sexta-feira, 29 de abril de 2011
ESCRITA FINA OU NORMAL
Extraordinária é a longevidade desta marca que várias gerações usaram para começar a escrever...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
A FAMILIA PRUDÊNCIO
Princípio dos anos 70, um trabalho de animação para um público específico e com uma intenção didáctica. O mundo rural e a correcta utilização dos pesticidas.
O MÊS EM QUE ESTIVÉMOS EM PARTE NENHUMA
Abril passou-me ao lado, como uma lebre apressada ao amanhecer numa charneca inglesa pintada de nevoeiro. Trabalha-se, faz-se uma pausa para terminar tarefas atrasadas, pagar contas, acompanhar as vidas que dependem de nós e, volta-se ao trabalho. Não o vi, enquanto o país se engasga em comentadores gastos de discursos liquefeitos em inevitabilidades, enquanto o país deixa mais uma vez de ser país para respeitar a vontade do exterior, em que se levantam os estandartes da beatada e das cabeças coroadas para entreter o pagode. O eterno pagode, a eterna farsa, os eternos personagens da mesma história repetida até ao vómito. Abril passou-me ao lado enquanto os gigantes financeiros sem rosto acumulam riqueza e dão continuidade ao processo de genocídio sobre a humanidade. Quem não tem dinheiro não tem direito à vida. Abril passou-me ao lado enquanto a União Europeia se deixa afogar nos meandros da sua própria burocracia, enquanto se enterra na sua própria inércia, sem uma atitude digna desse nome para precaver e fazer face ao primeiro momento de gravidade da sua história. Abril passou-me ao lado com a porta da Assembleia fechada para obras, balanço, intervalo de regime, adiamento de Liberdade. Abril passou a correr como uma lebre e já quase não me lembro do sabor da rua, quando a rua gritava e se podia respirar. Estou velho e moribundo e já nem força tenho para julgar, encontrar culpados, descobrir razões, sugerir caminhos. Falhei…redondamente. Isso é mais que certo. Falhei quando gritei menos, falhei quando me deixei abater e não reagi. Falhei quando não me quis sujar, quando achei que não valia a pena. Falhei quando não insisti, quando não me ofereci ao sacrifício para a passagem da liberdade das outras gerações. E voltei a falhar quando não morri lá atrás com os outros que tiveram que sair mais cedo. Falhei desde o dia em que nasci, simplesmente porque não fui fabricado para vencer.
Abril passou-me ao lado mas ainda há um rasto para trás. Um rasto de memória escrito e em imagens, há amigos, família, amor, bons momentos, filhos, sobrinhos, gente com quem dividimos um cigarro, uma gargalhada, uma refeição. E essa estrada é o trilho sagrado sobre o qual construi a minha história. Houve lágrimas e risos, houve amor e ódio, noites loucas de eternidade e celebração, houve concertos de rock e overdoses, houve noites em branco e despedidas inesperadas, houve arte à solta, amigos até à morte, livros fatais e filmes inesquecíveis.
Abril passou-me ao lado, mas a minha vida não.
Artur
Abril passou-me ao lado mas ainda há um rasto para trás. Um rasto de memória escrito e em imagens, há amigos, família, amor, bons momentos, filhos, sobrinhos, gente com quem dividimos um cigarro, uma gargalhada, uma refeição. E essa estrada é o trilho sagrado sobre o qual construi a minha história. Houve lágrimas e risos, houve amor e ódio, noites loucas de eternidade e celebração, houve concertos de rock e overdoses, houve noites em branco e despedidas inesperadas, houve arte à solta, amigos até à morte, livros fatais e filmes inesquecíveis.
Abril passou-me ao lado, mas a minha vida não.
Artur
domingo, 17 de abril de 2011
O DESNECESSÁRIO RESGATE DE PORTUGAL
«O pedido de ajuda de Portugal para as suas dívidas junto do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia na última semana deve servir de aviso para todas as democracias.
As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos correctores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.
Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas.
As dificuldades de Portugal eram admitidamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e um repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas foi o gatilho imediato para os pedidos de resgate.
Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações.
O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate. O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos.
A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.
E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental.
Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite? Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — quanto a assistência aos pobres.
A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.
Em justiça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e ao gasto excessivo; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou-se no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países.
Não se podem culpar as políticas domésticas. O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou o senhor Sócrates a demitir-se este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal acenaram.
Podia a Europa ter evitado este resgate? O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel em fomentar a crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.
No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, os Estados Unidos incluídos. A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais.
Os americanos não iriam gostar muito se instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas. Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora acontece em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino.Apenas governos eleitos e os seus líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.»
Robert M. Fishman
Professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame, Indiana
Fonte: NEW YORK TIMES
As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos correctores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.
Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas.
As dificuldades de Portugal eram admitidamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e um repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas foi o gatilho imediato para os pedidos de resgate.
Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações.
O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate. O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos.
A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.
E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental.
Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite? Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — quanto a assistência aos pobres.
