, existe uma abundância de personagens excêntricos, desde um padre negro (perplexo quando Mac Intyre lhe pergunta quanto é que quer pela igreja e pelo cemitério) até um motociclista misterioso, passando por um eremita que vive na praia (Bem Knox, Fulton Mackay) e um visitante ocasional, o marinheiro russo Victor (Christopher Rozycki).
Sobre toda esta aparente desestabilização provocada na pacata aldeia de Ferness pairam também momentos que ainda desorganizam mais a narrativa. Por um lado a grande paixão de Harper pela astronomia. Numa das conversas na cabine telefónica, Mac Intyre é obrigado a descrever o céu por cima da cabeça sem nada perceber de observação de estrelas. Será o interesse pelos céus que vai levar o grande patrão da Knox Oil a deslocar-se pessoalmente à aldeia para verificar in loco as extraordinárias condições de observação astronómica que a região proporciona. Depois temos ainda um motociclista misterioso, que todos na aldeia conhecem, que de tempos a tempos passa em grande velocidade, mas que nunca para. Uma homenagem a Fellini em ARMACORD, onde se desenrola uma cena igual.
Finalmente, quando os aldeões se convencem a ceder, a fazer contas e a esfregar as mãos de contentes com o que vão fazer com as indemnizações, tudo volta ao princípio. Afinal o dono de todos aqueles terrenos é o eremita que vive na praia, Ben, e não está disposto a vender coisa nenhuma. Após uma longa conversa entre Harper e Ben, aquele decide construir a refinaria no alto mar e dotar a aldeia de um equipamento de observação astronómica. O representante da Knox Oil na Escócia (Danny) sugere juntar ao observatório um instituto de pesquisa oceanográfica, presenteando assim os anseios da sua grande paixão, Marina. Os dois reunidos poderiam chamar-se Harper’s Institute. Harper concorda e manda MacIntyre de regresso a casa para tratar das papeladas. Mais tarde já no seu apartamento em Houston, MacIntyre deambula pela casa lentamente. Depois pega no telefone e faz uma chamada. Do outro lado do mundo, uma cabine telefónica toca isolada na aldeia. Ninguém atende. Em crescendo começa a ouvir-se o tema “Going Home” dos Dire Straits.
É a extrema ingenuidade narrativa que torna LOCAL HERO num filme de uma humanidade grandiosa, na medida em que é real, e honesta a forma como se apresenta. As contradições fazem o nosso quotidiano, não há verdades absolutas e o mundo pára quando nos reunimos num bar a ouvir musica, independentemente do lugar de onde vimos. É essa solidariedade, esse companheirismo e essa “infantilidade” que nos mantém vivos muito para lá de qualquer feito que consigamos alcançar, por mais grandioso que seja. O resto é o céu, a aurora boreal, um motociclista misterioso e uma cabine telefónica que toca sozinha na solidão da noite.


Artur

terça-feira, 4 de outubro de 2011

MARGINALIA



"Marginalia: anotações, comentários, sublinhados, sinais gráficos deixados por um leitor na margem e à margem do texto impresso"

A dada altura da entrada "Desempacotando a minha biblioteca" (pg. 209 "Imagens de pensamento", Assírio & Alvim, Lisboa), escreve Walter Benjamin : "De todas as formas de obter livros, a que se considera mais louvável é escrevê-los. Alguns de vocês estarão a pensar, divertidos, na grande biblioteca que o mestre-escola Wuz de Jean Paul foi acumulando com o tempo, recorrendo ao expediente de escrever ele próprio todas as obras cujos títulos lhe interessavam nos catálogos das feiras, mas que ele não podia comprar. Os escritores são de facto pessoas que escrevem livros, não por pobreza,mas por insastifação com os livros que poderiam comprar, mas não lhes agradam." Aquilo que Benjamin deixa subentendido é que não são as carências materiais, mas as existenciais que levam os escritores ao exercício da escrita; querem ver no papel as palavras, ideias e conceitos que ainda lá não estão, mas precisam absolutamente de estar; as histórias que ainda foram articuladas;as que ainda não foram bem contadas ou, por último, que precisam ou mereçam ser contadas e expressas na sua própria língua.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Á MINUINS E UNDERSTANDS



