Não há nada melhor do que começar um texto com uma tirada redundante, uma frase bombástica que poderia incorporar um diálogo de um filme. Uma coisa tipo: “ Morte? Que sabem vocês sobre a morte?”… e depois aplicá-la ao contexto daquilo sobre o que estamos a escrever nesse momento. Por exemplo: “Felicidade? Que raio sabemos nós sobre a felicidade?”
Que raio sabemos nós sobre o que quer que seja, receptores passivos da informação industrial, da”massificação” cultural, condenados a uma algazarra ensurdecedora que não é mais do que um jogo onde são sempre os mesmos que acabam a perder? Que sabemos nós, afinal?
Sabemos o que vivemos, sabemos as pessoas que conhecemos, sabemos coleccionar memórias e seleccionar aquelas que mais nos interessam no momento. Que raio sabemos nós sobre a felicidade se não a conseguiríamos identificar nem que ela se sentasse em cima da nossa cara?
“O Paraíso não é um lugar mas um breve momento que conquistamos dentro de nós.” Esta frase foi escrita pelo Mia Couto e é daquelas frases que encerra em poucas palavras quase toda a sabedoria da existência. Não sabemos nem nunca saberemos o que será a felicidade. Só a memória e o significado interior é que, em conjunto, nos podem dizer se fomos alguma vez felizes… Deste modo, fica aberto o caminho para uma história de Natal, para um tempo em que alguém foi feliz embora na altura não o soubesse.
Artur
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
ADEUS JOÃO
Todos acabamos por embarcar para o ultimo voo, para aquele de onde não há regresso. O destino, à semelhança de todos os voos que fazemos, é sempre uma incógnita. Uma incógnita de meteorologia, agitação social, tipo de passageiros, doenças à nossa espera, avarias, prolongamento de estadias, colegas que ainda não conhecemos. Toda a nossa vida de tripulantes é feita dessa incerteza que nos rouba alguns dos melhores e dos piores momentos da vida…porque estamos sempre em algum lugar fora dela. Agarramo-nos então ao pouco que nos resta, a essa tábua de salvação para manter a sanidade mental ou baixar a febre tropical ou simplesmente trocar dois dedos de conversa que nos ajudam a compreender que ainda estamos vivos apesar de pairar fora da vida. Conheci-te nessas circunstâncias. Um Natal em Bangcoque, uma peça da escola do primeiro filho em Johanesburgo, um AVC do meu pai em Cabo Verde, o casamento de um amigo em Luanda... escolhe um. Perdidos em paisagens estranhas e gentes desconhecidas, valem-nos os colegas, que rapidamente se tornam amigos, quase parentes. Contigo voltei à vida em conversa amena, entre dois ou três copos num bar anónimo de um hotel qualquer. Sempre que nos encontrávamos falávamos de tudo e de nada, como fazem os amigos, ao longo destes vinte e tal anos. Dávamo-nos bem, conseguíamos compreender “o outro” embora com vinte anos de diferença a marcar as nossas idades. Partiste agora e eu não me consegui despedir.
Antes assim. Quem chegar primeiro ao balcão anónimo do hotel desconhecido pede uma cerveja para o outro. Não estou triste porque sei que haveremos de nos voltar a ver. Hoje sou eu que demoro mais tempo a chegar ao bar anónimo. Mas conforta-me saber que tu já lá estás com uma cerveja em cima do balcão à minha espera. Até já João
Artur
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
NUMA CIDADE QUALQUER
Um hotel, um aeroporto e um autocarro entre eles. Uma cidade escura à meia-noite após um dia de chuva. Podia ser o princípio de um filme. Scorcese molhava as ruas de Nova Iorque quando filmava de noite para melhor captar os brilhos da iluminação artificial. No meu caso, o princípio do filme é apenas uma sessão contínua numa cidade qualquer, digamos, Belo Horizonte. Ruas e ruas desertas, taipais de lojas corridos, uma luz teimosa a um canto e um homem solitário à porta a falar e a gesticular para o vazio. Uma bicicleta parada a uns metros dele.