A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.
Em justiça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e ao gasto excessivo; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou-se no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países.
Não se podem culpar as políticas domésticas. O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou o senhor Sócrates a demitir-se este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal acenaram.
Podia a Europa ter evitado este resgate? O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel em fomentar a crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.
No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, os Estados Unidos incluídos. A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais.
Os americanos não iriam gostar muito se instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas. Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora acontece em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino.Apenas governos eleitos e os seus líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.»
Robert M. Fishman
Professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame, Indiana
Fonte: NEW YORK TIMES
O CÂNDIDO
A primeira imagem que tenho dele é a de um puto de estatura média no meio do recreio a tentar chamar a atenção dos outros. Gritava: “Todos contra mim!” e a seguir aguentava uma chuva de miúdos que lhe caíam em cima em gritaria de manada descontrolada. Estávamos a na terceira classe da instrução primária (agora, terceiro ano). O Cândido fazia isto duas vezes por semana. Passada a avalanche da manada, levantava-se todo sujo e com a roupa fora do lugar, sacudia-se e lá voltava ao seu caminho como se nada fosse. Era um tipo bem disposto e tranquilo armado de um sorriso sincero, desconcertante. Nesses dois anos em que estivemos juntos na mesma turma (classe) convivíamos a jogar à bola ou ao “guelas” (berlinde a três covas). De vez em quando fazia-se intervalo. O Cândido corria para o meio do recreio e gritava: “Todos contra mim”.
Num Domingo em que passava de carro com o meu tio pela Praça de Espanha, vi o Cândido. Junto com mais alguns miúdos, aproveitava os semáforos fechados para vender tabaco de contrabando no meio do trânsito. Fiquei depois a saber que ele e os outros, eram mandados pelos pais para ganhar alguns trocos. Como eram menores a polícia nada podia fazer para os deter. Na segunda-feira perguntei-lhe se também podia ir com ele, para fazer uns trocos. A resposta foi imediata. Quais trocos? Todo o dinheiro que fazia era para entregar ao pai dele. E se fizesse pouco, além de trabalhar o Domingo inteiro, ainda se candidatava a um valente arraial de porrada. E tudo isto ele dizia com a maior das simplicidades, com se de um evidência se tratasse. Não havia justiça nem injustiça. As coisas aconteciam assim e era dessa maneira que ele vivia…com o que tinha.
Depois de concluída a escola primária, eu fui para um colégio interno e deixei de ver o Cândido. Encontrei-o já com 15 anos numa esquina do bairro. Nessa altura já dominava por completo a técnica de roubar auto-rádios, vendia e consumia quase todos os tipos de droga. Mas o sorriso era o mesmo, apenas o brilho dos olhos é que tinha escurecido. Já tinha passado uns meses no reformatório, acabando por sair através de um sistema de semi-internato. Desde que frequentasse as aulas de uma escola técnica e apresentasse bons resultados ficava libertado. Não estava a correr mal. Faria tudo para não voltar aquele sítio. Mesmo estudar. Convidou-me para ir assistir a um jogo de andebol da escola dele. Não mostrei muito entusiasmo. Ele insistiu. Os vigilantes controlavam a obrigatoriedade das entradas. Quem não fosse era penalizado. Mas também não era para demorar muito. Dez minutos depois estaríamos todos cá fora. Dez minutos? Mas isso não chegava nem ao intervalo do jogo. “Garanto-te que são dez minutos. Vem comigo que depois percebes. Acabei por ir. A escola do Cândido era composta por toda a espécie de adolescentes problemáticos, todos com cadastro no mundo do crime. Chagámos ao pavilhão, as equipas entraram e começou a partida. A bancada de apoio da escola dele podia configurar a Liga de Juniores de um congresso de gangsters de Chicago. Aos dez minutos houve um da primeira fila que se levantou virado para a tribuna. Ergueu um braço no ar e deu início ao primeiro cântico de apoio à equipa. Vindo do nada uma voz colectiva entoava uma só frase: “C…a da mãe deles, c…a da mãe deles, c…a da mãe deles.” Parecia ser o pavilhão que cantava na vibração do zinco do telhado, no ranger dos tacos de madeira, no eco das bolas rematadas à baliza. Logo a seguir a policia aproximava-se deles para os dissuadir. Os primeiros insultavam a autoridade, cuspiam, começavam a cair as primeiras descargas de reposição da ordem. Seguia-se a debandada geral para fora do pavilhão. Os dez minutos do Cândido eram verdade. Fomos lanchar para uma pastelaria. Falámos de tudo e mais alguma coisa. Para ele os dias continuavam a ser encarados da mesma maneira. Um atrás do outro, despidos de propósito e de racionalidade. Expliquei-lhe que estava numa altura em que teria de decidir qual a minha futura área de estudos. Que não sabia ainda muito bem o que fazer com a minha vida. Ele respondeu-me que tinha sorte numa coisa. Ainda tinha uma vida para escolher.
