sexta-feira, 18 de março de 2011

Carta à Dra. Deputada Assunção Cristas

Exma. Sra. Deputada Dra. Assunção Cristas:

Li, sem assombro nem sobressalto, que a sra. Dra. Deputada propõe que o Ministério da Cultura passe a Secretaria de Estado, entre outras medidas de grande alcance e relevo para a salvação da Nação. Tal proposta não me assombra, nem me espanta, pois é consabida a relação do CDS-PP com a Cultura: limita-se à da batata e à criação de porcos e vacas na "Lavoura"; a leitura queda-se pelos contratos de submarinos ou pelo manual que ensina a abater sobreiros em Portucale, substituindo essa daninha espécie pelo Pinheiro (sub-espécie Abel). Já agora, para maior eficiência e poupança, sugiro que O Ministério da Cultura passe a Direcção-Geral, Divisão, ou mesmo, maximizando os efeitos altamente congruentes que suponho estarem na origem da sua brilhante proposta, a uma salinha contígua ao gabinete ocupado na Assembleia da República pela Sra. Deputada que, desse modo, poderia dirigi-la em pessoa, durante as pausas da sua esplendorosa actividade paralamentar, no intervalo do chá das cinco com as esposas dos srs. Almirantes submarinistas e antes do "happy hour" com os cavalheiros da Lavoura. Estas sugestões não têm "contrapartidas", constituindo-se "pro bono" e louvando-se na alta qualidade das propostas que apresenta.

Sem outro assunto de momento, creia-me seu fiel servidor


Arnaldo Mesquita

OS MORTOS NÃO FALAM




Os mortos, é sabido, não falam. Partem para os cantos mais distantes da memória e ali ficam em silêncio, com a expressão de quem já cumpriu a sua parte, de quem ocupa o espaço merecido de silêncio e descanso. Os mortos de uma guerra são como fotografias colectivas de jovens, mensagens de vida interrompida, imagens finalizadas antes do tempo. Aos que ficam exige-se respeito. Homenagear os que morreram no esforço colectivo de uma guerra é também respeitar pais, filhos e viúvas, famílias devastadas pelo sofrimento e pela dor. Infelizmente a sociedade portuguesa ainda não interiorizou no seu “inconsciente colectivo” esta realidade mínima de entendimento. O lado conservador aproveita a guerra do antigo ultramar para exibir um saudosismo passadista e branquear uma série de erros e de injustiças que acompanharam as ultimas décadas do antigo regime. O lado do suposto equilíbrio central faz de conta que não vê, não comenta, espera que se esqueça depressa a guerra e que os veteranos vão morrendo. A esquerda mais radical utiliza a guerra como argumentação ingénua para fazer valer o absolutismo da sua orientação ideológica, passando por cima de todo e qualquer aspecto que não favoreça as suas posições.
A posição que se pode exigir de um Presidente de um país democrático é a de, pairando sobre todo e qualquer tipo de radicalismo, dar à sociedade civil uma lição de patriotismo na hora de homenagear os que deram o sacrifício supremo em nome do colectivo. Não foi o que Cavaco fez. Cavaco, mais uma vez, não perdeu a oportunidade para explicar de que lado é que se encontra. Ao apontar às novas gerações o exemplo da geração sacrificada na guerra colonial, Cavaco compara o que não é comparável, juntando tempos históricos completamente distintos e antagónicos, aconselhando submissão e conformismo uma semana depois de apelar ao sobressalto cívico e ao protesto da juventude. Este Presidente é o mesmo Primeiro-ministro que ordenou cargas policiais sobre estudantes que protestavam contra o aumento das propinas, que aprovou pensões de reforma a antigos agentes da PIDE e a recusou à viúva de Salgueiro Maia, o mesmo Primeiro-ministro que chefiava o governo quando Saramago partiu para Espanha e nem na sua morte teve a dignidade da sua presença apesar de ter sido um dos dois únicos Prémios Nobel que este país conseguiu. Sobre o lado da ideologia em que Cavaco se encontra nunca houve espaço para dúvidas. O que se lhe poderia e deveria exigir enquanto Presidente da República era elevação, isenção e rigor.
Homenagear os mortos da guerra colonial é sempre de louvar. Mas dentro do estrito espaço de dignidade e respeito que eles e o país que sofreu merecem. O tempo deles foi outro. A maioria esmagadora participou na guerra porque foi obrigada. A fundamentação ideológica para a sua participação numa guerra era nula. Dos quatro cantos deste Portugal partiram jovens para lugares que vagamente sabiam que existiam, combateram e morreram. Morreram por um país que os obrigou a partir. O mesmo país que hoje é chefiado por um desses jovens. Cavaco pertence àquele grupo ideológico que, não sendo democrático, pactua com a democracia. O 25 de Abril poderia nunca ter existido que não lhes faria diferença nenhuma. Manter-se-iam disciplinadamente submissos até chegar a sua vez de ser ditadores.
Quanto à esquerda mais radical, infelizmente, também pouco ou nada quer ter a ver com a Democracia. A sua irreverência e radicalismo começam a cheirar a mofo, a obtusidade intelectual, a fogueira de vaidades. Na guerra estiveram homens de carne e osso. Muito para além de concordarmos ou não com ela, o sacrifício da morte é por si só, razão de respeito. E a distância temporal a que estamos de um facto histórico ocorrido há 50 anos é por si só razão suficiente para arrumar a memória e construir o futuro evitando repetir erros do passado.
Os mortos, esses não falam…

