domingo, 26 de setembro de 2010
sábado, 25 de setembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
PRIMEIRO FORAM OS CIGANOS

“Primeiro levaram os negros.
Mas não me importei com isso.
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários.
Mas não me importei com isso.
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis.
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados.
Mas como tenho meu emprego, também não me importei.
Agora estão me levando,
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)
terça-feira, 21 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
O DIA EM QUE NIETZSCHE CHOROU

Pinchas Perry
EUA, 2007
Estamos em Viena nos finais do séc. XIX. Louise von Salome, uma jovem poetisa russa procura os serviços do eminente Professor Dr. Josef Breuer no sentido de ajudar o seu amigo Friedrich Nietzsche, vítima de uma série de doenças misteriosas. As crises suicidárias persistentes que têm vindo a assombrar aquele brilhante e revolucionário pensador, correm o risco de se precipitarem num trágico e derradeiro fim. O recente método de tratamento experimentado pelo famoso médico, a cura através do diálogo com o paciente, é a sua última esperança. Apesar da recusa inicial do pensador em ser tratado por razões económicas, Breuer monta um sistema onde vai incluir o seu jovem assistente Sigmund Freud. Breuer finge ser ele o paciente e Nietzsche o portador da cura. Utilizando o método do diálogo enquanto terapia, o médico vai então dar início ao seu trabalho. Mas não é só o filósofo a sofrer com os seus demónios mentais. Também Breuer vive em desespero, acometido por insónias, pesadelos e uma obsessão destrutiva por uma paciente antiga. Assim começa um longo diálogo entre dois seres intelectualmente superiores que enquadra alguns dos aspectos mais relevantes do pensamento de finais do séc. XIX, pensamento esse que acabaria por entrar pelo século seguinte enquanto referência de influência.
Baseado no livro com o mesmo título, da autoria do Psiquiatra e Académico Irvin Yalom, o filme segue a mesma linha narrativa, não se baseando nenhum deles integralmente na realidade. De facto, o que o autor constrói é uma sucessão provável de acontecimentos, uns reais outros ficcionais, misturando-os numa sequência que respeita de uma forma honesta, tanto personagens como as suas vidas e características.
Estamos perante aquela tripla realidade plena (ler o livro, ver o filme, comprar a t-shirt), em que vale a pena apreciar todas e cada uma das dimensões desta interessante narrativa.
Servido por um lote de excelência de actores (Armand Assante/ Ben Cross/ Katheryn Winnick), este filme de produção independente ocupa o seu espaço sem dificuldades aparentes, desenrolando-se com tranquilidade à medida que aborda uma temática complexa, ou, pelo menos, de elaborada explanação.
Sabemos que muitos dos factos contidos na narrativa são reais, tal como os personagens principais. Provavelmente Nietzsche e Breuer nunca se encontraram, mas o médico e o pai da Psicanálise associaram-se para a feitura do livro “Estudos sobre a Histeria”. O tempo e o lugar da narrativa são também concordantes com a realidade. Apesar de não haver registo do encontro entre Lou e Breuer, nem sequer da preocupação da aristocrata russa pelo seu amigo, Nietzsche esteve em Viena naquele período. A Primavera de 1882 e o Inverno de 1883, foi um período bastante conturbado na vida de Nietzsche, como se pode inferir da sua correspondência. Lou, Paul e a sua irmã Elizabeth são destinatários de um estado de espírito de depressão e alienação. Mas é também durante este período que Nietzsche dá um novo rumo à sua vida intelectual, culminando com o fim do primeiro capítulo de “Assim Falava Zaratustra”.