Anos mais tarde, já tinha entrado na faculdade, voltei a saber dele. Tinha morrido com uma overdose num jardim anónimo de Lisboa ao anoitecer. Com 20 anos, o intrépido desafiador tinha sido derrotado. Não sei se nesse dia gritou “Todos contra mim” como fazia no recreio da escola primária. Não sei quantos é que lhe caíram em cima dessa vez em que não se voltou a levantar todo sujo com a roupa esfrangalhada. Sei apenas que era um puto sem uma réstia de maldade. Um tipo com um sorriso sincero, desconcertante, que não questionava o azar de ter nascido no lado errado da vida nem as tareias que ela lhe dava quase todos os dias. Sei apenas que ainda hoje me lembro dele de vez em quando. E para não chorar decido cantar a linda canção que ele me ensinou num jogo de andebol. “C……a da mãe deles”.
Artur
Num Domingo em que passava de carro com o meu tio pela Praça de Espanha, vi o Cândido. Junto com mais alguns miúdos, aproveitava os semáforos fechados para vender tabaco de contrabando no meio do trânsito. Fiquei depois a saber que ele e os outros, eram mandados pelos pais para ganhar alguns trocos. Como eram menores a polícia nada podia fazer para os deter. Na segunda-feira perguntei-lhe se também podia ir com ele, para fazer uns trocos. A resposta foi imediata. Quais trocos? Todo o dinheiro que fazia era para entregar ao pai dele. E se fizesse pouco, além de trabalhar o Domingo inteiro, ainda se candidatava a um valente arraial de porrada. E tudo isto ele dizia com a maior das simplicidades, com se de um evidência se tratasse. Não havia justiça nem injustiça. As coisas aconteciam assim e era dessa maneira que ele vivia…com o que tinha.
Depois de concluída a escola primária, eu fui para um colégio interno e deixei de ver o Cândido. Encontrei-o já com 15 anos numa esquina do bairro. Nessa altura já dominava por completo a técnica de roubar auto-rádios, vendia e consumia quase todos os tipos de droga. Mas o sorriso era o mesmo, apenas o brilho dos olhos é que tinha escurecido. Já tinha passado uns meses no reformatório, acabando por sair através de um sistema de semi-internato. Desde que frequentasse as aulas de uma escola técnica e apresentasse bons resultados ficava libertado. Não estava a correr mal. Faria tudo para não voltar aquele sítio. Mesmo estudar. Convidou-me para ir assistir a um jogo de andebol da escola dele. Não mostrei muito entusiasmo. Ele insistiu. Os vigilantes controlavam a obrigatoriedade das entradas. Quem não fosse era penalizado. Mas também não era para demorar muito. Dez minutos depois estaríamos todos cá fora. Dez minutos? Mas isso não chegava nem ao intervalo do jogo. “Garanto-te que são dez minutos. Vem comigo que depois percebes. Acabei por ir. A escola do Cândido era composta por toda a espécie de adolescentes problemáticos, todos com cadastro no mundo do crime. Chagámos ao pavilhão, as equipas entraram e começou a partida. A bancada de apoio da escola dele podia configurar a Liga de Juniores de um congresso de gangsters de Chicago. Aos dez minutos houve um da primeira fila que se levantou virado para a tribuna. Ergueu um braço no ar e deu início ao primeiro cântico de apoio à equipa. Vindo do nada uma voz colectiva entoava uma só frase: “C…a da mãe deles, c…a da mãe deles, c…a da mãe deles.” Parecia ser o pavilhão que cantava na vibração do zinco do telhado, no ranger dos tacos de madeira, no eco das bolas rematadas à baliza. Logo a seguir a policia aproximava-se deles para os dissuadir. Os primeiros insultavam a autoridade, cuspiam, começavam a cair as primeiras descargas de reposição da ordem. Seguia-se a debandada geral para fora do pavilhão. Os dez minutos do Cândido eram verdade. Fomos lanchar para uma pastelaria. Falámos de tudo e mais alguma coisa. Para ele os dias continuavam a ser encarados da mesma maneira. Um atrás do outro, despidos de propósito e de racionalidade. Expliquei-lhe que estava numa altura em que teria de decidir qual a minha futura área de estudos. Que não sabia ainda muito bem o que fazer com a minha vida. Ele respondeu-me que tinha sorte numa coisa. Ainda tinha uma vida para escolher.
Anos mais tarde, já tinha entrado na faculdade, voltei a saber dele. Tinha morrido com uma overdose num jardim anónimo de Lisboa ao anoitecer. Com 20 anos, o intrépido desafiador tinha sido derrotado. Não sei se nesse dia gritou “Todos contra mim” como fazia no recreio da escola primária. Não sei quantos é que lhe caíram em cima dessa vez em que não se voltou a levantar todo sujo com a roupa esfrangalhada. Sei apenas que era um puto sem uma réstia de maldade. Um tipo com um sorriso sincero, desconcertante, que não questionava o azar de ter nascido no lado errado da vida nem as tareias que ela lhe dava quase todos os dias. Sei apenas que ainda hoje me lembro dele de vez em quando. E para não chorar decido cantar a linda canção que ele me ensinou num jogo de andebol. “C……a da mãe deles”.
