sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
SHUTTER ISLAND - Martin Scorsese 2009

De um ponto de vista estritamente filosófico (e existirão outros ?), Shutter Island é um filme sobre a verdade, o desejo de verdade, ou melhor, da verdade como desejo, o que significa a ilusão, o luto pela verdade. Se a verdade não passa de uma mentira, então triunfa o homem de acção, do qual Daniels é o arquétipo. Agir, então. O indivíduo reduz-se ao que faz, e faz sempre contra (os médicos, a instituição, os vigilantes). Que a sua acção seja depositária da identidade de um homem ancora o filme na língua primitiva do cinema americano, no qual o gesto físico dá forma a um real estruturado pelo jogo de forças contrárias. O corpo de DiCaprio torna-se o centro de gravidade dessa ideia do actor como agente, e os seus gestos confirmam estilisticamente aquilo que a narrativa impõe : o mundo é aquilo que eu faço. No entanto, o drama de Daniels consiste justamente na incapacidade de construir ou refazer o mundo através das suas acções: entre os gestos e os espamos de consciência, a tentativa de domar a Ilha e transformá-la de acordo com a sua vontade, em suma, todas as suas acções, se dirigem para uma ruína anunciada e marcada visivelmente na sua face e no seu corpo: quanto mais tenta forçar o segredo e expôr a maquinação criminosa mais a sua identidade se esvai: a única verdade é a crença na acção, não a acção em si mesma.
À medida que o inquérito se revela como introspecção (conhecimento de si mesmo), à medida que a luz, omnipresente através das figuras da cintilação, do brilho, dos relâmpagos, obscurece, Daniels acaba por se dissolver no meio dos mortos, dos médicos, dos fantasmas... Mesmo a memória que deveria devolver o traço de interioridade e desenhar o retrato inacabado de um ser, vem a tornar-se o local em que o íntimo, em vez de se afirmar, se inventa e fracciona, ao ponto de não ser mais que uma ilhota cortada do aqui e agora. Assim, a experiência dramática, virada de ora em diante para o impasse da interioridade, torna-se menos figura de punição (como, por exemplo, em "Taxi Driver" ou "Casino") e mais a absoluta evidência da culpabilidade: a referência à libertação do campo de concentração de Dachau alarga a falta à totalidade do mundo remtido para uma fantasmagoria mórbida. Nesse sentido Shutter Island afirma que não há nada pior do que uma falta impune e que não podemos senão auto-punir-nos : a insularidade do homem reduzido à fortificação de uma solidão que uiva. Finalmente, a Ilha, isolada e carcerária, revela-se como a alma de cada homem, abandonado aos fantasmas e aos mortos.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Re-Blog Escrevinhices
A pedido do Artur aqui fica o post, de 28 de Julho, comemorativo dos 5 anos do Escrevinhices:
1. Há exactamente cinco anos começou o Escrevinhices. E, mil e tal posts depois, mantém-se e mantém a sua parca audiência, uma gota que se quer sã no oceano d'inanidades que infecta o nosso espaço público: é interessante constatar que muitos dos blogues de referência desapareceram; é fácil de explicar: a moda dos blogues passou - agora, em 2010, as redes sociais interessam mais àqueles espíritos de escol que, no afã de manterem a notoriedade, abandonaram os seus badalados espaços da blogosfera logo que perceberam que havia outra coisa no horizonte... Talvez esteja a ser injusto, afinal o facebook chega aos 500.000.000 de utilizadores, porém ... a vaidade é uma fraqueza tão humana e universal que, por tão banal e corriqueira, pouco interessa combater (e ademais, essa gente esqueceu a maravilhosa plataforma criativa que é um blogue, porque não estão interessados em criar nada; nesse contexto que mal tem que os líderes de opinião sigam as modas?)... o problema, e que diz respeito a todos os media, é que a questão que hoje se põe não é já tanto a do suporte da comunicação mas do sobre-excesso de meios que se deparam com uma insuspeita escassez: a da atenção; todos nós, bombardeados por mensagem, temos de ratear o tempo e esforço a despender; numa espécie de dariwnismo comunicacional: só a mensagem mais eficiente triunfa e os critérios dessa selecção, sofisticada e implacável, passam pela relevância da autoria mediada pela vox populi, em termos que importa aqui definir: são os mass media, ie, os agora tradicionais por contraposição à net, que estabelecem uma reputação; os cidadãos anónimos que ganharam uma voz na era dos blogues continuaram anónimos e por isso irrelevantes, a não ser pela força dos números, da massa, o que é uma contraditio in adjecto em relação à noção de autor; um verdadeiro autor é aquele, entre outras coisas - como a qualidade do seu trabalho - cuja voz, pessoal e idiossincrática, tem peso e o poder de se projectar de forma suficientemente eficiente; e hoje luta-se mais pela audiência do que pelo ideal romântico e quiçá ingénuo de um valor intrínseco, fecundo e perene; por isso o efeito pernicioso de uma intelectualidade fútil e até medíocre – detêm, monopolisticamente, o poder de se fazer ouvir, contudo o seu talento não é o de criar uma obra profunda, bela, ou tão-só pertinente mas, justamente, o talento de se fazer ouvir, de perpetuar a sua voz estéril mas que por ser, então, ubíqua, sempre existe como incontornável e algumas vezes insuportável, por ruidosa; o verdadeiro drama é, assim, quando esses mecanismos da sociedade-espectáculo corroem a intelectualidade que, por tradição, deveria resistir a tais processos; isso explicará o triste panorama actual das letras, embora se acredite que só o tempo separa o trigo do joio...