A Dra. Assunção Cristas, diriginte do MAMAOT (Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território) anunciou recentemente à Nação a urgência do aumento do tarifário da água. Numa comunicação realizada num português impecável, Sua Excelência não se referiu directamente à dimensão económica de tal medida, optando por comentar o efeito imediato e importante da mesma: a consciencialização dos portugueses em relação ao consumo do precioso líquido, fazendo-os compreender que o mesmo é um bem, logo tendo um custo. O conceito é tão profundo e tão brilhante que não me atrevo a abordá-lo sem estar munido dos meus óculos de sol (factor 500). No entanto, encho-me de coragem para antecipar alguns efeitos pedagógicos: os desempregados passarão a ter mais cuidado na altura de encherem as piscinas (compradas com empréstimos do BPN) e, quando lhes apetecer a refrescante banhoca no meio das tropicais palmeiras que enfeitam e embelezam os seus jardins poderão optar por um mergulho numa tina de metal (média) cheia de ácido sulfúrico; a rapaziada do ordenado mínimo nacional deixará de lavar os Porsches e os Mercedes no pátio dos condomínios de luxo, passando a considerar a sujidade dos seus automóveis como um símbolo das longas estradas poeirentas que percorrem para atingir o monte alentejano onde passam os fins-de-semana; o pessoal beneficiário do RSI passará a tomar um duche rápido, em vez de amolecer durante horas no "jacuzzi" que equipa a "penthouse". Aliás, para esta última classe de indivíduos, particularmente execrandos, cujo principal passatempo consiste em desperdiçar água, recomendar-se-ia, em caso de reincidência e contumácia, a aplicação de penas de trabalho comunitário que consistiriam, por exemplo, na lavagem dos submarinos (com água do mar) e a rega dos sobreiros de Benavente (com a água sobejante das lavagens de louça). De qualquer modo, podemos inferir das palavras da Dra. Cristas uma importante conclusão sociológica: os portugueses são todos ricos e vivem uma relação de tal modo despreocupada com o dinheiro que ainda não tinham percebido que a água tinha um custo (bem como a eletricidade, o gáz, as comunicações e os combustíveis, dos mais caros de toda a Europa). Pobres, nós ?! Só se for de espírito. Pelo menos, temos assegurado o Reino dos Céus

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

RAY, NICHOLAS RAY



"Estás a despedaçar-me!"

(James Dean em "Rebel Without A Cause")