Artur
quarta-feira, 13 de abril de 2011
O 2 CAVALOS
Continuando no capítulo das memórias, vale a pena (re)ver este apontamento publicitário a um conhecido e popular modelo de automóvel. A lengalenga era um ponto de honra para os mais pequenos. Decorá-la e papagueá-la na escola era sinal de superioridade, desembaraço e, é claro, de risota geral.
terça-feira, 12 de abril de 2011
VAMOS DORMIR
Nos anos 60 era assim que os mais velhos nos convenciam a ir para a cama. O filme de animação, ao contrário do relógio, da noite ou da escuridão, é que determinava nas nossas cabeças de criança que devíamos ir dormir.
domingo, 10 de abril de 2011
SERMÃO DA MONTANHA
Aqui as palavras nada podem. O ar escasseia e obriga a poupar a conversa. Aqui o voo solitário da águia suspende o tempo em volta de uma corrente de ar quente rodopiante, permanente. Aqui o vento penteia a neve do pico, o Sol joga às sombras nas encostas e as cabras pastam indiferentes. Aqui neste lugar deixamos de ser, se é que alguma vez fomos. Aqui há qualquer coisa de divino no silêncio que respira entre os rochedos, qualquer coisa parecida com a eternidade. Nada a dizer, nada a fazer, esmagados por esta evidência do universo. Como dois miúdos de calções que se enganaram numa esquina do caminho das brincadeiras e vieram dar a este espectáculo. O susto, a surpresa, o medo. Uma mão que ganha vida e se desloca instintivamente para agarrar a outra que chama por ela. Antes que a emoção nos obrigue a fazer chichi nos calções…
Artur
Paisagem montanhosa da Nova Zelândia. Fotos de Sofia P. Coelho
sexta-feira, 8 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
CHIEDO ASILO

Marco Ferreri
França/Itália 1979
Diz o povo que: “Quem se quer bem, sempre se encontra” e é uma grande verdade. Tanto para pessoas como para livros ou filmes. Aconteceu-me, já há muito tempo, ter visto um filme italiano na RTP2 e de ter ficado simplesmente fascinado, apaixonado, devastado, cilindrado, esmagado por ele. Pela simplicidade da sua leitura, pela evidência das suas propostas, pela narrativa libertária que emanava. Tempos mais tarde quis recomendá-lo a um amigo mas já não fui capaz, ou por outra, o título dado ao filme não ajudava a encontrá-lo em lado nenhum. Há poucos dias atrás vou comprar um compacto de 5 filmes da obra de Ferreri e sai-me de entre os títulos O REFÚGIO DAS CRIANÇAS. Algo de familiar se acendeu em mim. Peguei na caixa, li a ficha técnica e fez-se luz. Aquele que já tinha sido O ENCANTADOR DE CRIANÇAS e O AMIGO DAS CRIANÇAS, aparecia agora sob um novo nome. Traduções à parte, por isso é que prefiro os títulos originais. Assim não há como errar.
Voltando ao que interessa, CHIEDO ASILO é um filme extraordinário de 1979, que nos conta a história de um educador de infância pouco ortodoxo que estabelece com a sua classe um novo programa pedagógico baseado na interacção com as próprias crianças. Desde introduzir uma televisão até usar um burro como mascote da aula, Roberto esforça-se por aplicar métodos de ensaio que, agradando às crianças, não agradam assim tanto aos pais. Para ajudar à festa, tem como assistente um adolescente seu amigo que, apesar de bastante empenhado, tem algum atraso no seu desenvolvimento cognitivo. Empenhado em resistir às forças dominantes, Roberto vai sendo confrontado, não só com a escolha dos seus métodos, mas também com as suas escolhas existenciais. O mundo libertário e de estruturação individual, em que as crianças se tornam donas do seu próprio destino é também o espaço de fuga do professor para não se confrontar com a realidade. Sabendo que a sua namorada (mãe de uma das suas alunas) está grávida, Roberto não tem a melhor das reacções. A sua insistência num mundo utópico embora belo e livre, afasta-o também da responsabilidade perante a frustração e os desaires da existência. Como se, ao tentar emancipar as crianças para um destino melhor e mais livre, acabasse por ficar refém desse mundo que pretendia libertar.