Artur

domingo, 13 de março de 2011

VOLTANDO ATRÁS

Voltando atrás, lembro-me de ser ainda adolescente e de ter lido um livro onde havia dois ou três personagens que tinham em comum a solidão. Enquanto um se enfiava na biblioteca a ler livros por ordem alfabética, outro chegava ao grau de consciência em que conhecia a repulsa de si próprio. Segurando uma pedra na mão à beira mar, umas patas começam a crescer dela, a mão que a segura torna-se o mesmo ser e, uma náusea insuportável começa a subir por ele acima, estimulando o vómito.
O autodidacta, sem orientação intelectual visível, ia tranquilamente na letra “C” (não me lembro se seguia títulos ou autores,) o intelectual deprimido ia-se enojando de si próprio, perdendo pelo caminho todas as razões de conforto para se manter vivo, para justificar o acordar de mais um dia. Ambos habitavam numa localidade perto do mar, ambos sentiam no correr dos dias o desperdício existencial da condição humana.
Principalmente porque no essencial, nada muda, porque ninguém aprende com os erros do passado, porque as tragédias humanas insistem em se repetir e sacrificar as sucessivas gerações que vão nascendo. Para lá do brilhante resultado narrativo do pensamento de um filósofo, com o passar do tempo, tanto o Autodidacta como o jovem pensador tornam-se o mesmo homem, coabitando o mesmo corpo em momentos diferentes. A sede de conhecimento de um jovem, a necessidade de compreender a vida e o mundo são suficientes para entreter, até mesmo adiar a constatação, a conclusão final sobre a maldição da condição humana. Amontoam-se livros, lê-se sempre mais e mais porque se quer saber, conhecer, os outros e nós mesmos. Depois o tempo vai passando até que um dia, contemplando a enormidade de uma biblioteca, tentando inventar mais espaço para mais livros, alguma coisa acontece. Alguma coisa que nos diz que seria melhor pegar naqueles livros todos e oferecê-los, deitá-los ao lixo. Porque não nos serviram, ou não nos servem para nada. Conhecer a miséria, ter consciência da desgraça, saber que outros sofreram o que nós vamos sofrendo, e nada poder fazer para alterar o curso das coisas, é frustrante. Tanto conhecimento para tudo ficar na mesma. O Tempo a entrar e a sair da nossa mente em círculos. Um rato que corre dentro de uma roda maior que ele. E então, caminhamos perto do mar, a paisagem mais parecida com o universo que nos é permitido conhecer neste mundo. Seguramos uma pedra na mão. Uma pedra cujo musgo se transforma em pelo, umas patas que dela começam a sair. De repente essa pedra funde-se com a mão e esse bicho repugnante somos nós. A náusea sobe por mim acima. Na biblioteca há mais um tipo a ler, sôfrego de conhecimento. Um puto autodidacta que anda de bicicleta e prende as pernas das calças com molas da roupa. Que me cumprimenta levantando a mão do guiador, quando nos cruzamos.. Fecha-se na biblioteca ao fim da tarde, depois de sair das obras. Está lá agora. Fascinado com aquilo que se consegue aprender. Eu estou na praia, ajoelhado sobre a minha dor. Vomito para cima das ondas. Choro observando o mar. Rogo-lhe que me adopte como seu filho…

Artur

sábado, 12 de março de 2011

QUE FORÇA É ESSA


(Foto Alberto Frias)