Uma conversa de e-mail trocada com a minha mãe em Melbourne, fora de horas, desfasada de simultâneo, entre diferenças horárias e computadores sonâmbulos, tempos mortos que insistem em falar. Tive um bisavô que viveu e morreu por estas paragens. Isso até sabia vagamente, muito por alto. O que não sabia era que se tratava de um plantador de café. Contou o meu avô que desembarcou nos finais dos anos 40 com a mãe e os irmãos no Rio de Janeiro e demorou três dias a chegar à fazenda do pai dele. Daí um tio-avô em S. Paulo e uma descendência que nunca conheci. O meu avô parou por aqui mas seguiu para a Austrália. O pai dele era uma espécie de Indiana Jones, pistola de um lado e chicote do outro, chapéu de feltro, a dureza típica de quem vive da terra. Uma boa história para tentar um dia destes.
Um homem é feito de histórias. Perdão…Um homem é “construído” por histórias. O seu rasto é um livro que muitos ou poucos conseguem ler. Mesmo as que se inventam pertencem sempre a alguém.
Uma cidade escura que se prepara para dormir, uma rua deserta de lojas fechadas, um homem que fala sozinho a poucos metros de uma bicicleta. Comunicações interrompidas que ainda assim conseguem falar, um livro que se lê em folhas dispersas pelo vento a caminho de um aeroporto. As histórias desconhecidas que escreveram o nosso DNA, o sentido cada vez mais difícil de encontrar numa cidade escura, numa rua qualquer. Há sempre um homem que fala sozinho dentro de nós…
Artur
Uma conversa de e-mail trocada com a minha mãe em Melbourne, fora de horas, desfasada de simultâneo, entre diferenças horárias e computadores sonâmbulos, tempos mortos que insistem em falar. Tive um bisavô que viveu e morreu por estas paragens. Isso até sabia vagamente, muito por alto. O que não sabia era que se tratava de um plantador de café. Contou o meu avô que desembarcou nos finais dos anos 40 com a mãe e os irmãos no Rio de Janeiro e demorou três dias a chegar à fazenda do pai dele. Daí um tio-avô em S. Paulo e uma descendência que nunca conheci. O meu avô parou por aqui mas seguiu para a Austrália. O pai dele era uma espécie de Indiana Jones, pistola de um lado e chicote do outro, chapéu de feltro, a dureza típica de quem vive da terra. Uma boa história para tentar um dia destes.
Um homem é feito de histórias. Perdão…Um homem é “construído” por histórias. O seu rasto é um livro que muitos ou poucos conseguem ler. Mesmo as que se inventam pertencem sempre a alguém.
Uma cidade escura que se prepara para dormir, uma rua deserta de lojas fechadas, um homem que fala sozinho a poucos metros de uma bicicleta. Comunicações interrompidas que ainda assim conseguem falar, um livro que se lê em folhas dispersas pelo vento a caminho de um aeroporto. As histórias desconhecidas que escreveram o nosso DNA, o sentido cada vez mais difícil de encontrar numa cidade escura, numa rua qualquer. Há sempre um homem que fala sozinho dentro de nós…
Artur
sábado, 4 de dezembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
terça-feira, 23 de novembro de 2010
ARCADE FIRE
Agendados para tocar no nosso país, o concerto acabou por ser cancelado por causa da cimeira da NATO. Aqui fica um cheirinho do que perdemos...ao lado do Camaleão que continua eterno.
Somethin' filled up
my heart with nothin',
someone told me not to cry.
But now that I'm older,
my heart's colder,
and I can see that it's a lie.
Children wake up,
hold your mistake up,
before they turn the summer into dust.
If the children don't grow up,
our bodies get bigger but our hearts get torn up.
We're just a million little gods causin' rain storms turnin' every good thing to
rust.
I guess we'll just have to adjust.
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin' to be
when the reaper he reaches and touches my hand.
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin’
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am, go-go, where I am
You'd better look out below
Somethin' filled up
my heart with nothin',
someone told me not to cry.
But now that I'm older,
my heart's colder,
and I can see that it's a lie.
Children wake up,
hold your mistake up,
before they turn the summer into dust.
If the children don't grow up,
our bodies get bigger but our hearts get torn up.
We're just a million little gods causin' rain storms turnin' every good thing to
rust.
I guess we'll just have to adjust.