2. Ora, a verdadeira dificuldade, não é pugnar pelo apuro da escrita, servida num quantum, ainda que modesto, de originalidade, estilística e semântica, o difícil é resistir à obscuridade, continuando a trabalhar sob um manto de invisibilidade, enquanto se assiste à progressiva sofisticação e glória desses autores que vampirizam a atenção de todos com um chorrilho de vacuidades, que sufocam, com sua mera presença , qualquer outra voz.
3. Repare o leitor: não tem este escriba a pretensão de possuir talento, nem é pessoa amargurada ou rancorosa; não ataca ninguém em particular por lhe repugnar a polémica: quem isto ler lembrar-se-á de alguns nomes a quem serve a carapuça; muito menos é profeta de uma qualquer hodierna decadência.Apenas se tenta tecer algumas considerações, não-cientificas e subjectivas é certo, sobre o panorama literário.
4. Crises, houve tantas, que qualquer idade-de-ouro será um mito; e o que é curioso é sempre haver exagero na análise secular do contemporâneo: por vezes os coevos estão convencidos de um imenso fulgor, risível aos olhos dos vindouros, outras, afundam-se em depressiva consciência da queda e no futuro há quem encontre riquezas nessa época desprezada por quem a viveu.Talvez a realidade melhor se encontre no meio termo: vantagens e desvantagens, virtudes e defeitos.
5. Hoje, qualquer pessoa tem à disposição (e quase de borla) um vasto repositório de informação.Não é demais salientar esse assombro: nunca houve tal coisa (e a breve trecho poderá deixar de haver, quando as forças censórias, enfim, triunfarem e a ideia criminosa da pretensa protecção dos direitos de autor for imposta a ferro-e-fogo) que faz empalidecer a Biblioteca de Alexandria e a Babel borgiana.É, porém, inegável que o predomínio da técnica porta consigo perigos relativamente a um certo ideal - porventura vago - humanista das letras.Perguntais: o que tudo isto tem a ver com o Escrevinhices?Muito mais do que parece: o objectivo deste blogue, permitido pela técnica, contém-se na luta pela elevação do humano através da cultura e da beleza. Discreto - como o seu autor - não abdica de um alto ideal, de um thelos ambicioso - dir-se-ia, um pouco utópico - mas nem por isso menos real porque em tal fundamente se acredita. Por muito humilde que seja o alcance deste Escrevinhices.Por isso não acaba.Desculpem o desabafo.A emissão prossegue dentro de momentos.
domingo, 15 de agosto de 2010
CRÓNICAS DO BAIRRO II

(Porque o Cristiano morreu)
Naquela época vivia-se “em andamento”, isto é, não havia muito tempo para pensar, porque os acontecimentos sucediam-se a uma cadência demasiado acelerada obrigando-nos a comportar como melgas no Verão…um ciclo de existência muito curto e uma avidez ofegante de vida. Deixar picadelas em todas as carnes, beber todo o sangue possível, evitar as armadilhas electrificadas dos estabelecimentos comerciais, rodopiar alegremente em torno dos lampiões da avenida, e no fim… estoirar. Parar para reflectir os mistérios de tudo isto era tempo perdido, uma armadilha idêntica àquelas duas barras de néon azul penduradas no tecto da geladaria, que de tempos a tempos nos avisavam num estalo ruidoso que alguém tinha caído. A depressão ficava para mais tarde. Para quem conseguisse chegar ao Inverno inteiro. A música ajudava, as miúdas aliviavam, as drogas a adormeciam, as motas aceleravam e a estrada corria à nossa frente sem que nunca a conseguíssemos agarrar.