A cuidadosa descrição da relação entre os primórdios da psicanálise e psicoterapia, e o pensamento filosófico de Nietzsche é a chave do sucesso desta narrativa. Enquanto a terapia psicanalítica se começava a desenvolver na direcção do tratamento da histeria, o séc. XIX assistia na civilização ocidental ao emergir do pessimismo existencialista. Kirkegaard, Dostoievsky, ou mesmo o poeta Holderling eram marcos deste sentimento. Nietzsche era outro dos exploradores desse desespero. Juntando o especialista da histeria com o do desespero, o que Yalom conseguiu foi levantar uma interessantíssima série de questões acerca da relevância da Filosofia Existencial na Psicanálise, e sobre o lugar da Ciência na vida humana. Ao acompanhar os diálogos entre dois seres desesperados, ambos convencidos que estão a ajudar o outro, médico e paciente perdem-se numa área turva e incerta, um fenómeno de inversão de lugares, que é em si uma interessante ligação histórica ao período em questão.
Artur
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
AS PALAVRAS DE UM SOLDADO AMERICANO
Ao contrário de algumas informações a circular na net, o soldado em questão (Mike Preysner) não morreu. Na foto abaixo encontramos o referido indivíduo a ser detido perto do Capitólio em Washington, na sequência de uma manifestação contra a guerra do Iraque. A fonte refere o dia 15 de Setembro. Ficam as suas palavras, lições de vida e compaixão, erros sistematicamente cometidos por quase todas as gerações ao longo da história da humanidade...
DON'T ANSWER ME
Uma estrada deserta, uma condução sem pressas e.. salta esta pérola antiga do baú do "Oceano Pacífico". E eu e tu como que suspensos numa nuvem tranquila, num estado de suficiência e paz, como se não pertencêssemos a este planeta. Amo-te Ana.
Artur
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
MANUAL DO CIDADÃO ARNALDO MESQUITA - I

CTOE / CIOE 50º ANIVERSÁRIO
No passado dia 6 de Setembro, o Presidente da República, Prof. Aníbal Cavaco Silva, visitou o CTOE, agraciando a unidade com o grau de Membro Honorário da Ordem de Aviz. A visita e a cerimónia inseriram-se nas comemorações do 50º Aniversário do CTOE/CIOE, comemorações essas que decorrem durante o ano de 2010, tendo atingido o seu ponto culminante a 16 de Abril. De facto, foi em 16 de Abril de 1960 que o CIOE veio substituir o velho RI 9, unidade que participou em numerosas batalhas da nossa História, tendo-se coberto de glória em todas essas campanhas.
O então CIOE veio preencher uma necessidade que se fazia sentir no sistema de forças português : a situação internacional e a evolução do quadro político vinham desde o fim da II Guerra Mundial a prenunciar a emergência de movimentos de libertação nas nossas colónias africanas, não estando as forças portuguesas preparadas para fazer frente a um tipo de guerra não-convencional, nem do ponto de vista doutrinal, nem, como é óbvio, do ponto de vista do treino e preparação dos militares. O CIOE veio então colmatar essa lacuna, sendo-lhe atribuídas as seguintes missões: “ . Instruir os quadros do Exército nas várias modalidades de operações especiais;
. Realizar estágios de sub-unidades, tendo em vista aperfeiçoar a sua actuação numa ou mais modalidades destas operações;
. Levar a efeito estudos que, de qualquer modo, possam contribuir para melhorar a eficiência das Forças Armadas, no que diz respeito à sua actuação em operações especiais, designadamente nas de maior interesse para a defesa do território nacional ...”, tal como consta no documento que o institui. A estas determinações oficiais vem acrescentar-se a experiência de diversos oficiais que frequentaram cursos no estrangeiro, observaram directamente o teatro de operações da Guerra da Argélia e , mais especificamente a formação obtida nos EUA pelo Capitão Bacelar Begonha que frequentou o curso Ranger e o adaptou à realidade portuguesa. Resumindo, para a génese do CIOE contribuíram decisivamente a experiência das forças francesas no teatro argelino, sobretudo no que concerne a operações e métodos de contra-subversão e contra-insurreição; a metodologia e práticas dos Rangers norte-americanos e a experiência na formação de Companhias de Caçadores Especiais. Finalmente, em 1963, iniciaram-se os cursos de Operações Especiais (tipo Ranger), ministrados a Oficiais e Sargentos, que visavam melhorar o desempenho em combate de unidades convencionais e o desenvolvimento e aperfeiçoamento doutrinário.