Urso de Prata em Berlim, o filme reafirma o pendor anarquista do realizador, se bem que de uma forma muito mais humana e enternecedora em relação aos anteriores. Roberto Begnini (que também assina o argumento) é um actor muito menos exuberante mas muito mais natural do de A VIDA É BELA.A grande lição de CHIEDO ASILO é a de que também os utópicos, os libertários, os sonhadores e as crianças deviam ter o seu espaço, o seu lugar no mundo. E não têm. Nem tudo deveria ser objecto, razão e consequência da realidade, sempre cruel e injusta. Devia haver uma bolha de ar, como o frasco onde Roberto colocou a rã, para ela respirar. Devia haver um espaço para se ouvir o seu acordeon numa praia no Mediterrâneo. Devia haver uma palavra na boca daquele miúdo que nunca fala. Porquê? Porque nem todos somos feitos de raiva e frustração…
Artur
quinta-feira, 31 de março de 2011
ACORDO ORTOGRÁFICO

Para quem acha que o Acordo que agora se propõe é bom, ficam aqui algumas razões:
1. Este é apenas o 1º de outros acordos que se seguirão, diz-se até que este foi insignificante, se este prosseguir, os outros serão imparáveis. O que virá nos próximos? Se lá se fala "tu quer" (Gaúchos) ou "você quer" acho que iremos um dia falar igual. Entre outras coisas.
2. O "C" de Directo serve para algo. Para os Brasileiros é mudo porque eles acentuam todas as sílabas como os Espanhóis. Nós não, precisamos de ter o "C" para nos dizer que "directo" é lido como "diréto", senão seria como coreto ("corêto"), cloreto ("clorêto"), luneta ("lunêta"), não dizemos "lunéta" nem "cloréto" nem "coréto" não é? Vamos ler "direto" como? "dirêto"? Enfim, o "C" serve para algo cá, no Brasil não, mas cá serve.
3. Vai ser bonito falarmos Egipto com o P e lermos Egito sem o P. E como as crianças aprendem o que é Egipto na escola e não em casa (não andamos a falar no Egipto a crianças de 3 ou 4 anos), irão aprender a falá-lo como "Egito" sem "P", mesmo que os pais falem com "P".
4. Vamos ensinar um Inglês como? Dizer-lhe «olhe, você aqui lê EGITO mas NESTE CASO específico, fale "EGIPTO" finja que existe lá um "P" imaginário, finja que é como o "EGYPT" do seu país, mas escreva só "EGITO" não tente perceber, o Português é assim! E olhe há egípcios, egiptólogos, tudo tem P mas no Egipto é EGITO, sem "C"!» - É isto que vamos dizer ao ensinar Português?
5. E que mal tem "pêlo" ter o acento? É mais bonito escrever: "agarrar o cão pelo pelo"?...
6. Não há qualquer desvantagem em em existir Português-PT e Português-BR, como há Inglês diferente em UK e USA (doughnut e donut), como com o Espanhol onde "coche" na Espanha será "carro" na América do Sul, etc. Cá só há desvantagens e custos com o Acordo. Seremos o único ex-colonizador a escrever e falar como a colónia (por algum motivo obscuro). Não nos entendemos assim? Só pouparíamos dinheiro e neurónios.
7. Peçam a um Brasileiro para dizer "Peniche" e verão a palavra que sai de lá. Isto porque o Português-PT tem muito mais riqueza fonética e até linguística que o Português-BR. Aprendemos facilmente o Português-BR e eles não aprendem tão facilmente o Português-PT porque lhes falta essa prática no range maior de sons que a nossa língua contém, havendo até quem diga que somos os melhores a aprender línguas e sotaques devido à riqueza da nossa língua. Vamos aproximar-nos do Português-BR porquê?
8. Corretora Oanda, movimenta triliões por ano, é a maior corretora cambial do mundo, traduziu os seus manuais para Português-PT. Isso mesmo, nada de Acordo, nada de Português-BR. Português-PT. Porque vamos nós andar a alterar o Português e mostrar-lhes que afinal fizeram a escolha errada? Entre muitas outras empresas.
9. Querem que os livros escolares de 2012/13 sejam já com o novo acordo. As crianças serão ensinadas neste primeiro passo a lerem e escreverem de forma diferente. Não é assim opcional a mudança como nos querem fazer querer. A mudança é obrigatória, é imposta nas escolas, já está nos media, etc. Não podemos escolher continuar como estamos porque daqui a uns anos será mesmo errado. Os Brasileiros cortam "C" e "P" e podem ler da mesma forma, nós não!Esqueçam a dupla grafia...
10. O que é que o povo mandou? Inquéritos em que umas 65% das pessoas rejeitaram o acordo, umas 30% não saberem o que é e o resto diz que sim? E que salvo erro umas 28 em 30 universidades e editoras consultadas disseram que não? Além de muitos linguístas? Porque é que é aprovado o acordo contra a vontade do próprio povo? Mesmo uma petição com 120.000 assinaturas foi apresentada a 50 deputados dos quais 49 faltaram e uma apareceu e ignorou. Para ir mesmo à Assembleia, só com uma ILC!
11. Os Portugueses devem estar mesmo no fundo. A falar do glorioso povo do passado e ninguém quer saber da língua. Os Espanhóis nunca aceitariam um acordo destes para os obrigar a falar como os Argentinos! Os Bascos, são apenas uns 100.000 ou 200.000 a falar Basco, nunca desistiram até ao fim e agora têm até a língua Basca como oficial no seu pequeno "país". Só o Português é que deixa andar e desleixa a língua e deixa que outros façam o que querem dela...