Um dos acontecimentos que faziam o favor de nos ocupar colectivamente era o Rally de Portugal, com a sua maravilhosa descida nocturna da Rampa da Pena”. De comboio, mota, à boleia, etc, a comunidade deitava mão ao que havia e punha pés ao caminho. Uma dessas excursões começou com um jantar em casa do A nos arredores de Sintra. Para variar, ninguém se lembrou que “dava jeito” ter levado comida para o efeito. Vinho, vodka, berlaites, comprimidos e pó, claro que sim. Agora para ocupar a dentadura estávamos a zeros. Visita de estudo à cozinha, revista aos armários. Um pacote de canja resistia estóico, ou esquecido, o que vai dar ao mesmo, às últimas refeições do Verão passado. Água ao lume, pacote lá para dentro, umas massas milagrosas oferecidas por um Templário de passagem a caminho da terra santa com uma moca nos cornos maior do que o cavalo, e vai de mexer a “poção mágica” para matar a fome àquelas alminhas antes de uma noite inteira nas brenhas da serra à espera dos bólides. Debaixo do ar húmido e penetrante de Sintra, lugar onde invariavelmente, de Verão ou de Inverno…está sempre frio. À medida que era confeccionado o manjar, na sala, as provisões trazidas escorriam goela abaixo, ou consciência acima, conforme a situação. A celebração do rally tornava-se um congresso de convívio amalucado, uma rave “avant la lettre”. Afinal de contas, o rally era uma desculpa, o que interessava era estarmos juntos…a celebrar.
Lembro-me de um diálogo com o P num intervalo da Faculdade, em que corria uma discussão acalorada sobre quem seria o melhor piloto da actualidade. Vendo-me alheado do debate, olha para mim e pergunta: “Então qual é para ti o melhor?” – respondo-lhe que não percebo nada de rallys e que nem sequer ligo muito a desporto motorizado. Por isso não tenho opinião. A resposta pronta, espírito do tempo e da idade, saiu certeira: “Isso se percebes ou não é o que menos interessa! Escolhes um nome e dizes que é o melhor do mundo! Ou pensas que alguém aqui é perito no assunto?”
Voltando à canja, enquanto se faziam ouvir na sala os primeiros grunhidos das invasões normandas, na cozinha o A tem uma ideia de génio. “Eh pá, esta canja está muito fraquinha, vamos ter que lhe acrescentar mais qualquer coisa. Um bocado de vodka, por exemplo” Concordei, até porque um cheirinho numa sopa insípida só poderia encorpá-la de sabor. Assim foi. E voltou a ser, e foi mais outra vez. Para aí meia garrafa para dentro da panela. Claro que o jantar foi um sucesso. As “bóias” começaram a vir ao de cima, umas melhores, outras nem por isso. No fim dos cafés ouvimos a voz do C, como se estivesse a falar de dentro de um nave espacial com uma porta aberta, ou seja, a gritar com a cabeça enfiada na retrete. Dizia que ia morrer, ou qualquer coisa do género. O jantar tinha-me caído na fraqueza obliterando-me a capacidade de decifrar mensagens extraterrestres. Vai tudo a correr na direcção da casa de banho, tentar ajudar no que podia. A muito custo conseguimos deitar o C numa cama, descalçar-lhe os sapatos e cobri-lo com uma manta. Quando já íamos a voltar para a sala, alguém se lembrou que o gajo tinha lentes de contacto e que não podia adormecer com elas postas. A equipa de cirurgia voltou então ao bloco operatório para mais uma missão de alto risco. É claro que se tratava de uma tarefa complicada. Andavam então quatro cirurgiões de volta dos olhos adormecidos do C, quando no corredor passa a figura do irmão dele, o “cara de peixe”, num estado ligeiramente menos comatoso do que o dele. Empurrado por ventos contrários que o obrigavam a abanar como uma árvore à procura da sua postura vertical, o “cara de peixe” tentava focar o que se estava a passar em torno do irmão. Assim que se apercebe, grita para nós: “Ninguém tira as lentes ao meu irmão que ele não é nenhuma máquina fotográfica…” Risota geral, rotas cambaleantes de regresso à sala, C a dormir, casacos vestidos e toca a andar que a rampa da Pena é daqui a menos de uma hora.