Destaque-se, ainda a estreita ligação com os Grupos Especiais, cujos quadros foram na sua maioria formados em Lamego e que se sempre se distinguiram pela bravura e competência em todas as acções em que se envolveram. A esse propósito, convirá recordar que, em Julho deste ano, no decorrer da Confraternização Anual da Associação de Operações Especiais, foi descerrada no CTOE uma placa alusiva aos Rangers que integraram os Grupos Especiais e os Grupos Especiais Pára-Quedistas, na presença de membros da Associação Nacional de Combatentes do Ultramar e de outras associações representativas dos combatentes.
Mais tarde, já depois do fim da Guerra do Ultramar, vieram juntar-se aos cursos de Operações Especiais, os cursos de Operações Irregulares, que visam dotar as nossas forças de capacidade de resistência em caso de invasão do território nacional. Refira-se, ainda, que a qualidade de instrução ministrada na Unidade é reforçada pela competência dos Instrutores que ministram os diversos cursos, habilitados que estão com cursos das Special Forces e Rangers norte-americanos, Operações Especiais espanholas, Comandos Franceses, Patrulhas de Longo Raios de Acção e Reconhecimento de Longa Distância na Alemanha, Sobrevivência e Guerra na Selva no Brasil.
Nos dias de hoje, o CTOE detém competências e ministra os cursos de:
- Mergulhador Nadador de Combate;
- Curso de Pára-Quedismo Militar;
- Curso Sniper
- Curso de Operações Psicológicas;
- Curso de Sobrevivência;
- Curso de Montanhismo;
- Curso de Prevenção e Combate a Ameaças Terroristas;
- Curso de Patrulhas de Longo Raio de Acção e Reconhecimento de Longa Distância;
- Curso de Infiltração /Exfiltração Terrestre – Equipa RESCOM – CSAR FAP;
- Estágio de Operações Não-Convencionais;
- Estágio de Infiltração Aquática;
- Estágio de Sobrevivência para Jornalistas, entre outros
Pelo que fica exposto, o CTOE perfila-se como a unidade que, por tradição e missão actual, detém a responsabilidade de instrução e condução de todas as operações de guerra não-convencionais, alargando a sua área de influência muito para além dos limites estritos da sua localização geográfica. Detentor de um vastíssimo património histórico, o actual CTOE é o herdeiro de uma unidade que serviu e honrou Portugal desde o dia da sua criação, projectando-se para o futuro como uma unidade moderna, flexível e em permanente evolução e valorização.
ARNALDO MESQUITA
terça-feira, 7 de setembro de 2010
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
SHUTTER ISLAND - Martin Scorsese 2009

De um ponto de vista estritamente filosófico (e existirão outros ?), Shutter Island é um filme sobre a verdade, o desejo de verdade, ou melhor, da verdade como desejo, o que significa a ilusão, o luto pela verdade. Se a verdade não passa de uma mentira, então triunfa o homem de acção, do qual Daniels é o arquétipo. Agir, então. O indivíduo reduz-se ao que faz, e faz sempre contra (os médicos, a instituição, os vigilantes). Que a sua acção seja depositária da identidade de um homem ancora o filme na língua primitiva do cinema americano, no qual o gesto físico dá forma a um real estruturado pelo jogo de forças contrárias. O corpo de DiCaprio torna-se o centro de gravidade dessa ideia do actor como agente, e os seus gestos confirmam estilisticamente aquilo que a narrativa impõe : o mundo é aquilo que eu faço. No entanto, o drama de Daniels consiste justamente na incapacidade de construir ou refazer o mundo através das suas acções: entre os gestos e os espamos de consciência, a tentativa de domar a Ilha e transformá-la de acordo com a sua vontade, em suma, todas as suas acções, se dirigem para uma ruína anunciada e marcada visivelmente na sua face e no seu corpo: quanto mais tenta forçar o segredo e expôr a maquinação criminosa mais a sua identidade se esvai: a única verdade é a crença na acção, não a acção em si mesma.