12. Estamos nós a defender letras como "C" em Directo que realmente não são inúteis, têm a sua função, e lá fora há línguas que mantêm letras desnecessárias, como "Dupond" ou "Dupont" em Francês que nunca apagaram nem apagarão o T só porque não é lido!! Vamos apagar porquê? Somos burrinhos e é difícil para nós percebermos para que servem?
13. Há mais falantes nativos de Inglês mais Espanhol juntos (Espanhol mais ainda que Inglês), que passam de um bilião de nativos, e mais de 2 biliões de falantes não nativos das mesmas, do que os 200 milhões de Brasileiros.Estarmos a afastar a língua de 2 biliões de pessoas para ficarmos mais próximos do Brasil é disparate. Mais uma vez, para facilitar a vida aos Brasileiros, vamos dificultar a vida a quem quer aprender Português lá fora e tornar a língua inconcisa como visto acima. Vejam: "Actor" aqui, "Actor" no Latim, "Acteur" no Francês, "Actor" no Espanhol, "Actor" no Inglês, "Akteur" no Alemão, tudo com o "C" ou "K", e depois vêm os Brasileiros com o seu novo: "Ator" (devem ser Influências dos milhões de Italianos que foram para o Brasil e falam "attore" lol). Algumas outras: Factor, Reactor,
Sector, Protector, Selecção, Exacto, Baptismo, Excepção, Óptimo, Excepto, etc., "P", "C", etc. Estamos a fugir das origens, do mundo, para ir atrás dos Brasileiros. Quanto amor não?
14. Alguém quis saber do resto das colónias que não falam da mesma forma que os Brasileiros? Só o Brasil é que interessou ao Acordo (já que Portugal foi o que cedeu).
15. O Galego-Português da Galiza, o da variante da AGLP, é mais parecido com o Português de Portugal neste momento que o próprio Português-BR. Os Brasileiros têm alterado a língua sem se preocupar com o resto do mundo, porque é que temos de ser nós a pagar pelos seus erros e prepotencia?
16. ODEIO instalar um software e ver que vem tudo em Português do Acordo, e fóruns também, em que uma votação é uma "ENQUETE" (sei lá como foram inventar isto), em que um utilizador é um usuário, em que "apagar" é "DELETAR" (do "Delete" Inglês, por incrível que pareça nos seus dicionários), ou Printar, ou etc. Por vezes sou obrigado a utilizar softwares em Inglês para aguentar... Como haverá agora Português-PT e -BR ao gosto de cada um, se só existirá um "Português"? Eu quero sites e softwares que eu entenda e na minha língua e isso SÓ É POSSÍVEL mantendo o -PT e o -BR separados! Senão será tudo misturado para sempre! E depois lá vamos nós
"enquetar" (votar) e coisas assim...
17. A prova do ponto 16, é que o próprio Google Translator já só tem o "Português" e tudo o que escreverem ficará no Português-BR, e até "facto" que ainda não mudará já aparece lá como "fato", é bom que nos habituemos pois será o que virá nos próximos acordos, bem como "oje", "abitação", etc.
18. No Brasil mesmo não sofrendo as alterações que temos, há milhões contra o acordo também por coisas tão insignificantes como o acabarem com o "trema"!!! Vejam na net!! E nós com alterações tão brutais, ainda estamos contentes e sem fazer nada!!!
19. Existirão sempre pseudo-intelectuais em todas as línguas que irão dar a vida pelo acordo (sem querer ofender ninguém), achando que é o ideal, e que salvará o país e que dará emprego ao país, e até que sem isto a lígua Portuguesa morre e haverá um "Brasileiro". A variante Português-BR nunca poderia ser uma língua independente como "Brasileiro" só pelas alterações que fazem, não há esse perigo, teria de ser radicalmente mudada (nunca acontecerá) de propósito para o efeito. Não inventemos. A variante Português-BR nunca poderia ser considerada outra língua. E não deixem que pseudo-intelectuais nos tratem como burros só porque defendemos a língua.Tudo o que é chicos espertos e pessoal com manias irá para a defesa do acordo (existirão também pessoas decentes a defendê-lo é certo).
20. Nada impede que haja uma espécie de concordância mais simples em que digam apenas que incluímos palavras deles e nossas num dicionário universal mas SEM IMPOR regras a ninguém, e que no futuro cada um dos países só alterará a SUA PRÓPRIA variante com acordo dos outros, sem impingir aos outros essas mudanças, apenas para evitar que as mudanças no Brasil possam ir ainda mais longe e arruinar ainda mais o Português. Nada impede isso.
21. Com o Português unido, qual ficará a bandeira oficial? Já vejo por todo o lado a bandeira do Brasil no Português, mas se tivesse Brasil para Português-BR e a Portuguesa para Português-PT, ainda era aceitável, apesar de sabermos que só há uma bandeira oficial que é a Portuguesa, mas é difícil impedir o patriotismo Brasileiro, mas com tudo unido, haverá a tendência das empresas para adoptarem a bandeira do país que tem mais população, o Brasil, mais valia termos variantes.