Não me lembro de quem ganhou a descida da rampa, nem mesmo o Rally daquele ano. Mas o célebre jantar da canja com vodka e o episódio da máquina fotográfica…esses vou guardar no fundo das minhas memórias para sempre.
Artur
sexta-feira, 30 de julho de 2010
sábado, 17 de julho de 2010
CRÓNICAS DO BAIRRO
Cresci num bairro de Lisboa que nos anos 50 e 60 foi apelidado de “Quartier Latin” da cidade, que o mesmo é dizer: “o bairro dos artistas”. Actores, escritores, artistas plásticos, pensadores, tudo vivia ali se bem que na altura não déssemos muito conta disso. Na sua essência, Campo de Ourique era muito mais que um somatório de nomes de personalidades conhecidas, muito mais que um bairro de fortes tradições republicanas. Era essencialmente uma enorme escola urbana onde se aprendia a Democracia, a respeitar a diferença, a viver entre várias dimensões da cartilha da sociedade…para o bom e para o mau. Desde aristocratas decadentes até operários clássicos do conceito proletário, passando pela esmagadora maioria da classe média dos serviços e ministérios, o bairro enquanto espaço de ocupação, era apenas um. Os cafés, os jardins, as lojas, os restaurantes, o Correio, as escolas, etc, eram lugares onde todos se encontravam e conviviam de forma solidária, como numa aldeia desenhada a regra e esquadro pelos arquitectos pombalinos. A prova final deste conceito inscrevia-se nos filhos desta gente toda (eu e os meus amigos). Crescemos juntos, fomos à escola juntos e, nem por um instante nos apercebíamos que haveria uma hipotética escada na sociedade, ocupada nos vários degraus pelas nossas famílias. Aprendemos muito cedo a ver coisas diferentes em casas diferentes e a aproveitar essa diversidade em nosso benefício. Os nomes ficavam nas cadernetas do professor. Para se ser alguém no bairro, bilhete de identidade urbano, era preciso ter uma alcunha, uma espécie de nome de guerra, sem o qual a nossa existência pura e simplesmente seria ignorada. Ninguém saberia dizer a um gajo de fora quem era o Artur. Mas toda a gente conhecia o “Cara de Urso”. E, quem diz “Cara de Urso”, diria o “Olhinhos”, o “Estufa”, o “Carga de Ossos”, o “Pentes”, o “Osga”, a “Toupeira”, o “Riquinho”, “Sapo”, a “Patchouli”, o “Marinho Picareta”, o “Boneca”, o “Bichinho”,os irmãos ”Titó”, a “Escova”, o “Tiques”, o “Facadas” e o “Bicos”, só assim de repente.
Mas deixemo-nos de seriedades urbanísticas e mergulhemos s fundo na grande, na única questão que interessa: o ar do bairro. Talvez por beneficiar de uma localização privilegiada (todas as saídas eram para baixo) num planalto vizinho ao Vale de Alcântara, talvez por ser habitado por muitos artistas, o certo é que o ar ali era estranho. Um ar como não se consegue encontrar em mais lado nenhum (talvez nos Olivais) que desenhava três malucos em cada cinco habitantes, gerava verdadeiros criadores em todas as áreas e fazia de cada dia um pretexto de surpresa e de festa. Havia mesmo rituais de bairro como, por exemplo, mandar recados de uma ponta para a outra da rua, mas a cantar.
Imaginemos que um gajo acordava de manhã e abria a janela. Lá em baixo na rua via um conhecido a andar no passeio, atrasado para o trabalho. Imaginemos que era o “Bichinho” Abria a janela e cantava a sua saudação matinal: “O Bichinho ééééé rôôôôtoooo!” Atrasado para o trabalho, mas incapaz de responder a tão bela abordagem à sua pessoa, o “Bichinho” abrandava o passo e virava-se na direcção da voz. Punha as mãos nas ancas e respondia, qual ave madrugadora que saúda o Sol: “A p….. da tua mããããããããããee!