À medida que o inquérito se revela como introspecção (conhecimento de si mesmo), à medida que a luz, omnipresente através das figuras da cintilação, do brilho, dos relâmpagos, obscurece, Daniels acaba por se dissolver no meio dos mortos, dos médicos, dos fantasmas... Mesmo a memória que deveria devolver o traço de interioridade e desenhar o retrato inacabado de um ser, vem a tornar-se o local em que o íntimo, em vez de se afirmar, se inventa e fracciona, ao ponto de não ser mais que uma ilhota cortada do aqui e agora. Assim, a experiência dramática, virada de ora em diante para o impasse da interioridade, torna-se menos figura de punição (como, por exemplo, em "Taxi Driver" ou "Casino") e mais a absoluta evidência da culpabilidade: a referência à libertação do campo de concentração de Dachau alarga a falta à totalidade do mundo remtido para uma fantasmagoria mórbida. Nesse sentido Shutter Island afirma que não há nada pior do que uma falta impune e que não podemos senão auto-punir-nos : a insularidade do homem reduzido à fortificação de uma solidão que uiva. Finalmente, a Ilha, isolada e carcerária, revela-se como a alma de cada homem, abandonado aos fantasmas e aos mortos.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Re-Blog Escrevinhices
A pedido do Artur aqui fica o post, de 28 de Julho, comemorativo dos 5 anos do Escrevinhices:
1. Há exactamente cinco anos começou o Escrevinhices. E, mil e tal posts depois, mantém-se e mantém a sua parca audiência, uma gota que se quer sã no oceano d'inanidades que infecta o nosso espaço público: é interessante constatar que muitos dos blogues de referência desapareceram; é fácil de explicar: a moda dos blogues passou - agora, em 2010, as redes sociais interessam mais àqueles espíritos de escol que, no afã de manterem a notoriedade, abandonaram os seus badalados espaços da blogosfera logo que perceberam que havia outra coisa no horizonte... Talvez esteja a ser injusto, afinal o facebook chega aos 500.000.000 de utilizadores, porém ... a vaidade é uma fraqueza tão humana e universal que, por tão banal e corriqueira, pouco interessa combater (e ademais, essa gente esqueceu a maravilhosa plataforma criativa que é um blogue, porque não estão interessados em criar nada; nesse contexto que mal tem que os líderes de opinião sigam as modas?)... o problema, e que diz respeito a todos os media, é que a questão que hoje se põe não é já tanto a do suporte da comunicação mas do sobre-excesso de meios que se deparam com uma insuspeita escassez: a da atenção; todos nós, bombardeados por mensagem, temos de ratear o tempo e esforço a despender; numa espécie de dariwnismo comunicacional: só a mensagem mais eficiente triunfa e os critérios dessa selecção, sofisticada e implacável, passam pela relevância da autoria mediada pela vox populi, em termos que importa aqui definir: são os mass media, ie, os agora tradicionais por contraposição à net, que estabelecem uma reputação; os cidadãos anónimos que ganharam uma voz na era dos blogues continuaram anónimos e por isso irrelevantes, a não ser pela força dos números, da massa, o que é uma contraditio in adjecto em relação à noção de autor; um verdadeiro autor é aquele, entre outras coisas - como a qualidade do seu trabalho - cuja voz, pessoal e idiossincrática, tem peso e o poder de se projectar de forma suficientemente eficiente; e hoje luta-se mais pela audiência do que pelo ideal romântico e quiçá ingénuo de um valor intrínseco, fecundo e perene; por isso o efeito pernicioso de uma intelectualidade fútil e até medíocre – detêm, monopolisticamente, o poder de se fazer ouvir, contudo o seu talento não é o de criar uma obra profunda, bela, ou tão-só pertinente mas, justamente, o talento de se fazer ouvir, de perpetuar a sua voz estéril mas que por ser, então, ubíqua, sempre existe como incontornável e algumas vezes insuportável, por ruidosa; o verdadeiro drama é, assim, quando esses mecanismos da sociedade-espectáculo corroem a intelectualidade que, por tradição, deveria resistir a tais processos; isso explicará o triste panorama actual das letras, embora se acredite que só o tempo separa o trigo do joio...