22. Cada vez que me lembro que lá já escrevem quase todos "mais" em vez de mas" porque falam no fundo "mais" com o sotaque e eles têm a tendência de passar para a escrita a forma como falam, no futuro não será de admirar que nós sejamos em futuros acordos obrigados a escrever também: "eu fui lá MAIS não vi ninguém"...
23. EXISTEM FORMAS DE TRAVAR ESTE ACORDO! Petições ou clicarmos num LIKE no Facebook não faz nada. Há uma ILC em movimento que será entregue em breve, prazo final para impedir esta desgraça. É chato porque temos de imprimir um miserável papel e enviá-lo, porque é entregue na Assembleia, mas quem é que diz ser contra e fica sem agir? Se 20 pessoas assinarem, fica a 2 cêntimos cada o envio dessas assinaturas para o correio. É só colocar num marco de correio! Houve uma ILC antes, e entrou na Assembleia, e anulou uma lei de Arquitectura. As ILC's podem ter esse poder. É uma forma do POVO LEGISLAR. Do povo criar leis, e acabar com leis. O governo fez isto sem apoio de ninguém e nós podemos tentar fazer algo para corrigir.
24. Há mil outras razões para dizer não ao acordo, mas... para quê? Estas não chegam?
25. Para terminar fica uma frase de Edmund Burke: "Tudo o que é necessário fazer para que o mal triunfe, é que os homens bons nada façam." Neste caso, tudo o que é necessário fazer para que o Acordo triunfe, é que NÓS continuemos à sombra da bananeira, e deixar o tempo passar. Porque o Acordo foi aprovado e se ninguém lutar contra ele, ele já cá anda.
Se estas razões forem sufientes para vocês, ou se pura e simplesmente querem um Acordo mais bem feito, então vamos agir. Basta uma assinatura e as instruções estão no site
e (site oficial -> ilcao.cedilha.net)
terça-feira, 29 de março de 2011
O TODO
Nós e o caminho, as pernas e a distância, os passos e a caminhada. Em cada metro um aumento do nada, do insignificante, do que parecia importante. O todo que se estende cada vez maior à frente, o horizonte que se entrelaça com o olhar. Cada vez menos importante é chegar, cada vez mais depressa se está, cada vez mais depressa somos parte desse universo que sempre foi nosso. Nós, o Ser eterno, a Liberdade permanente, o Amor, a Criação… A parte do Todo…
Artur
(Mais duas fotos fantásticas da Sofia P. Coelho – Nova Zelândia)
sábado, 26 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
CRASH - THE PRIMITIVES
Here you go, way too fast
Don't slow down, you're gonna crash
You should watch, watch your step
Don't look out, you're gonna break your neck
So shut, shut your mouth
Cause I'm not listening anyhow
I had enough, enough of you
Enough to last a lifetime through
So what, do you, want of me
I've got no words of sympathy
And if, I go, around with you
You know that I'll get messed up too with you
Here you go, way too fast
Don't slow down, you're gonna crash
You don't know, what's been goin' down
You've been runnin' all over town
So shut, shut your mouth
Cause I'm not listening anyhow
I had enough, enough of you
Enough to last a lifetime through
So what do you want of me
I've got no cure for misery
And if, I go, around with you
You know that I'll get messed up too with you
Dedico esta pérola dos anos 80 à valente cagada em que o meu país se encontra. O primeiro a esborrachar os cornos na parede, mande um postal
Artur
quinta-feira, 24 de março de 2011
UM ADEUS AO FIM DA TARDE
O homem abriu a porta para o quintal e registou a suavidade daquele fim da tarde primaveril. As árvores começavam a exibir o seu vestido verde pespontado por botões tímidos, promessas de flores a caminho. Os pássaros esvoaçavam despreocupados nos céus, um gato preguiçoso vigiava deitado a possibilidade de uma refeição. O mundo reiniciava o ciclo do calor e do bom tempo na máquina circular das estações. Nada de novo nas várias décadas de vida que pesavam sobre os ombros do homem. Pacientemente foi buscar um bidon esquecido de umas obras muito antigas e começou a enchê-lo de livros. Depois atirou lá para dentro o computador, o telemóvel, os remédios, as fotografias onde figurava desde menino, a caneta que lhe tinham dado no fim da escola primária. Regou tudo com combustível e atirou-lhe um fósforo Estava terminada uma das principais tarefas daquele dia.
Foi lá dentro e entrou na sala. Beijou uma a uma, todas as fotografias dos familiares. Dos que ficavam e dos que já tinham ido. Estava cansado, como quem levou uma vida inteira a arrastar com o corpo uma montanha que nunca se movia do lugar. Calmamente e sem rancor fazia o balanço de uma existência. Sempre a dever a todos e ninguém a dever-lhe de volta. Sempre incompreendido, maltratado, a pedir desculpa ao mundo todos os dias de manhã por estar vivo. A roda das obrigações sempre afinada na hora de contribuir com impostos, taxas, trabalho, sacrifícios em geral. A mesma roda fechada para obras na altura de lhe retribuir o esforço.