Artur
Mas deixemo-nos de seriedades urbanísticas e mergulhemos s fundo na grande, na única questão que interessa: o ar do bairro. Talvez por beneficiar de uma localização privilegiada (todas as saídas eram para baixo) num planalto vizinho ao Vale de Alcântara, talvez por ser habitado por muitos artistas, o certo é que o ar ali era estranho. Um ar como não se consegue encontrar em mais lado nenhum (talvez nos Olivais) que desenhava três malucos em cada cinco habitantes, gerava verdadeiros criadores em todas as áreas e fazia de cada dia um pretexto de surpresa e de festa. Havia mesmo rituais de bairro como, por exemplo, mandar recados de uma ponta para a outra da rua, mas a cantar.
Imaginemos que um gajo acordava de manhã e abria a janela. Lá em baixo na rua via um conhecido a andar no passeio, atrasado para o trabalho. Imaginemos que era o “Bichinho” Abria a janela e cantava a sua saudação matinal: “O Bichinho ééééé rôôôôtoooo!” Atrasado para o trabalho, mas incapaz de responder a tão bela abordagem à sua pessoa, o “Bichinho” abrandava o passo e virava-se na direcção da voz. Punha as mãos nas ancas e respondia, qual ave madrugadora que saúda o Sol: “A p….. da tua mããããããããããee!
Artur
sexta-feira, 16 de julho de 2010
LIBERTARIAS
Vicente Aranda
Espanha, 1996
Espanha, 1936, princípios da Guerra Civil. As ruas enchem-se de gente que grita e se manifesta armada para defender a Republica contra a sublevação do exército nacionalista. Declarada a guerra, fica aberto o movimento “dentro e fora” das cidades e povoados, dos que fogem e dos que entram. Entram as forças revolucionárias anarquistas em Barcelona, foge a maior parte do clero. Maria (Ariadna Gil), jovem freira, é uma delas. Forçada a deixar o convento e muito longe de casa, encontra-se sozinha numa cidade onde não conhece ninguém. Ao fugir para dentro de um prédio repara numa pagela de um Sagrado Coração de Jesus a decorar a porta de entrada de um dos apartamentos. Julgando ser gente religiosa, não hesita e bate à porta. Afinal a religiosidade da entrada apenas escondia um bordel. Mal refeita ainda da surpresa, Maria vê chegar um grupo de combatentes que lhes explica as novas regras. Ou se vão embora de volta para casa ou se juntam a eles no combate. A prostituição acabou. A partir daquele dia as mulheres só se deitariam com os homens se assim o desejassem. Por sua vontade. Sob o comando de Pilar (Ana Belén), a nova secção de combate feminina (onde se inclui uma médium aleijada (Victoria Abril)), ruma agora a Saragoça.

(As Libertarias no filme)
É neste ritmo frenético, de acontecimentos a tombar sobre acontecimentos, sem tempo de respirar, que nos introduzimos na Guerra Civil Espanhola.
Após vinte anos de maturação, Aranda consegue construir um autêntico épico ao homenagear as mulheres, bem como o seu papel na guerra. Acompanhando cada uma das personagens vamo-nos aproximando de alguns aspectos do conflito e percebendo ao mesmo tempo a dimensão da sua importância que fascinou (e continua a fascinar) várias gerações em todo o mundo. Se Pilar encarna uma perfeita guerreira feminista, Charo (Loles León) é a prostituta de coração de ouro, Maria a inocente e Floren (a médium) a adivinha. Se lhe juntarmos um padre (Miguel Bosé) totalmente trocado em termos de moral, temos o grupo perfeito que nos leva a uma visita guiada às divisões humanas da guerra.
Em primeiro lugar o lado dos ideais. Os anarquistas enquanto libertadores de todos os oprimidos em busca de uma utopia igualitária; as mulheres enquanto elementos integrantes da luta, lado secundarizado e explorado da sociedade patriarcal, a exigirem um lugar no conflito para mais tarde reclamarem o seu espaço no triunfo; a luta política tanto contra os nacionalistas como os sectores tradicionais da esquerda, empenhados numa estrutura militar rígida e disciplinada; a derrota desses ideais em toda a linha. As cenas mais caricatas (o suicida fascista na varanda) e as mais patéticas e piegas, reforçam apenas o carácter simples e o espírito de entrega de cada um. Em comum sabem que preferem morrer de pé a passar uma vida inteira de joelhos.

(As verdadeiras Libertarias)
Desde a motivação política até à guerra de costumes, passando por momentos de grande coragem e sacrifício, LIBERTARIAS é uma homenagem às mulheres e a todos aqueles que se esforçaram ao longo da história para transformar a espécie humana numa vivência de “integração” em vez de “separação”.
