
(Fachada do Templo de Abu Simbel no Egipto)
Há épocas da nossa vida que podemos reduzir em duas ou três frases curtas e outras que davam para encher romances extensos, tipo Tolstoi, que o interesse nunca esmoreceria. Quando chega o Natal o carteiro da existência deixa impreterivelmente um enorme pacote de recordações à nossa porta, pacote esse que vai aumentando todos os anos. A vantagem de envelhecer é precisamente a da alegria que há em recolher esse pacote e tirar de lá só aquilo que nos apetece. Como se fossem fotografias velhas recuperadas nas limpezas de uma divisão esquecida da casa. Este ano apetece-me falar do Natal de 74.
Nesse ano, eu e os meus amigos tínhamos 12 anos de idade e vivíamos todos dentro de um colégio interno centenário onde, por exemplo, já tinha estudado o meu avô. Em Abril desse ano tinha sido a Revolução. Lá fora o ambiente fervia em incerteza e alegria. O futuro do país era uma incógnita que tropeçava em tentativas de golpes de estado, manifestações, greves, extremismos, prisões, exílios, etc. Dentro do colégio no entanto, a vida mantinha-se inalterada. Os corredores centenários de pedra dos claustros mantinham-se intimidantes, prontos a dar-nos um “calduço” se os atravessássemos a correr, a mata espreguiçava-se ao ritmo do Inverno, vestida de folhas secas, balouçando a sua melodia ao vento no alto dos eucaliptos, o campo de futebol coleccionava piscinas de lama e gravilha ficando impraticável para qualquer actividade desportiva pelo menos até meio do segundo período, os professores continuavam as suas actividades. E entre estes dois mundos vivíamos nós, comentando efusivamente as actividades da revolução como se falássemos de uma série da televisão, continuando a vida daquela casa centenária como que tripulando uma máquina do tempo.
Independentemente de viver em pleno Renascimento na corte dos Medici, ou nas ruas de Paris no momento em que reis sobem ao cadafalso, quando se tem 12 anos há coisas muito mais importantes a fazer como estabelecer amizades que irão durar uma vida inteira , perceber o manual da procriação, definir os primeiros interesses de conhecimento, ouvir aquela música fantástica da banda cujo nome tivemos dificuldade em pronunciar das primeiras vezes que quisemos dizer a outro.
O Zé, o Alexandre, o António e eu voluntariámo-nos para o departamento de Arqueologia no nosso espaço de actividades extra-curriculares, orientado pelo nosso eterno Prof. De História, um entusiasta das coisas mais insignificantes que nunca nos deixava de prender a atenção. Das futuras eternas grandes amizades passámos a visitar duas vezes por semana uma “casa” cheia de surpresas. Fotografias sobre Pompeia, as expedições arqueológicas ao Vale dos Reis no Egipto, as pirâmides dos Maias, as manifestações do Paleolítico superior no nosso território, antas e cromeleques, tudo era fascinante. Foi nessa altura que li o meu primeiro livro até ao fim. Era sobre todas estas expedições arqueológicas e intitulava-se “Deuses, Túmulos e Sábios”.
Pouco antes das férias de Natal a minha avó resolveu dar-me uma prenda antecipada. Nessas férias iríamos os dois até Londres a casa da minha tia que já lá vivia há uns anos. O meu primo tinha nascido em Agosto desse ano e ainda não conhecia o meu tio Frank (um homem tão extraordinário que justifica um post inteiro só para ele).
E assim foi. Em época de grandes mudanças e sob um clima de incrível agitação no nosso país, eu tinha 12 anos, tinha descoberto a Arqueologia, vivia num mundo antigo fora do mundo e descobria um mundo novo num país estrangeiro onde voltei muitas vezes. Em alturas mais negras da minha vida, aquele fim do primeiro período do ano lectivo de 74/75 saltava da estante da memória e instalava-se no meu Presente sem que fizesse nenhum esforço para isso. Hoje percebo que tinha sido feliz sem o saber. Tinha conquistado um lugar dentro de mim que nunca mais abandonei.
Artur