No quintal voltou a seguir o voo dos pássaros, a observar o vento nos ramos das árvores. O mar ouvia-se ao fundo, por detrás da colina nas traseiras do quintal. Tudo estava no seu lugar, tudo fazia parte da mesma unidade em harmonia perfeita. Tudo, menos ele. Estava cansado sem raiva, esgotado de esperança sobre um futuro negro que o esperava. A precariedade da saúde com o caminhar da idade, a repetição dos mesmos erros na construção do mundo, a multiplicação do sacrifício sem objectivo nenhum à vista. Voltar a viver os mesmos problemas que no início da vida era uma tarefa demasiado grande para voltar a ter. Entre os medicamentos e os alimentos começava a gerir agora o balanço dos dias que lhe diziam não haver espaço para ambos. Demasiado fraco para continuar a trabalhar, restava-lhe a boa vontade dos outros. Estava cansado.
Sentou-se no velho cadeirão de vime a observar a fogueira a arder, acabou o copo de whisky e preparou a caçadeira. Com um pé descalço a abraçar o gatilho e o cano na boca não demorou muito tempo. Ao estrondo do cartucho disparado seguiu-se a chuva de detritos ósseos e gotas vermelhas espalhadas no ar. Os pássaros dispersaram, o gato fugiu a sete pés e as árvores vibraram com o barulho. Não havia carta de despedida nem ultimas recomendações nem justificações de ultima hora. Aquela tinha sido a escolha da sua hora. A liberdade de marcar o seu fim. A última liberdade que resta ao ser humano escravo de uma contingência de privações que somam a vida. As religiões condenam, as leis punem, o poder finge que não vê. Mas o direito de escolher o fim continua a ser património da Humanidade.
O homem ficou sentado no seu cadeirão de vime como se estivesse a dormir uma sesta com a caçadeira no colo. As árvores continuaram, os pássaros continuaram, o gato continuou. A noite aproximou-se vagarosa e a Lua nasceu. De certa forma, também o homem continuou. E só ele soube a continuação daquela história…
Artur
Foi lá dentro e entrou na sala. Beijou uma a uma, todas as fotografias dos familiares. Dos que ficavam e dos que já tinham ido. Estava cansado, como quem levou uma vida inteira a arrastar com o corpo uma montanha que nunca se movia do lugar. Calmamente e sem rancor fazia o balanço de uma existência. Sempre a dever a todos e ninguém a dever-lhe de volta. Sempre incompreendido, maltratado, a pedir desculpa ao mundo todos os dias de manhã por estar vivo. A roda das obrigações sempre afinada na hora de contribuir com impostos, taxas, trabalho, sacrifícios em geral. A mesma roda fechada para obras na altura de lhe retribuir o esforço.
No quintal voltou a seguir o voo dos pássaros, a observar o vento nos ramos das árvores. O mar ouvia-se ao fundo, por detrás da colina nas traseiras do quintal. Tudo estava no seu lugar, tudo fazia parte da mesma unidade em harmonia perfeita. Tudo, menos ele. Estava cansado sem raiva, esgotado de esperança sobre um futuro negro que o esperava. A precariedade da saúde com o caminhar da idade, a repetição dos mesmos erros na construção do mundo, a multiplicação do sacrifício sem objectivo nenhum à vista. Voltar a viver os mesmos problemas que no início da vida era uma tarefa demasiado grande para voltar a ter. Entre os medicamentos e os alimentos começava a gerir agora o balanço dos dias que lhe diziam não haver espaço para ambos. Demasiado fraco para continuar a trabalhar, restava-lhe a boa vontade dos outros. Estava cansado.
Sentou-se no velho cadeirão de vime a observar a fogueira a arder, acabou o copo de whisky e preparou a caçadeira. Com um pé descalço a abraçar o gatilho e o cano na boca não demorou muito tempo. Ao estrondo do cartucho disparado seguiu-se a chuva de detritos ósseos e gotas vermelhas espalhadas no ar. Os pássaros dispersaram, o gato fugiu a sete pés e as árvores vibraram com o barulho. Não havia carta de despedida nem ultimas recomendações nem justificações de ultima hora. Aquela tinha sido a escolha da sua hora. A liberdade de marcar o seu fim. A última liberdade que resta ao ser humano escravo de uma contingência de privações que somam a vida. As religiões condenam, as leis punem, o poder finge que não vê. Mas o direito de escolher o fim continua a ser património da Humanidade.
O homem ficou sentado no seu cadeirão de vime como se estivesse a dormir uma sesta com a caçadeira no colo. As árvores continuaram, os pássaros continuaram, o gato continuou. A noite aproximou-se vagarosa e a Lua nasceu. De certa forma, também o homem continuou. E só ele soube a continuação daquela história…
Artur
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