Porque foi Nicholas Ray tão admirado pelos críticos franceses dos anos 50, e uma tão grande fonte de inspiração para aqueles que viriam a tornar-se os realizadores da Nouvelle Vague ? A resposta reside, talvez, na observação muitas vezes repetida por Ray acerca do limitado contributo do argumento para o resultado final do filme - afirmação que ilumina a sua abordagem decididamente não-literária da arte cinematográfica - e no agudo sentido da dor pessoal e da angústia evocadas pela frase em epígrafe, retirada do seu filme mais conhecido.
Ray foi um marginal em Hollywood, um homem cujo profundo desapontamento com a sociedade americana em geral e com a indústria cinematográfica em particular veio a manifestar-se não apenas na sua conturbada relação com os estúdios cinematográficos, mas também no conteúdo dramático e na força impulsionadora da sua obra. Os seus filmes constituíram, em grande parte, poderosas e profundas contribuições pessoais para aquilo que foi, e ainda é, uma camisa de forças, especializada na produção de entretenimento de massas, homogeneizado e de sentido débil; expressaram a sua consciência de tormento íntimo, solidão e desespero, conflito e confusão, fazendo-o apenas através de meios cinemáticos.
Para Godard, Truffaut, Rohmer, Rivette e outros, Ray era o exemplo acabado de um "auteur", um admirável exemplo de um artista, cuja inteligência patente, intensidade de sentimento, e puro amor ao cinema asseguravam que a sua assintaura criativa podia ser viva e facilmente percebida entre toda a tralha constituída pelo cinema comercial norte-americano.
Para mim, para nós (um grande abraço ao Artur, esse maravilhoso cinéfilo, que descobriu e conheceu tantas coisas antes de mim), os seus filmes representam o triunfo do individual sobre a segura e branda conformidade do sistema, alinhando com Von Stroheim, Buster Keaton ou Orson Welles - talentos de ambiçaõ massiva ("bigger than life", outro título de um dos maiores filmes de Ray), originalidade e génio esmagados pela lógica implacável do sistema filistino que imperava em Hollywood.
Ray possuía aquilo a que os gregos chamavam "sabedoria de Sileno", ou seja, a capacidade de reconhecer o sentido trágico e pessimista da vida humana, de olhar com coragem essa condição e de a traduzir em expressão artística. As suas personagens falam muitas vezes por ele próprio - já referi numa postagem anterior a fabulosa frase "I always contradict myself" de "Bitter Victory" - e, assim sendo, poderia ser Ray a proferir a frase "I'm a stranger here myself", dita por Sterling Hayden em "Johnny Guitar". Esta estranheza, esta sensação de desenraízamento, poderá explicar em parte uma das características quanto a mim maiz bizarras do seu percurso artístico: a indiferença em relação aos gostos dominantes, ao polimento estético, ao equilíbrio ,contenção e outros modos de expressão mais convencionais e respeitáveis. Ao mesmo tempo, não foi particularmente inovador, quer em termos técnicos, quer formais; a maior parte das vezes trabalhou no contexto de géneros populares e tradicionais, como o western, o thriller, o filme de guerra ou o melodrama. E é precisamente essa tensão, entre a sua sensibilidade pessoal, e os constrangimentos do cinema comercial, que tornam a sua obra tão interessante, tão duradouramente moderna e de tal maneira influente na obra de sucessivas gerações de cineastas. A sua importância releva não apenas dessa influência, reinvindicada ou não, mas do facto de milhões de jovens continuarem a atestar o poder de "Rebel Without A Cause" na expressão de emoções, realçando o modo como Ray transcendeu o seu tempo com uma visão da vida que continua a afectar-nos: dor, ansiedade, incerteza, violência e solidão são elementos da condição humana, e poucos realizadores, especialmente em Hollywood, os confrontaram tão directa e intensamente, de um modo tão pouco comprometido como Nicholas Ray. Mesmo nos seus filmes mais convencionais, a sua sensibilidade perturbada pelo pessimismo constitui uma força activa na caracterização quer de indivíduos, quer da sociedade. É por isso mesmo que teremos que voltar sempre a esse "corpus"cinematográfico único e pungente que, apesar de tudo, de toda a angústia e mal-estar, celebra a singular e dolorosa preciosidade da vivência humana e da capacidade de alguns indivíduos resgatarem aquilo que resta de dignidade, liberdade e sentido na trágica condição humana. É por isso que sempre voltaremos aos filmes de Nick Ray, relembrando o fabuloso diálogo de "On Dangerous Ground" entre o detective protagonizado por Sterling Hayden e outra personagem:

" - Lixo, é tudo aquilo com que vivemos. Lixo ! Como é que consegues viver com isso ?
- Eu não vivo com isso. Vivo com outras pessoas"

sábado, 24 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA – EPÍLOGO




A.B. e C.


O Pavilhão do Dramático de Cascais já não existe, a Escola Secundária de Belém-Algés foi demolida, os Ramones já morreram todos (menos um), o tempo daquele tempo evaporou-se e nem a lembrança nostálgica o fará pôr de pé outra vez, regressar das profundezas do passado.
O mais certo é nunca termos estado aqui, nem de passagem. O mais certo é sermos apenas sombras errantes que julgaram ter tido um corpo, uma memória, uma consciência. Breves nuvens de fumo a pairar sobre a assistência enlouquecida de um concerto de uma banda punk nos anos 80. Ruídos de comboios ensurdecedores que nunca aconteceram assustam-nos os sonhos ainda hoje numa terra despojada de sentido, de lógica, de esperança. Nem acusamos nem lamentamos nada, limitamo-nos a recordar como se as recordações tivessem sido factos reais, como se a Vida tivesse alguma vez tido lugar dentro de seres que nunca acreditaram em nada a não ser em si próprios vagamente. Sementes que germinaram e cresceram no anonimato, ignorados, esquecidos, vagamente considerados como dados para estatísticas. Se calhar nunca estivemos aqui, livros perdidos numa estante de um escritório numa casa esquecida pelos arquivos municipais, num canto perdido da cidade.
Se calhar nunca houve uma vida digna desse nome, um caminho bem delineado por marcos e referências, um piso irregular para caminhar, um ponto de partida e outro de chegada. Se calhar nunca houve nada.