2. Ora, a verdadeira dificuldade, não é pugnar pelo apuro da escrita, servida num quantum, ainda que modesto, de originalidade, estilística e semântica, o difícil é resistir à obscuridade, continuando a trabalhar sob um manto de invisibilidade, enquanto se assiste à progressiva sofisticação e glória desses autores que vampirizam a atenção de todos com um chorrilho de vacuidades, que sufocam, com sua mera presença , qualquer outra voz.
3. Repare o leitor: não tem este escriba a pretensão de possuir talento, nem é pessoa amargurada ou rancorosa; não ataca ninguém em particular por lhe repugnar a polémica: quem isto ler lembrar-se-á de alguns nomes a quem serve a carapuça; muito menos é profeta de uma qualquer hodierna decadência.Apenas se tenta tecer algumas considerações, não-cientificas e subjectivas é certo, sobre o panorama literário.
4. Crises, houve tantas, que qualquer idade-de-ouro será um mito; e o que é curioso é sempre haver exagero na análise secular do contemporâneo: por vezes os coevos estão convencidos de um imenso fulgor, risível aos olhos dos vindouros, outras, afundam-se em depressiva consciência da queda e no futuro há quem encontre riquezas nessa época desprezada por quem a viveu.Talvez a realidade melhor se encontre no meio termo: vantagens e desvantagens, virtudes e defeitos.
5. Hoje, qualquer pessoa tem à disposição (e quase de borla) um vasto repositório de informação.Não é demais salientar esse assombro: nunca houve tal coisa (e a breve trecho poderá deixar de haver, quando as forças censórias, enfim, triunfarem e a ideia criminosa da pretensa protecção dos direitos de autor for imposta a ferro-e-fogo) que faz empalidecer a Biblioteca de Alexandria e a Babel borgiana.É, porém, inegável que o predomínio da técnica porta consigo perigos relativamente a um certo ideal - porventura vago - humanista das letras.Perguntais: o que tudo isto tem a ver com o Escrevinhices?Muito mais do que parece: o objectivo deste blogue, permitido pela técnica, contém-se na luta pela elevação do humano através da cultura e da beleza. Discreto - como o seu autor - não abdica de um alto ideal, de um thelos ambicioso - dir-se-ia, um pouco utópico - mas nem por isso menos real porque em tal fundamente se acredita. Por muito humilde que seja o alcance deste Escrevinhices.Por isso não acaba.Desculpem o desabafo.A emissão prossegue dentro de momentos.
domingo, 15 de agosto de 2010
CRÓNICAS DO BAIRRO II

(Porque o Cristiano morreu)
Naquela época vivia-se “em andamento”, isto é, não havia muito tempo para pensar, porque os acontecimentos sucediam-se a uma cadência demasiado acelerada obrigando-nos a comportar como melgas no Verão…um ciclo de existência muito curto e uma avidez ofegante de vida. Deixar picadelas em todas as carnes, beber todo o sangue possível, evitar as armadilhas electrificadas dos estabelecimentos comerciais, rodopiar alegremente em torno dos lampiões da avenida, e no fim… estoirar. Parar para reflectir os mistérios de tudo isto era tempo perdido, uma armadilha idêntica àquelas duas barras de néon azul penduradas no tecto da geladaria, que de tempos a tempos nos avisavam num estalo ruidoso que alguém tinha caído. A depressão ficava para mais tarde. Para quem conseguisse chegar ao Inverno inteiro. A música ajudava, as miúdas aliviavam, as drogas a adormeciam, as motas aceleravam e a estrada corria à nossa frente sem que nunca a conseguíssemos agarrar.