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin' to be
when the reaper he reaches and touches my hand.
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am goin’
With my lightnin' bolts a glowin'
I can see where I am, go-go, where I am
You'd better look out below
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
QUEM É QUEM?
Não sei como nem quando é que isto começou, e pouco me importa. Poderia fazer uma breve viagem e encontrar duas ou três ocasiões em que tentei falar contigo sem êxito. Umas vezes era porque chovia, outras era porque fazia Sol. Estavas sempre muito ocupado no teu cargo muito importante a tratar das coisas importantes que te diziam respeito… ou estavas sem tempo nem paciência para me aturar. Mas não vou entrar por aí. A culpa não é para aqui chamada. Os factos, sim. E, analisando a questão friamente, o facto principal é que nos fomos afastando com o passar do tempo. O mar foi comendo lentamente essa praia que era a nossa, até não sobrar nada entre ele e os penhascos da indiferença. Do espaço vazio da tua companhia passei à indiferença da tua existência. E aos poucos, a tua imagem foi-se desvanecendo até não sobrar nada. Hoje se te sorrir é com o esforço da representação a arregaçar-me as bochechas da cara. Se te cumprimentar, é com o guindaste da formalidade a erguer-me a mão aberta na tua direcção. Não sei como é que cheguei até aqui, só sei que este é o lugar onde estou. E, nesse lugar a tua amizade é-me completamente indiferente. Poderíamos estar aqui a desfiar um novelo interminável de razões, motivações e “porquês”. Mas não me interessa. À minha volta vão morrendo cada vez mais pessoas que eu conhecia bem, inesperadamente, sem razão, caem. Algumas nem sequer considero amigas apesar da grande empatia que nos liga. A injustiça e a lei do Absurdo que regula as nossas existências, aprendida nos livros da juventude e sentida agora na carne, diz-me que não há tempo para um gajo se preocupar com frivolidades. Passaram vários tempos para eu ter deixado de ter tempo para ti. Passou o tempo de querer agradar aos outros com sacrifício da individualidade; de alimentar uma amizade inexistente em troca de um conforto emocional; de dizer ou calar, conforme as circunstâncias, e abafar o pensamento.
Agora as praias são outras, o amor entre as pessoas ou é genuíno ou não é. Não “ses”, nem “mas”, nem “enfins”. Agora as pessoas juntam-se, encontram-se e bebem uns copos desde que tenham essa vontade, desde que sintam que lhes vai fazer bem.
Os poemas, os romances, a música e tudo isso que nos fazia vibrar, eram no fundo a mais alta expressão desta verdade. Se nos faziam sentir bem, voltávamos a ver, a ler, a ouvir. Não porque esta fosse melhor que a outra, mas porque esta nos dizia alguma coisa e, fundamentalmente, nos fazia sentir bem. Assim é com as pessoas. Muito tempo de afastamento torna-nos pedras, penhascos indiferentes que contemplam o mar. Até o filho afastado da mãe em colo alheio acaba por parar de chorar e de se refazer emocionalmente. Por passarem vários tempos por ele, até deixar de ter tempo para ela.
Não há raiva nenhuma, nem pena, nem qualquer outro tipo de emocionalidade envolvida. Há uma estrada deserta com partículas de poeira ainda suspensas no ar, únicas testemunhas de um carro que acabou de arrancar. Há um par de botas empoeiradas que caminham vagarosamente pela berma da estrada, um homem de saco às costas que segue o cheiro da brisa do mar. Quem é quem? Não interessa…não tem importância.
Artur
Agora as praias são outras, o amor entre as pessoas ou é genuíno ou não é. Não “ses”, nem “mas”, nem “enfins”. Agora as pessoas juntam-se, encontram-se e bebem uns copos desde que tenham essa vontade, desde que sintam que lhes vai fazer bem.
Os poemas, os romances, a música e tudo isso que nos fazia vibrar, eram no fundo a mais alta expressão desta verdade. Se nos faziam sentir bem, voltávamos a ver, a ler, a ouvir. Não porque esta fosse melhor que a outra, mas porque esta nos dizia alguma coisa e, fundamentalmente, nos fazia sentir bem. Assim é com as pessoas. Muito tempo de afastamento torna-nos pedras, penhascos indiferentes que contemplam o mar. Até o filho afastado da mãe em colo alheio acaba por parar de chorar e de se refazer emocionalmente. Por passarem vários tempos por ele, até deixar de ter tempo para ela.