Artur

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA III




C.


Gosto de estar nesta casa ao pé do mar, acho que estou em Oeiras, gosto de ficar aqui depois do lanche a observar o fim do dia. De vez em quando aparecem duas lagartixas no rebordo da varanda a quem eu dou migalhas das minhas bolachas. Chamei-lhes Ângelo e Bruno porque têm o nome de dois tipos que de vez em quando me vêm visitar, dois antigos colegas da CIA com que eu trabalhei há muitos anos no Médio Oriente. Como sou reformado pensionista, isso quer dizer que já não posso trabalhar, devo ter sido ferido nalguma missão arriscada. Eles nunca tocam no assunto, um vem de mota, sempre a meio da semana, deve ser antes de ir para casa. Sei porque aparece com o capacete debaixo do braço. A outra casa onde estava era pior que esta. De vez em quando o vizinho ligava uma musica aos berros, uma musica que, depois de muito tempo desligada continuava a tocar na minha cabeça. Às tantas parecia um comboio a andar por cima da casa, um comboio muito ruidoso que eu tinha a certeza que ia fazer cair as paredes, que nos ia soterrar vivos. Nessa altura ficava muito perturbado e desatava a gritar. Depois davam-me injecções e tudo acalmava outra vez. Desde que vim para esta casa perto do mar já não ouço essa musica, limito-me a ficar muito triste se por acaso há barulho à minha volta. Desde que não haja barulho, está tudo bem, consigo desenhar o Zé Carioca com um papel vegetal por cima, consigo ler duas páginas de um livro, um livro qualquer, o que interessa é conseguir terminar uma página que seja, o médico diz que eu estou a fazer progressos apesar de já não me lembrar da idade que tenho. Mas há-de vir, há-de chegar, a memória é muito destruída por causa da medicação forte. No outro dia consegui adaptar um emissor receptor na cauda do Bruno. Isso vai-me permitir localizá-lo durante a noite, saber onde ele está, se está em segurança ou a fugir de algum cão vadio que o queira comer. Não sei a minha idade mas sei que já fui jovem, é óbvio, basta olhar ao espelho para perceber que estou mais perto de morrer do que de outra coisa. Mas perto de morrer estamos nós todos, todos os dias desde que nascemos. A morte é isso, uma companheira permanente e indesejada, uma sombra que caminha colada à nossa sombra. No fundo tudo se resume a uma simplicidade insuportável, uma transparência que se pode ler em três frases e dois acordes de guitarra. O mais assustador é que nunca estamos preparados para uma visão tão simples das coisas. Estamos aqui mas também estamos noutro tempo, noutra dimensão, na nossa juventude a dançar na praia ao amanhecer, num comboio que viaja no espaço a caminho da Nave Mãe, onde está a decorrer um acontecimento fantástico. Eu digo isto porque desconfio que já fiz todas estas viagens que há para fazer, já falei como seres dos outros mundo que me explicaram que está tudo bem, o que é preciso é não exagerar, o que é preciso é que nos vamos amparando uns aos outros ao longo do caminho, sermos amigos, conseguir acompanhar a respiração da montanha. O resto virá, o resto resolve-se por si, a morte não é nada, é apenas mais um meio de transporte entre dimensões. Sei que aqui e agora ajudo as lagartixas ao fim da tarde e, muito depois de eu morrer, elas hão de vir ter comigo, porque é assim, porque somos amigos e os amigos servem para se encontrarem, para se ajudarem, para se empurrar uns aos outros pelo caminho. Os caminhos de pedras só nos são dados a percorrer para aprendermos estas verdades básicas. Uma simplicidade insuportável porque começamos a ler o livro da vida pelos últimos capítulos e não pelas primeiras páginas, como eu faço agora. Assim é que se devia começar, em vez de acreditar em coisas que não estão lá a não ser na imaginação da propaganda que nos formata a cabeça. Nós somos livres, somos sempre livres e o sofrimento serve apenas para fortalecer essa liberdade do espírito, essa conquista obrigatória da evolução do Ser. Lembro-me vagamente de uns quantos pensadores alemães que arrepiaram caminho nesse sentido, só que agora esqueci-me dos nomes deles. E gregos também. E lagartixas que como o mar, nós e o ar que respiramos, fazem todos parte da mesma realidade que não é real, apenas uma imagem para ajudar a aprender, todos somos a parte uns dos outros. O sofrimento é apenas uma ponte para ficarmos mais fortes. A vida, como a julgamos entender, não existe. A Vida nunca existiu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA – II