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo


Sergio Godinho

REPORTER X – II PARTE


( O TAXI 9297)
O CINEMA

O universo de Reinaldo Ferreira não se esgotou no papel, isto é, os livros não foram conteúdo suficiente para formalizar a sua torrente criativa. Escrevendo para teatro, o cinema seguiu-se sem grande admiração enquanto argumentista e realizador. Estreia-se em 1923 com O GROOM DO RITZ, adaptação da obra “El Botones del Ritz”, e estreou em Julho do ano seguinte no Salão Central. Tratava-se de uma aventura de policias e ladrões, envolta em peripécias de espionagem, protagonizada pelo pequeno “groom” de um hotel chique.
Quatro anos depois é fundada no Porto a Repórter X Film com financiamento do comerciante Joaquim Alves Barbosa. Mais três títulos serão rodados nesse ano, sendo O TAXI 9297 o mais emblemático desse grupo. Rodado nos antigos estúdios da Invicta Film, conta com argumento e realização de Reinaldo Ferreira e é inspirado no misterioso assassinato da actriz Maria Alves ocorrido anos antes. Na qualidade de profissional da imprensa especializado em temas policiais, Reinaldo Ferreira havia participado no acompanhamento das investigações desta tragédia que emocionou a opinião pública. Por fim, a surpreendente descoberta de que o assassino era nem mais nem menos do que Augusto Gomes, o empresário e amante da actriz, ampliou ainda mais o clima de consternação e horror na sociedade. Num enredo empolgante, ainda hoje é notória alguma sátira social. A excelente definição de tipos humanos, bem compostos ao nível de protagonistas, fazem deste filme um exemplo invulgar e isolado na cinematografia da época.
Ainda em 1927, roda-se RITA OU RITO, uma comédia onde um namorado se apresenta enquanto mulher para iludir a vigilância de um paizinho severo. Segue-se VIGÁRIO FOOT-BALL CLUB, uma colagem de quadros humorísticos em torno do mundo do desporto. Uma crítica aos meandros da corrupção no futebol onde não falta um guarda-redes anão. Ainda do mesmo ano, pela Repórter X Film, filmado na antiga Invicta, Reinaldo Ferreira roda HIPNOTISMO AO DOMICÍLIO, uma série de peripécias sonâmbulas e sobrenaturais, inspiradas pelas farsas americanas. Infelizmente, destes dois últimos títulos não existe nenhum registo de filme que tenha chegado aos nossos dias.
Reinaldo Ferreira ainda realiza o documentário ENTREVISTAS CINEMATOGRÁFICAS COM ESCRITORES E JORNALISTAS DE LISBOA, uma rara oportunidade de ver na tela homens como Norberto de Araújo, Rocha Martins ou Norberto Lopes.

(REPORTER X - Cartaz do filme)
Nos anos 80, José Nascimento realizou REPORTER X, uma homenagem a Reinaldo Ferreira, que nos tenta situar no ambiente do imaginário modernista em que ele viveu. É um filme interessante com actores como Joaquim de Almeida no papel principal, e participações de Fernando Heitor, Anamar, Suzana Borges, Isabel Branco e Edgar Caramelo. Na sequência da abertura social e cultural provocada pela revolução republicana, o ambiente de Reinaldo Ferreira, a obra e o espírito do tempo acabam por se resumir num mesmo tema, o da coabitação do imaginário com a realidade, do fantástico com o quotidiano.