Não há raiva nenhuma, nem pena, nem qualquer outro tipo de emocionalidade envolvida. Há uma estrada deserta com partículas de poeira ainda suspensas no ar, únicas testemunhas de um carro que acabou de arrancar. Há um par de botas empoeiradas que caminham vagarosamente pela berma da estrada, um homem de saco às costas que segue o cheiro da brisa do mar. Quem é quem? Não interessa…não tem importância.
Artur
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
FAR AWAY SO CLOSE
AS ASAS DO DESEJO por Wim Wenders
FAR AWAY SO CLOSE por U2
O som e a imagem numa combinação extraordinária, explosiva dos sentidos, da harmonia, da estética. A Escrita Universal em imagens
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
SIT DOWN
I'll sing myself to sleep
A song from the darkest hour
Secrets I can't keep
Inside of the day
Swing from high to deep
Extremes of sweet and sour
Hope that God exists
I hope I pray
Drawn by the undertow
My life is out of control
I believe this wave will bear my weight
So let it flow
Oh sit down
Sit down next to me
Sit down, down, down, down, down
In sympathy
Now I'm relieved to hear
That you've been to some far out places
It's hard to carry on
When you feel all alone
Now I've swung back down again
It's worse than it was before
If I hadn't seen such riches
I could live with being poor
Oh sit down
Sit down next to me
Sit down, down, down, down, down
In sympathy
Those who feel the breath of sadness
Sit down next to me
Those who find they're touched by madness
Sit down next to me
Those who find themselves ridiculous
Sit down next to me
Love, in fear, in hate, in tears
Down
Down
Oh sit down
Sit down next to me
Sit down, down, down, down, down
In sympathy
Oh sit down
Sit down next to me
Sit down, down, down, down, down
In sympathy
Aguenta, companheiro, estou quase a chegar. O calmeirão do recreio não nos vai dar porrada a vida inteira. O teu Pai tem que fazer um dia de intervalo...não pode ser uma besta a semana toda. A tua mulher fugiu..vamos afogá-la em cerveja. As lágrimas hão-de secar. Estaremos vivos mesmo depois de mortos.
Aguenta, companheiro. Mantém o nariz fora da água, respira como se não houvesse amanhã. Só mais umas remadas e estamos juntos, para nadar de volta ou para ir até ao fundo.
Não te assustes quando te querem encher de medo a toda a hora. És o deus atacado de amnésia que pergunta às àrvores se se lembram dele. Não te podem matar, nem maltratar uma vida inteira. Aguenta, companheiro.
Os nossos reinos não são deste mundo, as nossas mágoas são imagens projectadas a fingir que são reais.
Abre o vidro do carro e deixa entrar a brisa do Oceano. Põe o rádio no máximo e canta.
Aguenta, companheiro. Já foste amado tantas e tantas vezes que te esqueces quando o Amor tarda em chegar. Respira o Mar, grita a canção que sai do rádio.
Por cada injustiça sofrida, dois braços solidários se levantarão. Quem se sente mal, triste, desamparado, perdido...sente-se ao pé de mim.
Aguenta companheiro. Estou quase a chegar.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
KEN LOACH

O OUTRO LADO DO ESPELHO
A obra de Ken Loach não se resume em meia dúzia de frases feitas e está longe de encaixar em qualquer molde formal dos manuais que estudam cinema. Trata-se de uma tese de vida inteira que, experimentando, discutindo e inovando a linguagem cinematográfica por um lado, e por outro, concentrando-se narrativamente naquele caminho onde a realidade incómoda se esconde, contribuiu decisivamente para o alargamento da lucidez e da honestidade no acto de observação da sociedade humana e das suas (poucas) certezas.
Panfletário, agitador, polémico e político (?) foram alguns dos adjectivos utilizados para caracterizar um cineasta que aos 70 anos volta à agenda da cinematografia mundial ao vencer a Palma de Ouro da penúltima edição do Festival de Cannes com THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY. A crítica convive mal com os seus filmes. Minimiza os seus efeitos, apressa-se a etiquetá-los para melhor os poder arrumar para longe da discussão.