B.

Não sei se foi o telefonema da minha mulher (“quando vieres para casa não te esqueças de ir aos frangos, não temos nada para jantar), sempre oportuna, quando estou concentrado a fazer alguma coisa, se foi a cara de palonso do meu cliente que quer pagar menos 50 euros de pensão à mulher dele, se foi a mulher que estava ali a vender castanhas na rua, se foi o olhar vazio daquela rapariga mal vestida e com ar sujo à porta do estádio da Cruz Quebrada quando fui correr de manhã. Nunca sei nada em relação às razões de ser do que quer que seja. Baralho-me a mim mesmo a um ponto que me é extremamente difícil encontrar o caminho e sair em qualquer direcção, da confusão em que me meti. Acho que foi sempre assim. Resolvo as equações mais complicadas com muito mais facilidade do que consigo resolver os meus problemas. No fundo o que eu acho é que os problemas que vou encontrando também me pertencem e, como não os posso resolver sem a colaboração dos outros, acabo por não conseguir resolver nada. E o gajo quer pagar menos 50 euros, a escola dos filhos custa 400 a cada um, e sôtor trate lá disso que a minha ex-mulher não precisa do meu dinheiro para nada, o pai dela é rico, e resolva lá isso, e eu resolvo e escavo na lei a conveniência que mais interessa a este palonso que vai pagar menos 50 à mulher e mais 200 a mim. Mas que é que se pode fazer? O mundo é assim desde muito antes de eu nascer e não foi por eu aparecer que o vento passou a soprar noutra direcção. E faço o que esperam que eu faça desde que me conheço porque essa é a única maneira de não ver a minha mioleira torrada, essa é a única maneira de não me chatearem a cabeça, de pagar a faculdade dos meus filhos, sustentar a casa, encarar o saloio do meu sogro sem precisar do dinheiro dele, atravessar a vida com alguma tranquilidade, pagar a casa de saúde ao Camilo.Inquestinavelmente o mais inteligente de todos nós, infelizmente dominado pela depressão.
E no entanto houve um tempo em que as coisas podiam ter marchado noutra direcção, um tempo em que me distraí a fazer equilibrismo à beira do poço, um tempo em que o desinteresse tomou conta dos dias, um tempo em que nada me interessava. Valeram-me o Ângelo e o Camilo, a sorte de encontrar os gajos certos no momento certo, mesmo antes da precipitação pela ladeira abaixo. Não sei qual das imagens do dia é que me fez regressar aquela noite fantástica em que tudo aconteceu, aquele momento tão determinante que me fez atravessar a agulha da linha para a estação certa, o que sei é que nunca me vou esquecer dele. Não, não, foi aquela rapariga mal vestida e com ar sujo à porta do estádio depois de ter ido correr. Foi no semáforo fechado em que tive que parar com a mota. Vi o Tejo à minha frente e, mais para a esquerda, vi a sala 32 da escola onde estive no 12º ano, a sala onde nos reuníamos para o “charro” das 5 antes de ir para casa, a escola onde conheci o Ângelo e o Camilo, a escola onde a minha vida podia ter escolhido direcções opostas, a escola que já lá não está, como se nada daquele tempo tivesse alguma vez acontecido. A escola onde andámos e a estação de Cascais à espera deles, que desembarcavam de um comboio de Marte com as criaturas mais estranhas lá dentro, “Freaks”, “Punks”, indiferenciados, com ar ausente como se uma potente mistura química estivesse a circular nas condutas do ar das carruagens desde o Cais Sodré. Do concerto lembro-me do princípio e do fim. No Dramático de Cascais os Ramones chegaram com