Artur

sexta-feira, 11 de março de 2011

REINALDO FERREIRA - REPORTER X



Há pessoas que, não estando em nenhum lado conseguem estar em toda a parte, acordando nos outros a mais escondida porção de imaginação adormecida. Pessoas que se deslocam muito confortavelmente entre a realidade e a ficção, entre este mundo e outros, sem se sentir obrigados a estabelecer barreiras entre eles .Reinaldo Ferreira (1897 – 1935), também conhecido como Repórter X, era um desses raros exemplos. O seu mito nasce de um erro do tipógrafo do jornal “A Tarde”. Confundindo “repórter” com Reinaldo, e “X” com um arabesco que pretendia dizer “Ferreira”, uma série de artigos sobre a ditadura de Primo de Rivera em Espanha, perfaz o baptismo jornalístico.
Demasiado condicionado no trabalho de repórter e demasiado limitado num país provinciano de interesses, Reinaldo Ferreira começa a inventar reportagens sensacionais, misturando o real com o fantástico, limitando a realidade objectiva ao ponto de partida para sucessivas e intermináveis vagas de imaginação. O que o público tomava por audaciosas reportagens era afinal fruto da imaginação de Reinaldo Ferreira, que no aconchego do gabinete ou na cama compunha as mais prodigiosas criações novelescas. Inventa entrevistas (Conan Doyle, Mata Hari), escreve crónicas de lugares onde não se encontrava, projecta o futuro em Lisboa e no Porto no ano de 2000, contribui para a criação de mitos a partir do nada. O seu mais relevante exemplo será a “recolha” das ultimas palavras do Presidente Sidónio Pais, assassinado na estação do Rossio no final de 1918: “Morro bem, salvem a Pátria”. Ora o que acontece é que nem Reinaldo Ferreira presenciou o sucedido, nem o Presidente teve tempo para dizer nada depois de alvejado duas vezes no peito. O que é certo é que ainda hoje há muita gente que tem como reais as tais palavras que o presidente moribundo nunca chegou a pronunciar. Estas invenções, ou distorções da realidade, à medida que começam a ser percebidas chegam mesmo a criar um termo próprio para aquilo que era ficção: “reinaldices”. Ao que Reinaldo Ferreira responde com a desculpa que “estava a reporterxizar”.
Trabalhando em praticamente todos os jornais mais importantes do seu tempo, desde “O Século” até ao “Primeiro de Janeiro”, passando pela “Capital”, Reinaldo Ferreira era acima de tudo, o mais importante criador de literatura policial e de aventuras do seu tempo. Acompanhando o mundo em capitais como Paris, acabou por desenvolver um estilo novelístico povoado de seres extraordinários em cenários fantásticos para grande deleite dos seus leitores. Homem dos “sete instrumentos”, a sua vida passa também pela criação teatral e pela realização cinematográfica enquanto argumentista e realizador. Consumidor confesso de drogas (essencialmente ópio e morfina), Reinaldo Ferreira morre prematuramente aos 38 anos, deixando para trás uma vasta colecção de títulos, crónicas e peças de teatro, reveladores do génio imaginativo permanentemente inquieto. Rever a sua obra é também entrar no espírito dos anos “20” do século passado, num tempo tão agitado e tão propenso à criação de universos fantásticos, como era a mente agitada do Repórter X.

Artur

quinta-feira, 10 de março de 2011

SITIADOS - NOITE



Esta é a versão original, anos mais tarde celebrizada pelos RESISTÊNCIA. É sempre um prazer voltar a ter a visita do João Aguardela neste blog. Génio discreto, criador tranquilo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Elogio da lentidão I

O que é que mensagens de texto, e-mails, Facebook, telemóveis, Myspace, Youtube, a Internet, televisão por cabo e a maior parte da produção norte-americana contemporâneo têm em comum ? Ou, para apontar numa outra direcção, como Milan Kundera pergunta na obra "A Lentidão", de 1995, "Porque é que o prazer da lentidão desapareceu ?", concluindo que "A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica utiliza para suplantar o homem". De facto, o ritmo de vida na Europa, América e parte do restante mundo acelerou exponencialmente devido ao crescente número de "gadgets" tecnológicos disponíveis e à variedade de "écrans" que nos permitem utilizar. A resultante fragmentação do tempo também despedaça a nossa experiência do lugar, onde quer que estejamos, e do espaço, quer interno quer externo.

Alguns cineastas - os melhores, aqueles que levaram a experiência do cinema como arte ao zénite comparável à grande pintura, à grande música ou à grande literatura - consciente, consistente e criativamente produzem filmes que lutam pela manutenção dos prazeres da lentidão : Theo Angelopoulos, Manoel de Oliveira, Bela Tarr, por exemplo. Tais obras ajudam-nos a experimentar e apreciar melhor um exclusivo sentido do tempo e do espaço, um sentido abrangente do passado, do presente, do futuro e de um tempo mítico, no qual as suas personagens - e por isso os seus espectadores - habitam.

Quarta-feira de cinzas

Hoje é quarta-feira de cinzas. Cavaco toma posse como Presidente da República

sexta-feira, 4 de março de 2011

Todd Hannigan - FLOWERS

quarta-feira, 2 de março de 2011

SOMBRAS


Estamos e não estamos, somos e não somos. Somam-se rastos acumulados nos espaços ilusoriamente ocupados, esbatem-se silhuetas, as formas ficam distorcidas, escapa a lucidez de um desenho, a verdadeira imagem de um perfil bem desenhado. Para aqui andamos sem saber andar, à espera de qualquer coisa que tarda em chegar. Qualquer coisa que não se vê, que não se imagina. Qualquer coisa, enfim…

Artur

(Foto de Sofia P.Coelho)