Fundamentalmente, Ken Loach exerce o ofício do cinema ao serviço da humanidade, desenvolvendo para tal uma acção psicanalítica que transporta o espectador até uma linha fronteiriça de contacto com os fantasmas que habitam os recantos mais escuros da memória esquecida. Vantagens? Uma melhor compreensão e conhecimento da natureza humana e uma (ainda que remota) possibilidade de se evitar a repetição de erros já cometidos.
Estamos obviamente a falar de um cinema fora da corrente dominante, abrindo mais uma vez o eterno confronto ideológico entre a arte de exclusivo entretenimento e a de objecto de análise e técnica de conhecimento do Homem sobre si próprio. Um debate infinito mas sempre estimulante nas suas dimensões de desafio.

REALISMO E DRAMA DOCUMENTADO
Ken Loach é oriundo de uma realidade cultural (britânica) onde se desenvolve um estilo baptizado de Realismo Britânico, estilo esse que deixou as suas marcas de influência até aos dias de hoje. Caracterizado pela crueza das imagens, é nos ambientes mais desfavorecidos da sociedade que o Realismo Britânico encontra o seu espaço ideal. Entre o esmagamento de uma realidade dura e desfavorável e um comportamento humano cuja fronteira entre a crueldade e a solidariedade é uma linha quase imperceptível, correm os personagens de um destino despojado de qualquer tipo de esperança. Na construção e desenvolvimento deste conceito de cinema encontramos o papel decisivo da obra de Loach.
Ken Loach chega à BBC em 1962, iniciando uma carreira que esteve sempre muito próxima do fenómeno televisivo. Começa por dirigir episódios da série Z CARS, e a peça para televisão UP THE JUNCTION (65). No ano de 66 inicia uma parceria com o produtor Tony Garnett, com o documentário dramatizado (docudrama) CATHY COME HOME, sobre a vida dos sem abrigo.
O binómio Loach/Garnett chegou mesmo a tornar-se termo genérico para designar alguns dos melhores “docudramas” realizados nas décadas de 60 e 70, abrindo espaço para acesos debates no seio da esquerda artística.
Discutia-se acerca do “realismo progressivo”, bem como da pureza realista onde a utilização misturada de realidade e ficção estava longe de ser uma questão pacífica. A utilização dos actores e da câmara ganhavam com Loach uma nova expressividade, nomeadamente no paradoxo que poderíamos qualificar de “ espontaneidade ensaiada”. Actores e não actores envolviam-se em cena, sintetizados pelo aparente improviso do seu desempenho.
Por outro lado o estilo documental da utilização da câmara acabava por criar um efeito não ensaiado de realismo. Sendo a realidade o objecto do olhar, não o era na sua feitura. A realidade absoluta era filtrada pela linguagem cinematográfica para que os contornos do seu retrato fossem mais nítidos. Porque todos os efeitos do trabalho final se conjugavam no retrato mais honesto das suas consequências. Vamos encontrar um resultado final do que acabámos de referir em filmes como KES (69) e FAMILY LIFE (71).

OS DOIS LADOS DA MOEDA
Em termos temáticos, os filmes de Loach são uma busca obsessiva da realidade e dos seus efeitos no caminho dos seus personagens. Nessa busca desenha-se um compromisso do seu criador com dois elementos fundamentais: o lado escondido da memória e o lado dos vencidos.