Rockaway Beach, tocaram as primeiras cinco músicas sem parar, indiferentes aos aplausos ( o baterista dava três berros nos últimos compassos da cada musica e eles arrancavam de imediato para a seguinte), finalmente disseram boa noite ou qualquer coisa do género. O pavilhão navegava no espaço descontrolado, as pessoas dançavam, atiravam-se ao chão, urravam e faziam milhares de coisas ao mesmo tempo, nuvens de erva pairavam sobre as nossas cabeças, não havia maneira de evitar respirá-las. Porquê os Ramones? Porque para eles tudo era simples e veloz. Em três frases e dois acordes despachavam os problemas mais difíceis. Para nós bastava estremecer os corpos e ligar à corrente eléctrica que o mundo desaparecia naquele instante, as ondas más saíam porta fora e ficava só a vibração, uma vibração nem boa nem má, mas uma força intensa que nos elevava aos patamares mais elaborados da consciência. A minha mãe não tinha morrido quando eu tinha 15 anos, o meu pai não passava a vida a trabalhar numa multinacional pelo mundo fora e eu não estava sozinho na minha casa no Birre, a meio caminho do Guincho e de Cascais. Os coices da vida não me acertavam e a música era um estado eterno de vibração. Às vezes ainda sinto isso quando aperto as goelas à mota na A5 a caminho de Cascais e obrigo-nos a vibrar a um ponto muito perto da explosão. Não é o caso de hoje. Hoje tenho que ir à igreja. Subo com a mota até ao alto da Serra de Sintra, acendo um “berlaite” e ponho-me a ouvir a respiração da montanha. A outra parte do concerto de que me consigo lembrar é já cá fora. A polícia de choque estava à nossa espera, conversa vai, conversa vem, caem-nos em cima, grande carga de porrada seguida de fuga e aceleração. Como estava perto de casa não tive dificuldade em me esconder com o Ângelo e o Camilo. Depois fomos para a praia acabar a noite. E ao fim de muita carga na cabeça afastei-me um pouco em direcção às rochas. Em cima de uma vi a minha mãe, perguntei-lhe o que estava ali a fazer àquela hora. Não respondeu. Sorriu-me. Fiquei a olhar para ela durante não sei quanto tempo, até que me disse: “Não exageres, Bruno. Não exageres. Eu estou bem, não te preocupes.” Depois disse-me adeus e foi-se embora. Quando voltei para trás encontrei o Camilo. Vinha transtornado, contei-lhe o que se tinha passado. Ele, com a maior naturalidade pôs-me um braço por cima do ombro. “Estava bem a tua mãe?” Disse-lhe que sim. “Então, óptimo. Senta-te aí e vamos beber uma cervejinha.” E assim fizemos. Toda a situação extraordinária naquela noite estava condenada à banalização, as noites mágicas dispõem de uma lógica própria, de um sentido pessoal, de um propósito exclusivo que termina ao amanhecer. Tudo era tão evidente como o mar e as ondas que não se viam de noite mas que nem por isso deixavam de existir. E o amanhecer foi saudado pela nossa própria coreografia de uma das músicas dos “Ramones”. O Sol nascia e nós tocávamos as nossas guitarras e bateria imaginária. “Sheena is a punk rocker, Sheena is a punk rocker yeah” . Desde aí ficámos amigos até hoje, estudámos juntos e seguimos para a faculdade. Se não me tivesse encontrado com eles, talvez hoje não estivesse aqui ao pé da serra a ouvir a respiração do monte encostado à mota. Talvez à beira do poço tivesse escolhido saltar lá para dentro. Talvez não me surpreendesse quando chegasse a casa e a minha mulher me perguntasse: “Então e os frangos?” Talvez não estivesse cá para me lembrar de responder: “Estava fechado.”