Foram estes homens e mulheres, utópicos? Claro que sim! Mas os seus ideais acabaram por se tornar realidade duas gerações depois. O que só prova que a Utopia é tudo aquilo que ainda não foi feito.
Artur
MAIS UM DO I BLOG YOUR PARDON
Não caminhes sobre a água dos dias
porque é neles que se afogam
os passos que damos
Antes mergulha o corpo
profundamente nas águas que virão
se forem brandas
E repara como a transparência das águas
depende da forma como andas
Carlos Lopes
porque é neles que se afogam
os passos que damos
Antes mergulha o corpo
profundamente nas águas que virão
se forem brandas
E repara como a transparência das águas
depende da forma como andas
Carlos Lopes
domingo, 4 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
A CRÉDITO
A filha de uma amiga de um amigo fez esta curta-metragem, sendo o tema, a pobreza. Ou de como o endividamento em excesso é também uma forma de lá ir parar. Para 1º trabalho, não está nada mal. Gostei bastante. A jovem realizadora chama-se Sara.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
A CURVA

Ao fim de uns anos de andar por aqui, chegamos sem esforço à conclusão de que tudo o que encontrámos quando começámos a nossa aventura de descobrir o mundo, tudo o que vimos na expectativa de algum dia as coisas serem melhores não passou de um devaneio ingénuo de adolescentes generosos de julgamento. Os erros são os mesmos, as injustiças também e o mundo nunca muda, a não ser de protagonistas. O que nos separa dos trogloditas é a tecnologia e uma ou outra brisa breve de alteração, rapidamente esmagada pela “evidência” de que não pode ser assim, e “desde que o mundo é mundo que…”, ou “deixemo-nos de utopias”. E volta tudo ao que era, enaltecendo o pior de que o homem é capaz, premiando-se a atrocidade e a selvajaria a coberto da “realidade”. Por isso estou cansado de fazer apreciações críticas, comentários, análises de comportamento. Sobra-me o passado e as recordações, sobram-me os fantasmas dos tempos em que havia esperança, em que o futuro não era uma repetição deprimente daquilo que sempre acontecia. Lembro-me de uma curva que havia à entrada de Colares que era chata de fazer de mota. Velocidade, ângulo de inclinação, mudança correcta e cuidados acrescidos ao anoitecer quando a neblina molhava discretamente o alcatrão. À direita ficava a casa dos Minas, entretanto vendida, a acompanhar a curva. Depois havia uma pequena ponte antes de entrar. Entrava sempre naquela curva a palpitar de excitação e medo, deslumbrado com o “desconhecido”. Podia ser uma queda inesperada, um tipo fora de mão, ou uma família de gansos a atravessar a estrada às três da matina.
Sintra era um mundo fora do mundo, um microcosmos que ia desde o clima até à paisagem e às pessoas. O tempo estava parado para além do Tempo e só existíamos nós e aquela estrada entra a vila e a Praia das Maçãs. Anoitecia com promessas de nevoeiro no alto da serra. Amanhecia uma luz extraordinária, limpa e brilhante, como se fosse o único dia, a única vez de amanhecer em toda a galáxia.
No outro dia passei naquela curva e tudo me voltou à memória como se fosse ontem. Os livros eram quadros vivos de histórias, a música era uma experiência ao vivo e as férias pareciam que nunca mais iam acabar.
A noite produzia sons incaracterísticos, cães a ladrar, vozes de dentro de casas desabitadas. De vez em quando um enforcado na floresta e, no fim da estrada, o mar. Sempre o mar a cumprimentar, a rir, a testemunhar a nossa liberdade. O pão com chouriço numa padaria em Nafarros, os cavalos no Banzão. Os Outonos castanhos e alaranjados das folhas das árvores, a lareira acesa e uma garrafa de Colares. O Verão ameno e todos os dias aquela curva. Aquele meio caminho entre nós e o desconhecido.
Entre a utopia e o massacre da existência, entre a alegria de viver e o combate à depressão.
Há uma Gillera 50 que continua a trabalhar no meu coração, que nunca me abandonou, que se exibe sem medo à entrada da curva para Colares. Como um cavalo experiente, mede distâncias, encurta o passo e arranca destemida para o outro lado. No Outono chuvoso, mete uma abaixo e ronca mais forte, inclina-se no ângulo perfeito com as duas rodas a guinchar em sintonia. Cumprimenta uma família de gansos que resolve atravessar a estrada às tantas da noite. Mas não morre. Tal como a consciência...
Artur
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