Introduzindo o debate político no cinema, assina uma série de trabalhos distribuídos pelos movimentos sociais e pela acção administrativa do seu país. Nesta última categoria vamos encontrar um tema recorrente na sua obra, ou seja a relação secular ocupante/ocupado entre a Inglaterra e a Irlanda. A ela dizem respeito filmes como HIDDEN AGENDA (90), o já referido THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY e ainda um extraordinário episódio para televisão da série DAYS OF HOPE (75). Neste capítulo podemos resumir três estádios fundamentais: a) a revolta do movimento de libertação e a consequente e brutal reacção das forças britânicas de ocupação; b) os acordos que permitem a independência da nova República da Irlanda e a manutenção do Ulster na coroa britânica; c) a guerra civil entre irlandeses e a continuação no Norte da acção armada do IRA. Ao longo dos filmes desenrola-se o discurso histórico contado através do percurso dos personagens individuais. Político? Claro que sim se tivermos em conta que abordar qualquer tema histórico é inevitavelmente cair no discurso político. E se o tema estiver perto da história contemporânea, além do político podemos juntar-lhe o adjectivo “incómodo”. É sempre incómodo falar das condições de vida dos desempregados, dos sem abrigo, da desigualdade e má distribuição da riqueza, tal como é igualmente incómodo dizer que apesar de vítimas os desfavorecidos também são cruéis, despóticos ou violentos com outros. A essência da humanidade é assim.
Resta deixar apenas uma breve referência ao filme político a esse monumento cinematográfico que retrata a Guerra Civil Espanhola e que recebeu o prémio para o melhor filme do ano em 1995. LAND AND FREEDOM é um filme de referência obrigatória a muitos níveis que recebeu dos dois lados da crítica o extremo qualificativo. O cinema não é nem nunca pretendeu ser uma visão absoluta da história ou da política, antes pelo contrário. É antes ponto de partida de reflexão e debate, varinha agitadora da consciência e rastilho de discussão. Nesse aspecto os filmes de Ken Loach devem ser entendidos enquanto janelas de abertura para os temas retratados. Como se numa biblioteca de imagens encontrássemos as ferramentas necessárias ao nosso desenvolvimento e ao nosso conhecimento enquanto seres conscientes.
ARTUR GUILHERME CARVALHO
• FILMOGRAFIA
2010 Route Irish
2009 Looking For Eric
2007 It's a Free World...
2007 Cada Um o Seu Cinema (segment "Happy Ending")
2006 The Wind That Shakes The Barley
2005 McLibel (documentary) (re-enactments)
2005 Tickets
2004 Ae Fond Kiss...
2002 11'09''01 - September 11 (segment "United Kingdom")
2002/I Sweet Sixteen
2001 The Navigators
2000 Bread and Roses
1998 My Name Is Joe
1998 McLibel (documentary) (re-enactments)
1997 The Flickering Flame (documentary)
1996 Carla's Song
1995 Land and Freedom
1995 A Contemporary Case for Common Ownership (documentary short)
1994 Ladybird Ladybird
1993 Chuva de Pedras
1991 Riff-Raff
1990 Hidden Agenda
1989 The View from the Woodpile (TV documentary)
1986 Fatherland
1984 Which Side Are You On?
1983 The Red and the Blue: Impressions of Two Political Conferences - Autumn 1982 (TV documentary)
1983 Questions of Leadership (TV documentary)
1981 Looks and Smiles (as Kenneth Loach)
1981 A Question of Leadership (TV documentary)
1980 Auditions (TV documentary)
1980 The Gamekeeper
1979 Black Jack
1971-1977 Play for Today (TV series)
– The Price of Coal: Part 2 (1977)
– The Price of Coal: Part 1 (1977)
– The Rank and File (1971)
1975 Days of Hope (TV mini-series)
– 1926: General Strike (1975)
– 1924 (1975)
– 1921 (1975)
– 1916: Joining Up (1975)
1973 Full House (TV series)
– Episode dated 13 January 1973 (1973)
1973 A Misfortune (TV movie)
1971 Vida em Família (as Kenneth Loach)
1971 ITV Saturday Night Theatre (TV series)
– After a Lifetime (1971)
1971 The Save the Children Fund Film
1969 Kes (as Kenneth Loach)
1965-1969 The Wednesday Play (TV series)
– The Big Flame (1969)
– The Golden Vision (1968)
– In Two Minds (1967)
– Cathy Come Home (1966)
– The Coming Out Party (1965)
See all 10 episodes »
1967 Poor Cow
1964 Diary of a Young Man (TV series)
– Life, or a Girl Called Fred (1964)
– Marriage (1964)
– Survival or They Came to a City (1964)
1964 Z Cars (TV series)
– The Whole Truth... (1964)
– A Straight Deal (1964)
– Profit by Their Example (1964)
1964 Teletale (TV series)
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
UMA TRIBO À DERIVA
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