Um dos acontecimentos que faziam o favor de nos ocupar colectivamente era o Rally de Portugal, com a sua maravilhosa descida nocturna da Rampa da Pena”. De comboio, mota, à boleia, etc, a comunidade deitava mão ao que havia e punha pés ao caminho. Uma dessas excursões começou com um jantar em casa do A nos arredores de Sintra. Para variar, ninguém se lembrou que “dava jeito” ter levado comida para o efeito. Vinho, vodka, berlaites, comprimidos e pó, claro que sim. Agora para ocupar a dentadura estávamos a zeros. Visita de estudo à cozinha, revista aos armários. Um pacote de canja resistia estóico, ou esquecido, o que vai dar ao mesmo, às últimas refeições do Verão passado. Água ao lume, pacote lá para dentro, umas massas milagrosas oferecidas por um Templário de passagem a caminho da terra santa com uma moca nos cornos maior do que o cavalo, e vai de mexer a “poção mágica” para matar a fome àquelas alminhas antes de uma noite inteira nas brenhas da serra à espera dos bólides. Debaixo do ar húmido e penetrante de Sintra, lugar onde invariavelmente, de Verão ou de Inverno…está sempre frio. À medida que era confeccionado o manjar, na sala, as provisões trazidas escorriam goela abaixo, ou consciência acima, conforme a situação. A celebração do rally tornava-se um congresso de convívio amalucado, uma rave “avant la lettre”. Afinal de contas, o rally era uma desculpa, o que interessava era estarmos juntos…a celebrar.
Lembro-me de um diálogo com o P num intervalo da Faculdade, em que corria uma discussão acalorada sobre quem seria o melhor piloto da actualidade. Vendo-me alheado do debate, olha para mim e pergunta: “Então qual é para ti o melhor?” – respondo-lhe que não percebo nada de rallys e que nem sequer ligo muito a desporto motorizado. Por isso não tenho opinião. A resposta pronta, espírito do tempo e da idade, saiu certeira: “Isso se percebes ou não é o que menos interessa! Escolhes um nome e dizes que é o melhor do mundo! Ou pensas que alguém aqui é perito no assunto?”
Voltando à canja, enquanto se faziam ouvir na sala os primeiros grunhidos das invasões normandas, na cozinha o A tem uma ideia de génio. “Eh pá, esta canja está muito fraquinha, vamos ter que lhe acrescentar mais qualquer coisa. Um bocado de vodka, por exemplo” Concordei, até porque um cheirinho numa sopa insípida só poderia encorpá-la de sabor. Assim foi. E voltou a ser, e foi mais outra vez. Para aí meia garrafa para dentro da panela. Claro que o jantar foi um sucesso. As “bóias” começaram a vir ao de cima, umas melhores, outras nem por isso. No fim dos cafés ouvimos a voz do C, como se estivesse a falar de dentro de um nave espacial com uma porta aberta, ou seja, a gritar com a cabeça enfiada na retrete. Dizia que ia morrer, ou qualquer coisa do género. O jantar tinha-me caído na fraqueza obliterando-me a capacidade de decifrar mensagens extraterrestres. Vai tudo a correr na direcção da casa de banho, tentar ajudar no que podia. A muito custo conseguimos deitar o C numa cama, descalçar-lhe os sapatos e cobri-lo com uma manta. Quando já íamos a voltar para a sala, alguém se lembrou que o gajo tinha lentes de contacto e que não podia adormecer com elas postas. A equipa de cirurgia voltou então ao bloco operatório para mais uma missão de alto risco. É claro que se tratava de uma tarefa complicada. Andavam então quatro cirurgiões de volta dos olhos adormecidos do C, quando no corredor passa a figura do irmão dele, o “cara de peixe”, num estado ligeiramente menos comatoso do que o dele. Empurrado por ventos contrários que o obrigavam a abanar como uma árvore à procura da sua postura vertical, o “cara de peixe” tentava focar o que se estava a passar em torno do irmão. Assim que se apercebe, grita para nós: “Ninguém tira as lentes ao meu irmão que ele não é nenhuma máquina fotográfica…” Risota geral, rotas cambaleantes de regresso à sala, C a dormir, casacos vestidos e toca a andar que a rampa da Pena é daqui a menos de uma hora.
Não me lembro de quem ganhou a descida da rampa, nem mesmo o Rally daquele ano. Mas o célebre jantar da canja com vodka e o episódio da máquina fotográfica…esses vou guardar no fundo das minhas memórias para sempre.
Artur
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